Notas iniciais
Bem... Não sei o que espero ao postar essa historia. Ela nasceu dos meus sonhos e meus pesadelos, das conversas com meu eu e meus sub-eus. Espero que gostem ou ao menos tenham algo para distrai-los. Boa leitura.

Os lábios pintados de rosa acabaram deixando uma marca na fronha do travesseiro. Ela amava aquele batom, mas já não usava há tempos. As vezes lembranças ruins nos fazem esquecer o que gostamos e justamente uma lembrança a fez acordar.

Aquela manhã estava fria e lá fora havia uma neblina que encobria toda a cidade. Mesmo o clima dando uma desculpa perfeita para dormir mais cinco minutos, ela ficou olhando para o teto branco de seu quarto. O filme começou a ser rodado pelas orbitas de seus olhos castanhos e ela assistiu, quieta, as cenas já conhecidas de um filme que foi gravado a meses.

O rapaz assistia a jovem moça rodopiar em meio a chuva de janeiro. Seus cabelo cacheado estava encharcado e suas roupas colavam ao corpo, mas ela não se importava. Ela estava feliz. "Vai adoecer" ele disse a ela. "Isso não importa" ela disse parando de rodopiar e correndo em direção ao rapaz. Ele, um rapaz de sobrancelhas grossas e um sorriso que não mostrava os dentes, abriu os braços e a agarrou quando ela se jogou em seus braços. Ele precisou girar para manter o os dois em pé. A imagem era linda a quem observava de uma loja próxima ao parque.

"Eu te amo" ele sorrindo disse. "Eu te amo muito, muito mais!" ela respondeu com alegria. Aquele amor iria durar para sempre. Aquele amor precisava durar para sempre. Aquele amor era para sempre.

Ela não suportou mais rever as cenas de sua memoria. Jogando as cobertas para longe de si, ela pode sentir o frio envolver seu corpo magro. Magro até de mais. Seus pés marchavam em direção ao corredor vazio enquanto suas mão enrolavam seus cabelos lisos em um coque no topo da cabeça. Seus olhos demoraram um pouco para reconhecer a jovem que se mostrava no espelho do banheiro. Suas olheiras eram negras e sua pele estava pálida. Ela estava definhando.

A água caia em seu corpo, a esquentando. Infelizmente o chuveiro desarmou no momento em que começava a relaxa. Isso foi bom, a fez lembrar que não tinha tempo para relaxar.

Sua maquiagem era sua melhor amiga naquele momento. Em poucos minutos ela já estava refeita, com saúde e bela. Ao deixar seus lábios rosas como a flor, ela assistiu mais uma cena de um filme que qualquer um gostaria de esquecer.

Com seu velho sorriso torto, ele tocou os lábios da jovem moça com o polegar e isso a fez sorri. Eles se olharam profundamente nos olhos antes de se beijarem com ternura. Naquele beijo não havia algo erótico, somente ternura. Qualquer um que assistia a cena sabia que aquele casal não desejava o outro por algum desejo imundo. Eles se amavam de uma forma que não se vê mais nas novelas ou em mídias, esse amor já não é nem mesmo desejado por jovens moças. O amor entre eles era algo em extinção.

Ela apertou os olhos com força. Agora não, pensou ela e mais uma vez estava olhando para a imagem refletida no espelho. Ainda não era ela.

Ao olhar para os dois lados da rua em frente a sua casa, ela avistou um jovem casal, que por conta do frio intenso, andavam abraçados. Por um segundo ela consegui substituir os traços orientais da jovem moça por traços africanos, cabelos cacheados no lugar dos lisos escorridos e uma pele morena no lugar da pele branca. O rapaz também ganhou traços novos: agora ele tinha um olhar sereno e um cabelo cortado a dois dedos do couro cabeludo.

O Carro buzinou bem a tempo dela pula para a calçada de novo. Por pouco não foi atropelada pelo Gol azul que passava na rua. Ela havia perdido o foco por um segundo e começou a atravessar enquanto olhava para o jovem casal, que agora a observava e tentavam ver o que houve. Ela virou o rosto imediatamente, esperando não ser flagrada em sua observação. Enquanto esperava que o fluxo de carros para-se, ela tentou controlar seus pensamentos. Foco, Carla, foco! ela disse a si novamente.

Quando finalmente pegou seu carro no estacionamento do outro lado da calçada, ela se sentiu segura. Seu veiculo prata não era o mais novo que tinha sido lançado, mas tinha um regulador de temperatura e, ao ligar o aquecimento, ela se sentiu grata por isso. Seu trabalho ficava no centro da cidade, aproximadamente uma hora e meia de sua casa e ela faria esse caminho em um avenida conhecida na cidade. Por sorte, era feriado e ela conseguiria chegar sem atrasos no trabalho com a avenida vazia. Aquilo em um dia comum formava um transito infernal.

Uma chuva fina começou a cair e ela ligou os limpadores. Ela era extremamente cuidadosa e sempre seguia todas as leis de transito. Seus familiares odiavam andar com ela, sempre diziam que ela era cuidadosa de mais.

Alguns minutos se passaram enquanto ela se mantinha focada na estrada. Sua mente estava perdida em mil pensamentos quando ela sentiu o impacto. Seu carro foi bruscamente jogado contra a mureta que dividia as pistas. Seu carro alçou voou com diversas piruetas pelo ar, até que ela parou do outro lado da pista, ainda tendo seu carro atingido por um ônibus que não conseguiu frear a tempo. Ela não errou em nada, mas um motorista que andava em alta velocidade perdeu o controle na pista molhada, batendo em cheio na traseira do carro prata em sua frente. Como a motorista havia se perdido em seus pensamentos, ela não conseguiu reaver o controle da direção antes que seu carro batesse no muro baixo.

Ela estava sentindo muita dor, muita mesmo. Suas pernas ardiam e sua cabeça latejava. Ela só havia sido salva por conta do sinto de segurança que a prenderá no lugar, mas ao seu redor só havia destroços e cheiro de gasolina. Ela queria sair dalí, mas não conseguia. Antes que pudesse tentar, ela desmaiou.

Ao acordar, ela viu aqueles olhos negros que agora estavam com sua serenidade costumeira abalada. Ao vê-la acordar, ele sorriu seu sorriso costumeiro e respirou profundamente."Carla..." ele disse. "Aureo" ela disse com uma voz fraca. Uma pessoa colocou a cabeça no ombro do rapaz e seu rosto emoldurado por cachos perfeitos e seus olhos castanhos a fizeram reconhecer rapidamente sua irmã, Ana. "Você esta bem?" Ana perguntou, sua voz estava embargada em preocupação."Sim, eu estou" Carla respondeu.

Aureo passou o braço ao redor da jovem esposa, a Ana, e ambos olharam a mulher que estava na cama hospitalizada.

Notas finais
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