Não Me Julgue. - HIATUS
12 Capítulo 11
Notas iniciais
Houve uma pausa demorada, seguida por um longo suspiro e só então ela se explicou. A voz cansada como a de alguém prestes a cair no sono. Caminhou até o sofá, mas não se sentou. Levou as mãos à cintura enquanto contava o que tinha acontecido.
– Nós tínhamos planejado um pequeno jantar na minha casa. Era para ser algo simples, só ele, meus pais e eu. Minha mãe preparou macarrão com almondegas e meu pai comprou... – pausou, limpando uma lágrima que quase fugiu do seus olhos — ...Ele comprou um vinho caríssimo... Naturalmente, eu não bebo, mas aquela era uma noite especial. — fungou — Eu estava tão animada... O Marc seria o primeiro namorado que eu apresentaria para os meus pais e tudo tinha que ser perfeito. Eu até vesti um vestido florido e olha que eu não gosto muito de vestidos... Mas eu queria ficar bonita para aquela noite. Queria ficar bonita para o meu namorado. Você entende? — Encarou o moreno, que escutava tudo com os braços cruzados e uma expressão cautelosamente interessada.
– Não! Claro que não. — Caminhou até a porta de sua casa e a fechou, vendo que aquela conversa iria demorar, para o seu desagrado. — Eu não sou uma garotinha apaixonada para ficar perdendo meu tempo com essas bobagens.
– Então você acha que o amor é uma bobagem? — Aquilo a chocou. Mesmo que as atitudes do moreno provassem o contrário, tentava acreditar que no fundo ele tinha um bom coração.
– Amor? — Gargalhou — Não me faça rir! — Moveu-se até a garota — Agora só falta-me dizer que acredita também em fadas e duendes? Nossa você é ainda mais inocente do que eu imaginava. É óbvio que eu NÃO acredito nessa besteira! O amor não existe. É só uma forma que a sociedade encontrou para nos prender, nos obrigar a fazer parte do sistema, assim formamos famílias, laços e podemos ser controlados pelos governantes. Tudo é questão de poder. Esse é o único motivo: o amor só existe para tornar as pessoas frágeis e vulneráveis, expondo-as ao máximo para que assim elas se tornem fracas e manipuláveis. Assim pessoas como você, inseguras e possessivas, poderão sentir-se mais confiantes, dizendo a si mesmas que jamais serão trocadas, pois a base, aquilo que sustenta e dá suporte as suas relações é um sentimento forte, que não se sente e nem se vê, mas que une as duas almas e as transformam em uma só. Como duas metades de uma maçã que se unem. Mas o que você está esquecendo é que nós, seres humanos, não somos frutas. Somos animais, independente da nossa inteligência, somos iguais aos outros. Carnívoros, Herbívoros ou Onívoros. Tanto faz. Nós somos todos animais e tudo tem a ver com perpetuar a espécie, ou seja, sexo. Sem sentimentalismo barato e devoção religiosa, simplesmente uma resposta prática e grossa.
– Como você. — Malu reagiu. Jarrell sorriu com ironia.
– Não é surpresa você se mostrar tão tola e cega, afinal você é uma Barbie, brinquedinho de criança, qualquer um pode te manipular e fazer o que quiser com você, até porque foi para isso que você foi feita. Barbie não tem cérebro, não é mesmo? São apenas rostinhos bonitos em corpos artificiais. Duvido que algum dia você possa ser capaz de perceber que a vida é mais que um shopping e uma bela bolsa de marca.
Malu suspirou.
– Olha, eu não vim aqui para ser ofendida.
– Então vai embora. Garanto que não vou tentar te impedir.
– Só se você prometer que vai falar com o Marc.
– Diga por que eu devo fazer isso, que pensarei no assunto.
O olhar da garota atravessou o rapaz e a resposta foi dita com fúria e sinceridade.
– Porque você é o amigo dele! Porque é o certo! Porque ele sempre se importou com você e agora é a sua vez de retribuir isso!
– Eu nunca pedi que ele me ajudasse em nada! Foi ele quem sempre se ofereceu!
– Eu sei disso. — Uma pausa — Marc sempre falou muito de você para mim. Sempre. E quando ele falava dizia tudo com tanta verdade e entrega na voz... Que quase me convenceu. — Ficou em silêncio.
– Te convenceu do que? — Questionou sem paciência, detestando aquele joguinho.
– Que você gostava dele. Que se importava.
– Você não sabe de nada!
– Sei que você está agindo como um idiota orgulhoso e que está virando as costas para o seu melhor amigo quando ele mais precisa de você!
