Não pare a Música
28 Capítulo 28 - Aberto
Notas iniciais
Madara ouviu o telefone tocar ao longe, mas não se moveu para atendê-lo. A respiração quente de Hashirama em suas costas contribuíram para que ficasse onde estava, e também ele não podia ousar se mexer com Mito entre seus braços. Ainda assim, abriu os olhos quando o toque se tornou insistente.
— Eu juro que se você se levantar, eu quebro seu celular — Mito ditou sonolenta, e Madara sorriu malicioso quando ela esfregou o rosto contra seu peito antes de suspirar.
— É a segunda vez. Se for trabalho, volto para cama sem nem atender — sussurrou, mas foi inútil, Hashirama já havia acordado com a movimentação e o abraçava mais forte.
— Nem pensar, é nosso dia de folga, sabe como isso é difícil de acontecer.
O celular parou de tocar, e Madara viu Mito sorrir vitoriosa enquanto Hashirama beijava seus ombros.
— Se tocar uma terceira vez, eu vou levantar — ditou.
— Por quê? — Hashirama bocejou, contornando com a ponta dos dedos as tatuagens nas costas de Madara antes de prender o cabelo dele em uma mão e começar a beijar-lhe a nuca.
Mito sorriu. Madara havia fechado os olhos assim que o cabelo foi puxado, via-o estremecer com os beijos e suspirar com as mordidas. Tão bonito… sempre tão bonitos…
— Porque, se tocar de novo, é certeza que é o Sasuke ligando — Madara sussurrou, e Mito contornou as tatuagens do peito dele antes de descer a mão pelo abdômen.
— Então, vamos torcer para não tocar — Mito sussurrou de volta, e Madara a puxou pela nuca para um beijo quando a mão dela se fechou em volta de seu membro.
E então o telefone tocou. Madara segurou a mão de Mito e a de Hashirama em sua cintura, finalizou contra vontade o beijo e se pôs de pé sem se importar com a nudez. O celular esquecido no bolso da calça que lhe havia sido tirada na pressa do sexo ainda tocava, e ele arqueou a sobrancelha num claro “eu não disse?” quando viu o nome do sobrinho na tela.
— É bom ter acontecido algo, moleque — brincou, e Mito e Hashirama riram ao fundo. Contudo, o bom humor durou pouco, e a expressão se fechou tão rapidamente que Mito se sentou na cama, atenta. — Arrume suas coisas, todas elas, e me espere. Estou indo te buscar.
Desligou o telefone depressa e não precisou dizer muito para que Mito e Hashirama também se vestissem.
— O que aconteceu? — Hashirama perguntou ao arremessar sua camisa.
— O idiota do meu irmão pôs Sasuke para fora.
— O quê? — Mito o olhou indignada. — Eu vou com você.
— Não, eu vou sozinho. — Madara terminou de se vestir.
— Nem pensar, você não vai de cabeça quente resolver isso — Hashirama interviu.
— Não há o que resolver — Madara falou, simplório. — Sasuke já é maior de idade e eu vou fazer o que já devia ter feito por aquele moleque há muito tempo.
Hashirama o seguiu para fora do quarto, e Mito passou a mão pelos cabelos ruivos antes de respirar fundo e ir atrás deles. Já estavam juntos há vinte anos, conheciam-se mais do que bem, sabiam o que era importante um para o outro, e ela sabia, assim como Hashirama, o quanto Sasuke significava para Madara.
Lembrava-se de quando ele tinha nascido, justo no seu aniversário de dois anos de namoro com Hashirama e Madara, quando o que tinham ainda era incerto e confuso. Recordava-se perfeitamente de como Madara reagira quando a cunhada colocara Sasuke nos braços dele a primeira vez, quando propusera que ele fosse o padrinho… Achava que os olhos de Madara só podiam brilhar por ela ou Hashirama, mas havia se enganado… eles nunca brilharam tanto quanto haviam feito por Sasuke.
Eles tinham um laço, uma relação de cumplicidade bonita que era invejável até. Conforme Sasuke crescia, ele se assemelhava tanto a Madara que era mais fácil dizer que era filho dele que de Fugaku, principalmente depois que Itachi havia morrido. A morte do sobrinho mais velho de Madara tinha sido um choque, para todos, mas ela nunca se esqueceria das noites em que havia passado contando histórias para Sasuke dormir porque os pais dele estavam sofrendo demais para isso.
O luto se estendera como uma mancha, como uma nuvem negra sobre a casa, perdurara tanto que o irmão de Madara e sua esposa se esqueceram de que ainda havia uma vida que precisava de seus cuidados. Hashirama buscava mais o menino na escola que a própria mãe, Madara sabia mais dos deveres de casa dele e de suas notas que o pai, e ela… pra quem mais Sasuke contava sobre seus pesadelos? Já tinha dormido tanto no quarto de hóspedes confortando o sobrinho que conhecia cada suspiro, sabia quando ele havia adormecido, quando estava para acordar, quando se agitava por um pesadelo, quando estava feliz sonhando…
Já havia se pego o observando pela manhã várias e várias vezes. Ele acordava como Madara, emburrado, manhoso, mal humorado. Resmungava e caminhava até a mesa batendo nos móveis, respondia Hashirama com monossílabos e o fuzilava com o olhar quando ele lhe bagunçava o cabelo. Fingia não precisar de ajuda para vestir o uniforme, mas, antes de sair, sempre imitava Hashirama na frente do espelho, conferindo primeiro a camisa, a bermuda e então a mochila. Ela se aproximava no final, arrumando-lhe o cabelo, e ele deixava, mesmo sabendo que Madara o bagunçaria todo antes de entrar na escola.
— Mito, me ajude — Hashirama pediu, chamando sua atenção.
— O que quer que eu diga? — ela perguntou e se sentou no sofá da sala enquanto Madara procurava as chaves do carro. — Vai trazê-lo para cá, Mada?
Madara parou e a olhou, os olhos negros tão decididos que ela apenas sorriu doce por saber a resposta.
— Vou dar uma arrumada no quarto dele — disse e se levantou.
Madara a viu se aproximar, as mãos em seu rosto o acariciaram e arrumaram algumas mechas de seu cabelo antes de selar os lábios com suavidade.
