Não beije cadáveres

1 Um bar, uma secretária e um policial.


Notas iniciais
Olá! Espero que gostem do primeiro capítulo :) Boa leitura.

23:30 –Lado Oeste da Cidade.

Parte 1.

Uma mulher. Aparentava ter 26 anos. Os saltos faziam barulho enquanto caminhava pela rua vazia de um bairro qualquer de uma grande metrópole. Alguns postes falhavam. A luz amarelava deles piscavam iluminando sua roupa arrumada. Desviava rapidamente dos latões e sacos gigantes de lixo que estavam espalhados pela calçada. Não parecia apavorada, mas sim apressada.

Ela tirou a carteira de cigarros da bolsa, que era algo que só fazia em poucos momentos da sua vida. Olhou ao redor. Não havia carros andando, somente alguns parados em frente ao seu destino. Atravessou a rua enquanto colocava um cigarro que escolheu aleatoriamente na boca.

Ajeitou a bolsa no ombro esquerdo. Puxou a fumaça e entrou no bar que tanto gostava. Provavelmente frequentava aquele local mais de duas vezes no mês. Ela gostava do ambiente, da música, das pessoas, das poltronas e da bebida.

Uma mulher como aquela não tinha a fisionomia de alguém que passava as sextas à noite no subúrbio da cidade se embebedando com bebida barata, mas como dizem: “As aparências enganam”.

A saia marrom e reta até o joelho somada a uma blusa branca de botão e um casaco azul escuro peludo não combinavam muito com o ambiente. Por sorte, a moça havia trazido roupas a mais.

Seus olhos verdes curiosos, cabelos castanhos escuros bagunçados por causa do vento e sua boca rosada não estavam imunes da transformação. Nada que um lápis de olho preto e batom vermelho não ajudassem.

Soprou a fumaça do cigarro enquanto pegava o seu telefone na bolsa grande esverdeada. A mensagem do seu chefe teria que esperar. Desligou o telefone e o jogou dentro da bolsa novamente.

Jogou o cigarro fora, ajeitou a sua roupa e finalmente entrou no local. Dava para ouvir risadas enquanto descia as escadas. O bar era subterrâneo, o que deixava tudo mais charmoso em sua vista. Pessoas conversavam e lotavam quase todas as mesas. Caminhou diretamente até o banheiro feminino.

Passou por pessoas bêbadas, fumantes, drogadas e até um casal se beijando num canto da parede. Desviou de todos enquanto puxava seu vestido preto um pouco acima do joelho com alças finas da bolsa.

Abriu a porta do banheiro e foi até uma das cabines, se trancando. Despiu-se e guardou sua roupa de secretária.

Até segunda-feira, pensou.

Vestiu e sorriu. Estava se sentindo mais sexy, o que não ocorria fora de momentos como esse. O turno da noite a transformava. Saiu da cabine e partiu para a maquiagem. Seus olhos foram destacados com o lápis preto e seu sorriso ficou mais bonito com o batom avermelhado.

Ajeitou o cabelo. Penteou com os próprios dedos de jeito diferente. Enquanto limpava o excesso de batom dos cantos dos lábios, outra garota, que aparentava 18 anos, adentrou o banheiro e logo em seguida vomitou na pia ao seu lado.

Ignorou e saiu. Era normal.

Os bancos perto do balcão estavam ocupados. Eram seus locais preferidos, já que sempre estava sozinha. Como estava ali para beber, ficar perto do balcão era sempre melhor. Como lhe faltara sorte, se sentou em uma mesa qualquer que estava vaga. O banco era macio, vermelho e em forma de U. No meio, uma mesa redonda. Espaço demais para uma garota solitária.

Jogou a bolsa em um local próximo, aproximou o cinzeiro que ficava a disposição em todas as mesas e acendeu outro cigarro. Olhava ao redor como sempre fazia. Ora checava a televisão, ora cantava as músicas que tocava.

Estava tão desatenta, que mal percebera uma sombra se aproximando.

