Nyrel - Uma História de Amor
30 Mudanças e Um Cavalo Bem Contrariado
Notas iniciais
NYREE
Vi Akahata e o restante da tribo se despedir dos garotos, sentindo num nó ridículo na garganta, assistindo a cena á certa distância.
Havia acontecido tanta coisa em apenas dois dias. Minha cabeça ainda girava.
E agora... agora via Darel partindo outra vez.
Sufoquei um soluço.
Mamãe estava ao meu lado, e afagou meu ombro. Ano, Tauwaenga e Hana estavam ao lado de papai, que nos observava.
— Parece que vocês se acertaram – ela falou carinhosamente, sorrindo.
— Acho que fizemos mais do que nos acertarmos – estremeci, tocando minha boca e lembrando-me do beijo que Darel havia me dado, na noite anterior.
Hana estreitou os olhos, com uma expressão maliciosa.
— Acho que entendo o que quer dizer, tuahine.
Dei um tapa de brincadeira no braço dela, revirando os olhos.
— Mas e agora, Nyree? – Tauwaenga franziu o cenho, olhando de mim para Darel – como vocês... vão ficar?
— Eu não sei – engasguei – Darel prometeu que irá voltar... quando isso tudo terminar.
— Acha que ele vai abandonar a cidade? Vai voltar á viver aqui em Tokonga? – indagou Hana, me olhando preocupada.
Aquelas eram perguntas sem resposta que ainda me atormentavam. Eu estava tão feliz por finalmente ter Darel de volta... e, agora, parecia que teria de viver outra vez sem saber se um dia o veria de novo.
Dei de ombros, tentando fingir indiferença, mas só consegui disfarçar outro soluço.
Enquanto o resto da tribo voltava para suas casas, vi Darel se virar em nossa direção, abrindo um grande sorriso e acenando para nós.
Sorri de volta, embora não conseguisse evitar um esgar de tristeza. Acenei para eles, baixando a cabeça e dando as costas para a multidão que se dispersava, sem ter coragem de terminar de me despedir.
Vi mamãe lançar um olhar estranhamente cumplice para papai, enquanto voltávamos para casa.
A escuridão da cabana nunca me pareceu tão fria e hostil, ao passo que entrei em casa, ainda abraçando meu próprio corpo.
Porém, meu rosto empalideceu de choque, quando uma pequena chama brotou no meio da cabana, iluminando o ambiente, surgindo de uma mão que parecia flutuar na penumbra.
Estarrecida, vi o rosto de Akahata surgir em meio ao breu, antes de toda a cabana clarear com sua chama.
— Senhor? – arfei, confusa.
Akahata sorriu, meneando a cabeça em direção os meus pais.
Papai suspirou alto, se pondo ao lado de Akahata e esfregando as mãos uma na outra.
— Tama... — mamãe segurou minha mão – eu e seu pai falamos com Akahata... – ela deu uma pequena risadinha, apesar de seus olhos aparentarem um pouco de temor – e decidimos... que talvez...
Hana bufou, exasperada, fazendo todos, exceto eu, rirem.
— Todos acham que devia ir com eles, Nyree.
Arregalei os olhos, pasma.
— Como assim?
Encarei Hana, chocada. Estavam falando sério? Estavam dizendo o que eu estava pensando?
— È isso mesmo – papai me olhou, sorrindo de novo – achamos que devia ir com Darel, aroha. Não queremos que sofra durante esse novo afastamento – ele balançou a cabeça – o seu lugar é ao lado dele.
— Mas... mas... – gaguejei, trêmula.
— Não é isso que você quer, Nyree? – Hana vincou a testa.
— Sim... é sim... mas... – a perspectiva me assombrou de tal modo que eu mal sabia o motivo de estar abalada – se eu for embora... e vocês...?
— Ah, por favor, Nyree – Tauwaenga cruzou os braços – sabemos nos cuidar. È só você visitar a tribo de vez em quando – ele riu – vamos ficar bem, e você também.
Eu não sabia dizer a fonte da ansiedade que me enclausurava. Talvez a perspectiva de sair do lugar em que eu havia morado toda a minha vida, ou o medo de não saber me adaptar á vida lá fora, ou mesmo a insana alegria que estar com Darel me traria.
No entanto, quando Akahata ergueu o pequeno frasco de poção em minha direção, toda e qualquer desculpa boba se esvaiu da minha mente.
Tinham razão.
Meu lugar era onde estava meu coração. E meu coração sempre seria do guia que havia acabado de partir em direção ao deserto.
Peguei o frasco, sentindo meus olhos arderem.
Era o melhor presente que eles poderiam ter me dado em toda a minha vida.
— Obrigada, Akahata – sorri, maravilhada.
Voltei-me para minha família, que me olhava com tamanho carinho, á ponto de querer me fazer chorar outra vez.
