Notas iniciais
Olá, Nyrelers! Uma curiosidade: as palavras “amigo” e “namorado” são traduzidos pela mesma palavra no idioma maori: hoa. Sabiam disso? ♥ Bem, já falei a curiosidade. Agora podem continuar... hehehe Boa leitura!

NYREE

Perto do meu aniversário de quinze anos, a insuportável saudade que eu sentia de Darel havia amenizado ligeiramente.

Ainda estava lá, pulsante e profunda, mas eu finalmente havia conseguido superar aquela sensação de derrota que tanto me castigara desde sua partida. A culpa ainda me matava, mas, após tudo que acontecera desde então, eu tinha decidido que não podia ficar vegetando em minha cabana pelo resto da vida.

Havia guardado quase tudo que me lembrava dele num baú trançado, que eu mesma fizera, nos fundos de nosso quarto. As lembranças dele me arrasavam, mas não doía o bastante para que eu quisesse me livrar delas. Eu nunca me perdoaria se fizesse isso.

Até então, pouca coisa havia mudado em Tokonga. Eu havia finalmente concluído meu treinamento animago, assim como Tāwhai. Meus irmãos, Hana, de treze anos, Tauwaenga, de oito anos, e Ano, de três, finalmente tinham reduzido o tamanho de nossa casa de tal modo que papai e mamãe tinham precisado construir uma cabana nova, á quase meio quilômetro da antiga.

Lembro-me de ter ficado animada ao ver nossa nova cabana. Era três vezes maior que a primeira, e, desta vez, eu teria um quarto só para mim – o que ajudaria bastante, considerando que Ano gostava de me pregar peças, Tauwaenga queria um lugar só dele, para praticar sua magia em paz, e Hana havia acabado de começar aquela coisa que eu conheceria mais tarde como “ataque de hormônios”, e ninguém podia sequer respirar na direção dela.

Por isso, fiquei completamente irritada quando, já no primeiro dia na nova cabana, Hana invadiu meu quarto, saltitando no chão de terra batida.

Larguei minha cunha na esteira, revirando os olhos.

— O que foi, Hana?

Hana abriu um sorriso que eu só podia definir como um esgar de malícia.

— Seu wehea está lá fora... está te chamando para passear – ela riu.

Corei, mordendo o lábio e fechando a cara para ela.

— Ele não é meu wehea— resmunguei, me levantando e tacando a cunha na cabeça de Hana.

— Que seja – ela deu de ombros, esfregando a testa – mas ele está lá.

Fiz questão de empurra-la quando saí quarto afora, indo em direção á saída da cabana.

Hana havia tocado num assunto muito delicado, o que justificou minha reação. Desde que Darel fora embora, todos pareciam na expectativa de que eu e Tāwhai realmente fôssemos ser mais do que amigos.

Mas o fato é que eu não encarava Tāwhai assim. Ou, pelo menos, me recusava á encarar.

Claro que, desde aquele dia, ele tinha ficado menos inconsequente e mais responsável, e havia se tornado uma espécie de pilar em que eu me apoiava desde então, diminuindo minha tristeza e me deixando mais tranquila. Ele era divertido, e claramente gostava de mim.

Mas pensar nele de um modo diferente...

A ideia não me era ruim. Eu realmente gostava muito de Tāwhai.

Mas algo me impedia de confirmar até a mim mesma que algo poderia estar acontecendo entre nós. E, mesmo que estivesse, alguma coisa me incomodava com aquela perspectiva.

Na varanda, encarei a calopsita vermelha que ele me presenteara a dois anos, engolindo em seco.

Virei-me para frente, quando finalmente focalizei Tāwhai, debruçado no parapeito da cabana.

Ele havia mudado bastante desde que Darel havia ido embora. Já não era um garotinho; após anos em treinamento de caçadas e aprendizagem mágica, o deserto havia tornado seu corpo mais troncudo, quase como o de um adulto. Já ganhara inclusive uma cicatriz grande, em forma de corte, que se destacava em seu braço, fruto de uma luta com um nundu-australiano há alguns meses.

— Pensei que não ia sair – ele piscou, humorado – venha logo... quero lhe mostrar uma coisa.

— Lá vem ele – funguei, fazendo Tāwhai rir.

A coisa que Tāwhai tanto queria mostrar era um estranho objeto colorido, de forma cônica, com um tipo de redoma na base.

— Arranjei de um Tokonga que tem contato com alguns bruxos de fora do país – ele soltou o objeto em minha mão – eles chamam de bisbilhoscópio.

— Incrível – olhei o pequeno bisbilhoscópio á luz do sol – o que ele faz?

— Dizem que ele começa á fazer muito barulho quando há atividade de magia das Trevas por perto – Tāwhai sorriu – gostou?

— Gostei – sorri de volta, beijando sua bochecha – obrigada, Tāwhai.

Eu sempre fora fascinada com os objetos mágicos de outras comunidades bruxas, incluindo as comunidades urbanas. Tāwhai acertara em cheio no presente.

Não consegui sufocar a curiosidade que me surgiu repentinamente, sobre o que Darel devia estar achando de se misturar com outros núcleos de bruxos.

Tāwhai segurou minha mão, me encarando por alguns instantes.

Senti-me ligeiramente incomodada com o olhar profundo de Tāwhai, mas não sabia dizer o motivo.

Talvez eu fosse descobrir.

Mas algo interrompeu a atenção de Tāwhai, fazendo-o voltar o rosto na direção da cabana de Tuahine, irmã da mãe de Darel.

Um periquito minúsculo alçou voo da janela da cabana de Tuahine. Em seguida, ouvimos uma movimentação enorme dentro da casa, como se alguém estivesse esbarrando em todos os objetos que via pelo caminho. Depois, um lamento alto, como o de um animal ferido.

