NYREE

Ainda sentia minha cabeça girar e meu estomago formigar, como se dezenas de minúsculas borboletas se debatessem dentro de mim, tentando escapar e alçar vôo pelos céus.

Na altura em que finalmente decidi sair de minha cabana, toda a tribo já sabia sobre a volta de Darel.

Eu não devia ter feito aquilo. Esconder-me como um animal acuado, quando era certo que Darel devia estar á minha procura.

Mas o desespero e a imponência me assolaram, assim que percebi que Darel voltara. Realmente havia voltado... como havia prometido.

Meu coração, depois de tantos anos trajando uma armadura contra qualquer sentimento que pudesse me afetar, finalmente ameaçava se esfarelar em meu peito, ecoando batidas que pareciam me ensurdecer.

A única coisa que tive coragem de fazer, antes de me enclausurar em casa — e implorar que meus pais não dissessem nada sobre meu paradeiro – foi visitar a garota que o acompanhava, ainda desacordada, com o braço quebrado.

Descobrir que os outros dois cavalos também eram pessoas transfiguradas, por alguma razão, não me deixou mais tranqüila.

Lembro de Mere não ter dito nada, enquanto eu curava a fratura com minha magia. Era uma moça muito bonita, de traços fortes, mais pálida do que devia ser, devido ao desmaio.

Uma pontadinha incômoda se agitou dentro de mim, ao pensar no por que Darel retornara á tribo com aqueles dois estranhos.

Ou talvez, mais especificamente, o que me incomodava era saber da companhia feminina que provavelmente estivera com ele.

Sacudi a cabeça. Quem era eu para me indignar com isso? Havia deixado Darel ir embora, sem ao menos me despedir. Era óbvio que ele havia construído uma vida lá fora. E se ele já fosse casado? De repente, já tivesse filhos... o que eu podia esperar? Que ele ainda se lembrasse de mim, se não com rancor ou mágoa? Tivesse ficado todo esse tempo sem alguém leal de verdade ao seu lado?

Por que teria esperado todo esse tempo para me ver outra vez? Podia muito bem estar me enganando, achando que ele retornara á Tokonga apenas por mim.

As dúvidas me torturavam, e quase acordei a garota quando estremeci minhas mãos.

Mais tarde, já escondida na cabana, ouvi de Hau que Akahata dedicaria uma fogueira de histórias á nossos três hóspedes.

Ela me olhou com pena antes de sumir janela afora, enquanto eu deitava a cabeça em meus braços, sem saber o que fazer.

A fogueira sempre fora uma das coisas que eu mais adorava em Tokonga. E, desde a partida de Darel, era uma das poucas coisas que desviavam minha mente da infelicidade que ameaçara me dominar nos últimos anos.

Os estrangeiros estariam lá. E Darel também.

Se queria descobrir o que eu havia perdido em todos aqueles anos, só havia uma maneira de saber.

Eu teria que ir. Teria que ver Darel.

Mesmo que fosse apenas para confirmar meus piores temores, eu precisaria da verdade. Era a única forma de minha mente ficar em paz, mesmo após o sofrimento.

Sai do quarto em silêncio, sem querer acordar meu pai ou meus irmãos, que já haviam se retirado para dormir.

Mamãe me olhou com uma expressão surpresa quando em viu arrumada para a festa da fogueira. Porém, nada comentou, apenas me lançando um sorriso satisfeito, enquanto eu saía de casa.

Quando cheguei, todos já estavam postados em forma circular diante da grande e brilhante fogueira. Era uma grande chama, que eu sabia que brilharia multicolorida quando as danças começassem. Era linda de se ver em qualquer noite escura.

Sentei próxima da última garotinha Tokonga, perto das toras da fogueira.

Vislumbrei os dois jovens companheiros de Darel na fileira das crianças. Ao lado do garoto de cabelos ruivos, vi a silhueta nervosa de um maori, que parecia evitar olhar ao seu redor.

Meu coração quase saltou pela boca.

Era Darel.

Akahata se aproximou dos três, esbanjando um largo sorriso, enquanto a garota, já curada, também sorria e cochichava com o rapaz ruivo.

