Não Acaba Bem
1 Não Começa Bem -Alice
Notas iniciais
Minhas mãos começam a formigar. Deixo o lápis ao lado do diário. Parece besteira escrever um diário com quinze anos. Para contar o quê, não é mesmo? Que experiências tenho que seriam boas o suficiente para fazer, sei lá, um rico que não tem o que fazer com o dinheiro comprar um livro relatando a vida normal de uma garota normal?
–Filha, o jantar está na mesa! — grita minha mãe lá de baixo.
–Já to indo, mãe!
Vou correndo para a cozinha, a porta dos fundos está aberta, o que significa que o meu pai ainda não chegou.
Minha mãe já está colocando sopa no meu prato. Meu irmão mais novo coloca a colher na ponta do nariz para equilibrá-la e fica me olhando de um jeito perturbador. Então quando eu sento na mesa para comer, percebo que só tem um guardanapo e um copo no meu lugar. Aquela é a MINHA colher.
–John! — falo. — Essa colher é minha!
Ele me encara com um olhar maldoso
–Eu sei.
–Me devolve!
–Qual é a palavrinha mágica?
"Avada Kedavra", penso.
Mas não é necessário, depois de um grito da mamãe, ele me dá a colher dele e fica com a cheia de meleca de nariz. Estou mal-humorada hoje, mas a visão dele se irritando e lavando os pratos depois do jantar, me deixa com um sorriso no rosto.
Estou quase subindo as escadas para ir ao meu quarto, tenho um diário para terminar, mas o noticiário me atrai.
"Nesta manhã, um casal de 45 anos, Mary e Augustus Lewis"
Corro para a frente da TV, praticamente atropelando o meu pai, que pelo visto acabou de chegar do trabalho.
–Ei! — ele reclama.
–Me descul... — não termino a frase, não dá tempo, tenho que ouvir mais.
"...pelo assassino em série na região do Upper East Side, Manhattan. A polícia levantou suspeitas de que eles deixaram uma filha de quinze anos que estava no colégio no momento do ataque. O euro aumentou em 2% desde..."
Nem me preocupei com o fato de estar descalça até que meus pés encontraram a neve quando saí correndo pela porta. Minha mãe, precavida como sempre, levou uma mochila pesada que eu só vou abrir quando pegar o ônibus, um par de meias e botas.
–Obrigada! — grito enquanto tento correr, pôr a meia e, o mais importante, não congelar.
Decido correr descalça mesmo e pôr as botas no ônibus. Eu não sou muito veloz e a neve não ajuda em nada, mas consigo chegar no ponto em quinze minutos, me estranha o fato de que minha mãe simplesmente me levou uma mochila cheia de coisas do nada.
Sento-me no banco. Há uma mulher muito agasalhada e uma menina pequena com uma jaqueta — que presumi ser dez números maiores que o dela — sentadas ao meu lado. Provavelmente, mãe e filha. A mulher me olha atentamente. Depois ela arregala os olhos quando vê meus pés descalços. Ela abre a boca para falar algo, pela sua cara, acho que vai me perguntar "Tu tem problema?", ao invés disso, ela diz:
–Bom dia. — e volta a atenção para a filha, que está cantando "Você Quer Brincar Na Neve?".
Tento responder:
–B-b...
–... um boneco quer fazer?
–Bom...
–... você podia me ouvir e a porta abrir...
–... d-di...
–EU QUERO SÓ TE VEEEEEEEEEEEEEEER!!!!!!
Desisto.
A garotinha termina a música, mas começa "Let it Go" seguida de "Animals" (tudo errado, mas acho que era isso).
O ônibus chega depois do que pareceu uma eternidade, mas na verdade foram só dez minutos.
Entro e sento o mais longe possível da Garota-Rádio. Começo a massagear os meus pés gelados com uma toalha de rosto que estava dentro da mochila. Sai um monte de neve na toalha, então abro o vidro para jogar a neve para fora. Um vento agonizante entra e fecho a janela o mais rápido possível. Estendo a toalha no banco e sento em cima. Até o banco está gelado e a viagem é meio longa. Finalmente, coloco as meias e em seguida, as botas, o calor é instantâneo e tenho a sensação de conforto.
Abro a mala e começo a tirar o que tem dentro. Uma garrafa d'água e uma térmica com sopa. Uma máscara de gás? Um saquinho de vômito de avião. Mais duas garrafas térmicas com sopa. Uma roupa limpa. Escova de dentes e pasta. Meu diário e outra garrafa térmica com sopa.
Isso prova duas coisas: a primeira, minha mãe já tinha uma mochila pronta; a segunda, ela já sabia que isso ia acontecer.
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