- Cala a porra da boca! Você só fala merda!

Tipicamente alterado ele tentou alcançar a cerveja. Marc se levantou já de saco cheio, caminhou até a garrafa e a pegou antes do amigo.

— Já disse que você não vai mais beber isso. Já chega.

— E quem é você para... — Se perdeu no meio da frase.

O ruivo caminhou para perto do lago e com força jogou a garrafa para longe, um barulho ecoou quando ela afundou nas escuras águas do lago.

— NÃO! — Gritaram sete pessoas em coro.

— Porque você fez isso? — Jarrell questionou injuriado. — Eu ia beber! — Se lamuriou.

Marc se sentou ao seu lado.

— Eu sei disso. Mas do jeito que você está... provavelmente seria a última que você beberia na sua vida!

— O que você quer dizer com isso? — Pareceu tonto.

— Shhhhh... Tudo o que você diz só comprova a veracidade das minhas palavras.

— Veracidade. — Repetiu, achando graça na palavra. — Você é um assassino. Um assassino de cervejas! Afogou a coitadinha nesse lago podre como se ela fosse uma porcaria qualquer... — Apoiado em um só cotovelo ele se virou de lado, os olhos sendo fechados. — Idiota. — Murmurou antes de cair no sono.

Marc revirou os olhos.

— Esse daí já era. — Disse Camila, se agachando perto dos dois garotos.

Marc olhou para a morena e suspirou.

— Acho que vou leva-lo para casa. — Decidiu.

— Eu não sei porque você faz isso. — Ela confessou. — Sempre fica abrindo mão das coisas para ajudar esse... seu amigo. Nenhuma outra pessoa seria tão boa.

O ruivo mexeu nos óculos e então se levantou.

— Exato. Ele só tem a mim. — Deu de ombros — David, me ajuda a leva-lo até o carro? — Pediu ao amigo que estava mais próximo.

— Tá. — Deu um beijo na namorada e se levantou — Só espero que ele não vomite em mim como da última vez.

— Me soltem seus viados! Cretinos! Me coloquem no chão! — Jarrell dizia enquanto era carregado.

— Obrigado. — Marc agradeceu quando finalmente conseguiram colocar o moreno no banco do passageiro.

— É uma pena que você sempre tem que sair mais cedo. Tá perdendo a melhor parte! Sem falar que a Camila ficou te dando mole a noite toda...

— Você acha?

O ruivo olhou para a morena que acenou sorridente quando percebeu seu olhar.

— Claro pô! Não vem dizer que não percebeu?! Ela tá afim de ti faz mais de uma semana! Todo mundo já sabe, menos você! E fala sério, ela é a maior gata! Se eu não estivesse firme com a Bruninha já tinha pegado aquela bunda há muito tempo!

Marc riu.
— Eu não sei não. Acho que ela só está sendo educada, vocês que veem malícia em tudo!

— Para mim você tá é com medo de não dar conta! Mas vai com fé cara! Você pega essa mina quando quiser, é só estralar os dedos que ela pula no seu colo!

— É, vou pensar. — Olhou novamente para a Camila e deu tchau. — Dá um tchau pra galera por mim.

— Pode deixar. Final de semana tem festa, vê se aparece.

— Se eu não tiver que trabalhar no restaurante, apareço sim.

— É o que você sempre diz, mas você nunca aparece.

— Eu não gosto muito de festas, você sabe.
David olhou para o carro do amigo, onde Jarrell dormia sem fazer barulho.

— Esse cara toma todo seu tempo, como se fosse um filho... Um filho de dezesseis anos, viciado em álcool, que está sempre te metendo em confusões. — Marc cruzou os braços, tentando entender o rumo daquela conversa. — Eu só estou dizendo o que todo mundo pensa, não me olhe assim. Você é um cara tão bacana, não precisa desse parasita sugador de vida na sua aba. Dá um fora nele.

— Não sei do que você está falando. — Disse ríspido, tentando entrar no carro, mas David o impediu.

— Sabe sim! Eu estou falando desse seu amigo aí! — apontou — Só esse mês ele foi suspenso duas vezes por vandalismos na escola! Ele é insolente, vive te pedindo dinheiro, é grosso e te trata como se fosse um escravo! Ele nem se importa com você! Tudo mundo sabe que ele só te tem por perto porque você sempre limpa a bagunça que ele faz! Poxa, o cara é o maior mau-caráter que existe!

— Ele é meu amigo! Nos conhecemos há anos! Somos praticamente como irmãos...

— Não acho que ele pensa da mesma forma.

David viu o rosto do amigo se transformar pela preocupação.

— O que quer dizer? — A voz era firme, o olhar direto, por mais que quisesse esconder, aquelas palavras o machucavam.

Por dentro David sentiu o coração amolecer. Marc era inocente demais para entender que Jarrell não gostava dele. Desde a primeira vez que David viu como o outro tratava o colega percebeu o interesse, a manipulação por detrás daquelas palavras. Marc era o cachorrinho de Jarrell, a pessoa para quem ele ligava quando estava com algum problema, que pedia cola na hora das provas, que sempre o acobertava, que pagava as suas contas nos bares das redondezas e que bancava as suas saídas a noite. Marc não se importava em arrancar os próprios olhos se Jarrell pedisse, de oferecer o próprio sangue, fígado e coração em uma bandeja, contanto que os dois possam continuar sendo amigos, ou como ele preferia pensar: irmãos. Ele só queria agradar o outro, faze-lo saber que pode sempre contar com a sua ajuda. Não era apenas uma questão de manter a consciência limpa, de ser prestativo com um vizinho, era algo além, quase uma obsessão.