– Ele não é mais meu amigo! — Quase gritava — E tudo por sua culpa!
– Minha culpa? — Franziu o cenho, sem ver lógica naquela afirmação.
O moreno queria bota-la para fora a pontapés, mas tentou se controlar.
– Não se faça de sonsa. Sei que foi você quem disse para ele se afastar de mim. Imagino que tenha sido bem fácil até. Aquele cabeça-de-vento não pode ver alguém querendo foder com ele que fica completamente louco! Foi só você falar que iria dormir com ele que o tinha em suas mãos. Parabéns, você conseguiu. Agora não venha dar uma de arrependida, inventando mil mentiras, porque eu não acredito em você, cascavel! Agora saia da minha casa e volte para o seu castelo de cristal! Esse conto-de-fadas acabou!
– Eu não fiz isso! Não sei do que você está falando! Porque é que eu tentaria separar você do Marc? Ao menos pensou nisso? O que eu ganharia com isso?
– Você me afastaria. Me tiraria de cena. Acha pouco? Tá na cara que eu não gosto de você, eu nunca escondi isso. Comigo longe você se sentiria mais segura, já que eu não estaria mais fazendo a sua cova para o Marc.
Malu sorriu sem acreditar no que estava escutando.
– Onde está o seu juízo? Por favor, saia e vá busca-lo agora mesmo. — Levou a mão à testa, como se checando se estava febril — Essa foi a maior besteira que eu já ouvi! Quem você acha que eu sou? Uma agente do FBI infiltrada na sua vida com intuito de roubar o seu melhor amigo? Olha, cara, isso não é verdade. Eu não me importo se você não gosta de mim, sério mesmo. Até admiro a sua coragem em admitir isso na minha frente. Prefiro esse seu jeito grosseiro e sincero do que as pessoas falsas que moram na minha rua. Além do mais o que você pensa ou deixa de pensar de mim não importa, não é você quem eu namoro, é o Marc. Tá entendendo? Eu jamais pensei nisso. Nunca, nunca mesmo. Marc não tem muitos amigos, então porque eu tentaria espantar aquele em quem ele mais confia? Eu só quero ser a namorada dele, não a dona.
– Se isso é verdade, e eu não estou dizendo que acredito em você, então porque ele tem fugido de mim?
A garota deu de ombros.
– Já passou pela sua cabeça que talvez a culpa seja sua? Sei lá. Quem sabe ele não tenha se cansado de ser seu empregado sem salário... — Deu de ombros — Juro que não sei. Para mim vocês estavam se falando normalmente, mas parece que nas últimas semanas o Marc resolveu dar um chute na bunda de todos que gostam dele. — Murmurou com os olhos chorosos, como os de uma criança.
Jarrell encarou a menina com seriedade.
– No seu caso parece ter sido pior. Ao menos eu saí com alguma dignidade, enquanto você foi chutada depois de perder a virgindade com ele. — Malu o fitou assustada. — É. Disso eu sei. — Ele falou sem dar importância. — Parece que o seu príncipe encantado gosta de contar história sobre os seus grandes feitos... E eu que pensava que a nobreza era mais discreta quanto a isso. Pois é, parece que me enganei. Quem sabe um dia ele não resolva escrever um livro sobre tudo isso? Poderia ganhar rios de dinheiro... Mas qual seria o título? Uma noite com...
– Isso não é uma disputa Jarrell! Será que não vê? Não estamos disputando para ver quem saiu melhor disso tudo. Até porque, se você estivesse tão bem informado quanto imagina, saberia que eu não perdi minha virgindade coisa nenhuma com ele.
– Ah, então o Marc não foi o primeiro? — Indagou com malicia. — Bem que eu suspeitava.
– Quem você acha que eu sou? Tenho cara de meretriz, por acaso?
– Não me faça responder...
Demorou mais de três segundos para que Malu conseguisse responder sem xinga-lo.
– Eu não deveria nem te responder, mas não quero deixar espaço para que sua mente pervertida imagine coisas errados ao meu respeito. Eu sou uma garota de família e ainda sou virgem.
Jarrell riu.
– De família? Só se for de TODAS as famílias! Queridinha, detesto acabar com a sua fantasia, mas quando você dorme com alguém, deixa de ser virgem. Sei que para uma mulher é legal dizer que ainda é virgem, mas assuma sua promiscuidade, você se sentirá liberta, acredite.
– Disso você entende. — Ela soltou sem sorrir. — Mas seria errado eu dizer que não sou mais uma coisa, sendo que ainda sou. Entende? Eu não dormi com o Marc. — Sussurrou a ultima parte olhando para a escada para ver se não havia ninguém escutando.