— Não brigue com seu irmão, Sasuke não precisa disso agora. Só traga nosso menino para casa, ok? Depois você se acerta com Fugaku.
Hashirama suspirou, e os dois o olharam.
— Eu dirijo, Madara — impôs, e Madara concordou com a cabeça.
Hashirama entrou no carro em silêncio. Madara sentou-se no banco da frente, o celular firme em mãos enquanto mandava uma mensagem que sabia ser para Sasuke.
Sasuke…
Ele sabia que esse momento uma hora iria chegar… Já havia avisado tanto Madara quanto Mito de que uma hora a situação ficaria insustentável para o garoto, de que não era certo deixá-lo com os pais, entretanto, quem eram eles para falar alguma coisa? Eles não eram pais de Sasuke, apesar de terem contribuído mais na criação deles do que Fugaku e Mikoto, eles não tinham como simplesmente sequestrar o garoto e impor que morasse com eles. Não era assim que o mundo funcionava.
Quando Sasuke fez quinze anos, quando Madara o ensinou a mentir e o acobertou dos pais sobre as aulas de dança, Hashirama soube que cedo ou tarde o garoto sofreria as consequências de suas escolhas. É claro que ninguém queria isso, então tentavam ajudá-lo, mesmo que com coisas simples…
O dinheiro das aulas de artes marciais pagava a companhia, uma das mais renomadas, que Sasuke tinha conseguido entrar por ter se inscrito em segredo em uma das audições. Mas só isso… o material, as roupas, todo o resto não tinha como ele conseguir sozinho. Bancou essa parte, sem contar a Madara ou Mito.
Suas conversas com Sasuke eram mais simples, diretas. Ele era uma cópia de Madara, teimoso igualzinho, e por isso sabia que não precisava de rodeios com ele. Oferecera ajuda, ouvira-o negar como sabia que faria e simplesmente o ignorara. Conhecia aquele orgulho tão bem que já sabia de cor como driblá-lo. Sasuke só precisava de uma desculpa para aceitar sua ajuda, uma desculpa para se convencer de que estava tudo bem deixar que outras pessoas cuidassem dele. Comprava o material e deixava sobre a cama dele com as desculpas mais estúpidas possíveis. Sabia que Sasuke não acreditava, mas ele não o desmentia, mesmo que os olhos negros o observassem com desconfiança, mesmo que ele obviamente soubesse o que estava fazendo. Quando lhe comprara as sapatilhas… não havia sido sua intenção espiar o garoto, sempre saía do quarto para deixá-lo abrir os embrulhos sozinho, mas, daquela vez, era algo especial, sabia disso. Os olhos dele brilharam, o sorriso tinha sido genuíno, verdadeiro, e vê-lo segurá-las com tanta adoração o fez se aproximar, puxar Sasuke com cuidado para um abraço e até mesmo se surpreender quando ele retribuiu.
Sasuke era fechado demais, já havia dito isso a Madara, e Mito concordava. Ele escondia os problemas, parecia não querer incomodar e então guardava para si toda a angústia. No primeiro ano de ballet, lembrava-se dos treinos, de como ele insistia que precisava ser melhor, que ainda não era bom o suficiente, que precisava ser perfeito. Era loucura, a rotina que impunham a Sasuke era tão absurda que havia dias que ele lhe ligava para buscá-lo no ballet e levá-lo para casa, não para os pais, para “casa” porque desde sempre era a casa deles que era o lar de Sasuke. Naqueles dias, Sasuke não falava, não comia, seguia Mito pelos cômodos em silêncio e já haviam reparado que ele não dormia se ela não permanecesse por perto.
— No que está pensando? O sinal está verde já — Madara o interrompeu de repente.
Acelerou com o carro e analisou Madara pelo canto de olho. Ele estava com raiva, percebia isso pela postura, pelo olhar fixo em frente, pelo modo como respirava mecanicamente, como se para forçar-se a se conter.
— Ele estava chorando, não estava? — perguntou, já sabendo a resposta.
Eram raras as vezes que Sasuke chorava na frente de algum deles. Depois da adolescência, ele escondia as emoções, então era difícil vê-lo chorar. Havia acontecido uma vez, após uma das aulas de ballet, ele chorava tanto em casa no colo de Mito que Madara havia ido pessoalmente à escola no dia seguinte, mesmo que Sasuke jurasse insistentemente que o ballet não tinha a ver com o choro. Não acreditaram, óbvio, e Madara acabou vendo pela primeira vez o nível de cobrança das aulas, entendido um pouco melhor a pressão a que havia permitido que o sobrinho se submetesse. Antes de Madara considerar tomar alguma atitude mais drástica, Hashirama conversou com Sasuke, convenceu-o a sair de parte das atividades que ele mantinha apenas porque o pai queria, tinham feito o possível para que ele não ficasse tão sobrecarregado. Mas era por já ter visto Madara reagir ao choro do sobrinho que sabia que Sasuke deveria ter ligado em situação semelhante.
— Madara?
— Não, estava segurando.
— Deixa que eu seguro Fugaku. Só tira o garoto de lá, ok?
Madara suspirou, e olhou para Hashirama pela primeira vez desde que tinham entrado no carro.
— Não — Hashirama falou de repente.
— O quê?
— A resposta para o que está pensando é não, você não decidiu isso sozinho, apesar de estar achando que sim. Se eu ou Mito nos opuséssemos de alguma forma a você estar indo buscar Sasuke, nós já teríamos dito.
— Hm.
— Não venha com “Hm” para mim. Eu que devia fazer “Hm” para esses seus pensamentos idiotas. Ele já passa metade da semana em casa desde que nasceu, Madara, é praticamente seu filho. Se eu ou Mito não concordássemos, já teríamos terminado esse relacionamento. Mas…
— Mas? — Madara arqueou a sobrancelha e desconfiou quando Hashirama sorriu de canto.
— Não vamos poder mais transar na cozinha… nem na sala… nem na mesa de jantar — provocou, e viu Madara revirar os olhos.
— Você é um idiota.
Deu de ombros.
— Alguém tem que tirar essa sua cara de enterro antes que entre para buscar Sasuke, vai assustar o garoto desse jeito. Estamos levando ele para casa, não pro abatedouro.
— Você definitivamente é um idiota — Madara falou, mas Hashirama viu pelo retrovisor o sorriso leve que ele tentava lhe esconder.
