Não era pra ser assim
6 Capítulo Seis
Fui audaciosa e convidei Micaella para tomar um chá pela manhã, na sala que havia me escondido no dia anterior. O lugar tinha uma estante com alguns livros que mais pareciam para decoração, na parede paralela havia uma lareira acesa para nos aquecer e estávamos sentadas em um sofá com dois lugares, uma mesa de centro a nossa frente e uma janela nos dando a visão panorâmica do jardim.
Pego o bule e despejo o conteúdo nas xícaras. Há um sorriso sem graça nos lábios de Micaella, o que me leva a crer que ela sabe o motivo do chá reservado.
— Acho que sabe o motivo do chá.
— Creio que não — ela murmura ao pegar a xícara fumegante.
Solto um suspiro.
— Peço que me perdoe, estava tão cansada que apenas depois de refletir percebi que precisava conversar. — Engulo em seco ao mentir. — Posso não saber muito sobre o seu mundo além do que me ensinou, porém, posso escutá-la e tentar ajudar no que for possível. — Pego sua mão livre. — Você tem feito tanto por mim, gostaria de retribuir o carinho.
— Não precisa retribuir nada.
— Eu sei, mas sinto que preciso. Nunca tive amizades e nem ao menos sabia o que era tal coisa, mas com você parece que tenho isso. Certo? — Olho-a em expectativa.
— Nunca a vi falando tanto — resmunga dando um risadinha e tentando desviar o olhar do meu. Espero um pouco, enquanto a observo colocar a xícara sobre a mesa e mexer as mãos nervosamente. Em seguida, ela coça a ponte do nariz e volta os olhos para mim, sorrio e ela suspira. — Está bem. Vou falar, mas não creio que possa me ajudar.
— Posso tentar — digo com um sorriso satisfeito nos lábios.
Os seus olhos se voltam para a janela e ela parece se perder em pensamentos. Não interrompo seu momento de reflexão. Tomo um pouco de chá e provo os biscoitos amanteigados. Quando Micaella torna a falar, estou quase terminando minha xícara e comi quase todos os biscoitos.
— Você faria tudo por amor? — questiona.
Penso nos tipos de amor que já tive contato em todos os anos e o que mais chama minha atenção é a relação que eu e mamãe tínhamos. Ela era carinhosa e sempre tentava me fazer feliz com as pequenas coisas da vida, mesmo quando não tínhamos um teto sob nossas cabeças. A vida não foi nada justa com ela.
— Não sei muito sobre amor, apenas o que aprendi com a minha mãe. Ela se sacrificou muito por mim e nunca vou esquecer. Mesmo que fosse nova demais. — Fecho os olhos e consigo ver cada detalhe do rosto da pessoa mais importante da minha vida. Quando os abro, encaro a ansiedade nos olhos de Micaella. Ela queria saber mais. Não sabia se estava preparada, no entanto, seria bom falar do que já vivi. — Acho que mamãe trabalhava nesse lugar que mulheres direitas não podem frequentar.
— Oh! — Micaella exclama sem palavras.
— Cheguei a conclusão quando li meu primeiro livro. Vivíamos em um quarto pequeno, mas confortável o suficiente para nós. Todas as noites ela saía e sempre voltava tão triste, então quando seus olhos me encontravam, eles pareciam brilhar e um sorriso tomava todo seu rosto. Éramos felizes quando estávamos ali, ela me ensinava a ler, escrever e sobre a vida. Brincávamos com uma boneca que ela havia feito para mim. Parecia que nada poderia nos abalar. — Agora, sou eu que me volto para a janela e me permito viajar pelo tempo. — Mas quando sangrei pela primeira vez tudo mudou. A dona do estabelecimento queria que eu começasse a trabalhar, mas mamãe não permitiu, ela foi tão firme que a mulher imediatamente nos expulsou. E foi assim que começamos a morar na rua.
"Mamãe me deixava algumas horas sozinha durante a noite e voltava exausta. Não demorou muito para que ela ficasse doente. Como não tínhamos condições para contratar um médico e muito menos um lugar onde ficar, ela..."
Um soluço escapa de meus lábios e Micaella se aproxima, envolvendo-me em seus braços.
— Não precisa continuar — murmura com a voz embargada.
Eu me afasto e seguro suas mãos nas minhas.
— Na verdade, é bom dividir. — Tento sorrir, porém, não consigo. — Ela fez tudo para mim por amor, porque eu era tudo para ela. Quando alguém é o seu tudo, vale a pena se sacrificar um pouco por amor.
— Obrigada, Eliza.
— Espero que o pouco que sei tenha ajudado no que tem lhe perturbado.
Micaella suspira, pega sua xícara e toma um gole.