–Boa noite. –O rapaz cumprimentou.

Usava uma blusa branca, uma gravata listrada preta e azul escuro e um casaco preto por cima. O cabelo era preto e penteado para trás. Os olhos pareciam ser castanhos.

–Boa noite. –Ela estava desacostumada a falar com pessoas naquele bar.

–Eu posso? –Ele indicou o espaço vago no banco.

Ela assentiu, puxando sua bolsa para mais perto de si indicando onde o homem deveria sentar.

–Não tenho onde me acomodar. –Ele continuou puxando papo. –O ambiente está cheio.

–Sim. –Ela desviou o olhar e acenou para o garçom.

–Está esperando alguém? –Ele perguntou franzindo o cenho. –Eu não quero incomodar.

–Não está. Pode ficar. –Respondeu tentando sorrir.

Ele retribuiu. O rapaz abriu a boca, mas foi interrompido pelo garçom apressado, o Jao. Ela já o conhecia.

–Andy. –Jao a cumprimentou. –Vai querer... Um drink com bastante álcool de morango?

–Você me conhece bem. –Ela concordou.

–E o companheiro da Andy? –Jao viu para o rapaz que ela nem sabia o nome. –O que deseja?

–Não sei. –O homem olhou para Andy. –O que sugere?

–Traz uma batida dupla de limão e hortelã. –Andy tomou a decisão.

Jao sorriu.

–Isso sim é uma bebida. –Ele anotou no bloquinho. –Tem certeza que...

–Quero uma dessa também. –Andy o interrompeu.

–Esse é o espírito da sexta à noite! –O garçom saiu animado para preparar as bebidas deixando os dois a sós.

–Essa é das fortes? –O homem de gravata ao lado de Andy perguntou.

–Sim. –Ela respondeu, logo percebendo que não sabia o nome do companheiro. –Qual é o seu nome?

–Jones. –Ele sorriu.

–Jones... –Ela olhou para o garçom que trazia as bebidas. –Aposto que tem um emprego difícil.

–Sim, às vezes é bem difícil. –Ele agradeceu ao Jao o serviço e em seguida dando um gole na bebida. –Uau.

Andy deu três goladas. O álcool descia rasgando em sua garganta, mas ela gostava disso.

–Em que você trabalha? –Jones perguntou.

–Secretária. –Andy tragou mais uma vez o cigarro. –E você?

–Policial.

–É fácil adivinhar. –Mais um gole e o cigarro entre os dedos. – Você... Investiga coisas?

–Sim. –Jones cerrou os olhos. –Como sabe?

–Não sei. Apenas dedução.

–Seja lá como fez isso, é boa. –Ele pegou o cardápio para olhar algum tipo de petisco. –Come ou apenas fuma e bebe?

–Segunda opção. Meu dinheiro é curto.

–O que me deixa curioso é que eu não imagino uma secretária frequentando bares desse tipo. –Os olhos do homem moviam rapidamente pelos preços e comidas.

–Eu também não imagino um policial. –Andy largou o cigarro no cinzeiro. –Você está aqui por trabalho ou diversão?

–Os dois. –Ele acenou para o garçom Jao. –Quer uma macarronada por minha conta?

Andy negou com a cabeça e em seguida observou o curioso policial fazendo o pedido.

–Que tipo de trabalho? –Andy continuou.

–Eu queria apenas relaxar tomando alguma bebida, batendo um papo e observar o movimento. –Ele indicou o próprio drink de limão e hortelã. –Quer ficar com isso?

–Observando o movimento? –Andy puxou o copo do companheiro para perto de si. –Vejo que está investigando algum caso.

–Tem havido algumas mortes nessa parte da cidade e os corpos não estão aparecendo. –Ele pediu uma cerveja através de gestos para o garçom. –Mora aqui perto?

–Não. –Ela bebeu outro gole de sua bebida. –Mais ou menos. Eu caminho bastante até chegar a minha casa.