Abracei papai e mamãe, que encostaram suas testas na minha, afagando meu rosto. Hana, Tauwaenga e Ano se entreolharam, rindo, mas também me abraçaram.
— Vamos sentir falta de você, Nyree – arrulhou Ano.
— Eu também – guinchou Tauwaenga.
— Eu não – Hana disse, rindo quando Ano lhe meteu um chute mínimo na canela –tá, vou sentir sim.
A despedida ameaçou rasgar meu coração outra vez. Mas a possibilidade de ficar com Darel, e recuperar todo nosso tempo perdido, amenizava a tristeza de deixar minha família em Tokonga.
— Minha menina corajosa – mamãe me soltou, parecendo segurar o choro.
Akahata assentiu.
— Acho melhor que beba logo – ele aconselhou, o sorriso dobrando de tamanho – ao que me pareceu, Darel sabe correr muito bem nessa forma.
— Ele acha que sabe – desdenhei, satisfeita ao ver Akahata gargalhar, enquanto bebia o conteúdo do frasco e limpava a boca – quero o ver ganhar da melhor aprendiz do treinamento de transfiguração.
— Então é melhor começar logo, Nyree – Hana riu.
Dei uma última olhada em minha família tão querida, e sentindo profunda gratidão e desvelo pelo xamã de minha tribo.
Eu ia sentir uma saudade imensa deles. Ia sentir uma falta enorme de Tokonga.
Mas eu sabia, agora, onde deveria ser meu novo lar.
— Adeus – sussurrei, sorrindo.
Num último aceno, virei-me para o horizonte e parti velozmente em direção ao deserto, deixando tudo que tinha e conhecia para trás, e indo em direção ao futuro que eu tanto almejara.
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Já na forma equina, eu havia galopado um bom pedaço de deserto, sentindo o vento quente fustigar meu pelo, antes de finalmente vislumbrar três figuras que corriam pela areia, vários passos adiante.
Acelerei o galope, sentindo meu coração – agora com o triplo do tamanho humano – bombear rapidamente dentro de mim.
A certa altura da corrida, os três cavalos pareceram perceber minha aproximação, e diminuíram a marcha, voltando-se em minha direção.
Vi a égua castanha relinchar uma risada incrédula, o alazão ruço envergar a cabeça , e o cavalo negro recuar várias pegadas para trás, quando perceberam quem era a égua preta que se aproximara deles.
"Nyree!!!", ofegou o cavalo negro, balançando o corpo delgado para trás e para frente, numa espécie de balanço de choque "O que diabos você está fazendo aqui??"
Ergui a cabeça imperiosamente para trás, exasperada com o chilique de Darel.
"Akahata deixou. Vou ir com vocês...", encarei-o.
Por trás da irritação escandalizada, podia perceber que Darel estava absurdamente feliz por me ver. Mas também estava decididamente alarmado com a probabilidade de eu acompanha-los. Se era por eu ser uma inconveniência ou por temer por mim, eu ainda não fazia ideia.
Ele revirou os olhinhos miúdos, parecendo muito zangado com a expressão sonsa de Rony.
"Mas Nyree... você nunca saiu da tribo! Como vai se virar fora do deserto? Você não conhece nada!"
Darel, o mestre da obviedade. Relinchei, martirizada.
"Você pode me ensinar". Relinchei, súplice. "Não quero... ficar longe de você..."
Alguma coisa não me cheirava bem no modo como Hermione apertava os olhos. Talvez fosse alguma piada que eu perdera entre ela e o namorado.
"Bom... Hermione já reservou um lugar, Nyree... e você..."
Olhei de volta para Hermione, que franzia o focinho, como se estivesse morrendo engasgada com a própria risada.
Reservado um lugar.
Ah. Finalmente entendi.
Não tinha pensado nesse detalhe. Tentei ocultar meu constrangimento.
"Ela pode ir...", Rony bufou, ao que lhe dei um relincho agradecido. "A gente se vira durante a viagem. Pô, Darel, a garota só quer ficar ao seu lado!"
Fiz minha melhor expressão animalesca de imploração. Darel rodou o olhar, desesperado.
"Tudo bem, pode vir.. mas comporte-se, tá legal?"
"Claro. Darel". Concordei, achando graça em sua cara de quem queria morrer. "Vou ser sua sombra. Te seguir por todo lado, mas vou ficar quietinha..."
Darel franziu o focinho, como quem faz ironia. Vi Hermione e Rony relincharem risadinhas.
Eu conhecia Darel muito bem para não levar á sério sua aparente hostilidade com minha presença. Era o modo dele de ocultar qualquer outro sentimento que o corroesse por dentro.
E, por algum motivo, que me fazia sentir um assomo de felicidade, suspeitava que fosse um sentimento muito bom.
Estava, no fim das contas, animada e alegre. Estar com Darel espantava toda e qualquer emoção ruim dentro de mim. Eu finalmente tinha convicção de que tudo finalmente ficaria bem.
Infelizmente, eu estava enganada.
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