Nyrel - Uma História de Amor
19 Questões
Notas iniciais
DAREL
Na manhã seguinte, esperei que dessem oito horas da manhã para ir ao quarto de Weasley e Granger. Não sabia se o fuso horário biológico dos dois estava ajustado para minha rotina, que se resumia à acordar duas horas mais cedo, então deixei que dormissem mais um pouco, enquanto organizava as coisas para a viagem.
Entre ferramentas básicas, canivetes e roupas, sorri ao ver os três vidrinhos cheios, enrolados numa pequena manta no canto. Como precaução, eu havia pensado em algumas formas de driblar quaisquer inconveniências. Só esperava que não fossem necessários, por que nos colocariam numa situação decisivamente... estranha.
Quando finalmente terminei de arrumar minha mala e a guardei em minha bolsa, magicamente ampliada, decidi avisar Hermione e Ronald que estávamos prontos para ir.
No entanto, quando abri a porta do dormitório, percebi que talvez não fora uma boa ideia aparecer naquele exato momento.
Ronald e Hermione estavam debruçados sobre alguns mapas da Austrália, e aparentavam, segundos antes, terem acabado de ter uma conversa bem particular, dado o delicado rubor no rosto de Granger e a expressão aparvalhada do seu namorado.
Mordi o lábio, sem graça.
— Ah, desculpe – olhei dela para Ronald, que deu um guincho engraçado com o corpo — estou atrapalhando alguma coisa?
— Não, imagina... – Ronald sorriu, enquanto eu vi, de esguelha, Hermione franzir o cenho, surpresa — já vamos?
Será que só eu havia notado que Hermione pareceu indignada?
Só faltei me contorcer de rir.
Aquele casal era tão curioso, que estava começando a me parecer fantástico. Nunca tinha visto nada nem ninguém como aqueles dois. Senti um sorriso inconsciente se abrir em meu rosto.
— Sim – respondi, ainda admirando a sacudidela hilária da cabeça de Hermione — tenho uma caminhonete que poderá nos levar até Melbourne em menos de cinco horas – acrescentei, sentindo um orgulho do meu carro tão especial.
— Por que simplesmente não aparatamos? – Ronald questionou, franzindo o cenho.
— Ai, Rony, esqueci-me de dizer – Hermione fez uma careta — aqui na Austrália é impossível aparatar fora das áreas desérticas ou menos populosas... a Convenção Australiana de Bruxos, em 1845, decidiu lançar um feitiço latente e ampliado anti-aparatação em quase todo o território nacional australiano, por causa de várias aparições de gente do nosso povo no meio dos trouxas por aqui. Só povoados bruxos ou extensões do deserto possibilitam aparatar aqui.
Deixei minha expressão vazia tapear meu espanto e impedir que meu queixo caísse. Granger conhecia quase palavra por palavra do Decreto de Anti-Aparatação, coisa que nem eu conseguiria recitar de cor. Era chocante.
Decididamente, eu não estava lidando com uma garota qualquer.
Ronald me olhou como se dissesse “você nem faz ideia, cara”.
— Nossa – ele deu uma bufada — então, quase todo o caminho vai ser feito na marra mesmo?
— Vai – Hermione revirou os olhos, martirizada. Estava na cara que não tinha uma gota de paciência com as observações de Ronald, o que era hilário — estamos prontos.
— Então vamos – dei de ombros, rindo. Eles assentiram, ainda se entreolhando como um casal de gaivotas briguentas, mas sorriram e começaram a reorganizar as coisas par a viagem.
—______________________O__________________________
Vi Hermione parecer á beira de uma apoplexia, enquanto encarava meu For Ranger.
— Caramba, que belezinha – ela acariciou o capô, como se cumprimentasse um enorme e belíssimo monstro. O que era quase o caso, pensei, rindo mentalmente.
— Também acho uma lindeza – comentei, tentando fazer graça — eu o comprei com um bocado de suor, lágrimas e conversas com o maldito bruxo do câmbio, que não sabe a diferença entre focinho de porco e tomada, que dirá do dólar australiano para o Kilwa.
Os dois gargalharam, sacudindo-se de rir. Pelo visto, eles realmente me achavam divertido.
E, por algum motivo, eu gostava disso.
— Pode entrar, madame – ouvi Ronald falar, enquanto me dirigia ao assento do motorista. Funguei, achando graça na brincadeirinha dele.
— Rony, você não é um cavalheiro – Hermione resmungou, em tom de brincadeira — nem aqui, nem na China.
— E nem em Londres.
Olhei-os interagindo, emanando tanto humor e carinho. Algo estranho se apertou em meu estômago, como se um pedaço de batata tivesse se deslocado dentro dele, em direção á minha garganta.
Percebi Ronald me lançar um olhar curioso.
Sacudi a cabeça, tentando espantar a sensação. Liguei o carro, fazendo o Ranger vibrar ao redor, rosnando como um leão. Em alguns segundos, ele ganhou velocidade, deixando o Hotel Rydges Sydney Airport para trás.
—_______________O____________
Depois de alguns minutos de viagem, as coisas pareceram suficientemente monótonas para Ronald recomeçar suas perguntas.
Percebi que o garoto definitivamente não tinha nem metade dos conhecimentos de Hermione sobre a cultura australiana, o que me fez desconfiar que, finalmente, estava vendo um bruxo inglês dentro dos padrões da normalidade.