— Tokongas! – ouvi Akahata bradar, abrindo os braços — gostaria de dedicar a nossa quinta fogueira do ano aos nossos hóspedes... e espero que esta festa possa trazer a eles a mesma alegria que nos trouxeram ao trazerem Darel de volta para casa.

Vi o rapaz maori baixar a cabeça, envergonhado. Meu peito latejou outra vez, como se meu coração quisesse perfurá-lo para cair em minhas mãos abertas.

Ouvi todos aplaudirem alegremente.

— Bom, quem quer começar a primeira história?

— Eu, eu, eu! – vi várias crianças erguerem as mãozinhas. O rapaz ruivo piscou, aparentemente confuso e surpreso.

— Gostaria de dividir uma história conosco, meu jovem? – Akahata segurou o ombro dele, fazendo-o saltar o olhar de um jeito engraçado.

A menina assentiu para ele, animada.

— Bom... pode ser.

— É simples, rapaz – vi Akahata apanhar um pouquinho da areia do chão e colocá-la na mão do garoto — jogue esse punhado de terra na fogueira e imagine o que você quer contar. Pode ser algo que você viveu... uma história que ouviu... a fogueira vai transmiti-la aos demais.

Franzi o cenho. Não estava muito segura de que um bruxo estrangeiro tivesse uma história tão interessante quanto às dos maoris. Mas resolvi não julgar. Afinal, aqueles dois garotos não chegavam nem perto do considerado previsível.

Quando o garoto lançou a areia na fogueira, porém, ela se turvou, ficando azulada. Dentro das chamas, pequenas névoas tomaram forma, constituindo um estranho animal de asas largas, com três pequenas sombras em seu dorso.

A garota sussurrou algo para o rapaz, que concordou, sorrindo.

As três sombras, de repente, saltaram da figura voadora, desaparecendo no mar de fumaça abaixo das toras.

Outras figuras se seguiram á primeira, ainda mais estranhas que a anterior. Me peguei fascinada pelas formas e movimentos misteriosos das pequenas criaturas feitas de fogo.

Por fim, após uma sombra de algo esquelético surgir, tudo pareceu se embaçar, e a fogueira se dissipou, voltando ao seu tom alaranjado normal.

Embora a confusão fosse evidente, todos voltaram a aplaudir, animados. Espantada com a história – por mais bizarra que fosse – também aplaudi.

— Quer tentar? — Akahata voltou a falar, desta vez erguendo o punhado de areia para a garota ao lado dele.

Supus que a história da garota talvez fosse mais consistente. Poe algum motivo, que não sabia dizer, a minha falta de compreensão na história do garoto ruivo se devesse ou á meu poço conhecimento da cultura alheia, ou ao embaraço inusitado dele sobre alguma parte da historia.

Suspirei, vendo-a jogar o pó nas chamas.

As primeiras figuras foram tão estranhas quanto as do rapaz, embora eu soubesse, pela forma característica, que fossem várias miniaturas de seres humanos, galopando desenfreadamente em direção ao nada, como uma matilha de cães.

Mas foi a segunda figura que, finalmente, mergulhou os espectadores em compreensão e choque.

Por que eu podia reconhecer a fera demoníaca, que emergiu do mar de fogo, perseguindo duas figuras cambaleantes, em qualquer lugar da Austrália.

A menina ofegou, e as chamas voltaram ao normal, crepitando diante dela.

— Um bunyip? — Akahata verbalizou minha indagação muda- você foi atacada? Aonde?

— Na costa de Melbourne – ouvi-a dizer, trêmula.

— Mas o que um bunyip fazia no mar? – Mere arfou, pasma.

— É o que eu queria saber também – sussurrou o garoto ruivo,

Um silêncio incômodo se instalou na fogueira, como se cada um ali tivesse se encasulado nas próprias reflexões.

Akahata devia ter percebido o clima tenso, pois cortou o silencio repentinamente.

— Então... acho que podemos começar as danças de invocação... depois continuamos as histórias... o que acham?

Meu estômago voltou a formigar quando Darel se ergueu de repente, finalmente surgindo claramente em meu campo de visão.