David sabia que alguém precisava abrir os olhos dele, dizendo a verdade, que Jarrell era um cretino aproveitador e que ele tinha que parar de ajuda-lo. Não era justo que o ruivo continuasse se rebaixando daquela forma humilhante toda vez que o moreno acordasse sádico. Marc não tinha nenhuma obrigação com Jarrell, eles não são nada um do outro. Mas David também sabia o quão machucado Marc ficaria se descobrisse que esse tempo todo não passou de um brinquedinho, que esse tempo todo esteve sendo usado por um idiota. Ele ficaria arrasado. E David não queria ser o responsável por algo assim.

— Nada, é besteira, deixa pra lá. — Sorriu amigável. — Dirija com cuidado. E vê se não atropela ninguém! — Brincou.

— Vou tentar.

Entrou no carro e deu partida.

Como não gostava de ficar no silêncio, ligou o rádio. Passava da meia-noite e não tinha quase ninguém nas ruas. Tentou se concentrar na direção, mas não conseguiu parar de pensar no que David disse ou no que ele insinuou dizer, mas que não teve coragem.

— Eu odeio essa música.

Jarrell acordou pouco tempo depois, a cabeça doendo como se tivesse levado um soco muito forte.

— Problema seu.

O moreno sorriu malicioso.

— Nossa, a princesa está com TPM?

— Vai se fuder, Jarrell.

Tirou o cinto de segurança e se debruçou contra o ruivo, uma mão indo para a sua coxa e a boca quase encostando no seu ouvido e então sussurrou da forma mais lasciva possível:

— E que tal se fosse você a ser fodido? Eu sei que você iria adorar... Já imaginou? Três homens te colocando de quatro e...

Com um braço Marc o afastou com força, fazendo-o bater com tudo na porta do carro. Jarrell riu alto.
— Nem se eu tivesse bebido tanto quanto você! E agora vê se coloca o cinto, idiota.
Jarrell colocou.

— Porque você não admite logo esse amor louco que você sente por mim?

Marc gargalhou. Jarrell estava mesmo muito bêbado.

— De louco aqui só tem você! Bebeu todas e agora fica delirando no meu ouvido.

Jarrell ficou em silêncio por um longo momento e Marc o encarou para ver o que tinha acontecido.

— Eu adoro sua risada. — Disse sério.
Marc riu e mostrou o dedo do meio para o moreno.

— Para de dizer bobagens antes que eu te jogue do carro em movimento!

— Faz isso que eu te processo.

— Nenhum juiz me condenaria.

Jarrell sorriu com ironia.

— É possível, mas se isso acontecesse você jamais se perdoaria. — abriu a janela do carro para sentir o vento bater contra o rosto — O seu problema é que você tem um bom coração.

— Não, o meu problema é você.

Jarrell o encarou com frieza.

— Isso foi o que aquele cavalo te disse?

Marc riu.

— Cavalo? De quem que você está falando?

— Do namorado daquela putinha loira que ficavam se agarrando.

— Lá todos estavam se agarrando, se você não percebeu.

— O de piercing no nariz e cheio de tatuagens. Que te ajudou a me carregar até o carro.

— David?

— É, esse mesmo.

— Você escutou a nossa conversa? Pensei que você estava dormindo. — Disse indiferente

— Parece que os seus amigos não gostam muito de mim.

— Isso porque eles não te conhecem. Mas não estressa, David é um mulherengo que se acha o tal, eu jamais daria ouvidos ao que ele diz.

Marc lançou um olhar doce a Jarrell, o que o deixava ainda mais parecido com a sua mãe.

— Talvez ele não esteja totalmente errado.

— O que? — Ficou surpreso.

Com um sorriso desdenhoso disse:

— A Camila não é de se jogar fora, na verdade, é até gostosinha, pena que não faz o seu tipo.

Os ombros de Marc se relaxaram e mais descontraído ele quis saber:

— E como você sabe que ela não faz o meu tipo?

— Ela faz? — O encarou sério.

— Não.

Riu.

- Então pronto.

Quando chegaram o ruivo teve que ajudar o amigo a sair do carro.
— Deixa eu dormir na sua casa? — Pediu.

— E qual o problema com a sua?
— Meu pai. Eu não quero que ele me veja assim.
Marc suspirou.

— Como se ele não conhecesse o filho que tem e soubesse que você passou o dia bebendo, para variar.

— Por favor.

Aqueles olhos...

— Tudo bem, mas não se acostume. E se a minha mãe perguntar você perdeu a chave e não quis acordar seu pai, entendeu?

Jarrell sorriu com gratidão.

— Entendi.

Entraram na casa em silêncio, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Subiram as escadas e entraram no quarto escuro. Marc ascendeu a luz.

- Você vai dormir no chão. — Ele decretou.

Jarrell sentou na cama do amigo.

- Eu disse no chão. O que pensa que está fazendo?

- Esperando você encher o colchão para eu dormir.

- Eu? Quem disse que serei eu a encher?

- A matemática. Eu mais bebida é igual...

- A um Marc com dor de cabeça?

- Olha só, quem disse que a bichinha sabe contar?

Marc bufou, retirou os óculos e foi buscar o colchão de ar no fundo do seu guarda-roupa. O encheu com uma bombinha e então esticou no chão.

- Pronto, agora pode saindo já da minha... — olhou para Jarrell dormindo de qualquer jeito nos seus lençóis limpos — ...cama.
Cruzou os braços e olhou para o colchão de ar jogado no chão, odiando a própria vida.

"O seu problema é que você tem um bom coração", talvez ele estivesse certo, afinal.

Notas finais
Vou dar biscoitos a quem comentar.