Notas iniciais
Olá queridos, tudo bem?

Esta história foi feita especialmente para o concurso, apesar de não se passar especificamente no natal, uma parte se passa no ano de 1207 em Kyrenia, na Ilha de Isaac Commeno e a outra, na Cruzada dos Reis.
Espero que gostem, minha ideia foi fazer algo diferente. Boa leitura!

O Cavaleiro da Morte

24 de dezembro de 1207

Era uma bela manhã de Natal, eu, Marco e Elise havíamos selado nossos cavalos e partido por uma trilha dentro da mata para caçar javalis, Elise era a melhor de nós com seu arco e flechas, sua mira era inigualável.

- Com sua mãe por aqui garantiremos o jantar de natal antes que a ampulheta derrame toda a sua areia. – Comentava com Marco enquanto observava minha esposa varrer os olhos pelo bosque como uma águia.

- É ela é realmente muito boa nisso. – Ele concordava enquanto brigava com os longos cabelos loiros que insistiam em lhe chicotear a face ao vento – Mas pai, eu tenho uma pergunta, como tu se tornastes um Rei?

- É uma longuíssima história, quer mesmo que eu a conte no dia de natal? – Eu observava a expressão em seu rosto ser formada.

- Quero sim! Ajuda há passar o tempo, – Ele respondia observando sua mãe arrancar com o cavalo e desaparecer atrás da caça em meio a vegetação – quando ela faz isso, é sinal de que a caça vai durar o dia todo...

- Pois bem, nossa história Reino Latino de Jerusalém, aquele que agora pertence à Saladino, mas os Cruzados viajam para lá livremente em expedição religiosa, o ano era 1180.

Era uma manhã triste e pesarosa, me aprontava vestindo a malha de guerra para deixar a tenda, caminhava pelas ruas em direção ao Palácio de Jerusalém, minha presença havia sido solicitada pelo Suserano na grande reunião que ele convocara.

O Rei Balduíno IV encontrava-se deitado em leito de morte, Sibila, sua irmã o acompanhava em prantos ao seu lado, enquanto Joseph, o melhor amigo dele, consolava-a. Eu contemplava uma visão nada bela do Soberano, a lepra havia tomado-lhe o corpo e agora depois de tantas sessões inúteis de tratamento deixara de parecer estar no auge de seus vinte e quatro anos de idade. A me ver ele levantara sua mão, como se pedisse sem palavras pela minha aproximação.

- Meu Senhor. – Cheguei mais perto acatando seu pedido, parecia que ele já havia passado suas ultimas mensagens para a maioria dos presentes.

- Estava lhe aguardando Darius, prometa que irá fazer de tudo para manter o Reino nas mãos de minha amada irmã e sucessora de meu trono e seu marido o Rei Guy de Lusignan. – Ele falava com dificuldades.

- Farei tudo o que estiver ao meu alcance, e de minhas tropas... – Falei pensando no velho e rabugento homem que assumiria o poder daquele lugar, um francês metido que jamais sequer escutaria os conselhos de seus comandantes, pois ele não tinha interesse na Cidade, mas sim no ouro do enfermo.

Já me afastava quando em um impulso, ele segurou minha mão com força, olhei em sua face e ele estava morrendo. – Chamem os médicos! – Bradei em desespero, ao meu lado Joseph saía às pressas buscando por ajuda. Robert, meu companheiro de guerra segurara Sibila para impedi-la de ter qualquer contato físico neste momento com o irmão, enquanto Balduíno cochichava a mim suas últimas palavras.

Os médicos chegaram exaustos aos aposentos reais, checaram os sinais vitais e informaram a nós que ele partira. Sibila caía de joelhos sobre o tapete, em um pranto ensurdecedor, o padre local encontrava-se presente e pediu que todos deixassem o quarto, para que ele pudesse rezar pela alma do falecido.

Era realizada a marcha para o cortejo fúnebre quando eu e Robert conversávamos tomando todo o cuidado para que ninguém nos visse, enquanto isso, Guy de Lusignan fingia prestar solidariedade à dor da noiva quando por dentro comemorava afinal após o casamento que seria adiantado por causa da previsão de ataque dos maometanos, ele seria administrador de dois reinos.

