Notas iniciais
Escrevi tudo muito rápido, espero que não tenha tantos erros. Ah, falando nisso, se alguém quiser ser beta...

Você precisa se divertir, tem que esquecer um pouco o trabalho, precisa viver, sair, conhecer alguém; estava cansado de escutar esse tipo de comentário. Ninguém entendia. Ali todos pareciam obrigados a servir, ninguém aparentava contentamento, mas esse não era o caso de Jarrell. Ele estava feliz onde estava, mesmo o começo tendo sido difícil para se encaixar e se acostumar à tantas regras ele havia conseguido, finalmente fazia parte de algo significativo.

Logo quando chegou pensou que se sentiria excluído pelo resto da vida. Seus superiores não pegavam leve com novos soldados e faziam de cada dia um filme de terror. Descobriu cedo demais que hierarquia era a palavra-chave para tudo. Ninguém estava livre de pagar um castigo ou passar por uma humilhação. O tempo todo ele era posto à prova e o seu psicológico era prejudicado sem rancor, porque ali ninguém tem dó de ninguém. Cada um por si, essa era a regra. Ao menos com isso Jarrell não tinha problema, ver injustiça e passar por humilhação já eram rotineiros para ele, tanto que durante muito tempo se mostrava indiferente à tudo, até ao sofrimento de seus colegas de regimento.

Morava com mais doze homens em um pequeno dormitório, um dos muitos que eram oferecidos aos novos cadetes. Não era grande coisa, sua cama era dura e o colchão fino; nas primeiras três noites não conseguira dormir, mas em menos de um mês podia muito bem dormir no chão que não veria a diferença.

Os horários eram apertados, acordava todo dia às cinco horas e só parava à meia-noite, às vezes chegando a emendar mais uma noite e o outro dia também. Ainda cadete, o limite de tempo que passou trabalhando sem descanso foram cinquenta e cinco horas, mas ouvia rumores de alguém que passara três dias sem parar.

Suas folgas eram raras e quase todas passadas com os poucos colegas que tinha em bares e botequins.

No seu primeiro ano como cadete praticamente não havia conhecido nada sobre a nova cidade com exceção de livrarias, restaurantes baratos de comida japonesa, antigas lojas de discos e algumas dezenas de exposições de pintores desconhecidos feitas em praças públicas, na entrada de parques e na beira de avenidas, onde sempre tem muita gente apressada que não está nem ai para arte. Jarrell não entendia muito de quadros, desenhos, mas gostava de admira-los mesmo assim. Não só aqueles que eram alegres, com cores vibrantes e de fácil entendimento, gostava também dos mais deprimidos, adorando a complexidade dos detalhes e a forma como o pintor dava vida aos cenários mais inéditos e chocantes. Ele gostava de não entender, achava excitante tentar compreender a mensagem escondida por detrás de uma imagem, era sensual se sentir desafiado.

Desafiado... Foi assim que se sentiu quando chegou. Todos o encaravam como se quisessem dizer: o que esse caipira pensa que está fazendo aqui? No começo sentiu vontade de arrumar confusão com cada um que o provocava, mas percebeu que o melhor contra-ataque era provar que ele era capaz, não, não só capaz, ele queria provar ser melhor que todos os outros.

Não foi difícil se acostumar com a nova rotina, com os novos rostos. Tentava sempre manter os pensamentos em ordem, focados no serviço. Não tinha tempo para ter saudades, para pensar em ninguém. Estava sempre trabalhando. Igual a uma máquina. E nos raros momentos que não estava trabalhando, ficava isolado, pensando em coisas que não pareciam pertencer a aquele mundo.

Falava pouco sobre o passado, parecendo sempre evitar tudo relativo que possa fazer o assunto se tornar este. E quase nunca sorria. Às vezes algumas pessoas o classificavam como uma pessoa solitária, mas poucos realmente tinham coragem de tomar alguma atitude para mudar isso, mas Jarrell não ligava para isso, até o agradava que fossem assim. Ele não estava ali para fazer amigos, o único a quem queria impressionar era a si próprio e a mais ninguém, ainda que, foi por este seu jeito de ser que acabou ganhando o respeito e admiração de gente muito importante do seu regimento.

Ninguém era mais esforçado. Cansou de passar noites em claro estudando para exames, de passar horas na academia ganhando condicionamento físico, ou de treinar a mira três ou quatro da manhã só para que em testes seus tiros fossem os mais precisos e eles sempre eram. Até em feriados, quando todos queriam relaxar e esquecer toda a pressão, ele era o primeiro a se oferecer para qualquer trabalho disponível, interessado no dinheiro e na experiência extras. Também estudava outras línguas e tentava repor o aprendizado que não aprendeu na escola.

No início ninguém entendia porque ele se esforçava tanto, mas o tempo acabou tirando todas as dúvidas.

Aos vinte e cinco anos era o melhor atirador e o mais resistente soldado, com o melhor histórico de notas, tornando-se também o mais requisitado entre todos os outros. Sua disciplina exemplar, seu sangue-frio e coragem ímpar o fizeram reconhecido pelo bom-senso e por nunca ter perdido homem nenhum em sua equipe. Ele jamais deixava um homem para trás, fosse qual fosse o seu estado ele o colocava nas costas e o salvava da morte. Todos confiavam em Jarrell e se sentiam mais protegidos quando ele estava por perto.