Estacionou o carro e saiu com Madara. Não tocaram campainha ou pediram licença, Madara possuía a cópia da chave por ir lá com frequência, então entraram, e Hashirama de fato se colocou entre Fugaku e Madara quando viu o cunhado tentar segurar Madara e impedi-lo de subir as escadas da casa para o quarto de Sasuke. Mikoto chorava, tentava intermediar, mas Sasuke havia descido as escadas sem nem ao menos olhar para eles. Os braços de Madara estavam sobre seus ombros, da forma como Hashirama sempre os via: protetores, como se desafiassem o mundo a tentar algo contra o sobrinho. O som das rodinhas das malas contra o piso foi contínuo, Sasuke não tinha hesitado um momento sequer em sair daquela casa e, somente quando ele passou pela porta, Hashirama deixou Fugaku para trás.
No carro, Madara tinha ido no banco de trás com Sasuke, e Hashirama fez questão de dirigir devagar, ciente de que o garoto, como sempre, precisava de tempo para baixar as defesas e aceitar consolo. Viu-o deixar Madara puxá-lo para perto, quando ele escondeu o rosto na camisa do tio, quando Madara o abraçou e acariciou em silêncio os cabelos dele. Não ouviu o choro, mas a camisa de Madara estava manchada pelas lágrimas quando saiu do carro. Levou as malas de Sasuke e nenhuma palavra foi dita nas duas horas que se seguiram até Mito sair do quarto dele.
— Ele dormiu? — Madara perguntou sentado à mesa no colo de Hashirama com uma xícara de café entre as mãos.
— Sim, dei um calmante para ele — ela falou e se serviu de uma xícara de café também.
— Ele disse algo? — Hashirama perguntou.
— Nada… nem mesmo chorou. Fiquei deitada com ele até que dormisse, mas ele não disse uma palavra. E é bom Fugaku não aparecer na minha frente, Madara, porque eu juro que eu nunca vi esse garoto tão arrasado…
— Vou amanhã falar com Fugaku para entender o que aconteceu e-
— Ele não sai dessa casa — Mito pontuou, firme. — Já chega disso. Ele fica com a gente, como sempre devia ter sido.
Madara arregalou os olhos. Hashirama riu baixo da expressão dele e levou a mão aos cabelos volumosos antes de beijar-lhe a têmpora.
— Eu te disse. Você não decidiu nada sozinho, Madara. Amanhã, você fala com Fugaku, mas Sasuke não vai sair daqui independente do que seu irmão diga. Sasuke só sai daqui se quiser, e a gente o conhece bem para saber que ele não saiu da casa de Fugaku para voltar.
— O que ele te disse no telefone? — Mito questionou enfim.
— Fugaku descobriu sobre o ballet. — Madara bufou.
— Um hora ele iria, sabíamos disso — Hashirama falou, calmo. — E é bom ter sido agora.
— Bom? — Madara arqueou a sobrancelha.
— Sim. Dessa forma, Sasuke não tem mais que ficar mentindo ou se escondendo. Imagina o quanto deve ser exaustivo ter que contar uma mentira por tanto tempo? Agora, ele pode parar de vez com isso e viver do jeito dele. Aqui, ele não precisa esconder nada, ele sabe que vamos aceitá-lo como for, apoiá-lo no que decidir, ele sabe que está seguro aqui, e é por isso que ele ligou para você. Ele sabe que pode contar com a gente.
Madara encarou a xícara entre as mãos e então o corredor que dava para os quartos.
— Eu só queria ter feito mais… prometi que cuidaria dele e sinto que, de alguma forma, falhei.
— Pelo contrário, Madara — Mito segurou sua mão sobre a mesa. — Você foi o único que não falhou com ele. Não se preocupe, nós estamos com você, vamos ajudar com o que vier daqui para frente. Ele também é nosso sobrinho afinal.
— Vai ficar tudo bem — Hashirama enfatizou. — Nós estamos com você nessa.
— Um beijo pelos seus pensamentos — Mito falou ao se inclinar sobre a cadeira onde Madara estava sentado e abraçá-lo pelas costas, despertando-o das lembranças em que estava perdido.
— Só pela cara dele, eu já até sei do que se trata. — Hashirama puxou uma das cadeiras para se sentar. — Sasuke falou com você pela manhã?
— Não exatamente.
Mito olhou brevemente para Hashirama antes de sair de trás de Madara e se sentar no colo de Hashirama enquanto observavam Madara girar uma caneta entre os dedos num tic.
— Pediu que eu não o tirasse da companhia.
— Nós sabíamos que ele não iria querer sair. Não entendi o ponto — Hashirama franziu o cenho.
— Ele pediu — Mito respondeu, sem precisar de muito tempo para ler a expressão de desagrado de Madara. — Ele não argumentou ou bateu o pé por pura teimosia, não é? Ele te pediu…
Madara estalou a língua no céu da boca e largou a caneta com raiva antes de passar as mãos pelos cabelos e soltá-los do elástico para prendê-los de novo como se isso fosse o ajudar a pensar melhor.
— Madara? — Hashirama chamou, preocupado. — No que está pensando?
— Não vou tirá-lo do ballet.
— Por que não? — Mito questionou.
— Porque concordo com ele.
— Em que sentido? — Hashirama franziu o cenho.
— Eu nunca deixei que meus pais ficassem no caminho dos meus sonhos, de nenhum deles. E eu sei que Sasuke vai dar um jeito de continuar naquele lugar se eu parar de pagar. — Sorriu de canto com certo orgulho. — Ele não desistir, ensinei isso a ele a vida toda. O que a gente quer, a gente conquista e ponto. Sempre repeti isso para ele. Sasuke não vai me deixar ficar no caminho dele se o ballet for o que realmente quer. E eu seria hipócrita se tentasse impedi-lo, não sou o melhor exemplo de uma vida sem riscos, não é? — Arqueou a sobrancelha com um sorriso irônico. — Prefiro continuar do lado dele e estar presente quando a merda acontecer, do que fazer o que meus pais fizeram, o que Fugaku fez.
— Vai falar com ele? — Mito indagou.
— Mais tarde, ele precisa distrair a cabeça hoje. Mandou uma mensagem falando que vai sair com o pianista. — Riu sarcástico.
