Não Tem Rima
1 1. Ruptura
Notas iniciais

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O teto do seu quarto era branco. E branco também era o sigilo que enredava seus pensamentos. Em nuvens de segredos póstumos, os fluídos se atrofiavam, inacessíveis. A caneta jazia cravada entre os dedos, tal qual a lápide cimentada sobre o túmulo. Fechava os olhos para escapar, para não ter que encarar o abismo de monotonia que crescia e a tragava para dentro de si. A página a cegava, desafiava e acorrentava. E o teto a encarava, vigilante, à espera.
Na solidão entre a caneta e o papel, o branco era ausência e ruído. Era também barreira, um desvio brusco, rumo à imensidão sem volta do vazio. De olhos fechados, a escuridão resgatava o caminho, compadecia-se dos exilados, dos soldados feridos na guerra diária de verbos e de luz. Oferecia portas: a sorte e o mistério. Reconfortava com o voto do silêncio e da solitude. Prometia refúgio para os degredados da rotina e da repetição.
Sob o manto da escuridão repousava um mundo a ser descoberto, escrito, subterrâneo, iluminado. Mundos submersos de cores, de cheiros e texturas; de amores e horrores. De sabores e canções. Mas, ao abrir os olhos para sujeitar-se à urgência do dia, o branco voraz devorava tudo num facho de claridade ofuscante. Alastrava-se como uma força que paralisava e drenava os sentidos, sobretudo o exigente músculo pensante. A realidade se abria, e com ela, a galope, vinha o branco para mutilar as chances do acaso e da possibilidade.
Sempre parecia observar a vida correr através das vidraças de um trem. As paisagens verdejantes, o céu de aurora, a mistura matinal de cores frescas, o aroma da renovação. A cada sinaleiro, deixava um pedaço de mundo e sentidos para trás. Borrões, aquarelas, assombrações. Paletas de cores, de toques, de sensações. As imagens diluíam-se, evaporavam, fugiam do seu alcance. Não havia tempo para o pensamento dentro da pressa. A página aberta no colo, semiescrita e rabiscada, era só chiado de interferência cotidiana. Vazamento que escoara por pressão.
Mas essa era sua nova vida. O horizonte a ser desbravado espreitava com olhos de abutre. Não havia espaço para o arrependimento, para a tristeza, para a esperança do tolo sonhador. Não há mais tempo para a efemeridade das paixões, tampouco para a fragilidade das utopias românticas. É preciso manter-se vivo na corrida. O sucesso prometido do futuro seria seu último suspiro; os papéis rasgados, as belas palavras, descosturadas e tolhidas, meros destroços que remanesceram de uma decisão sábia, acertada. Pulmões secos, coração cansado, cabeça disciplinada, de sinaleiros e ruídos. Guias da razão para a terra do Lugar Nenhum, onde tudo pertencia ao Deus do Branco Ensurdecedor. A presença onisciente de tudo e todas as vozes do mundo ao mesmo tempo.
O golpe do farol vinha direcionado, milimetricamente ajustado, metodicamente posicionado. Passava a compreender, aos poucos, que a cegueira era o único meio possível de sobreviver. As páginas dos livros, que antes eram linguagem terapêutica, agora repousavam em poeira nos museus do esquecimento. A ordem das palavras, que antes criavam efeitos que confortavam como abraços, agora se encaixavam com exatidão na forma e na régua da Ciência. As linhas deveriam permanecer intactas, invioladas. Havia no branco uma derradeira saudade de significado, de conseguir extraí-lo, como antídoto, das letras.
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