- Esta parte do Outremer ficará arrasada, com ele no poder perderemos todas as guerras, Guy não está preocupado com o território e sim com o ouro da Rainha. – Falava Robert durante nossa caminhada.

- Ele não é o único, apenas o vencedor da disputa. – Cochichei – O melhor amigo do falecido se encontra com Sibila há muito tempo...

- Está brincando? – Ele me olhava pasmo, lhe respondi com um aceno de cabeça negativo – Dizem que outro que está bem feliz com esta noticia é Reynald de Chântillon, não por ter uma dama disponível, mas porque nesta fase de transição ele espera receber regalias do compatriota francês, Balduíno era firme com os aliados como seu sucessor “cabeça oca” nunca será.

Cessamos a conversa por ali, o corpo da Majestade foi colocado sobre uma cama de palha e o novo Suserano após colocar-lhe duas moedas nos olhos ateou fogo deixando que queimasse. Assistimos com pesar ao padre que rezava de longe fazendo o sinal da cruz, desconfiava que por medo de contagiar-se com a doença também.

O luto de sete dias foi interrompido pelo casório, onde todos os súditos foram obrigados a assistir, menos Joseph, ele se ausentara durante toda cerimônia justamente para não ter que ver outro tomando o lugar que quase foi seu.

Três dias se passaram desde então, eu dormia sossegado em uma taverna ao lado de uma bela jovem quando as trombetas soaram de maneira desesperadora, quem as ouvira naquela noite achava com sinceridade que os guardas haviam tocado até perder o fôlego e caírem desmaiados. Deixei-a em seu dormitório e corri para as estalagens em busca do material de guerra, os maometanos já escalavam as muralhas quando por fim consegui.

Empurrávamos os inimigos com nossos escudos enquanto eles tentavam avançar, jogando seus cavalos sobre nós. Nosso exército atacava com fúria, fazendo os homens sangrarem no campo de batalha, a noite era engolida pelo dia e perto do momento em que o sol se encontraria no ponto central do céu, saímos vitoriosos.

No fim do dia apenas recolhíamos os mortos, que do nosso lado eram poucos. Eu caía nas areias de exaustão quando Robert avistou-me e solidário, carregou arrastado até a sombra das grandiosas muralhas.

"Tu receberas a dádiva e a espalhará pelo campo de batalha como maldição” – Era a mensagem escrita em um papel sobre a escrivaninha do Rei. Embaixo da mensagem, um livro com desenho de lua. Balduíno me encarava com uma expressão morta nos olhos, sua mão coberta pela lepra entrelaçou minha garganta e me causou desespero.

- Por que a agonia Darius, a Morte não precisa da sua alma. – Ele sibilava.

Debatia-me lutando contra a falta de ar quando fechei os olhos.

- Darius, acorde! – Tempos tinham se passado desde a batalha e eu dormia sossegado quando Robert me acorda, entrando aos berros em minha tenda, atrás dele, os soldados se aglomeravam como se soubessem antes de mim, do ocorrido.

- Robert – Pulava da cama, assustado – espero que tenhas me acordado realmente urgente... – Eu falava em uma mistura de sono com pânico.

- Reynald prometeu a Satanás em pessoa as almas do Reino! – O olhei confuso tentando entender e comparar a metáfora com pessoas que supostamente conhecíamos, ele me fitou por alguns segundos e logo depois notou que eu não havia entendido – Ele estava outra vez assaltando caravanas de peregrinos e devotos para a Meca, quando a os ventos sopraram contra e recaíram em nós, ao abordar e matar metade do comboio, ele descobriu que se tratava da passeata da irmã do Sultão Saladino e do filho dela – Senti um arrepio correr por minha espinha, isso indicava que o pior estava por vir – não teria nos afetado se ele tivesse os degolado e roubado as riquezas, Saladino iria bater a porta dele, mas para provar o quanto é pacóvio, os trouxe para cá como prisioneiros! – Ele entrelaçava as mãos pelos próprios cabelos em sinal de desespero. Os soldados atrás dele se manifestavam, e eu era invadido por adrenalina.