— Eu gostei dele, você não? Ele é bastante animado. — Mito sorriu.
— Não sou eu que tenho que gostar dele. — Madara deu de ombros ao se levantar.
— Você é um chato. — Ela bufou.
— Não, você que é coruja demais — rebateu e se aproximou para segurar o rosto dela entre as mãos e beijá-la. — Vou dormir um pouco, Sasuke me tirou o sono essa noite.
— Quer companhia? — Hashirama perguntou alto enquanto Madara se afastava.
— Vocês sempre são bem-vindos na minha cama.
* * *
A prova não tinha sido tão ruim quanto esperava, pelo menos essa parte da sua vida estava sob controle. Shikamaru analisou seu rosto com uma expressão séria, resmungando alguma coisa depois que lhe deu mais detalhes do que tinha acontecido. Sentado em um canto esquecido da biblioteca, aproveitou o tempo da tarde para adiantar os estudos. Agora com os ensaios, sabia que seria difícil manter as notas, apesar de duvidar que fosse reprovar alguma matéria.
Tinha já conversado pela manhã com Madara, a decisão já estava tomada, mas, embora Madara não fosse tirá-lo da companhia, seria ingenuidade achar que estava tudo bem. Não, não estava, Madara só não queria ser quem lhe cortaria as asas, mas o episódio de dias atrás tinha provado que o tio não era o único que poderia fazê-lo. Se tivessem conseguido lesar seu joelho… isso porque nem sabiam da cartilagem reduzida… Precisava treinar, achar um jeito mais eficaz de fazer os mesmos movimentos poupando o joelho, teria que dar um jeito naquilo e manter a guarda alta, não podia se deixar pegar desprevenido de novo.
Terminou as anotações do dia quando o relógio marcava cinco horas. Ativou novamente a internet do celular e arqueou a sobrancelha antes de rir baixo das fotos que Naruto havia mandado fazendo drama ao perguntar onde ele estava e se iria para a casa dele.
Queria ir. Apesar de isso lhe trazer um frio na barriga desconfortável. Queria mesmo ir. Embora soubesse que, ao passar pela porta, seria como abrir mão da condução de suas ações, como se com Naruto não houvesse mais trilhos a seguir, apenas um caminho caótico pelo qual eles iam sem saber o destino. Mas de fato queria ir… Estava cansado, e Naruto estava parecendo cada vez mais um remédio para isso. Não era só uma questão de se distrair dos problemas, porque definitivamente ele não se esquecia deles ao estar com Naruto, mas era como se Naruto os amenizasse, como se Sasuke lhe estendesse fios entrelaçados e cheios de nós que Naruto desembaraçava e soltava um a um pacientemente.
Respondeu que iria antes que mudasse de ideia. Pediu o endereço mais uma vez ao negar que Naruto o fosse buscar, queria um tempo sozinho durante o trajeto para colocar a cabeça no lugar, acalmar o coração que se agitava só em expectativa. Avisou Madara e ignorou o olhar preocupado e analítico de Shikamaru enquanto esperava o táxi.
— Que é? — perguntou entediado.
— Nada.
— Então para com isso.
— Com o quê?
— Com essa cara de quem acha que to fazendo merda.
— Ino está preocupada com você, tá ignorando ela? — perguntou e acendeu um cigarro enquanto Sasuke revirava os olhos.
— Ligo para ela depois. Só não estava com cabeça para falar com ninguém do ballet.
— Mas está indo pra casa de Naruto — Shikamaru pontuou.
— Ele não é aluno nem está na fossa por causa das audições. É diferente.
— Se você diz.
O táxi chegou, e Sasuke acenou com a cabeça antes de abrir a porta.
— Sasuke — Shikamaru chamou, e Sasuke se virou a tempo de vê-lo soltar a fumaça do cigarro antes de continuar. — Vai com calma hoje, ok? E, se precisar, liga.
Sasuke estalou a língua no céu da boca e concordou com a expressão séria antes de bater a porta do carro. “Ir com calma”, será que Shikamaru não tinha entendido que, com Naruto, essa não era uma opção válida? Não era como se conseguisse controlar a velocidade com que as coisas fluíam!
Chegou na casa dele antes de se dar conta, e tocou a campainha antes que decidisse que aquilo era uma idiotice e voltasse para casa. Para sua sorte ou azar, ainda não sabia definir, Naruto apareceu rápido, abrindo a porta com um sorriso radiante, aquele cachorro escandaloso latindo logo atrás e os olhos parecendo verdadeiramente felizes por estar ali.
— Você demorou — ele resmungou ao dar passagem para que entrasse.
— Reclame com o táxi que levou vinte minutos para chegar na faculdade.
— Estava estudando até agora? — Naruto fez uma careta enquanto o via deixar o material no sofá.
— Adiantando alguns trabalhos. Com a rotina dos ensaios, vai ser chato conciliar tudo — respondeu, e o corpo relaxou ao sentir o calor do de Naruto a abraçá-lo pelas costas.
— Já comeu? — ele perguntou apoiando o queixo em seu ombro.
— Não.
— Gosta de massa?
— Não sendo lamén…
— Você é uma decepção nesse quesito, Teme. — Naruto bufou ao soltá-lo e então o puxou pela mão até a cozinha. — Mas eu lembrei que você não curtia o melhor prato do mundo, sabe-se lá o motivo, se é que isso é possível mesmo, e to fazendo ravióli.
— O que é bem melhor que lamén, admita — Sasuke provocou ao sorrir de canto.
— Nem fudendo que é! — Naruto exclamou alto.
Sasuke não respondeu, apenas se apoiou contra os armários e observou Naruto correr até uma das gavetas para pegar duas colheres. Ele estava descalço, com uma calça leve e sem camisa, os cabelos loiros estavam úmidos, não devia fazer muito tempo que Naruto tinha saído do banho. Com ele de costas, não se importou em observar, em reparar como ainda não havia tido a oportunidade de fazer.