Assisti, espantada, a filha de Tuahine sair desembalada cabana afora, vindo em nossa direção.

— Hau... o que aconteceu? Ela estava tremendo, com os olhos saltando lágrimas pelo rosto.

— Ataahua e Kaitiaki – ela resfolegou, soluçante – acabamos de receber a notícia...

— O que? – repeti, assustada.

Hau guinchou.

— Morreram.

Senti como se uma pedra flamejante perfurasse meu corpo de cima para baixo.

— Não pode ser – arfei.

Estremeci. Ataahua e Kaitiaki, os pais de Darel...

Impossível. Não podia ser verdade.

— Como? – balbuciei, sentindo Tāwhai se postar ao meu lado, surpreso.

— Minha tia estava doente. Kaitiaki... – ela baixou o olhar – foi no dia seguinte. Acharam o corpo na praia.

Balancei a cabeça, atordoada.

Ia fazer a pergunta que me torturava, mas Hau ouviu mais gritos de sua cabana, e, lançando-nos um último olhar torturado, voltou correndo para casa.

A angústia me assolou, misturada ao torpor.

Darel... pobre Darel.

Isso não podia ter acontecido.

Ataahua, a mulher bondosa, que havia sempre tratado a mim como uma filha... e Kaitiaki, que tinha nos tirado de uma enrascada quando crianças, e que tinha nos ensinado tanta coisa...

Darel.

Como ele estava? Como ia se virar sem Ataahua e Kaitiaki? Não teria, de repente, feito algo tão brutal como o pai...

Ou teria?

— Nyree? Nyree!

Sentia superficialmente Tāwhai me sacudir, com o olhar saltado.

Olhei para ele, sentindo meus olhos arderem.

— Os pais dele morreram?

Algo me despertou do meu transe angustiado. Percebi a ligeira e violenta flexão que Tāwhai fizera ao dizer dele.

Assenti, ainda refletindo naquilo.

Tāwhai suspirou.

— Isso é horrível. Kaitiaki era muito amigo do meu pai. E um bom homem – ele baixou a cabeça – pobre Ataahua.

— Darel... – murmurei.

Vi Tāwhai contrair o rosto quando disse o nome dele.

— Deve estar bem – ele não conseguiu esconder o tom de resmungo – olha, acho que devíamos voltar para a sua casa... sua mãe vai querer...

Estaquei, olhando para Tāwhai.

— Você não está preocupado com ele? – minha voz saiu baixa, mas aguda.

— Escute, Nyree – Tāwhai ergueu as mãos – ele vai ficar bem. Se ele foi embora daqui faz cinco anos e ainda não morreu, vai continuar vivo. A vida continua, não é?

Recuei um passo, boquiaberta. Os pais do meu melhor amigo haviam acabado de morrer, e tudo que Tāwhai dizia era que ele ficaria bem?

— Não – fechei as mãos em punho – você não se preocupa nem um pouco com ele – falei, acrescentando algo que eu finalmente havia percebido naquele momento – nunca se preocupou. Nem mesmo quando fomos procura-lo quando se transformou. Nem quando ele foi embora. Você nunca se importou, não é?

— Claro que não! – Tāwhai exclamou – o aturei por que ele sempre estava com você! O grande e perfeito Darel. Sempre melhor que eu, e só conseguia odiar o fato de que você sempre gostou mais dele do que de mim! Desde o início, e só por que já estava aqui...

Senti o nó em meu estômago se apertar.

Eu devia saber daquilo havia muito tempo. Como não percebera?

Tāwhai planejara desde o início. E quase conseguira tomar o lugar de Darel.

Ergui a cabeça, impassível, e, de início, quase não sentindo a sensação avassaladora de traição que aquela revelação de Tāwhai deveria fornecer.

— Devia ter adivinhado – desdenhei.

Ele pareceu finalmente se dar conta do que dissera, pois tentou se aproximar.

— Nyree...

— Saia daqui, Tāwhai.

Uma raiva invasiva preencheu-me por dentro, quase me fazendo tomar minha forma animal. Tive que me segurar para não fazer exatamente isso, e assistir Tāwhai levando meus chutes até a morte.

— Por favor, Nyree... – Tāwhai ergueu as mãos.

— Não – rosnei, pegando o bisbilhoscópio e arremessando-o em seu peito – não quero mais nada de você, Tāwhai. Vá embora.

O rosto de Tāwhai se transformou, e, em vez de súplica, vi, por fim, o desprezo.

Nem me importei quando Tāwhai jogou o bisbilhoscópio no chão, pisando-o.

— Quer saber? Talvez você não tenha mesmo valido a pena – ele deu as costas, sem me encarar outra vez – e, á bem dizer, Darel voltando ou não, vai ser melhor que esteja morto!

Vi-o tirar o anel de linho do dedo e também lança-lo ao chão.

— Vá embora, seu covarde! – gritei.

Tāwhai continuou andando, e foi ali que percebi a farsa terrível, que não era só ele que havia construído.

Esperei finalmente chegar á cabana mais próximo para, enfim, poder desabar, e sentir as lágrimas caírem, me sentindo mais vazia do que nunca.

Notas finais
* Wehea – namorado (mas dito de uma forma mais maliciosa, com um sentido mais “apimentado”) Du-vi-do que alguém teve curiosidade de ver o significado do nome de Tāwhai no Google. Pra quem nem deu bola, significa "rival". É, CAMBADA, O SPOILER ESTAVA AÍ E NINGUÉM PERCEBEU... kkkkk Bem, o que acharam da treta? *-* Beijinhos e até o próximo capítulo!