Bufando, levantei colocando a malha, isso não ficaria assim, a fúria dentro de mim havia acordado. – Reúna os homens, nós vamos atrás dele! – Selei o cavalo e disparei atravessando a cidade até a prisão.

- Então, já terminaram esta história? – Elise voltava com seu enorme javali amarrado por uma corda, interrompendo a narrativa – Precisamos voltar para que os cozinheiros possam preparar a ceia.

- Mãe! – Reclamava Marco – Agora que a história estava ficando boa...

- Vamos, Príncipe de Kyrenia, já está tarde mesmo. – Eu olhava para o céu, ele estava coberto pelo alaranjado do pôr do sol, tínhamos demorado um bocado. Chicoteei meu cavalo para que meu fiel ouvinte me seguisse.

De volta ao castelo, mandei que tirassem a caça de cima do cavalo e levassem para a cozinha, sentei à mesa e o primogênito acompanhou-me eufórico.

- Vamos conte o restante! – Ele imperava.

- Tudo bem.

Ao chegar, em frente à prisão nossos guerreiros e os dele entraram em uma calorosa discussão enquanto nós oficiais, descemos pelas escadarias, se o conhecia bem, ele estava humilhando os prisioneiros. Meu sangue ferveu ao ver o quanto estava certo, fui a sua direção calado de ódio e lhe deferi um soco na face, o jogando em seguida contra a parede e colocando minha espada contra seu pescoço.

- Planejava nos condenar a morte? – Eu gritava a centímetros de seu rosto – Porque conseguiu, por sua causa vamos todos morrer! Tomara que lhe arremessem para o lado de fora das muralhas sozinho para que o irmão dela te massacre como desejar!

- Tire suas mãos de mim se não quiser morrer! – Ele me empurrava para desembainhar a espada – Eu sou um Rei e não admito essa atitude vinda de um soldado! – Meu sangue fervia nas veias deixando-me cego, tão cego que lhe apliquei outro soco arrancando alguns dentes, Robert se metera entre nós, nos afastando.

- Espero as retaliações vindas do meu Soberano! – Disse lhe dando às costas.

Não demorou muito para que Saladino marchasse com suas tropas para o Reino Latino de Jerusalém. Durante muito tempo ele dominou algumas cidades mais fracas do Outremer, esperando apenas um motivo para atacar Jerusalém, e Reynald agora tinha lhe oferecido um de bandeja.

O chão tremia do lado de fora das muralhas e ao pairar dos corvos, o vasto e temido exército do Sultão marchava, parando em frente aos homens que formavam filas de contenção. Os arqueiros já miravam, aguardando apenas as ordens. Guy de Lusignan atravessou o pátio descendo as escadarias e abriu as portas, passando pelo mar de homens para conversar com o muçulmano, que já lhe esperava.

- Salaam Alaikum – Eu observava toda a conversa ao lado do Soberano.

- Aleikum As-Salaam. Estou aqui hoje, por dois grandes motivos. – Ele falava sério – O primeiro é pela minha irmã e pela situação a qual ela foi exposta. O segundo é uma vingança pelo massacre promovido aqui quando seu povo conquistou estas terras. Exijo que me traga os culpados pelo sequestro de minha irmã, ou declararei uma Jihad!

- Infelizmente se trata de um Rei, e não poderei “dar-lhe” como reparação, mas posso trazer sua irmã, então darias meia volta com seus homens e... – Ele levantou a mão interrompendo o Rei.

- Traga-me ela. – Falou seco, Robert foi busca-la, demorando um breve momento – Se não vão entregar-me os culpados, então eu os arrancarei de detrás de seus muros, passar bem.

Com aquelas palavras voltamos, e guerra começou. Eu saí a cavalo rasgando homens com a espada quando uma tempestade de areias cobriu-os e algo me atingiu arremessando a metros, direto no chão. Um inimigo surgiu da camada de poeira com seu grandioso martelo acertando-me no abdômen, eu cuspi o sangue e estranhamente não morri, ele sacou a espada cravando-a em meu peito, novamente não encontrei a morte. A tempestade passou e por todos os lados os homens se golpeavam incessantemente sem nenhuma baixa.