– Que?
– Você escutou.
– Você e o Marc não...
– Não.
Ele riu desacreditando.
– Mentira.
– Estou falando sério. É o que eu estava dizendo antes de você começar a discursar sobre a mentira que é o amor. Naquela noite, quando o Marc foi até a minha casa conhecer meus pais, ele agiu muito estranho. Não parecia ele. Ele estava apático, sem humor, com pressa, como se estivesse agoniado. Sei que conhecer meus pais deve tê-lo deixado nervoso, mas também não era para tanto. Ele mal falou três palavras durante o jantar. Mamãe foi compreensiva, mas papai ficou cismado, passou a semana toda dizendo que ele não era bom suficiente para mim e que eu merecia coisa melhor. Eu não concordo, é claro, mas não tem quem o faça mudar de ideia.
– E o que eu tenho a ver com isso?
– Não tem. — procurou pelas palavras — Enfim, depois do jantar, quando Marc e eu fomos para a casa dele ele me levou para o quarto... Mas na hora... Você sabe, na hora "H", ele desistiu. Eu não sei o que eu fiz de errado...
– Como assim ele desistiu? — Seu coração acelerou.
– Desistindo, ué. — Deu de ombros, tristonha. — Disse que não podia fazer aquilo, que era errado. Ele parecia perturbado... Quase que em pânico. Eu não sei o que o deixou desconfortável. Nós até... Tentamos uma vez, mas não deu certo, ele estava muito nervoso. Acho que eu devo tê-lo pressionado muito. Mas o mais estranho é que eu sentia, no fundo do meu coração, que ele queria muito fazer aquilo comigo, mas tinha algo o prendendo, impedindo que ele continuasse... Sei lá, foi só uma impressão que eu tive. Você sabe né? Quando uma pessoa te olha com luxúria, te devorando com o olhar, e você sente que naquele momento você é tudo que essa pessoa quer. Foi assim que ele me olhou... Juro que pensei que ele me queria, mas acho estava me enganando esse tempo todo. Mas o que mais me incomoda é não saber por que ele terminou comigo. Tem que ter um motivo. Ele não pode simplesmente ter piscado os olhos e decidido que não me queria mais. As coisas não acontecem assim. Agora eu me pergunto: será que é porque eu não sou bonita o suficiente? Ele me acha feia? Gorda? Porque é que ele terminou comigo?
– De uma coisa eu sei: definitivamente ele não estava com você por causa da sua aparência. — Malu não sabia se aquilo era ou não um elogio.
– Então o que você acha? Como melhor amigo você deve entendê-lo um pouco melhor que eu.
– Sinceramente? — Ela assentiu — Eu acho que ele acordou. — Foi curto e grosso. — Já estava na hora dele dar um chute nesse seu traseiro gordo.
Os olhos da garota se arregalaram, uma lágrima rolando pela sua bochecha gordinha. Sem se importar, Jarrell saiu da casa, ignorando a visita, e marchou até a casa da frente. Tinha quase certeza de que não o encontraria em casa, mas não custava nada tentar. Bateu várias vezes na porta, até que a empregada abriu.
– Ele está em casa? — Foi logo entrando.
– O pai ou o filho? — Fez a pergunta mais óbvia que sua mente brilhante conseguiu bolar.
– O pai, afinal, eu estou mesmo pensando em virar sócio na empresa dos Miller! Não gênio, é claro que é o filho! Onde o Marc está?
– Ele...
– Deixa pra lá, eu mesmo procuro.
Subiu as escadas correndo. Entrou no quarto do amigo, mas não encontrou ninguém. Desceu as escadas e foi até a cozinha. Katia estava retirando alguma coisa do forno quando ele apareceu.
– Ai! — Gritou assustada quando se virou, dando de cara com o moreno bem diante de si. — Quer me matar de susto garoto? — Tomou folego. Levou a travessa até a pia — De novo? Quantas vezes eu tenho que pedir para você não ir entrando na minha casa como um ladrãozinho? O que custa avisar? Seus dedos não vão cair se você demostrar um pouco de consideração!
– Sandy — (a empregada) — foi quem abriu para mim, então se quer culpar alguém, culpe ela. Onde está sua cria?
– Eu não tenho cria, porque não sou uma cadela. E não, jamais culparia a Sandy, porque não é ela a culpada por você existir. Pode deixar que terei uma conversinha com seu pai em breve. E a respeito do Marc... Bom, graças a Deus, só ele sabe o quanto esperei para te dizer isso, não acho que meu filho queira te ver.
– Você está enganada.