A nuca dele era exposta, o cabelo não a cobria, e tinha que confessar que achava bonito assim. Sua mão poderia deslizar pela área sem nada atrapalhando, sua boca poderia marcá-lo ali sem impedimentos, daria para ver de perto a pele se arrepiando, os pelos se eriçando. Da nuca, desceu aos ombros, largos, do tipo que lhe despertava a vontade de segurar, beijar a extensão apenas para que a boca achasse fácil o caminho do pescoço pela cintura escapular e as mãos descessem às costas apertando com possessividade até que a pele bronzeada ficasse marcada. Aliás, as costas… Naruto definitivamente malhava ou fazia algum treino. Os exercícios lhe davam a definição dos músculos que Sasuke tanto apreciava assistir aos movimentos enquanto Naruto cozinhava, e o piano de certo garantira aquela postura impecável com que Naruto passava boa parte do tempo.
Quis se aproximar. Teve vontade de caminhar até Naruto e abraçá-lo, apoiar o rosto no ombro dele enquanto o assistia cozinhar e o ouvia falar de qualquer coisa… Teve vontade, e a cabeça estava cansada demais para impedir que o corpo fizesse o que bem queria.
Naruto arregalou os olhos em surpresa quando as mãos de Sasuke deslizaram, vacilantes, de sua cintura até a frente do corpo. Sentiu o corpo dele apoiar-se no seu, e ouviu o suspiro cansado que Sasuke soltou ao deixar o rosto em suas costas, próximo à nuca. Ergueu uma das mãos, levando-a para trás a fim de acariciar os cabelos dele e sorriu à medida que Sasuke o abraçava com mais liberdade, achando enfim uma posição confortável que manteve até que Naruto desligasse o fogo e anunciasse que a comida estava pronta.
Sasuke afrouxou o abraço, e Naruto usou a brecha para girar entre os braços dele e passar os seus ao redor do pescoço de Sasuke.
— O que foi? — Sasuke perguntou.
— Nada. — Naruto sorriu.
— Então por que tá me olhando desse jeito?
— Que jeito? — Naruto mordeu o lábio.
— Desse jeito.
— Se não descrever de que jeito é, não vou saber, Teme…
— Tá parecendo um filhote de cachorro que caiu do carro da mudança — mentiu, e Naruto arregalou os olhos antes de rir alto.
— Você, Teme — Naruto segurou seu rosto entre as mãos antes de aproximar-se o suficiente para que Sasuke sentisse a boca dele contra sua bochecha. — é extremamente maldoso, sabia? — Beijou-lhe a face de um lado e deslizou a boca para o outro lado, onde fez o mesmo. — Eu só estava querendo ver quando iria me beijar e me cumprimentar direito.
— Preciso te beijar toda vez que te cumprimentar agora? — Sasuke arqueou a sobrancelha em clara provocação.
— Precisar, precisar, não, mas eu adoraria — Naruto respondeu com um sorriso, e então Sasuke viu o olhar dele baixar predatório para sua boca ao deslizar os lábios até ela. — Você não?
Sim, queria sim… Se havia algo que não entendia como era tão bom, era o beijo de Naruto. Só não estava acostumado a ter que demonstrar tanto o que sentia ou desejava, nunca havia correspondido no mesmo nível aquela atração, aquela necessidade de estar em contato, de poder abraçar e beijar outra pessoa sempre que quisesse e tivesse uma oportunidade.
Apertou as mãos ao redor de Naruto, e a cabeça se ergueu colando os lábios na resposta que não verbalizaria. Não pretendia se aprofundar, era apenas para matar a vontade de sentir a pressão e o calor da boca de Naruto contra a sua e então se afastar para que pudessem jantar, mas Naruto não lhe freava… Já o estava fazendo recuar até que as costas de Naruto parassem contra a pia quando se deu conta, e a língua já exigia a dele enquanto as mãos lhe exploravam os músculos das costas como havia pensado em fazer minutos atrás. Naruto o deixava se impor, como se abrisse os braços e se colocasse à sua disposição, e, para piorar, parecia gostar da forma caótica como avançava, como o requisitava, como em um momento Sasuke aparentava ter o controle de suas ações e, no seguinte, ele só os conduzisse de forma desgovernada e impulsiva.
Arfou quando os pulmões exigiram ar, e Naruto prendeu seu lábio entre os dentes antes de soltá-lo bem devagar. Sasuke abriu os olhos a tempo de ver Naruto sorrir lambendo os lábios de olhos fechados e o coração se regozijou com o riso malicioso que ele soltou ao abri-los.
— Ok… — Naruto suspirou, e Sasuke o soltou, limpando a garganta. — Acho que… vai ser um pouquinho complicado se me cumprimentar assim em público, Teme… Mas a gente pode continuar treinando até acharmos um jeito mais… discreto.
Sasuke o olhou incrédulo e balançou a cabeça em negação enquanto tentava esconder a vontade de rir.
— Você é um idiota, Naruto.
— Foi você que me atacou. — Ele ergueu as mãos em defesa, e Sasuke corou mesmo que a expressão mostrasse uma falsa irritação.
— A gente não ia jantar?
— Claro, claro… só não ataque esse pobre cozinheiro enquanto ele põe a mesa. Consegue?
— Vai se fuder, Naruto.
Naruto riu enquanto colocava a mesa. Sentia-se aliviado de certa forma durante o jantar e nas horas que se seguiram, Sasuke parecia o de sempre, sem a voz abatida do telefone quando ligara pela manhã ou o olhar perdido de quando o tinha levado à faculdade. Ele havia tomado um banho, vestido roupas mais confortáveis e leves devido ao clima, e agora conversavam deitados no sofá sem prestar muita atenção na televisão quando Naruto percebeu o olhar de Sasuke em seus pulsos.
— Não tinha reparado? — perguntou, chamando a atenção dele.
— Não — Sasuke respondeu curioso.
Havia duas tatuagens, uma em cada punho de Naruto. Em um, havia a clave de sol, no outro, a de fá, ambas estilizadas. A parte da curvatura maior do “&” e da clave de fá se abriam em teclas de piano, simples, mas de forma delicada e simbólica. Era bonito e não resistiu a contornar uma delas com os dedos.
— A clave de Sol eu fiz quando me formei em música — Naruto contou, animado. — A de fá quando consegui entrar para a companhia. Pretendo fazer uma outra tatuagem nas costas caso entre para uma grande orquestra.
— Tocar na companhia significa tanto assim? — Sasuke perguntou, desconfortável.