Os comandantes conversaram entre si, chegando ao consenso de parar a guerra, pois algo de errado estava acontecendo, voltamos com milhares de feridos para as enfermarias, eu era um deles. A conclusão era que a praga profetizada pelo Rei Balduíno, havia enfim aparecido. Permaneci com os Hospitalários até que Guy convocou as tropas para uma marcha na Galileia juntamente com Raimundo III de Trípoli.

Nas mãos do francês o exército, mesmo sob a praga marchava para a derrota, a Jihad continuava nos Cornos de Hattin e depois de um exaustivo dia, guiado por Raimundo, montamos acampamento perto de um rio e em meio à vegetação. Eu saí para pegar água quando as tropas de Saladino atacaram o acampamento gerando uma cortina de fogo, os que ousavam atravessa-la para salvar suas vidas eram gravemente esfaqueados.

Sendo apenas um único homem não poderia me manifestar contra milhares, então parti desbravando a mata em busca de ajuda. Após dias de caminhada em completa exaustão e um pouco ferido, encontrei um nobre homem que se intitulava feiticeiro.

O mago tratou de meus ferimentos como nenhum Hospitalário fez, após noites acordando-o com meus pesadelos sobre o antigo Rei e a praga, ele teve uma visão, dizendo que talvez na cidade de Marrakech eu encontrasse a solução dos meus tormentos.

Parti, andando durante dois anos em busca do fim da praga enquanto a Guerra acontecia, deixava milhares de enfermos e Saladino dominava cidade por cidade da região do Outremer. No deserto, exausto, com as roupas rasgadas, gastas, e cantil vazio, deslizei da sela do camelo e caí nas areias, inconsciente.

Acordei com uma serpente venenosa em fúria sobre meu tórax, tentei apanhar minha adaga de perna, mas ela não estava lá, então tive que arriscar uma luta corporal com a cobra, arremessando-a a alguns metros de distância. Não obtive muito trabalho para notar que havia sido assaltado e que meu camelo tinha me largado a própria sorte.

Andei pelas dunas durante dias a léu, dormia ao relento coberto pelo manto da noite e as frias temperaturas eram minhas únicas companhias, quando minha sorte começou a mudar, uma luz surgiu ao horizonte, um beduíno viajava com seu mascote e resolveu me acolher consigo.

- O que buscas andando por estas terras, cavaleiro? – Me perguntava o velho trambiqueiro com a curiosidade aguçada, seus dentes reluziam a luz do fogo chamando-me atenção.

- Busco pelo fim da praga, e os presságios indicam-me que Marrakech tem a resposta. – Eu respondi comendo pão e tomando água, enquanto a fogueira ardia entre novas.

- Já ouvi falar sobre isto antes, meu filho, a cada trezentos anos o portador da morte escolhe um sucessor, pois este não aguenta mais coletar as almas, passando para frente sua condição. Tome cuidado, o pouco que sei sobre a lenda já é o suficiente para não querer me envolver com ela. – Com essas palavras voltamos as nossas barracas e no outro dia ele me acompanhou na jornada até a cidade.

Ao chegarmos, atravessamos os portões e fui tomado por uma sensação de dejavú, seguindo cada um dos rastros de “memórias” até uma casa. Subi as escadarias e abri a porta, me deparando com uma atmosfera congelada, corpos no chão e comida podre. Adentrei andando até o quarto, um ser de cabelos alvos, aparência pálida e profundas olheiras me aguardava, o gelo das paredes congelou meus membros e quando me dei conta, os finos e longos dedos gélidos do ser seguravam meu queixo, ela olhou em meus olhos e seu olhar me atravessou, perdi a consciência e quando acordei, o gelo tinha derretido, a casa estava alagada, e a garota, agora de cabelos negros e aparência normal estava desmaiada em meu peito.

Chacoalhei-a violentamente e ela despertou assustada, lançando-se para o outro lado do cômodo.

- Quem és e por que me fizestes vir até aqui? – Passava as mãos pelos longos cabelos molhados sem entender.

