Notas iniciais
Capítulo que vão fazer vocês surtarem '-' - Ou não.
Espero que não queiram me matar :3

Os dias seguiram com muita rapidez, me surpreendendo. Observei o calendário e já havia se passado mais de um mês desde que Maria havia falecido. Durante todo esse tempo muitas coisas aconteceram, mas nada que saísse tanto da rotina.

Logo após a morte de minha irmã, meus pais entraram com um processo contra o hospital que trocou os testes e por incrível que pareça, em mais ou menos quinze dias já tínhamos a confirmação da causa ganha. O próprio hospital teria que pagar uma indenização aos meus pais e, com sorte, dentro de alguns meses talvez ele parasse de funcionar. Eu nunca soube o valor exato da indenização, mas não hesitei em contar aos meus pais uma forma de gastar bem aquele dinheiro. Contei a eles sobre o caso de Eduarda, a garotinha com a perna atrofiada e eles aceitaram de primeira pagar a cirurgia dela. Lembrei-me como foi ótimo contar a ela a novidade e como ela ficou agradecida pelo ato. Ela, já com a perna em ótimo estado, fez fisioterapia toda semana, algo que meus pais também se prontificaram a pagar. Sempre que posso, eu a visito. Todas as vezes que entrei no quarto dela e ela sorriu pra mim, lembrei-me de minha irmã. O rostinho rosado alegre e a inocência dela são coisas que me marcaram.

Falando em meus pais, senhor Roberto e senhora Samantha parecem novas pessoas. Eles estavam a cada dia se tornando mais que verdadeiros pais para mim e nossa relação estava melhorando bastante. Minha mãe não perdia mais seu tempo me criticando ou xingando, pelo contrário, ela gostava de me defender. Talvez fosse por causa da morte de sua filha caçula, mas ela estava se transformando em uma mãe super-protetora, algo que eu não podia reclamar. Meu pai me levava para sair quase todo final de semana para pescar. Ele tinha diminuído o ritmo do trabalho para passar mais tempo com a família. Quem sabe ele tivesse percebido o tempo perdido. Eu passei a compreendê-los melhor. Eles passaram por muita coisa na vida deles, e eu respeitava a forma que eram ou o que estavam se tornando.

André... Ah, o André continuava sempre lindo. Ele me deu um conforto no qual nenhuma outra pessoa havia me dado. Nosso relacionamento ficava mais sério a cada dia, embora não tivéssemos o título oficial de “namorados”. Mas ele me levava para sair. Nosso primeiro encontro havia sido em uma praça à noite – que era um bosque gigantesco, com uma vista fora do comum –, no feriado de aniversário da cidade. Ficamos sentados por horas em uma rocha gigantesca no centro da praça esperando os fogos de artifício. E quando a sessão de fogos começou, ele se prontificou a beijar cada milímetro da minha boca. E do meu pescoço. E do meu ombro. Ok, eu jamais iria esquecer aquela sensação prazerosa que ele me dava ao fazer aquilo. Nossa relação se esquentava a cada dia, me fazendo questionar por mais quanto tempo iríamos aguentar antes de acontecer a nossa primeira vez. Mas a nossa primeira vez era algo que eu não queria pensar... Ainda.

Outra relação que estava se aprofundando, era a minha com Daniel. Por Deus, eu não estava apaixonada por ele. Mas cada dia que passava, ele parecia realmente apaixonado por mim e o mais incrível era que eu comecei a acreditar nisso. Uma semana atrás ele havia me chamado para um passeio em um aquário na cidade e por alguma razão eu aceitei. Daniel parecia estar sendo realmente gentil comigo e eu estava começando a querer a amizade dele, até que ele tentou me beijar mais umas trezentos e quarenta e sete vezes, e se declarou outras cento e nove. Devo confessar que ele estava ficando bom naquilo, uma vez que a cada declaração ele falava coisas mais bonitas. Tirando esse fato, Daniel era uma ótima companhia e adorava me fazer rir, não tanto quanto André, mas ele conseguia me deixar mais animada. O ruim dessa situação era que jamais André poderia saber dessa minha amizade com Daniel, pelo menos por um tempo. Mas isso era algo que eu não pretendia esconder pra sempre.

Durante esses dias, outras duas coisas não me deixaram em paz: a primeira eram os pesadelos, que vinham praticamente toda vez que eu dormia independente do horário. Quase sempre eu acabava sem uma parte do corpo ou me auto-mutilava ou morria, e nos sonhos, a dor era algo que me dava prazer. Acordada, aquilo tudo somente me dava medo. Já a segunda, as incríveis e misteriosas mensagens, que chegavam no mínimo cinco vezes por semana. Contando coisas da vida pessoal do autor delas, algo como “Fui na FNAC e lembrei de você” ou “Estou namorando! Queria te apresentar a pessoa...”, ou simplesmente dizendo que realmente sentia minha falta. Eu ignorava as mensagens, mas não podia deixar de ficar curiosa a respeito de quem as mandava.