— É difícil entrar. Acho que mais difícil do que para vocês até. Mesmo com seus problemas, Tsunade é dona da maior escola do país e a única que consegue oferecer alguma chance para nós de conseguir algum destaque internacional. Para vocês é difícil, mas para nós é quase impossível, ainda mais porque pianistas não são barrados por idade como os bailarinos, então a tendência é não ter muita troca.
Sasuke estreitou o olhar e apoiou os braços no peito de Naruto para encará-lo.
— Como você conseguiu então?
— Eu trabalhava num restaurante muito caro por indicação de um amigo da minha mãe. E Tsunade jantava lá, ainda janta acho, muitas vezes com pessoas importantes. Um dia, ela pediu o piano para tocar uma música porque, supostamente, eu não seria capaz, mas eu perguntei qual era, e ela respondeu que era Danse Macabre, a versão de Liszt. E eu falei que ela podia então voltar ao seu jantar porque eu conhecia e sabia tocar aquela música. Ela riu e se apoiou no piano enquanto eu abria a partitura, acho que estava meio bêbada. — Riu. — E então ela apostou comigo: se eu conseguisse tocar sem um erro sequer, ela me daria a oportunidade de fazer um teste para trabalhar com ela.
— E se errasse?
— Não sei, não deixei ela continuar essa parte, eu me garantia na música, é a preferida da minha mãe, eu não ia errar — Naruto respondeu, e Sasuke soube apenas pelo modo como os olhos dele brilhavam que não era mentira. — Como esperado, não errei. Não esperava que ela fosse cumprir o que tinha dito, ela estava bêbada afinal, mas, no dia seguinte, quando apareci para trabalhar, meu chefe estava me esperando para entregar o cartão dela com a data e o local marcado para o teste se fosse do meu interesse. Enchi a cara nesse dia com meus amigos para comemorar.
Sasuke negou em reprovação, mas respirou mais leve ao voltar a deitar a cabeça no peito de Naruto. Sua atenção acabou indo ao piano no canto da sala, e Naruto sorriu enquanto acariciava os cabelos dele.
— Quer ouvir? — perguntou, e Sasuke demorou-se observando o piano antes de se voltar a Naruto.
— Quero dançar.
— Posso tocar para você. Mas não acho que deva se esforçar, Teme…
— Não vou forçar muito.
Naruto riu, e Sasuke sentiu a vibração gostosa da risada dele contra o peito.
— Não acredito em você. Eu só aceito tocar se você desligar aquele seu maldito despertador das cinco da manhã e enrolar um pouco mais na cama comigo. Feito?
Sasuke bufou e concordou, mais por saber que não acordaria às cinco devido ao remédio para dor que tomaria antes de deitar do que por aceitar mesmo a barganha.
Levantou-se, Naruto abriu as teclas do piano e se sentou, abrindo a pasta já apoiada com as cifras de que precisava.
— Algum pedido especial?
— Danse macabre.
Naruto sorriu de canto.
— Disse que não ia forçar, Sasuke.
— Não confia em mim?
Naruto riu baixo, a resposta obviamente era não, mas Sasuke parecia sério ao retirar a camiseta e se posicionar na sala, próximo ao piano, esperando pela música.
O tronco dele possuía diversos roxos, alguns vermelhos, as marcas da violência que tinha sofrido. Aquilo doeria quando ele precisasse respirar pelo exercício, doeria quando Sasuke alongasse os músculos e lhes exigisse trabalho. Tocaria em outro tempo, mais devagar, não daria a chance de Sasuke se machucar ainda mais.
Desligou a televisão e deixou o controle no chão, consertou sua postura e lamentou que não houvesse um espelho, como nas salas de aula, para acompanhar Sasuke dançando.
A primeira nota fez Sasuke sorrir e fechar os olhos, como quando entrava no mar e a água acalmava o corpo. Percebeu o tempo alterado e podia se dizer grato por aquilo, uma vez que o corpo iniciava os movimentos com certa letargia por não estar propriamente aquecido. Aquela música era perfeita para saltos, para giros, para tudo o que ele não podia fazer no momento, mas não queria dançar de fato, queria ouvi-la, queria ouvir, em específico, Naruto a tocando e, por isso, pouco importava que seus passos não correspondessem ao ritmo ou que, em menos de dois minutos, ele já cedesse à dor e parasse os movimentos em silêncio.
Naruto não tinha percebido, continuava a tocar tão perdido na música que Sasuke se sentou no chão apenas para observá-lo. Não conseguia ver-lhe a expressão, apenas as costas, mas reconhecia como ele balançava o corpo, como as mãos corriam pelas teclas e a cabeça pendia para trás nos clímaxes e para frente nos trechos mais acelerados e que exigiam maior atenção e técnica.
Ele era bom, muito bom. Não que duvidasse, mas queria confirmar, precisava ter certeza de que Naruto não devia nada a Tsunade, não queria que tivesse! Havia sim uma ligação com aquela música, podia sentir na forma animada como Naruto a tocava, em como ele parecia vibrar com os acertos ao final de cada sequência. Remexeu-se, incomodado, as mãos puxaram sem muita força os próprios cabelos enquanto ele tentava compreender aquela maldita vontade de tocar Naruto. O coração acelerado não ajudava, muito menos a visão dos músculos das costas de Naruto se movendo conforme tocava ou o sorriso que Sasuke tinha certeza que ele devia estar exibindo. Odiava essas reações que Naruto arrancava de si, odiava querer tanto algo que havia recusado por tanto tempo, odiava se sentir seguro com Naruto, odiava querê-lo perto, odiava sentir falta fosse da voz, dos abraços, do calor, das risadas, da música! E odiava, mais que tudo, não saber o que fazer.
Levantou-se, parou atrás de Naruto com a mão estendida para tocá-lo e lembrou-se de avisar antes para que a música não fosse interrompida no susto.
— Não pare de tocar — pediu, a voz mais baixa do que tinha previsto.
Naruto o espiou rapidamente pelo canto do olho, mas a música não lhe permitia desviar tanto a atenção das teclas. Assim, pôde apenas esperar, curioso, pelo que viria e respirou fundo ao sentir os dedos de Sasuke em suas costas.