– De um jeito ou de outro, não importa, pois não sei onde aquele pivete se enfiou.
– Vejo que você não está concorrendo ao premio de mãe do ano dessa vez. — Alfinetou.
– Não, dessa vez a sua que está. — Katia mordeu a língua percebendo o erro que tinha cometido, se virou e encarou o menino. Jarrell ficou calado, paralisado. Não espera ouvir aquilo. — Desculpe querido. — Ela caminhou até ele e segurou as mãos um tom mais brancas que as suas. — Falei sem pensar. Não quis te magoar.
O mais novo sorriu cativante, fazendo a loira relaxar.
– Tudo bem, se minha mãe estivesse viva, concordaria com você.
– Assim ela poderia colocar mais esse prêmio junto com os vários que ela recebeu quando ainda era atleta olímpica.
Jarrell olhou bem para os olhos verdes de Katia, tão iguais aos do filho, cheios de vida, brilhantes e caridosos. Não importava se estavam sempre implicando um com o outro, Katia era como uma mãe para o jovem moreno, que no fundo, sabia que também era como um filho para ela. Desde a primeira vez que a vira ele se sentiu amado, querido e acolhido. Não tinha como explicar. Ele sequer pôde escolher. Era como se estivessem destinados um para o outro. A vida tirou sua mãe, mas o destino colocou outra, não no mesmo lugar, porque ninguém jamais poderia ocupar o lugar da mãe biológica, mas em um cantinho tão especial quanto. Era assim que o moreno via Katia: sua segunda mãe, a mãe viva, capaz de abraça-lo e de amá-lo.
– Quando seu filho voltar, diga que quero vê-lo. — Pediu.
– Se eu lembrar. — Ela sorriu de lado. — Só se eu lembrar.
Jarrell voltou para sua casa, foi até a garagem e saiu com o Volkswagen Passat, 1983 verde do pai.
– Onde você vai? — Malu correu até o carro — Hein?
– O que você ainda está fazendo aqui? Vai embora!
– Não saio daqui até você me prometer que vai falar com ele!
– Como posso falar com uma pessoa que não sei onde está?
A garota refletiu.
– Neste caso eu vou junto. — Abriu a porta do carro.
– Nem pensar, Lulu da Pomerânia. Você vai ir embora! Eu não sou pago para cuidar de crianças! — Fechou a porta.
– Jarrell... — começou a dizer, manhosa.
– Bye, bye Barbie. — Deu partida e foi embora.
– Desgraçado. — Malu resmungou consigo mesma.
Dirigiu alguns minutos até o restaurante onde provavelmente o amigo estaria trabalhando, apesar de ser sábado. Saiu do carro e adentrou o comercio, segurou a primeira garçonete que viu pelo braço e a puxou para um canto.
– Ei, cara, tá doidão? Me solta meu, tá apertando! — Ele a soltou. — Que foi, hein? Se for proposta indecente a resposta é não. Posso ser garçonete, mas não sou vadia, então te aconselho a sair logo daqui antes que eu chame o gerente. O quê você tem, hein? Aposto que bebeu demais e agora ficou louquinho das ideias...
– Desculpe — interrompeu, não aguentando aquele falatório infernal. — estou procurando o meu amigo.
– Tá escrito: achados e perdidos na minha testa? Se você perdeu alguém, sugiro que vá a polícia ou procure nos catálogos. — Disse, mascando o seu chiclete.
– Ele trabalha aqui. É ruivo e alto... O nome dele é Marc, você deve o conhecer, pode chama-lo por favor? Estaria me fazendo um grande favor. — Insistiu mesmo assim.
– Se eu quisesse fazer favores, seria voluntária em uma ONG, não acha gracinha? Mas ao invés disso o que eu virei? Garçonete! Maldito dia que eu fui me deitar com um homem branco! Homens brancos só arrumam dor de cabeça para pessoas como eu e isso não é de hoje!
Jarrell respirou fundo.
– Por favor.
A garçonete cruzou os braços, mirou o garoto dos pés à cabeça e então bufou.
– Você está procurando o "garoto-sorriso"?
– É. Nós somos amigos.
– Amigos? Eu duvido muito... Então como explica o seu "amiguinho" ter pedido demissão há duas semanas e não ter te dito nada? Vocês brancos tem sérios problemas de comunicação... É o que eu acho. Depois ficam ai, botando a culpa de tudo nos negros, dizendo que...
– Ele pediu demissão? — Repetiu.
– Foi o que eu disse. É surdo além de tudo? Sinceramente, eu tenho é inveja. Se eu pudesse, também cairia fora desse hospício.