Atualmente, eu me preocupava mais com os estudos. As provas pareciam não acabar nunca e ainda nem estávamos na metade do ano. Eu estava estudando sempre que podia, pois havia uma chance mínima de eu prestar o vestibular aquele ano e passar. Embora estivesse ainda no segundo ano, tinha uma possibilidade de me darem o diploma escolar se caso eu conseguisse uma vaga. E falando sobre assuntos da escola, estava se aproximando o dia do famoso “Baile do Ano”. Meu colégio parecia mais com aqueles típicos americanos, onde tem os bailes de formatura, nos quais as pessoas vestem aquelas roupas estranhas e onde tem a coroação do rei e da rainha. A única diferença era que nesse baile, com temas diferentes a cada ano, quem organizava eram os próprios alunos e era aberto a todo mundo. Tanto quem estudava lá dentro quanto quem não estudava. O colégio apenas cedia o espaço para a organização. Esse ano seria com o tema “Baile de Máscaras”, o que eu achei clichê demais. Geralmente eu não ia nessas festas de colégio, mas achei essa uma boa oportunidade para chamar André para ir comigo. Talvez fosse divertido assim, nós dois, embora eu ainda não o tivesse convidado.

- Prontinho, eu terminei aqui. – Ouvi a mulher falar comigo, me libertando dos meus pensamentos. Encarei meu rosto no espelho e em seguida meu cabelo. Demorei a me acostumar com o novo visual. Eu era ruiva praticamente desde muito nova, então me congratulei por ter sido tão corajosa em mudar a cor do meu cabelo.

- Eu não sou mais ruiva... Agora eu sou... – Eu tentei dizer com a respiração meio acelerada.

- Morena! Isso mesmo, você é a mais nova morena da cidade! – Disse a cabeleireira sorrindo de lado. Levei as mãos ao meu novo cabelo. Os fios negros destacavam ainda mais meu rosto e meus olhos. Ele estava bem mais curto do que antes. Para falar a verdade, eu não parecia ser a mesma pessoa. Imaginei como meus pais, minha escola e principalmente André reagiria. – Então, o que achou? Algum arrependimento?

- Não sei bem dizer... É bem novo para mim isso, vou demorar a acostumar com essa nova cor. – Respondi com sinceridade. Analisei-me por mais alguns segundos no espelho, depois paguei e fui embora.

Era um domingo à noite e eu mal podia esperar a segunda-feira para exibir meu novo visual.

Chegando em casa, meus pais se surpreenderam com a nova cor e disseram que eu estava ainda mais bonita, inflando meu ego. Antes de dormir, devo ter passado em frente ao espelho mais umas noventa vezes. Eu parecia uma daquelas adolescentes ridículas e patricinhas, mas dei de ombros. Aquele ato era uma das poucas coisas femininas que eu tinha feito durante um longo tempo e serviu bastante para aumentar minha auto-estima.

*

Eu estava em um canto de algum quarto muito escuro. Meu corpo febril suava frio e meus dentes trincavam em resposta aos calafrios. A única saída do quarto era uma porta cheia de grades que parecia ser impossível de abrir. Meus olhos ardiam sem eu entender o porquê. Apenas sabia que queria sair dali de qualquer forma. Observei o chão úmido onde eu me encontrava e vi uma adaga antiga. Perguntei-me de onde ela teria vindo e não me hesitei em pegá-la. Olhei suas inscrições, mas nada me parecia familiar. Com o restante da forma que eu tinha, posicionei a adaga de forma que ela ficasse contra meu peito e a afundei em meu corpo. O sangue rapidamente se misturou as minhas roupas sujas. Foi então que eu soube que logo ficaria livre daquele lugar.

Acordei com os batimentos cardíacos acelerados. Sentei na cama abruptamente e algumas gotas de suor respingaram sobre o lençol da cama. Senti uma dormência no meu peito e levantei as mãos para massageá-lo.

Quando olhei no celular que eram 4:32 da manhã, decidi não dormir mais para não arriscar outro daquele pesadelo. Aquilo me deixava insegura e com medo. Meus sonhos sempre queriam dizer algo e eu temia em descobrir o que era isso.

Por receio, resolvi pegar novamente o celular e acordar alguém para me fazer companhia. Quase todas as noites, após um pesadelo, eu enviava uma mensagem para André e ele ficava comigo até eu conseguir dormir novamente. Mas não queria chamá-lo naquela noite. Seria a quinta vez seguida naquela semana e achei que ele merecesse uma boa noite de sono. Então, resolvi tentar outro número.

“Olá, tudo bem?”, enviei a mensagem e joguei o celular de lado pensando no que tinha acabado de fazer. Não demorou mais do que dez segundos para eu sentir a vibração de uma nova mensagem.