Senti meus olhos lacrimejarem ao ver o que os anos haviam feito com meu melhor amigo. Ele já não era aquele garotinho franzino que havia deixado Tokonga.

Na verdade, por um momento, jurei ter visto Tãpuaki levantar-se diante de nós.

Ao mesmo tempo, tinha, nos traços do rosto, aquela doçura que eu só costumava ver em Ataahua.

Já era um homem feito.

A única coisa que ainda se mantinha igual eram os olhos. Aqueles olhos, que haviam em acompanhado a infância toda. Inesquecíveis.

Eles não haviam mudado nada. Ainda pareciam querer engolir o mundo no céu revolto de seu olhar.

— É uma excelente idéia – estremeci com sua voz suave, porém profunda.

Meu corpo parecia estar numa luta feroz, onde minha vontade de sair correndo de volta para a cabana duelava com minha inesperada vontade de me lançar em seus braços.

— Não, nada disso – ouvi superficialmente o garoto ruivo bradar — eu não danço.

— Agora dança – Akahata falou, rindo e puxando o rapaz para cima. Os Tokonga riram, se levantando e segurando as mãos uns dos outros, formando uma roda.

— Não seja tão frouxo, Rony – a garota disse. Ah, Rony. Era o nome dele. Que estranho — entre na dança.

— Ah, está bem...

Com o empurra-empurra brincalhão dos maoris, acabei indo parar exatamente ao lado deles. Mere segurou minha mão, lançando um sorriso grande demais para que eu não ficasse desconfiada.

E foi com choque absoluto que vi Darel segurar minha outra mão.

Nossos olhares e encontraram por algum momento, e podia ler o arrebatamento de surpresa em seu rosto.

Mas não consegui sustentá-lo por muito tempo. Baixei o olhar, olhando fixamente para o chão, sentindo meu coração disparar com a sensação de seus dedos em minha pele.

Darel também parecia não saber o que dizer, pois também voltou o olhar para a areia.

— Assim! – Mere exclamou ao meu lado, começando a girar a roda ao redor da fogueira.

A fogueira começou a flamejar multicolorida, refletindo a alegria da dança dos presentes. Vi os dois garotos tentarem acompanhar a dança, sem sucesso, mas fazendo todos rirem com uma espécie de sapateado.

Quando a dança acabou, voltamos a bater palmas.

Suspirei, arriscando dar outra olhada para Darel.

Foi uma péssima idéia. Meu coração quase voou para fora do peito, enquanto ele me encarava pasmo, como se não acreditasse no que via.

Sinceramente, eu ainda não acreditava.

Por isso, aproveitei que alguns maoris se reorganizavam ao redor da fogueira para me misturar entre eles e voltar a desaparecer.

Sabia que a conversa seria inevitável. Sabia que Darel viria atrás de mim.

Mas o pânico que me dominou, covardia aquém do que eu esperava, me fez retornar, correndo, para minha cabana.

Precisava respirar. Precisava pensar.

Ver como Darel havia mudado não me ajudou em nada para que eu me livrasse daquele medo que me afligia.

Pude ver que as mudanças não haviam sido meramente físicas.

Darel amadurecera. Eu tinha descoberto coisa o bastante por Tuahine para saber que ele já não era nem mesmo um adolescente ingênuo. Havia tido que superar, sozinho, a morte de Tãpuaki e Ataahua. Viajara por todo o continente, e havia conhecido muito mais do que eu jamais tinha vindo a conhecer.

E, naquele momento, ao pensar nisso, me senti terrivelmente pequena e inexperiente. Por que Darel gastaria seu tempo comigo, quando havia tantas coisas – tantas pessoas – incríveis que ele poderia conhecer? Quem era eu para ele, senão a garotinha tola e birrenta que o havia deixado ir embora, como se nada significasse para ela?

Eu sabia que tinha que falar com Darel. Em particular desta vez... de verdade. Não podia deixar aquele pânico me dominar outra vez.

Mas, primeiro, tinha que me acalmar.

No entanto, não tive exatamente tempo para isso.

Por que alguém adentrou na cabana, fazendo-me erguer o olhar.

E, no olhar da garota de cabelos castanhos, percebi a determinação de alguém que não sairia dali, até terminar o que havia vindo fazer.