Notas iniciais
Eu escrevi esse texto há 2 anos, quando passei por uma crise ferrada de escrita, devido ao ritmo da faculdade. Toda aquela coisa de estágio, da falta de tempo, de ter que produzir trabalhos, artigos, pesquisa. Eu me sentia um robô sem pensamento próprio, sem conseguir escrever uma linha. Foi sufocante. Cheguei a pensar que tinha atrofiado de vez. Mas era só sintoma do estresse, ainda bem. Enfim. Obrigada se você chegou até aqui, espero que tenha uma boa leitura. Não se esqueça de deixar suas impressões. Abraços ♥

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O teto do seu quarto era branco. E branco também era o sigilo que enredava seus pensamentos. Em nuvens de segredos póstumos, os fluídos se atrofiavam, inacessíveis. A caneta jazia cravada entre os dedos, tal qual a lápide cimentada sobre o túmulo. Fechava os olhos para escapar, para não ter que encarar o abismo de monotonia que crescia e a tragava para dentro de si. A página a cegava, desafiava e acorrentava. E o teto a encarava, vigilante, à espera.

Na solidão entre a caneta e o papel, o branco era ausência e ruído. Era também barreira, um desvio brusco, rumo à imensidão sem volta do vazio. De olhos fechados, a escuridão resgatava o caminho, compadecia-se dos exilados, dos soldados feridos na guerra diária de verbos e de luz. Oferecia portas: a sorte e o mistério. Reconfortava com o voto do silêncio e da solitude. Prometia refúgio para os degredados da rotina e da repetição.

Sob o manto da escuridão repousava um mundo a ser descoberto, escrito, subterrâneo, iluminado. Mundos submersos de cores, de cheiros e texturas; de amores e horrores. De sabores e canções. Mas, ao abrir os olhos para sujeitar-se à urgência do dia, o branco voraz devorava tudo num facho de claridade ofuscante. Alastrava-se como uma força que paralisava e drenava os sentidos, sobretudo o exigente músculo pensante. A realidade se abria, e com ela, a galope, vinha o branco para mutilar as chances do acaso e da possibilidade.

Sempre parecia observar a vida correr através das vidraças de um trem. As paisagens verdejantes, o céu de aurora, a mistura matinal de cores frescas, o aroma da renovação. A cada sinaleiro, deixava um pedaço de mundo e sentidos para trás. Borrões, aquarelas, assombrações. Paletas de cores, de toques, de sensações. As imagens diluíam-se, evaporavam, fugiam do seu alcance. Não havia tempo para o pensamento dentro da pressa. A página aberta no colo, semiescrita e rabiscada, era só chiado de interferência cotidiana. Vazamento que escoara por pressão.

Mas essa era sua nova vida. O horizonte a ser desbravado espreitava com olhos de abutre. Não havia espaço para o arrependimento, para a tristeza, para a esperança do tolo sonhador. Não há mais tempo para a efemeridade das paixões, tampouco para a fragilidade das utopias românticas. É preciso manter-se vivo na corrida. O sucesso prometido do futuro seria seu último suspiro; os papéis rasgados, as belas palavras, descosturadas e tolhidas, meros destroços que remanesceram de uma decisão sábia, acertada. Pulmões secos, coração cansado, cabeça disciplinada, de sinaleiros e ruídos. Guias da razão para a terra do Lugar Nenhum, onde tudo pertencia ao Deus do Branco Ensurdecedor. A presença onisciente de tudo e todas as vozes do mundo ao mesmo tempo.

O golpe do farol vinha direcionado, milimetricamente ajustado, metodicamente posicionado. Passava a compreender, aos poucos, que a cegueira era o único meio possível de sobreviver. As páginas dos livros, que antes eram linguagem terapêutica, agora repousavam em poeira nos museus do esquecimento. A ordem das palavras, que antes criavam efeitos que confortavam como abraços, agora se encaixavam com exatidão na forma e na régua da Ciência. As linhas deveriam permanecer intactas, invioladas. Havia no branco uma derradeira saudade de significado, de conseguir extraí-lo, como antídoto, das letras.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.