“Manu... Às quatro da manhã? Sério?”, ri da situação. Quem raios manda uma mensagem às quatro da manhã perguntando a outra pessoa se ela está bem?

“Desculpa! Achei que pudesse me fazer companhia”, coloquei uma carinha triste no final do sms para que talvez Daniel pudesse sentir compaixão.

“Não consegue dormir é? Aconteceu alguma coisa?”, ele perguntou.

“Tive um pesadelo e não consegui dormir de novo. E então, eu não quis ficar sozinha...”

Bom... Independente do que você tenha sonhado você sabe que não foi real e que não vai acontecer, não é?”, ele tentou me acalmar com aquelas palavras, o que achei fofo da parte dele.

“Eu sei, só não quero me sentir sozinha agora. Foi um pesadelo bem ruim e me assustou.”

A mensagem seguinte estava demorando a chegar. Achei que talvez ele tivesse pegado no sono, o que eu não poderia o culpar. Mas percebi que me enganei ao sentir o celular vibrar novamente.

Fica aí na calçada da sua casa, estou indo pra aí.” Quando li o sms, tratei logo de escrever algo que o impedisse de vir, mas antes que eu pudesse enviar havia chegado uma nova mensagem. “E não adianta dizer para eu não ir, estou quase na porta da sua casa já!”Bufei. Levantei da cama, fui até o guarda-roupa, peguei um casaco comprido, que ia até a metade de minhas coxas e o vesti por cima do pijama. Não calcei nenhuma sandália, para evitar barulhos dentro de casa. Eu não poderia fazer ruído algum para não acordar ninguém, inclusive meus pais que, com certeza, me dariam uma pela bronca pela minha atitude.

Silenciosamente, fui até a porta da minha casa, onde Daniel estava me esperando sentado no capô de um carro, cujo eu desconhecia a marca.

- Uau, você tem um carro! – fingi interesse ao dizer aquilo. Enfiei as mãos no bolso do casaco e dei alguns passos na sua direção.

- E uma moto... Mas não estou aqui para me gabar. – Busquei em minha memória alguma conversa minha com o Daniel na qual ele tinha me dito que havia dezoito anos e consegui lembrar.

Olhei seu sorriso sarcástico e pude afirmar como ele estava bonito. Daniel era bem mais alto que eu o fazendo parecer bem mais velho. Seu corpo, claramente bem definido naquela regata branca, ajudava nesse quesito.

- Você é rico? – Perguntei sem mais delongas. Ele fez um sinal para que eu sentasse ao seu lado no capô do carro e eu apenas obedeci.

- Meu pai é dono de muitas empresas aqui no Brasil. A maioria é automobilística, então digamos que meu pai é rico. – ele sorriu novamente e eu apenas balancei a cabeça. – Você pintou o cabelo! Está ainda mais linda morena assim...

Ficamos conversando por longos minutos. Devo confessar que estava tão boa a companhia dele comigo, que mal eu tinha notado a presença do sol.

– Vamos, me conte sobre seu pesadelo. – Ele disse.

- Ah, — suspirei. – Você não vai querer saber! – Ele arqueou as sobrancelhas e mordeu a boca. – Ok, se você insiste. Resumindo, eu me mato no final dele e fico feliz por me matar.

- Nossa! Entãoessefoi seu pesadelo? – Daniel ironizou a frase.

- Não foi o primeiro! E também, não foi só isso. Apenas te contei a parte principal dele. – Disparei a falar enquanto ele me olhava com deboche.

- Manu, — Daniel se remexeu aonde sentava e contemplou o vazio. – você já pensou em suicídio?

- Não!

- Considera o suicídio como uma solução de problemas?

- Não! – Repeti a resposta.

- Então não há com o que se preocupar. Eu disse que não era real e que não iria acontecer. – Uma de suas mãos deslizou ao encontro das minhas, mas rapidamente a retirei do seu alcance.

- Sabe você não precisava ter vindo para cá, a essa hora principalmente! – Ele virou seu rosto e fitou meus olhos por uns instantes.

- Você precisava de mim... Você estava com medo e então eu vim aqui te proteger! – A cada palavra sua voz diminuía um tom até ele terminar a frase num sussurro. As palavras dele me chamaram a atenção e me fizeram pensar. Eu não sabia que Daniel conseguia ser fofo daquela forma.

Ele levantou uma das mãos e levou até o meu queixo, mantendo seu olhar firme em mim. Sua respiração se aproximou de meus lábios, lentamente foi fechando os olhos e eu fiz o mesmo em seu próprio ritmo. E então, ele me beijou. Quando sua boca macia e quente tocou a minha, selando nossos lábios por três segundos, meu corpo pareceu querer corresponder.

Notas finais
Olá gente :D Não tenho muito o que dizer aqui... Só que, quando escrevi esse capítulo, fiquei tão 'assim' quanto vocês estão agora U.U Até o próximo!