Não era uma vez
7 O dia na montanha russa emocional
Notas iniciais
– Você deve ser a Angelina. – Sua voz soa como sinos, o que me faz ficar cada vez mais em um tipo de transe. – Como você cresceu! Agora você está a cara da sua mãe, até nessa sua carinha de avoada.
– Madrinha Mathilda? – Assim que falo seu sorriso se desfaz.
– Me chame de Jennifer. – Ela volta a sorrir, mas percebo que ela está se esforçando. – Se preferir pode me chamar de Jenn.
– Ah sim, desculpa. – Ela começa a andar e eu a sigo, começo a pentear meu cabelo. – Minha mãe só chama a senhora de Mathilda aí eu me acostumei.
– Não precisa me chamar de senhora também. – Ela faz uma cara de nojo por alguns segundos e rapidamente volta para o sorrisinho. – Só Jenn, minha querida!
Paramos em frente a porta do meu quarto e Jenn começou a me encarar com uma cara estranha enquanto eu penteava meu cabelo. Vi seu olhar subir e descer, e por um minuto me senti desconfortável ao lado daquela mulher de saltos pretos e um vestido vermelho colado. “O que eu vim fazer aqui mesmo?”.
– Ang querida, você já pensou usar creme para pentear? – Ela não tira aquele sorrisinho falso da cara o que está começando a me irritar. – Se você quiser eu posso marcar o dia no salão amanhã para você...
– Não obrigado. – Tento soar a mais educada possível.
– Mas você está precisando tanto de uma hidratação, corte, limpeza de pele...
– Obrigado, mas acho que a gente pode deixar para outro dia. – Cruzo meus braços antes que ela veja meus peitos ou barriga e me ofereça uma cirurgia plástica. – Na verdade eu acho que vou deitar um pouco, estou cansada do voo.
– A claro! Mas não se esqueça que o jantar será servido ás oito em ponto. – Jenn começa a sorrir animada. – E não se atrase pois eu convidei um amigo meu para jantar conosco, ele tem dois filhos e eu pensei que seria legal você conhecer algumas crianças para ter alguém com quem brincar nas férias.
– Brincar? – Começo a rir. – E claro, vai ser ótimo!
Mathilda, ou melhor Jenn, sai andando rebolando pelo corredor, suspiro e entre para dentro do quarto e me jogo na cama. “Esse dia está parecendo uma montanha russa, com seus altos e baixos. ” Rolo pela cama e começo a retirar as roupas de dentro das malas procurando alguma coisa para vestir hoje no jantar. Depois de alguns minutos bufo irritada e quase caio da cama com a batida na porta.
– Pode entrar. – Grito sem me levantar.
– Com licença. – Para minha surpresa Breno aparece do outro lado da porta, antes de entrar o garoto olha para as roupas espalhadas e para mim. – Está tudo bem? Se você quiser eu posso voltar outra hora!
– Não. Por favor entra. – Tento arrumar um espaço na cama para que o garoto possa sentar, mas ele apenas encosta na parede e cruza os braços.
– Eu só queria pedir desculpa por mais cedo. – Breno olha para todos os lugares menos para mim. – Eu conversei com meu avô e ele disse que você e diferente das garotas daqui...
– Uhnn. – Pego um vestido preto e examino ele, mas acabo jogando para o lado e começo a procurar novamente. – O que eu disse para você ficar tão irritado?
– E que.... Você é estranha. – Levanto minha cabeça e encaro o menino, suas bochechas começam a corar novamente. – Não estranha ruim, e que você não se importou quando eu disse que meu avô e um chofer.
– E por que eu acharia outra coisa? – Pergunto ainda encarando o menino.
– Bem, e que nesse condomínio só moram celebridades e gente com dinheiro. E meio difícil achar alguém normal aqui, que não seja esnobe, então quando você falou que queria um amigo eu pensei que você estava brincando com a minha cara, porque quem é que vai querer ser amigo do filho do chofer. A proposito meu pai e chofer também.
O menino parece sem jeito, ele já limpou a lente de seu óculos na barra da camisa umas cinco vezes.
– Então minha madrinha e esnobe? – Começo a rir da cara de espanto de Breno. – Não se preocupe, eu guardo segredo...
– Não foi isso que eu quis dizer. – Breno praticamente corre para o meu lado e me encara assustado. – Por favor! Não diga a ela que eu disse isso, quer dizer eu não estava me referindo a ela.
– Fica tranquilo Breno. – Me levanto e dou tapinhas em seu ombro. – Digamos que eu não discordo completamente de você, mas se você quiser que eu esqueça esses últimos minutos de conversa você vai ter que me fazer um favor...
