Imerso em sua reflexão, Antônio não percebeu que a filha esperava que ele dissesse algo, esperava por seu consentimento, se demorasse um pouco mais, ela poderia desmaiar, ela estava pálida e ansiosa, apesar de sua aparente coragem. Ele precisava dizer alguma coisa mas o quê? Que estava tendo um pressentimento ruim? Que seu instinto paterno gritava para que ela se afastasse o quanto antes daquele tipo? Provavelmente ela iria pensar que era bobagem, que o pai estava com ciúmes, com medo de perdê-la. E não deixaria de ser verdade, mas infelizmente não era só isso, quem dera que fosse, se fosse assim ele lidaria relativamente bem com aquilo, vê-la feliz, era isso o que realmente importava. Mas não, ele reconhecera de longe aquele brilho estranho nos olhos do rapaz, aquele brilho se chamava ambição, esse não era o nome correto para se dar a aquilo que ele tinha no olhar. Ele mesmo tinha tido ambição, para ajudar sua família, havia almejado melhorar e ele havia lutado muito pra isso. Porém esse não era o caso de Alex, ele queria sim, melhorar sua condição, mas ele parecia não querer fazer nenhum tipo de esforço pra obtê-lo. Isso era mal. Será que não gostava de sua menina e a estava usando? Preferia não pensar nisso, talvez fosse só a imaginação de um pai que fazia seus olhos se turvarem. E mais uma vez,sua mente se voltou para sua esposa, ela saberia exatamente o que falar para acalmá-lo e saberia orientá-la, saberia ouvi-la, sem que um alarme soasse em sua cabeça a todo momento. Bom, já era a hora de parar com as divagações ou Patrícia iria achar que seu pai estava tendo alguma coisa, como um ataque, a julgar pela expressão preocupada em seu rosto.

''Papai, você está aí?'' — disse Patrícia, apreensiva.

''- Sim filha! Me desculpe! Você me pegou de surpresa! Como vai rapaz?''

''-Bem senhor Nieves, muito prazer em conhecê-lo!''

'' -Digo o mesmo Senhor Alex! Espero que não se incomode com a minha pergunta! Como estou surpreso, gostaria muito de saber como se conheceram!

'' -Mas é claro que não senhor! Eu e sua filha nos conhecemos em um encontro sobre psicologia hospitalar, estou no último ano da minha residência médica, eu estava ministrando uma das palestras.''

''- Muito me surpreende que Patrícia não tenha me falado sobre o senhor, ela voltou tão animada desse encontro''.

''-Receio que ela tenha tido medo de sua reação senhor!''

''- Não sei o motivo, porque eu só desejo a felicidade dela! ''

''- Papai...''

''- Está bem filha! Só quero que saibam que eu desejo a vocês toda a felicidade do mundo!''

''- Obrigado senhor! Mais uma vez prazer em conhecê-lo!''

''- Alex, você não me disse que tinha uma surpresa pra mim?''

''- Sim meu amor, é claro! Vou te mostrar!''

''-Até logo Senhor Nieves!''

''-Até logo Alex!''

''-Vamos meu amor? — disse Alex

''- Vai na frente, que eu estou logo atrás de você!''

Logo que Alex se foi, Patrícia olhou por entre a porta entreaberta para o pai e disse:

— ''Te conheço papai! Alex é uma boa pessoa, eu o amo! Confie em mim!''

E assim fechou a porta atrás de si!

Antônio se pegou imaginando, será que sua mente era tão transparente dessa maneira?

Se levantou e pegou um livro para afastar tais pensamentos.