Não me deixe acordar
6 Algo em comum
Comecei a comer ignorando eles que só se encaravam. Ades era muito diferente do Alef, havia uma aura sombria ao redor dele, algo gótico e misterioso. Pareciam dois opostos.
— De onde vocês se conhecem? _ quebrei o gelo.
Ades sorriu divertido para o Alef, esperou ele responder.
— Da antiga escola _ o tom do Alef foi imparcial, mas a sua expressão era de quem adoraria fazer aquele sorriso sumir com um soco bem dado na cara do Ades.
— O que há entre vocês dois? _ fiquei muito curiosa pra deixar de perguntar.
— Divergência de opiniões _ Ades cruzou os braços sobre o peito _ Nos ajude com isso Sofia? Eu acho que a natureza deve seguir o seu curso, tudo acaba um dia. O velho morre e o novo nasce, tudo acaba e recomeça.
— Não tão cedo _ o tom do Alef foi um quase rugir.
Olhei para o Alef, sua hostilidade me fez querer ver o seu rosto. Seu rosto tinha uma seriedade assustadora, como o semblante de um guerreiro contemplando o adversário antes de matá-lo.
Gargalhei meio nervosa me voltando para a minha comida. Dava pra acreditar naqueles dois?!
— Olha. Eu não faço a menor idéia do que diabos há de errado com vocês dois.
Me fitaram com uma cara de desagrado diante da palavra “diabos”. Ignorei, me levantando com o meu almoço.
Continuei.
— Até vocês resolverem os seus problemas, fiquem longe de mim. Entenderam?
Saí de perto deles, fui pra outra mesa vazia.
Conversaram sobre algo, depois que eu saí. Almoçaram juntos. Deviam ter mais em comum do que a hostilidade deixava transparecer.
Ades também estava em todas as minhas aulas, como o Alef. Durante a segunda aula após o almoço, precisávamos fazer um trabalho em dupla. O Ades foi mais rápido que o Alef. Deu de ombros para o olhar de raiva do Alef. Eu ri divertida.
O Ades fez o trabalho todo rapidinho e encostou a folha de lado. Se voltou pra mim.
— Você toca algum instrumento, Sofia?
— Bateria e baixo. Por quê?
— Preciso de um baixista para uma musica que eu compus _ me entregou a partitura.
— Música irada! O que você toca?
— Violino e piano. Compus essa música para um baixo e um violino. Depois da aula, na minha garagem. Pode ser?
Olhei em seus olhos azuis sinceros.
— Pode.
Trocamos contatos e endereços.
Separamos as duplas e a aula acabou.
Estava indo pra o armário, quando o Alef segurou o meu braço me fazendo parar.
— Que liberdade é está! _ reclamei fitando-o.
— Não pode ser amiguinha do Ades, Sofia. Ele não é bom.
— Isso quem decide sou eu, Alef _ fiz que não com a cabeça, estava descrente com a sua atitude.
— Sofia, me escuta.
— Não _ ri descrente olhando-o de cima a baixo e saí.
Deixei a mochila em casa e peguei o meu baixo. Fui recebida pelo Ades com um sorriso de satisfação. A sua casa era impecavelmente limpa.
— Os seus pais?
— Trabalhando.
Parou na cozinha e me entregou uma garrafa de água mineral e pegou outra pra ele. Seguimos para a garagem.
Afinamos os instrumentos.
— Trouxe o meu teclado _ a voz do Alef veio da porta de acesso interna, da casa pra a garagem.
Olhamos ao mesmo tempo.
— Você chamou ele? _ perguntei ao Ades.
— Eu não _ o tom da voz do Ades era divertida.
Alef me olhou ao passar. Deixou bem claro que estava aqui por minha causa. Revirei os olhos.
Começamos a ensaiar e a musica ficou ótima com nós três.
— Para quê é isso? _ o Alef quis saber.
— Show de talentos da escola _ disse Ades _ Se a Sofia topar.
— O Show de Talentos só vai acontecer daqui há três meses _ o Alef apontou.
— É tempo suficiente para brincar de gato-e-rato, não é mesmo? _ ao dizer, Ades tinha um sorriso de lado para o Alef.
Guardei o meu baixo. Estava pronta para ir para casa. Os outros fizeram o mesmo.
— Podíamos pedir uma pizza e ver um filme _ o Ades ofereceu _ O que me dizem?
— Fica pra próxima _ dei um beijo no rosto de cada um, e segui para fora da casa e de lá para o meu carro.
— Sofia! _ disse o Alef que vinha até mim _ Me dá uma carona?
Fiz que sim com a cabeça antes de entrar no carro e o Alef sentar no banco do carona.
Me entregou uma rosa vermelha.
Olhei para ele confusa, vendo-o sorrir.
— Obrigada _ coloquei a rosa no banco de trás.
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