Breno suspira e eu posso jurar que ele pensou algo como: “Eu sabia que ela não seria diferente”, o garoto apenas balança a cabeça concordando.
– Você tem que me ajudar a achar uma roupa para o jantar de hoje! – Ele me olha sem entender nada. – Olha, minha madrinha disse que convidou um amigo para o jantar só que eu não tenho ideia de como me vestir para a ocasião.
– Você quer que te ajude a escolher uma roupa? – Breno me encara surpreso. – Só isso?
– Se você quiser fazer uma massagem no meu pé, eu não reclamaria... – Breno começa a rir e se dirige para a pilha de roupas. – Sem massagem?!
Breno apenas balança a cabeça e começa a mechar nas roupas, mas eu posso ver que ele está segurando o riso. Sorrio o começo a procurar junto com ele.
– Lá em casa a gente jantava de pijama. – Digo. – Seria tão mais fácil...
– Tenho certeza que ninguém vai importar se você vestir seu pijama. – Ele me olha por cima da armação de óculos. – Pijama de vaquinha?
– Não, meu pijama na verdade e roupa velha, mas minha mãe me fez comprar um para trazer. – Vou até a mala e retiro meu pijama de dentro e mostro para o garoto, ele começa a rir.
– Unicórnios? – Breno ri ainda mais assim que jogo o pijama em seu rosto.
– Muito melhor que vacas!
Voltamos a nossa missão de achar uma roupa descente para mim, aos poucos Breno vai se soltando e começa a sorrir mais vezes. O garoto me conta que como seu pai e seu avô são chofer de minha madrinha e ela precisa deles vinte e quatro horas por dia, eles moram em uma casa nos fundos da mansão que Jenn construiu para eles e para alguns outros empregados.
– Você e o único jovem lá? – Pergunto a Breno.
– Tem algumas garotas que são apenas alguns anos mais velhas que eu, mas elas quase não ficam lá, sempre estão aqui arrumando a casa ou cuidando da cozinha. – Ele pega uma calça de cintura alta preta e a joga para mim.
– Calça para o jantar? – Pergunto resignada.
– Melhor que pijama... – Breno começa a procurar por blusas. – Eu vi que as garotas aqui estão usando isso aí o tempo todo, você tem aquelas blusas mais curtas?
– Blusa cropped? – Começo a procurar a blusa em meio a bagunça. – Achei, essa e a mais bonitinha, as outras são simples.
Breno olha o cropped rendado de manga longa por alguns instantes e depois me entrega.
– Por mim pode ser. – O garoto se levanta da cama. – Como sua madrinha convidou apenas uma pessoa vai ser uma coisa mais tranquilo, então acho que isso vai ficar ótimo.
– Muito obrigado. – Sorriu agradecida para Breno.
– Agora acho melhor você ir se arrumar, senão vai se atrasar. – Breno olha o relógio em seu pulso e caminha para porta. – Já são sete e meia.
– O que? – Me levanto correndo e vou para a minha mala procurar a bolsinha de maquiagem. – Eu jurava que era mais cedo! Brigado mesmo Breno, a gente se vê amanhã?
– Claro. – Breno abre a porta e antes de sair o garoto para e se vira. – Me desculpe por mais cedo, eu não podia estar mais errado. Até amanhã pequena unicórnio.
Começo rir sozinha em meu quarto, até que me lembro que tenho que me arrumar, pego as roupas e a bolsa de maquiagem e me dirijo para o banheiro. Como eu já havia tomado banho antes, apenas me troquei de roupa e comecei a fazer uma maquiagem simples, passei pó, rímel e lápis preto nos olhos, como iriamos comer passei apenas um brilho nos lábios. Olhei as horas em meu celular, oito horas, sai correndo pelo banheiro e fui em direção a porta e assim que sai de meu quarto tive que voltar correndo ao perceber que eu estava descalça, peguei uma sapatinha simples preta e sai pelo quarto pulando enquanto a calçava.
Assim que cheguei no final da escada já estava cansada da pequena corrida, me encostei no corrimão para recuperar o folego, não queria chegar ofegante a sala. Olho para os lados e percebo que não tenho a mínima ideia de onde é a sala que vai ser servida o jantar.
– Moça! – Grito ao ver uma empregada passando. – Por favor, onde vai ser o jantar?
A mulher quase derruba os lenções em suas mãos pelo susto, ela apenas me indica a direção e sai apresada. Tento arrumar meu cabelo pelo caminho, ajeito minha blusa e abro a porta da sala, assim que entro a conversa cessa e todos olham para mim.
– Você? – Praticamente grito de surpresa.
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