Um mapa, Sasuke queria conhecer e gravar cada pedaço que seus dedos percorriam. Desenhou as escápulas, deixou os dedos correrem pelas vértebras da mais baixa até o pescoço, os olhos negros notaram com certo deleite o arrepiar dos pelos da nuca à medida que subia as mãos e ele conseguia sentir o padrão com que o tórax de Naruto se expandia com a respiração. Deslizou a mão do pescoço aos ombros, apertando de leve, e as unhas curtas passearam entre os músculos do braço antes de fazerem o caminho de volta para não atrapalhar a música.
Naruto suspirou. Era uma carícia leve, mas gratificante e que estabelecia uma tensão no ambiente. Sentia o olhar pesado de Sasuke sobre si e percebia o aumento da pressão nos toques conforme o tempo passava. De repente, as mãos hesitaram, um som baixo surpreso lhe escapou, e as notas quase se embaralharam sob seus dedos quando o pescoço recebeu de muito bom grado a respiração quente de Sasuke e o toque singelo dos lábios em sua pele.
— Sasuke…
— Termine a música — sussurrou de volta, a boca arrastando-se pela nuca de Naruto e mordendo de leve antes de beijá-la.
Sasuke o via se arrepiar, assistia com prazer a forma como Naruto se esforçava para manter a postura conforme o provocava. As reações, o modo como a respiração dele acelerava aos poucos, os suspiros frequentes e a forma como Naruto tombava a cabeça para os lados lhe deixando fazer o que quisesse, tudo isso o excitava, fazia com que continuasse, sem dar-se conta de quando o toque sutil tinha se transformado no puxar moderado do cabelo de Naruto e quando os beijos se tornaram mordidas e chupões. A realização dos atos só se deu quando a música parou, quando o baque do fechar das teclas se fez ouvir antes de Naruto agarrar seu cabelo e então o puxar para um beijo.
Deixou-se ir, sem resistir quando Naruto o puxou para seu colo e afundando os dedos nos cabelos loiros com vontade enquanto a boca de Naruto fazia com a sua tudo o que ele lhe tinha feito anteriormente com a pele. Era estar num mundo à parte, era correr na chuva em um temporal, era querer ser a chuva e se molhar ao mesmo tempo, era uma confusão tão deliciosa que nunca tinha se sentido tão bem ao tirar os pés do chão.
Arfou quando Naruto se levantou sem prévio aviso, agarrou-se ao pescoço dele enquanto sentia as mãos em sua coxa o sustentando. Não quis entender, o coração já não tinha controle dos batimentos, e a mente parecia entorpecida demais para dar qualquer opinião. Sentiu o gelado do piano em suas costas ao ser deitado sobre a cauda, arrepiou-se com isso, as pernas penderam, e Naruto se colocou entre elas, puxando Sasuke mais para a beirada antes que a mão firme em sua nuca o fizesse se inclinar sobre Sasuke para voltar a beijá-lo.
Naruto suspirou em deleite, a boca de Sasuke era deliciosamente quente, os lábios finos eram tentadores, avermelhavam-se com facilidade, e Sasuke era sensível a tudo que fazia com eles. Podia passar sua língua por eles para provocá-lo, sugá-lo para ouvir Sasuke arfar, morder para ouvi-lo gemer baixo. E o modo como ele correspondia…
Nunca era apenas um beijo, Sasuke estava aprendendo isso, nunca eram somente as bocas que se encontravam e se uniam, era mais, muito mais. Suas mãos sempre seguravam Naruto, seu corpo o acolhia, seu coração o aceitava, e sua mente… ela sempre ficava embriagada demais pelas novas sensações e pelos novos sentimentos que Naruto lhe apresentava.
— Ai… — mas não deu para conter o gemido de dor quando a mão de Naruto apertou suas costelas.
Naruto interrompeu o beijo e se afastou com os olhos arregalados.
— Desculpe — sussurrou, rouco, e apoiou a mão no piano e não em Sasuke. — Me empolguei, esqueci, desculpe…
— Tá tudo bem — Sasuke respondeu, mas os olhos de Naruto não subiram para encará-lo, a atenção dele estava em sua cintura, nos hematomas, e subiam devagar, como se contasse cada machucado.
— Dói muito? — Naruto perguntou, e Sasuke prestou atenção à medida que ele se abaixava até que o rosto estivesse na linha de sua calça. — Sasuke?
Sasuke desviou o olhar para o teto e fechou os olhos ao negar com a cabeça, mas isso durou pouco tempo. Talvez Naruto tivesse visto a reação, talvez apenas já a esperasse, mas Sasuke não pôde evitar abrir os olhos de novo e voltá-los ao outro quando a mão direita dele entrelaçou os dedos aos seus e o abdômen recebeu a umidade e o calor da boca de Naruto.
Corou, não por excitação dessa vez, mas pela vergonha que o pegou de surpresa enquanto via Naruto beijar com cuidado e lentidão uma segunda marca em seu corpo. Sentiu o coração em todo o corpo, até mesmo em seus ouvidos, batendo forte, como um sino em uma torre ressoando por toda a igreja.
Era diferente, era diferente demais de tudo o que já tinha sentido, e isso o assustava, o apavorava. Mas… os dedos de Naruto entrelaçados aos seus era um bálsamo, e cada vez que os lábios dele lhe tocavam a pele era como se roubassem lhe roubassem a insegurança, como se injetassem uma dose de morfina que o fazia relaxar e suspirar mais calmo.
Engoliu em seco quando ele beijou o lado esquerdo de seu peito, sobre a área de onde o queria longe por saber que não tinha como esconder ou mascarar a intensidade com que seu coração batia. Sentiu-o demorar de propósito ali e até mesmo beijar outras duas vezes a mesma região até que suspirasse profundamente, a mão acariciando os cabelos loiros, mais calmo….
— Me toque, como da última vez — pediu, e a voz saiu tão baixa que achou que houvesse apenas pensado.
Os olhos de Naruto o encararam, como se buscassem alguma resposta nos seus. E Naruto não respondeu, apenas o sorriso malicioso entregara a Sasuke que ele havia concordado com o que pedira. Entretanto, não sentiu a mão de Naruto em sua calça, apenas a boca dele a explorar seu corpo. Arfou e arqueou as costas surpreso quando os dentes se fecharam ao redor de seu mamilo, e foi automático levar ambas as mãos até o rosto de Naruto, segurando-o em resposta ao arrepio que tinha subido por sua espinha e feito seu membro pulsar entre as pernas.
