Notas iniciais
Olha eu de novo, pessoal *-* Acho que vou diminuir o ritmo, afinal, o povo está ficando paranoico com essa velocidade nas postagens :P rsrs Mas enfim... O_O Esse aqui é curto e talvez sem graça, mas tem sua importância ^-^ Boa leitura! ♥

NYREE

Encarei meu reflexo nas aguas do pequeno rio que cortava o norte de Tokonga, suspirando.

Eu via cada detalhe que o tempo havia modificado em mim. Desde meu nascimento, havia me visto pouquíssimas vezes em algum lugar que refletisse minha aparência. Mas sempre me assustava ver que os anos haviam tirado quase todos os meus trejeitos infantis.

Meu rosto não era mais o de uma criança, e as vezes me surpreendia ao encarar a mulher morena nas águas tranquilas do rio.

Desde quando eu tinha aquela expressão tão profunda e pensativa? Ou sempre fora assim?

— Nyree... quero mais inhame.

— Ah – bufei, jogando meu pedaço de inhame cozido para Ano – toma, fuu.

— Vou contar pra mama— ele ganiu.

— Conta – joguei a pedra mais próxima no rio – quer saber? De mim você não ganha mais inhame, criaturinha vil.

— Não! Desculpa, desculpa! – Ano abraçou minhas costas, dando beijinhos em minha cabeça.

Só faltei morrer de rir, e deixei escapar um gracejo, enquanto pegava meu irmãozinho e lhe dava um abraço.

Ele sorriu, me encarando, ainda com o inhame nas mãos.

— Você tá rindo – ele encostou o nariz no meu – tô contente que você tá rindo de novo.

Suspirei, afagando a cabecinha de Ano.

— É – respondi, distraída – acho que estou.

Muita coisa acontecera desde que Tāwhai havia sido expulso de Tokonga.

Sua partida fez sua família cair num pesar profundo, e que culminou na partida deles de volta para Whanautanga, alguns meses depois, após um desentendimento sério do pai dele com Akahata.

Lembrava, tensa, dos gritos e do barulho que fizeram ao entrar na marae, onde só não houve um duelo por que a mãe de Tāwhai impedira os dois de se confrontarem. Não sabia se eram muito corajosos ou muito burros para tentar encarar Akahata, que ganharia uma luta de qualquer Tokonga, com todo o poder que tinha.

Desde então, uma espécie de tranquilidade absurda começou a surgir na tribo, como se cada maori estivesse, pessoalmente, fazendo de tudo para que um episódio como aquele jamais se repetisse.

Para minha surpresa, ao contrário do que esperava, Tāwhai não me fazia tanta falta. Era verdade que ele havia sido a única coisa que me desviara da tristeza de ficar sem Darel – mesmo por um pequeno e enganoso tempo. Mas aquilo que houve entre nós dois também parecera uma tentativa desesperada minha de preencher algo que jamais poderia ser preenchido.

Porém, o apoio de minha família e dos demais maoris me ajudou a voltar á rotina. Com o tempo, eu me sentia cada vez menos triste, e conseguia ver algum motivo que fosse para viver minha vida.

Despertei de meu devaneio, assistindo, satisfeita, Ano dar uma cambalhota e se transformar num filhotinho muito fofo de gato-tigre.

Sorri quando ele se aconchegou em meus braços, ganindo animadamente.

Ouvi uma aproximação saltitante perto dali, e senti um arrepio de pressentimento me fazer olhar para trás, com o olhar saltado.

Afastei-me, revirando os olhos, quando uma coisa estabanada saltou sobre nós, errando o pouso e caindo com um furacão dentro do rio.

Ano, encharcado até os ossos, se pendurou em meu ombro, chiando ameaçadoramente para a jovem canguru que emergiu na margem, cuspindo água.

— Já falei que você é uma completa desmiolada, Hana? – tentei enxaguar Ano em minha saia, enquanto meu irmãozinho transfigurado guinchava martirizado.

A canguru saiu da água, tomando, em seguida, a forma humana.

— Vocês que não sabem se divertir – ela cruzou os braços, torcendo os cabelos bastos – e eu só vim avisar que oTuatoru – “Terceiro”, era assim que Hana apelidara Tauwaenga quando estava contrariada – conseguiu se transfigurar. Muito – ela gesticulou teatralmente – fascinante, mas a questão é...

— Que animal? – cortei-a, sem vontade de ouvir sua longa teoria sobre Tauwaenga ser o favorito de papai e mamãe pela ducentésima vez.

— Ah – Hana sorriu misteriosamente, parecendo excepcionalmente maldosa – pelo menos o favorito se deu mal dessa vez – foi aí que ela riu — estão o chamando de Bicudo agora.

Tampei a boca com a mão, enquanto Ano dava um similar guincho de choque.

— Está brincando – gemi roucamente – um... um...?

Com nada menos que quinhentos animais no qual poderia se transformar, com quinhentas opções de talentos para desenvolver, e Tauwaenga se transfigura logo na mais bizarra de todas.

— Um ornitorrinco no clã Tokonga – Hana gargalhou – vão contar essa história na marae pelas próximas vinte mil luas! Nossos mootuas vão saber que o tio-avô botava ovos!

— Pare de ser maldosa, Hana – ralhei, apesar de, bem no fundinho, concordar com a constrangedora declaração de Hana – se fosse com você, não iria gostar disso!

Hana girou o olhar, mas deu de ombros.

— Tudo bem, acho que estou sendo má de verdade – ela me encarou – mas pelos deuses da areia... isso é...

— Eu sei – assisti-a pegar Ano nos braços, enquanto meu irmão deitava em seu colar de penachos – mas não faça isso com o garoto.

Ela assentiu, sentando ao meu lado, sorrindo quando Ano voltou ao normal, deitando no colo da minha irmã e bocejando.

— Eles crescem tão rápido – Hana me deu uma piscadela, rindo.

Fechei os olhos, inspirando o ar saturado do deserto.

Hana nunca dissera nada tão verdadeiro. Crianças cresciam muito rápido.

Coisas aconteciam. Mudanças ocorriam.

E certas mudanças pareciam modificar tudo nos planos de um futuro.

Tal como acontecera comigo.

— Sim. Muito rápido.

Eu ainda sentia aquele vazio pulsante dentro de mim. E agora, mesmo sabendo agora o motivo, tinha decidido lutar para me reerguer.

Não sabia o que o destino poderia me reservar, mas, independentemente das surpresas, ia seguir o provérbio maori que aprendera. Eu viraria meu rosto para o sol, e deixaria que as sombras caíssem atrás de mim, expulsando-as de minha mente e meu coração.

Mas sabia que, não importava que rumo minha vida tomasse, sempre faltaria alguma coisa, Sempre faltaria, em minha alma, o garoto dos olhos da cor do céu.

O que eu não fazia ideia, naquele momento, é que todo o meu futuro estava prestes á mudar outra vez.

E da forma que eu menos poderia esperar.

Notas finais
Comentários? Beijinhos e até o próximo capítulo! ^-^