–Vai caminhando? –Jones arregalou os olhos. –Sair daqui bêbada, de madrugada em direção a própria casa numa rua perigosa como essa é muita coragem.

–Sei me defender e agradeço o elogio.

–Mesmo que não more aqui perto, viu ou ouviu algo suspeito?

–Não. –Ela negou sem exitar. –Eu não converso muito com vizinhos.

Andy olhou para o relógio. Já haviam se passado quarenta minutos.

–Tem uma ideia do sexo do assassino?

–Ainda não tenho nada fixo. –Ele agradeceu Jao que deixara a cerveja rapidamente sobre a mesa e correra para atender outro casal. –Apenas sei que prefere vitimas do sexo masculino.

–Encontraram algum corpo?

–A denúncia veio de um morador de rua, que encontrou um corpo de um homem de 32 anos numa caçamba de lixo. –Jones deu um gole no seu grande copo de cerveja. –Ele estava nu.

–Quem? O corpo?

O policial assentiu.

–Então a pessoa tem desejos sexuais por... Cadáveres? –Andy perguntou um pouco desconfortável.

–Exato. Já ouvi falar de desejos muito absurdos, mas esse foi o vencedor.

Andy afastou seu copo de bebida. Algo dentro dela não estava bem.

–Eu preciso vomitar. –A mulher levantou desesperada e correu até o banheiro.

Parte 2.

Uma lágrima desceu. O vomito ardia como mágoas prensadas dentro do coração. Andy levantou, deu descarga e lavou a boca na pia. Passou a mão nos seus cabelos e então se preparou para voltar até a mesa.

Jones ainda estava lá. Parecia satisfeito por ela ter voltado.

A macarronada já estava sobre a mesa.

Andy sentou-se no mesmo local que estava antes e percebeu que Jones estendia um garfo.

–Vai precisar comer algo. –Ele sorriu. –Você está bem?

Andy pegou o objeto das mãos do rapaz e assentiu.

–Sim.

–Eu não sabia que você era sensível a histórias desse tipo.

–Não sou. –Ela negou. –Era apenas um mal estar por causa da bebida, nada demais.

Jones a observou atentamente enquanto comia uma garfada de macarrão com bastante molho. Em seguida limpou os lábios com o guardanapo e terminou de engolir a comida.

–Mora sozinha? –Ele perguntou.

–Sim. –Andy quase não comia. –Meus pais não queriam que eu viesse para cá e acham que eu estou tendo uma vida péssima trabalhando como secretária.

–Tem um contato com sua família?

–Raramente. –Ela ergueu uma sobrancelha. –Eu me viro bem sozinha.

–Parece que sim. –Ele sorriu.

–Não acredita?

O sorriso de Jones desapareceu.

–Eu acredito sim.

Andy bebeu um grande gole da sua bebida e os dois ficaram em silêncio até que o celular do policial tocou, obrigando-o a atender.

Depois de um minuto de conversa, ele encerrou a chamada.

–Tenho que ir. –Ele falou para Andy.

–Que coincidência, eu também. –A mulher levantou pegando a bolsa.

Eles caminharam juntos até o balcão, pagaram a conta e se despediram do Jao. Depois subiram as escadas e chegaram até a rua vazia e gelada. Andy vestiu o seu casaco.

–Quer uma carona até a sua casa? –Jones a perguntou.

–Nem pensar. –Ela negou enquanto dava os primeiros passos na direção a sua casa.

–Por quê? –Ele a seguiu.

–Não preciso de sua proteção, policialzinho. –Ela virou-se para respondê-lo.

–Mas...

–Nem pense em me seguir.

Jones não entendia o porquê, mas sorriu e continuou olhando aquela garota caminhando pelas ruas vazias. Ele entrou no seu carro e deu uma última olhada no retrovisor.

Ele iria procurá-la. Queria vê-la novamente.

Algo nela era curioso.

Ele gostava disso.

Notas finais
Se tiver algum erro, me avisem. Espero que tenham gostado e até o próximo.