Naruto sorriu, segurou as mãos de Sasuke e se afastou. Ficou de pé em frente ao piano e puxou Sasuke para que se sentasse.
— Meu Deus… — sussurrou ao ter as mãos de Sasuke subindo por seu peito até o pescoço.
— Ah! — Sasuke gemeu ao sentir de súbito a ereção de Naruto chocar-se com a sua quando as pernas se fecharam ao redor do corpo do pianista e mordeu o lábio..
— Ah, não. — Naruto o segurou, firme, forte, e beijou Sasuke com urgência. — Eu quero ouvir… cada palavra, cada gemido, tudo…
Sasuke preferiu beijá-lo a responder, mas, como tinha acontecido na noite dos jogos, nos ensaios, nas outras vezes em que tinham se agarrado por aquela casa, parecia disputar um cabo de guerra com Naruto. E ele perdia dessa vez, gemendo ainda mais alto quando sentiu Naruto tirar seu membro de dentro da calça e começar a masturbá-lo.
— Isso… assim mesmo, Teme.
Segurou-se nos ombros dele, as pernas estavam travadas no quadril de Naruto e era inconsciente querer tê-lo ainda mais perto, sentir o calor que emanava da pele, a pressão que a ereção dele fazia contra seu corpo. Na última vez, Naruto não o tinha deixado tocá-lo, e ele não estava em condições de discutir, mas… agora… queria. Desejava Naruto vulnerável, como o tinha tido da primeira vez ao masturbá-lo no sofá, desejava vê-lo se perder consigo naquela dança insana, precisava saber como era dividir o prazer com alguém sem culpa nem obrigações.
Beijou-o, com luxúria, e ver o quanto aquilo afetava Naruto o distraía de qualquer outra coisa. Seus quadris se impulsionavam contra a mão dele, a mesma mão que o havia tocado com cuidado antes, que tinha acariciado seu rosto no hospital… Não tinha porque ficar nervoso, porque hesitar, porque temer. Queria Naruto e, como tudo que desejava, queria-o naquele momento.
Naruto quebrou o beijo com um gemido entregue quando a mão de Sasuke se fechou sobre a calça em sua ereção. Percebeu a atenção dele em si, via nos olhos negros a curiosidade, e, assim como ele mantinha uma mão em sua nuca, fez o mesmo, mantendo os rostos próximos, as bocas tão unidas que o mínimo espaço que ganhavam ora ou outra era para que os gemidos ecoassem pela sala.
— Tão molhado… ah, puta merda, Sasuke…
Sasuke gemeu, estava pegando gosto demais pela forma como Naruto puxava seu cabelo quando queria chupar seu pescoço, seu corpo queimava toda vez que os dentes arrastavam-se contra a pele clara.
— Mais forte — pediu, sem saber se se referia aos chupões ou ao modo como Naruto o bombeava sem piedade. De qualquer forma, Naruto sorriu.
— Deixa eu fazer isso. — Naruto tocou sua mão sobre o membro dele.
— Mas…
— Só — Naruto sussurrou, juntando as ereções e vendo de perto Sasuke revirar os olhos ao arfar. — Geme pra mim… eu posso gozar só te ouvindo gemer, Sasuke, você tem noção do quão gostoso é te ter assim?
Sasuke apertou-lhe os ombros, o corpo movia-se junto de Naruto, a mão dele estimulando-os em conjunto, suas unhas curtas arranhando a pele bronzeada das costas mais após ver o quanto ele parecia gostar de ser marcado.
Havia um ritmo, um que ele não podia seguir, apenas deixar-se ser carregado. E gostava, amava, gemia cada vez que se sentia perdido e Naruto o achava, trazendo-o para mais perto. O gosto da pele dele, queria em sua boca, o cheiro de seu suor, queria que nunca se esvaísse, o calor e a urgência dos toques, queria nunca ter de sentir falta, a voz rouca, o modo como seu nome saía depravado quando Naruto gemia, queria ouvir mais vezes, queria que Naruto não o tivesse sussurrado em seu ouvido porque sabia que agora seria difícil dormir.
— Eu vou gozar, mais forte, eu vou gozar… me faz gozar… — gemeu com o rosto de Naruto entre suas mãos enquanto beijava e mordia o lábio dele. — Naruto…
— Vai ser um prazer — Naruto gemeu e inclinou-se para frente, fazendo Sasuke se apoiar nos cotovelos quase deitado. — Abre as pernas para mim, Sasuke, deixa eu vir junto…
Não pensou, a ideia de conseguir o alívio que queria, o prazer que desejava, o fez obedecer e descruzar as pernas. A calça escorreu por elas, e o contato da pele nua com a de Naruto o jogar a cabeça para trás.
Sasuke era um demônio, e essa era a única descrição que Naruto podia ter dele naquele momento. A face corada e os lábios entreabertos faziam do quadro pecaminoso, e ouvi-lo gemer, vê-lo deitar-se no piano tentando se agarrar a ele de alguma forma conforme o orgasmo se aproximava era pedir demais do seu autocontrole.
O clímax lhe chegou primeiro com aquilo, enquanto masturbava os dois membros juntos, fazendo-o se inclinar sobre Sasuke e gemer extasiado com as mãos dele em seu rosto, as testas unidas, o desejo palpável. E assistir Sasuke gozar assim tão próximo, tão belo, tão livre, deu-lhe a certeza de que estava no caminho correto.
Sasuke fechou os olhos, os braços ainda mantinham Naruto sobre si, mas estavam pesados, não sairiam dali tão cedo. Respirou fundo com o ronronar de Naruto contra seu pescoço, abriu os olhos, e, quando Naruto beijou seu queixo, Sasuke percebeu: havia ido longe demais, e não se referia aos toques, aos beijos ou a qualquer outra coisa movida apenas pelo desejo. Não… havia entregado a Naruto algo mais importante, algo que Naruto conseguia fazer disparar com a mesma facilidade com que o acalmava, algo que achou que nunca pertenceria a ninguém além de si mesmo.
Sentiu o toque delicado dos lábios de Naruto contra os seus, que se abriram da mesma forma que tinha acabado de descobrir que o estúpido coração já tinha feito.
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