- Darius Khulack, eu sou Ming Chong, hospedeira da morte já não estava mais em condições de absorver as almas deste mundo, meu tempo acabou. O Espírito da Lua clamou por sua alma e eu a trouxe até mim para passar a condição a ti. Daqui para frente tu és o hospedeiro, boa sorte. – Ela levantou-se saindo, a impressão que tinha era que deslizava sobre o chão.

As vozes em minha cabeça se assemelhavam aos sons das almas purgantes do Tártaro, levantei cambaleante, minha visão estava nublada, algo errado acabara de acontecer. Arranjei um camelo e iniciei a viagem de volta. Pelas notícias sobre os Cruzados que corria pelo oriente, Sibila havia fugido com Joseph para a Ilha de Malta e Guy, furioso partira atrás dela, o Rei Reynald de Chântillon havia desaparecido e suas tropas o procuravam. Após a derrota na Galileia, o Rei Guy teve seu império conquistado por Saladino e a missão de reconquista-lo recaiu para os Soberanos Ricardo I, da Grã Bretanha e Filipe Augusto, da França.

Quando entrei pelas portas do Castelo de Acre, fui recebido pelos olhares confusos dos Suseranos, Ricardo e Filipe, se perguntavam o que um simples soldado maltrapilho estaria fazendo no Salão Real, me ajoelhei diante deles, apoiando meu corpo na espada enquanto ela flamejava em um azul vivo.

- Meu nome é Darius Khulack, acredito ter sido o único sobrevivente ileso do ataque minucioso das tropas na Galileia, por muito tempo percorri os vales em busca de uma boa alma que pudesse me fornecer ajuda, e encontrei, andei por todo este tempo pelas areias do Saara a procura do fim da praga, como descrito nas lendas beduínas e para minha surpresa, elas estavam certas, meu corpo foi tomado pelo Espírito da Lua, ou como conhecemos em nossas terras mães, a Morte e agora retorno para servir novamente as vontades do Papa e de meus soberanos. Peço que me readmitam em suas tropas, para que possamos terminar a Guerra com um soldado à altura que buscam. – Boquiabertos, eles aceitaram.

Meses depois marchávamos para Jaffa com objetivo e reconquista-la, Ricardo pretendia aproveitar o final da praga para honrar a memória de Frederico Barba Ruiva, o Rei do Sacro Império Romano Germânico que tinha caído do cavalo em um rio a caminho de Jerusalém, ele se afogara e tinha ficado em estado crítico até pouco tempo antes de minha reagregação ao exército, quando partiu deste mundo.

As tropas de Saladino nos aguardavam com escudos e lanças em punho, nossos homens rugiam feito leões, fazendo nossos sons ecoarem por todo o deserto. Às ordens atacamos. Minha espada flamejava implorando pelas almas daqueles homens, meu aço rasgava gargantas fazendo o sangue voar pelos ares, e dentro de mim, as almas se alvoroçavam pedindo mais e mais.

Depois de voltar ao acampamento minha visão tinha se tornado pálida, uma espécie de branco e preto, adormeci.

- Darius, acorde! – Chama uma voz conhecida, abro os olhos e vejo o mago.

- Mago o que fazes aqui? – Perguntei confuso levantando da cama — Achei que jamais lhe veria de novo?

- Engano seu, Darius. Eu sempre olhei por ti. – Ele me sorriu – Mas vim hoje dar-lhe um aviso, meu amigo. Sinto sua alma ficando pesada, cada vez que vais a guerra, seu corpo fica mais saturado, deixe o exército, quanto mais almas coletar, maiores serão as transformações em ti.

- Eu não posso sair mago, mas agradeço a preocupação...

Acordei e minha visão continuava desprovida de cores, mas não havia muito a ser feito, vesti a malha e fui para a guerra. Ao avistar meu sabre, o inimigo hesitava e eu o cortava sem piedade, o medo dentro de mim desaparecia a cada homem que eu atacava, a cada golpe ou tentativa de me parar que recebia, sentia que tinha um monstro dentro mim que queria sair, mostrar sua face, eu já não era mais o mesmo, deixava de ser humano aos poucos e passava a ser uma marionete da Morte assim como Ming era na primeira vez que a vi.