– Ele ao menos deu um motivo? — Quis saber.
– Querido, eu sou só uma garçonete, não me meto na vida dos outros, esse é meu lema. Entendeu? Se quiser saber, pergunte ao seu amigo e não a mim. Agora, dá licença, eles não me pagam para flertar com bonitões. — Se afastou.
O moreno ficou parado alguns instantes, absorvendo aquilo tudo. Em seguida voltou para o carro e começou a dirigir pela cidade, parando em todos os lugares que Marc costumava frequentar. Ligou para o celular dele, mas estava desligado, tentou o telefone de alguns colegas, mas ninguém o tinha visto em lugar nenhum. Ele simplesmente tinha desaparecido naquelas ultimas duas semanas. Depois de algumas horas, não tinha mais onde procurar. Parou no antigo lago da cidade, lugar que frequentemente vinha com o ruivo e seus amigos. Ficou parado ali por vários minutos, observando o movimento das águas, até que uma lembrança o tirou dos seus devaneios. Lembrava-se de uma vez Marc tê-lo levado até aquele lago para ler gibis, os dois passaram horas lendo, até que a noite caiu e ambos tiveram que ir para casa. Aquele era o passatempo preferido do ruivo. Imediatamente Jarrell voltou para o carro e dirigiu vinte minutos até a maior loja de gibis da cidade. Estacionou o carro no meio fio e praticamente correu para dentro da loja, assustando o vendedor que provavelmente tinha a mesma idade que a sua, tratou de se manifestar.
–Boa tarde. – disse sorrindo educadamente. — Em que tipo de gibi está interessado, senhor?
Os olhos do moreno varreram a loja. Marc não estava ali.
– Estou procurando...
– Suspense? Terror? Eu tenho um estoque ótimo aqui! Mas se estiver interessado em lançamentos, acabou de chegar a nova edição do Superman que vai te deixar louco! — Falava empolgado, ajeitando os óculos fundo-de-garrafa.
– Louco eu vou ficar se você não parar de falar e me escutar. — Ameaçou sem alterar a voz — O que eu quero saber é se um cara ruivo, de um metro e setenta e pouco, quase um metro e oitenta, de dezesseis anos, branco de olhos verdes passou por aqui hoje. Provavelmente você deve se lembrar dele, porque ele está sempre comprando esses "livrinhos". — O vendedor pareceu ofendido quando ele disse a ultima palavra — Ele se chama Marc. Você o viu?
– Marc? Sim, sim, bom cliente. Sempre o vejo. O vi na parte da manhã, estava calado, eu até estranhei, comprou um gibi e foi embora.
– Ele disse para onde ia?
O vendedor franziu o cenho.
– Quantas perguntas. Você é da polícia ou o que? — Indagou desconfiado.
– Sou só um amigo preocupado.
– Bom. Amigo do Marc é meu amigo também. Eu não sei para onde ele foi não, mas se você quiser comprar um gibi ou um mangá...
–Eu tenho cara de ser integrante do clubinho dos nerds? – Jarrell interrompeu rudemente.
– Não, mas se mudar de ideia... — Tentou sorrir, apesar de se sentir envergonhado.
– Dispenso.
Saiu da loja. Estava prestes a entrar no carro quando um cartaz pendurado na entrada da loja chamou sua atenção. Caminhou até ele e leu o que estava escrito.
"O EVENTO DO MILÊNIO. TRAGA SEU SABRE DE LUZ E REALIZE TODOS OS SEUS SONHOS. — Não perca, uma oportunidade feito essa é como o raio: não cai duas vezes no mesmo lugar."
"Traga seu sabre de luz e realize os seus sonhos? Que porra é essa? Um código para sacanagem? Agora até casa de putaria espalha cartazes pela cidade?"– O moreno pensou consigo mesmo, sem compreender.
Adentrou novamente a lojinha de gibis.
– Ei, boca-de-metal, que merda é aquela pendurada na fachada da loja?
– Perdão?
– O cartaz. Que bosta de evento é esse que tá tendo que eu não estou sabendo?
– Ah sim, é um festival de Star Wars que está tendo no centro. Ouvi dizer que vai ser legal. Todo mundo vai, quero dizer, todos os fãs irão. Falando nisso, seu amigo, o Marc, não é fã de Star Wars?
Os olhos de Jarrell se acenderam.
– Valeu cara, você é meio CDF, mas é gente boa. — Apressado, voou até o carro.
– Ei! Espera ai. — Tentou correr atrás, mas já era tarde demais, ele já tinha ido — Não vão deixar você entrar... — Disse para o vento.
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