Notas iniciais
Olá, pessoinhas! Sm, mãozinha da autora ainda tá doendo. mas não consigo nem dormir de remorso se não postar capítulo novo pra vocês :P kkkk Boa leitura!

NYREE

Tudo pareceu um pesadelo horrível e irreal.

O primeiro momento em que havia desconfiado na veracidade do que estava acontecendo surgiu quando Darel disse que iria embora.

Ele era meu hoa, meu irmão. Por que acreditaria naquela paranoia?

Tinha dificuldade de lembrar o que havia acontecido.

Havia sentido muita raiva e mágoa dentro daquele sonho sombrio. O torpor da decepção impediu que eu chorasse ou sentisse qualquer coisa além de desapontamento.

Tāwhai havia me levado até minha cabana, afagando minhas costas e lançando, vez ou outra, olhares furtivos e raivosos por cima do ombro.

Foi só quando sentei em minha esteira, ouvindo o rebuliço dentro de minha casa, que me dei conta do que havia acontecido de verdade.

Era real.

Darel iria embora.

E eu havia acabado de dar as costas para ele. Tinha dito coisas horríveis. E nem tivera a decência de me despedir do meu melhor amigo.

O horror e o desespero desabaram sobre mim, me jogando de joelhos para fora da esteira. Encarei Tāwhai, aterrorizada, tropeçando em meus próprios pés para me reerguer.

— Nyree! O que foi?

Assim que me levantei, saí correndo cabana afora. Mudei de forma, saltando desesperadamente em direção á cabana de Darel.

Meu coração parou quando encarei a pequena construção, ocupada apenas pela prima de Darel, que saiu dela, quase no mesmo instante em que cheguei.

— Nyree?

Meus olhos saltaram, compreendendo a frase não dita da garota.

Eles já foram. Partiram.

Não. Não queria acreditar nisso.

Guinchei, voltando a pular na maior velocidade que consegui, levantando poeira por onde passava, avançando na direção do deserto, único caminho para sair de Tirari-Sturt.

Não, não, não... não podem ter ido, não podem ter ido.

Finalmente, uma raiz traiçoeira se enroscou em minha pata, fazendo-me desabar no chão. Senti a areia do deserto arranhar meu focinho e invadir meus olhos.

Ignorei o latejar doloroso dos arranhões, sentindo as lágrimas escorrerem por meu pelo e evaporarem ao tocar o chão.

Olhei para o norte, choramingando debilmente para o céu claro. O mesmo céu que lembrava os olhos que eu jamais veria outra vez.

Darel... Darel...

Não sentia a menor vontade de me levantar. Não sentia vontade de fazer mais nada.

Na verdade, a perspectiva de ficar ali, deitada na areia, sob o sol escaldante, cozinhando lentamente até a morte, não seria o suficiente para que eu pagasse pelo erro que havia cometido.

Ouvi um latido fraco se aproximar aos poucos de mim.

Nyree! Nyree!

Mal virei meu focinho para focalizar o pequeno dingo que pateou minhas costas, ofegante.

Deixe-me em paz, Tāwhai. Bufei, soluçante. A culpa é minha. Toda minha... Darel foi embora... e eu nem consegui me despedir.

Ah, Nyree. Tāwhai ladrou, me ajudando a levantar.

Eu falei aquelas coisas terríveis. Dei as costas pra ele.

Minha cabeça desabou, desamparada.

Tāwhai encostou o focinho acima do meu , desanimado.

Acho que também fui um verdadeiro crápula com ele. Ele fungou, colocando a pata dianteira na altura da minha.

Deitei a cabeça no do pescoço de Tāwhai, ganindo pateticamente em minha forma animal.

É melhor voltarmos. Falei, sem emoção. Nossos pais devem estar preocupados.

Tāwhai se afastou, me encarando.

Tem razão. Ele suspirou. Ei... vai ficar tudo bem.

Caminhamos lentamente de volta para a aldeia. Cabisbaixa, não tinha animo nem para saltitar no ritmo de Tāwhai.

Era como se um rombo enorme tivesse se aberto em meu peito, deixando- o tão oco quanto um tronco velho.

Darel havia partido. E, depois do que eu fizera, eu não via nenhum motivo para que ele desejasse voltar.

—______________O_____________

— Nyree, querida... não quer comer sua kūmara?

Cutuquei os pedaços de batata cozida em minha cumbuca, me sentindo enjoada.

— Estou sem fome, mama.

Mamãe me olhou, suspirante. Senti sua mão segurar a minha, e odiei a expressão de pena em seu rosto.

— Aroha— ela afagou meu rosto – já faz dois dias. Precisa se alimentar.

Antes que meus olhos voltassem e se encher de lágrimas, virei o rosto, resmungando.

— Eu não quero comer – abracei meu próprio corpo.

— Darel não ia querer isso, tama...

— Eu não sei o que Darel iria querer! POR QUE ELE FOI EMBORA!

Ouvi mamãe arfar quando, enfiei o rosto nos braços e finalmente voltei a chorar.

Estava tão desolada que agradeci por mamãe me abraçar. Ela sempre havia sido mestra em consolar qualquer pessoa.

Mas nem isso era mais suficiente para tapar o buraco que ainda persistiria em meu coração.

— Escute, filha – ela sussurrou – ele vai voltar para nós. Eu prometo. E sei que Darel ainda irá gostar de você.

Apenas assenti, enroscada no algodão de seu vestido, pensando se poderia ficar ali pelo resto de minha vida.

Mas mamãe tinha razão. Se Darel ainda fosse meu amigo – coisa que eu duvidava, depois do que eu havia feito – ele detestaria me ver assim. Iria dizer para que eu levantasse a cabeça e voltasse á viver normalmente. Iria dizer que tudo ficaria bem. Se tivéssemos nos despedido... talvez dissesse que, um dia, realmente iria voltar.

No fim das contas, aquela aflita e minúscula esperança foi a única coisa que, no fim das contas, me trouxe de volta ao mundo real. Aquela expectativa frágil seria o único motivo que me faria seguir em frente pelos oito anos seguintes.

Muitos olhavam para mim e Tāwhai na esperança que nós nos tornássemos tão hoas quanto Darel e eu havíamos sido. E, por algum tempo, quase acreditei que isso seria possível.

Mas eu sabia da verdade.

Nada preencheu aquele vazio em mim.

Nem quando Tāwhai virou um tipo de amigo provisório. Nem quando mamãe anunciou á tribo que traria ao mundo um novo pequeno Tokonga. Nem mesmo quando Tāwhai, me oferecendo uma linda calopsita mágica, disse que nunca conhecera uma garota tão especial como eu.

O vazio só diminuía quando, ao fim de cada dia, eu erguia minha cabeça em direção ao céu, e comtemplava seus tons azuis, imaginando que, em algum lugar do Universo, o garoto com olhos de sua cor estivesse bem.

E que, um dia, voltaria para casa.

Notas finais
APENDICE Kūmara – tipo de batata-doce oriunda do cultivo maori, usada como alimento Hoa= amigo Pronto. Podem pegar mais leve com a menina, faz favor? rsrs Beijinhos e até o próximo capítulo!