— Não sei se ajudará, mas foi bom ouvir um pouco sobre você e entender um lado mais extremo do amor. — Ela pega um dos biscoitos e o observa. — Mamãe se foi no parto Matthew, ela não resistiu.
— Pensei que você era a mais nova.
— Todos pensam isso, dizem que pareço uma menininha. — Ergue os olhos para mim com um sorriso torto. — Não quero ter que me preocupar com casamento por um tempo. Tenho apenas 18 anos, não tenho obrigação de pensar em como viver com um marido agora. Estou feliz cuidando dessa casa. Então, é bom que pensem que sou muito nova.
— Qual a diferença entre você e seu irmão? — indago.
— Um ano. Não tive tempo de conhecer mamãe. Muitos culpariam o nascimento de Matthew, contudo, acredito que é muito mais difícil para ele, acreditando que é realmente sua culpa. É uma fatalidade. — Micaella solta uma risada amarga. — Papai diz que é uma maldição das mulheres da família, exceto por Diana, a falecida esposa de Michael.
— O que aconteceu com ela?
Ela olha para porta, receosa de continuar a conversa, com medo que alguém possa nos escutar.
— Michael não gosta de falar sobre Diana, nunca soube o motivo, mas existe um certo tabu em seu nome. Entretanto, posso dizer que ela não morreu no parto, Barret tinha dois anos quando a mãe teve pneumonia e faleceu. O que me leva a crer que essa história de maldição não existe, a não ser que esteja apenas sobre papai.
Era muito triste perder duas esposas. Não sabia se o Sr. Watson havia às amado, mas independente da situação ele estava sozinho agora e quando os filhos se casassem ficaria ainda mais solitário. Ele parecia ser um homem muito bom para tanto sofrimento.
— Ouvi sussurros dos empregados que ele amou as duas — Micaella afirma com uma voz melancólica. — Esse é um dos motivos por evitar pensar em casamento, não quero deixá-lo sozinho. Eu sei que você viveu duramente na rua, Eliza, mas você mesma afirma que era fácil lidar quando tinha sua mãe ao seu lado. Às vezes ter dinheiro e ser solitário é tão miserável quanto viver sem nada.
Sabia que ela não estava menosprezando o que passei. Micaella tinha razão, quando mamãe e eu estávamos juntas tínhamos forças para lutar contra tudo, porque tinhamos a companhia uma da outra. Mesmo sem ter o que comer, não estávamos sozinhas. Sr. Watson poderia ter condições para comprar o que quisesse, mas não poderia trazer de volta qualquer uma de suas esposas. Você pode ter tudo e ainda ser o mais miserável dos homens.
●
Sr. Watson nos informou no almoço que um amigo iria jantar conosco, causando uma pontada de desespero em Micaella, que gostava de organizar tudo nos mínimos detalhes.
— É o Duque que virá, não tem com que se preocupar, querida. Ele já é de casa.
Isso pareceu acalmá-la, mas não a ponto de não organizar detalhe por detalhe do cardápio da noite. E é claro que ela não se esqueceu de mim. Fomos a modista pela manhã e escolhemos tecidos para vestidos novos, incluindo aquele que usaríamos no baile próximo.
Conhecer o Duque acabou se tornando meu novo teste. Micaella disse que ele seria a pessoa perfeita para testar meus aprendizados, se saberia me portar diante dele. Não queria ser presunçosa, mas tinha plena convicção que havia adquirido todo o conhecimento que me foi passado e não havia necessidade de teste algum. Contudo, se Micaella gostaria de ter provas da minha etiqueta ela teria.
— Duque, que bom vê-lo! — Sr. Watson exclamou quando um homem de cabelos escuros e pele bronzeada entrou na sala.
— Parece que não nos vimos há meses — o homem afirmou.
— Sempre sinto falta de um amigo. Como foi a viagem a Paris?
— Cansativa, mas proveitosa. — Os olhos do Duque se erguem e varrem o local, como se em busca de algo, quando seus olhos encontram a minha figura emoção transborda de suas íris castanhas.
— Você já conhece meus filhos, é claro, porém, deixe-me apresentar uma prima distante. Elizabeth Taylor. — Sr. Watson me apresenta. — Srta. Taylor, esse é meu amigo, Duque de Devonshire.
Curvo o meu corpo em cumprimento. Estendo a mão, sob o olhar fixo do Duque, e ele planta um beijo sobre a luva.
— Também conhecido por Finn Thompson. Prazer. — O seu olhar continua em mim, a procura de algo nas minhas feições, o que faz com que franza o cenho. Eu já havia sido analisada de muitas formas desde que cheguei a essa casa, no entanto, nunca assim, como se a pessoa observando estivesse em busca de algo que perdeu.