Padrões esses que Hermione definitivamente não compartilhava. A garota parecia ter vivido uns quinze mil anos de estudo, e sabia de coisas que até eu já havia esquecido.
— O que é um Kilwa?
Caramba. Nem eu lembrava mais da pequena moedinha, feita de bambu, que usávamos como valor de troca entre tribos e outras comunidades.
— A moeda bruxa das tribos maoris – Hermione titubeou; vi, pelo retrovisor, ela olhar exasperada para Ronald — o que você quer aí, caçamba?
— Meu pulôver verde – ah, isso eu já entendia. O ar da estrada esfriara consideravelmente — está entrando um vento frio aqui. Você não disse que a temperatura aqui era absurdamente quente?
— Sim. Mas não disse que não tinha um ventinhos gelados.
Hermione fez beiço, enquanto Rony ria baixinho.
Arrisquei dar mais uma olhadinha para trás, quase fascinado com o jeito brincalhão que um tinha com o outro> Era estranhamente prazeroso de assistir.
Vi Granger estreitar os olhos em direção ao retrovisor, desconfiada, quando voltei a atenção para a estrada.
— Fala, Darel...
— O quê? – guinchei, estremecendo.
— Você quer perguntar alguma coisa. Desembucha.
Como ela sabia que eu estava pensando sobre como deveriam ter se conhecido? Quando teriam se apaixonado...?
A última pergunta pareceu perfurar meu peito como uma broca.
— Bom... à quanto tempo... vocês estão juntos?
Ronald congelou, olhando estático para Hermione.
— Sete anos.
Ofeguei, e não fui o único. Ronald pareceu cuspir o ar que segurara, e ficou quase sem fôlego.
— Bom, "juntos" de convivência – ela riu, dando um empurrãozinho amigável em Ronald — de namoro, ahn... faz umas duas semanas.
Ah, bem. Quase morrera de susto. Quem namoraria tanto tempo assim, desde criança?
A broca pareceu se retorcer ainda mais. E eu tinha uma péssima ideia do por que.
Já fazia tempo.
Faziam mais de oito longos anos, e não havia um dia em que eu não pensava em Nyree, a pequena Mōkī, minha melhor amiga, minha companheira de aventuras. Minha mudança pareceu tirar quase tudo do que eu fora um dia.
Mas aquele... aquele sentimento... ainda perdurava. A saudade dela doía como uma facada. E pensar que, talvez, eu viesse a encontra-la... talvez... descobrir que não era só eu que sentia aquilo...
Não. Eu sabia que não podia.
Tentei desviar minha mente do meu velho martírio.
— Parecia mais – ri forçadamente — vocês parecem se gostar tanto...
— Você tem... alguém?
A pergunta, espantosamente gentil e preocupada, ficou pairando no ar por alguns segundos.
Eu já havia me aberto mais para Ronald e Hermione do que fizera a vida toda com qualquer outra pessoa... exceto Nyree.
Decidi que eles mereciam saber daquilo também... e, quem sabe, confessar fosse uma ótima forma de tirar aquele peso que dizimava meu coração. Possível ou impossível, eu também tinha que me convencer da verdade.
— Acho que sim... – falei devagar, hesitante — tem uma garota na tribo maori onde eu cresci, chamada Nyree – reprimi um gaguejo, desacostumado á dizer aquele nome, que um dia eu havia tanto usado — que eu sempre gostei muito... mas ela já estava namorando quando deixei a tribo... – fechei os olhos por alguns segundos, estremecendo com a lembrança de Tāwhai e Nyree abraçados, enquanto eu deixava Tokonga — eu nunca mais a vi... até agora. Eu... nem sei se ela se lembra de mim... ou se ao menos gostaria de, sabe... ficar comigo.
Pronto. Eu havia feito. Tinha, finalmente, admitido o que eu já sabia, mas tentara ignorar.
E, por alguma razão, fazer isso pareceu tirar um peso enorme de meu corpo.
— Você podia tentar encontra-la outra vez – Hermione disse, tensa.
— É, cara – Ronald me focalizou pelo retrovisor, parecendo atipicamente sério — se tiver chance de se encontrar com ela, aproveite... fale pra ela o que você sente... você não pode saber se outra chance de acha-la vai ocorrer – olhei, surpreso, Rony fechar os olhos, engolindo em seco — se tem uma coisa que eu aprendi... é que nunca se sabe quanto tempo... podemos ficar com quem amamos.
Hermione tremeu, baixando o olhar.
Eu sabia do que ele estava falando. Havia me contado.
Aquilo pareceu provocar um baque imenso em mim.
Suspirei.
Ronald tinha razão. Diabos-da-tasmânia, o que me custaria deixar o orgulho ferido para trás e visitar minha aldeia adotiva, nem que fosse só para dizer á Nyree todas as coisas que haviam me torturado nos últimos dez anos? Por que eu não podia ao menos tentar, independentemente do que fosse encontrar em Tokonga?
— Bom, se eu tiver chance... – falei, mais para me convencer do que encerrar a questão — acho que vou aproveita-la durante a viagem. Primeiro, vamos chegar a Melbourne.
Vi Hermione abraçar Ronald, que parecia compreensivelmente amuado depois do que havia lembrado.
Lancei lhe um olhar solidário, enquanto retornava minha atenção para o asfalto, pensativo.
Parecia que aquela viagem renderia mais emoções do que qualquer um de nós três poderia ter imaginado.
Fale com o autor