Não há nada aqui
1 Tentando
Estou atrasado, pensei, enquanto de fato, estava.
Isso não vai dar certo se eu não conseguir, ao menos, manter a calma. Pensei naquele consultório frio, com aquele olhar hipócrita mais frio ainda, onde eu me sentia como um item sendo avaliado online. Merda.
Merda.
Meu cabelo curto e cacheado, considerando o banho recente, era uma bela representação de como eu me sentia nas benditas sessões de terapia. Frágil e escuro.
Eu não entendia o motivo de estar fazendo aquelas sessões, considerando que elas não estavam ajudando em nada. Há semanas eu estou indo e tentando lembrar de algo que simplesmente não consigo. Eu me lembro de coisas, me lembro de ter acontecido o que realmente aconteceu, mas não lembro como, não lembro o motivo e meu maior medo é que, depois dessas sessões, eu não lembre mais quem eu sou. Ou pior: eu lembre, e o fato de lembrar, mudar toda a visão que tenho sobre mim.
Peguei minha bolsa, tranquei o apartamento (evitei olhar a lousa acumulada na pia: morar sozinho tem sim suas vantagens, mas cuidar da casa por si próprio não era uma delas) e corri pelas ruas até chegar ao consultório. Não tinha outra escolha.
Quando cheguei ao prédio, a secretária me recebeu com um belo sorriso. Eu retribui com um meio sorriso e um aceno. As pessoas gostavam fácil de mim. Talvez esse seja o problema.
Na sala, meu terapeuta já estava esperando, sentado de pernas cruzadas. Quando entrei, ele ajustou o óculos em seu rosto com a ponta dos dedos, como se estivesse julgando todo meu ser. Perfeito. Hora do show.
— Como você está se sentindo hoje, Eli? — perguntou ele.
— Bem. — eu respondi, enquanto pensava em que diabos de pergunta é essa? Se eu realmente estivesse bem, não estaria aqui há semanas com 0 progresso visível.
— Ótimo. Estava pensando em fazer um processo diferente com você, hoje. Gostaria que você me falasse do inicio do ano letivo passado. Talvez ajude-nos a encaixar algumas coisas...
Não entendi, de cara, a finalidade desse processo. Mas, se ele precisava de um contexto...
Era verão, e o ano letivo havia acabado de começar. Isso foi há um ano atrás. Tudo estava indo bem. Eu tinha amigos ótimos, minha família (do interior) não havia questionado muito minha questão de emancipação, devido aos estudos. Sempre tive como objetivo ir bem no vestibular e a educação precária do interior limitaria minhas possibilidades. E, também, pra eles foi um favor considerando a polêmica causada quando eu sai do armário e me assumi homossexual. Então, foi uma vitória dupla.
Creio que o episódio mais marcante do meu inicio de jornada na escola nova foi a terceira aula do dia. Os olhares, curiosos a principio, já estavam sendo carinhosos, e eu estava me adaptando e tentando escolher em qual grupo me encaixaria melhor.
— Bom dia, pessoal. Todos sentados, por favor.
Minha atenção, automaticamente, se voltou ao professor parado na frente da turma, loiro, forte. Enquanto todos se ajeitavam, algumas alunas sentadas próximas a ele falaram algo que o fez rir.
E aquele sorriso. Aquele sorriso é a primeira coisa que eu lembro. E também, a última coisa da qual me lembro da noite que me faz estar sentado aqui, tendo sessões de terapia.
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