— Não sabia que estava fora — Michael chamou a atenção de todos com sua afirmação. Quando me viro para encará-lo, ele observa o convidado do pai cautelosamente. — Talvez possamos ir até o escritório tomar um whiskey enquanto esperamos o jantar ser servido.
— Sempre com um olhar visionário — o Duque murmura, secando o canto dos olhos.
— Pedirei que um criado nos chame quando o jantar ficar pronto — Micaella afirma.
— Obrigado — o Duque agradece pegando a mão de Micaella e beijando-a.
Os homens saem para o escritório e não posso deixar de me incomodar ao constatar que Matthew não está. Ele havia saído conosco pela manhã, entretanto, não retornou. Não sei se deveria me preocupar, ninguém estava se importando com o fato de não estar em casa. Talvez essa fosse uma atitude corriqueira dele e só não havia visto ainda.
Micaella vai até a cozinha conferir como está indo a finalização da comida e me sento no sofá refletindo sobre o modo como Finn Thompson me encarou.
Respiro fundo.
Tantas coisas estranhas têm acontecido desde que cheguei a esta casa que parece que nunca mais nada voltará ao normal. Não que eu soubesse o que era viver em normalidade. Só não entendia porque todos agiam e reagiam de forma estranha próximo a mim. Claro, era algo exclusivo do gênero oposto. É provável que o problema fossem eles e não eu. Eles eram estranhos e difíceis de decifrar.
Tenho pensado bastante sobre o motivo que levou o Sr. Watson até mim. Por que entre tantas pessoas ele resolveu me tirar das ruas? Existia algum propósito? Ou ele simplesmente se compadeceu da minha condição?
E Michael? Ele era tão frio com todos, com exceção de Micaella, e no entanto o encontrei com a tutora do filho. A maneira como ele agiu quando peguei ele e Srta. Alene em um momento íntimo me intrigava mais ainda. E aquele sorriso no canto da boca? Queria dizer que estava me observando?
Então, havia Matthew, que mexia com sensações no meu corpo que me preocupava e ao mesmo tempo me fazia esquecer a racionalidade. Aprendi que nunca deveria confiar nos homens, mas aqui estava eu, indo contra um dos ensinamentos de mamãe. Entrando em uma relação que não tinha explicação. Queria tanto viver todas essas emoções que Matthew me causava, mas no meu íntimo algo me dizia que devia me controlar. Ir devagar. E estava tentando, porém, estava tão difícil controlar o que meu corpo pedia. Desde que Michael e Barret chegaram, eu e Matthew mal nos víamos, no entanto ele havia adquirido o hábito de me visitar no meu quarto. Às vezes ficava tentada a trancar a porta e impedi-lo de ir me ver, contudo, o meu corpo brigava com a minha mente e logo descartava essa hipótese.
Minha cabeça não parava de pensar em todos esses homens a minha volta que me perturbavam. Não sabia que pessoas eram tão difíceis de decifrar. O meu único ponto de alívio era Micaella e Barret que me distraiam e animavam noite e dia. Eles traziam leveza para minha vida.
Quando o jantar fica pronto os homens retornam. Apesar das conversas que reinam a mesa, percebo que há um olhar constante do Duque sobre mim e de Michael sobre o Duque. Era confusa toda reação a minha volta, porém, decido me concentrar na forma que devo me portar do que tentar refletir sobre o que realmente está acontecendo.
O Duque sempre busca me fazer perguntas sobre o que gosto e como tem sido a estadia na casa dos meus parentes. Então, resolvo que ele está apenas sendo educado e simpático comigo. Agradeço internamente por sua gentileza e acabo compreendendo porque os Watson pareciam tê-lo em tão alta conta.
Ao fim da noite, nos despedimos do Duque no hall de entrada. Ele se aproxima de mim quando chega a minha vez, e ao invés de me permitir inclinar a cabeça, me interrompe pegando minhas mãos com delicadeza.
— Foi um prazer enorme conhecê-la — sua voz é tão transbordante de emoção que faz com que um bolo se forme em minha garganta. Meus olhos queimam e respiro fundo para sustentar a emoção que quase me escapa. — Até mais, querida.
Olho para as mãos que sustentam as minhas e paraliso quando vejo a marca marrom circular do tamanho de um botão em seu pulso. Ele se afasta enquanto ainda estou olhando para baixo, ouço-o falar com o Sr. Waston, contudo não consigo decifrar o que é.
O meu coração está acelerado e minha respiração errática. Talvez estivesse criando alguma história louca na minha mente, no entanto, fatos não mentem. Ergo minha mão esquerda e toco a luva, no mesmo local onde há uma marca igual a do Duque.
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