Seus feitos eram lendários, seus recordes insuperáveis e seu carisma e disposição inatingíveis. Ele não tinha medo de nada, não sentia remorso e tampouco se deixava abater com a pressão que todos colocavam em seus ombros. Não entendia porque todos o tratavam como se fosse especial, para ele aquilo não tinha nada a ver com talento, era só trabalho. Ninguém devia engrandece-lo por ter sido bem sucedido em uma missão porque essa é uma obrigação dele. Ele está sendo pago para ser bom. Mas o que mais o enfurece e que sempre permanecerá como um mistério principalmente é como cada bala que ele aceita no coração do inimigo pode ser comemorada. Ninguém entende que tendo motivo ou não é uma morte do mesmo jeito e uma morte jamais deve ser comemorada, não importa as circunstancias. Não se trata de religião, se trata de integridade.

- Você sabe que eu não gosto dessas reuniões, prefiro ficar e ler alguma coisa. — Ele não estava tentando argumentar, aquela era sua resposta final.

Mesmo sabendo que isso provavelmente o irritaria Marcos voltou a insistir, afinal, ele não podia deixar o amigo sozinho em um dia como aquele.

Alguns diriam se tratar de burrice, outros imaturidade, mas o jovem soldado continuou a dizer ao seu comandante, tomando posse de uma camaradagem entre os dois que Jarrell desconhecia.

- Cara, claro que você — Quem lhe deu o direito de se referir a mim por 'cara', como se eu fosse um dos seus amiguinhos do colegial? pensou Jarrell, piscando duas vezes rapidamente, se forçando a não fazer a pergunta em voz alta. — não prefere isso! — Ele praticamente gritou, aproveitando que o alojamento estava vazio e não iria acordar ninguém. — Vai ter um monte de gostosas lá! Você tem que ir cara! Os rapazes vão estar todos lá! Vai ser divertido!

Jarrell cruzou os braços, os músculos quase rasgando a camisa e encarou o colega. Odiava esse comportamento infantil que o mais novo sempre assumia ao final das missões. Continuou ouvindo com educação.

Marcos balançava os as mãos no ar, gesticulando alguma coisa, parecendo tão animado quanto uma criança. Era apenas três anos mais novo, mas entre os dois existiam grandes diferenças. Jarrell era frio e reservado, já Marcos se encaixava mais no estilo espontâneo, popular, que adora fazer amigos, completamente diferente de Jarrell, ainda assim o loiro parecia entre todos os outros da sua equipe o mais interessado em se aproximar do capitão.

- Pô Jarrell, nós precisamos comemorar! Vai cara, se permita ser feliz pelo menos uma vez na vida! Você trabalha demais. Vamos sair, beber umas! Quem sabe você não encontra uma garota gostosa do tipo certinha como você gosta e ela te dá mole, hein? Não ia ser legal? Sei que você não deve fazer isso há um tempão... Vai cara, não custa nada. Tá todo mundo torcendo para que você vá! Eles querem ouvir você contando como foi lá no Iraque.

- Pensei que você já tivesse contado essa história um milhão de vezes.

- Pois é, mas eles dizem que fica mais real quando é contada por alguém que estava lá e eu não 'tava! Vamos cara, sai disso daqui, você não está morto não! Vamos pegar umas gatas, respirar uns ares diferentes... sei lá. Então, você vai?

Jarrell imaginou o lugar onde eles iriam se encontrar: Um barzinho suspeito, em algum beco escuro que ninguém conhece, onde serve uma comida de aparência estranha, frequentado apenas por prostitutas, traficantes e jovens delinquentes que procuram uma aventura fácil e barata.

Não precisava ser nenhum gênio para saber qual a resposta.

- Eu não me sentiria bem, mas obrigado. — Tentou não ser grosseiro.

Marcos não conseguiu esconder a decepção. Há tempos tentava levar o amigo à farra, mas este sempre se recusava veemente, como um padre que rejeita a carne de uma mulher em nome da fé.

- Um dia você vai acordar e estará velho e decrépito e se arrependerá de não ter aproveitado mais a vida quando teve chance! — Decretou, como uma sentença.

Jarrell sorriu.

- Quando esse dia chegar eu te avisarei.

Com a pior das caras Marcos saiu, sem dizer mais nada, talvez cansado de tentar ajudar o amigo que não queria ser ajudado.

Jarrell ficou um tempo parado, o pensamento distante, sentindo a sensação de solidão toma-lo novamente, como uma serpente que envolve a presa antes de devora-lo. Respirou fundo até que o coração parasse de pulsar em seus ouvidos. A imagem que veio em sua cabeça de si velho e infeliz era quase assustadora. No fundo, não era a velhice em si e nem a infelicidade que o perturbavam, mas a chance de que um dia ele possa se arrepender. Se arrepender de não ter vivido, de ter se alistado, de não ter ficado, de não ter tentado. Tentado amar.

Balançou a cabeça, jogou o pensamento para longe. Não queria pensar nessas merdas, não depois de tudo o que fez para esquece-las.

Notas finais
Um comentário seria legal.