Meses se passaram, tínhamos tomado à cidade e agora partíamos para o segundo alvo do Papa Gregório VIII, Damasco. Os dias de marcha eram longos e “meus demônios”, como agora eu chamava minhas companheiras, não se cansavam de falar, reclamar e etc, todos ao mesmo tempo, transformando minha cabeça em um inferno. Uma parte de minha humanidade havia se perdido, sentia minhas emoções já bastante fracas.

Em Damasco, Saladino nos esperava com os arqueiros prontos para o ataque, acima da passarela da torre, ele trocava olhares desafiadores com Ricardo, como se nos lábios de cada um habitasse um segredo.

Pela estreita fresta em meu elmo, espiava com cautela ao aguardo das ordens, para dar as minhas, às tropas pelas quais era responsável, assim como Robert, meu fiel amigo. Trocávamos olhares de cumplicidade, tramando estratégias para executar em dupla, e meios de cuidar um do outro em campo de combate, como sempre tínhamos feito.

Filipe ergueu sua espada e baixamos nossas lanças, um som em sequencia se fez como se cada uma das fileiras baixasse de cada vez, uma sensação boa me tomou enquanto os ventos chicoteavam meus cabelos, Filipe rodopiou com seu cavalo e pude ver o momento exato em que tanto ele, quanto o Sultão baixaram suas espadas, seus berros soaram por toda a redondeza e então os homens correram para cima dos outros se enfrentando.

Esperei até que as tropas da frente se movimentassem acertando em cheio os muçulmanos, os empurrávamos, atirando-lhes lanças e espadas, então ergui minha lâmina, ela flamejava com o vento, Robert me sorriu de canto erguendo também a sua, e demos a ordem para que nossas tropas atacassem pelas laterais formando uma barreira com escudos atrás daqueles que já guerreavam, acabando com os inimigos ainda vivos.

Eu golpeava os homens sem dó alguma, eles tentavam várias e várias vezes me deter, sem sucesso, eu já não sentia mais dor alguma. Sozinho, tinha iniciado um pequeno massacre, aos olhos dos saladinos eu havia me transformado em um ser tão assustador que nos outros dias de batalhas que se seguiam, até meus companheiros chamavam-me de Cavaleiro da Morte.

- Darius, procure pelo livro do Espírito da Lua. Tu sabes qual é já o viu em vários outros sonhos. Procure também pela adaga de ouro... – Falava o feiticeiro olhando para todos os lados como se corresse perigo.

- Está tudo bem? Pareces tão desconfiado... – Perguntei incrédulo.

- Acredito que estão tentando me assassinar... – Ele respondeu e uma terceira voz surgiu, conhecida.

- Tentando frustrar meus planos, mago?

Despertei de meu sonho, andei até a bacia de água para lavar o rosto, estava encharcado de suor, acendi a vela e quando formei a concha com as mãos para pegar água vi algo que me deixou perplexo, meus cabelos havia se tornado esbranquiçados. Tomei as madeixas nas mãos para ter certeza de que era real, infelizmente era.

Na grandiosa ampulheta de Filipe a areia escorria devagar e longo foi o tempo que levamos para invadir Damasco, as forças de Saladino estavam se tornando enfraquecidas desde sua derrota em Jaffa, a moral dos homens já não era mais a mesma, e quando por fim estouramos os portões da cidade, o Sultão e seus homens haviam escapado por um túnel.

Ricardo tinha lucrado muito com aquelas expedições e o Papa continuava contribuindo com a Cruzada, enviando o Dízimo de Saladino. O poder de visão e capacidade estratégica do Rei impressionava à Gregório, e por este motivo ele pediu que navegássemos até Chipre e retirássemos a Ilha de Isaac Commeno das mãos dos Sarracenos.

Filipe e o Suserano Britânico reuniram uma quantidade imensurável de navios, colocaram seus homens dentro e atravessaram o mar em busca de Chipre. A neblina se formara nas águas ocultando a visibilidade do inimigo e logo o assustando ao ver uma imensa quantidade de naus brotarem em seus horizontes com bandeiras eclesiásticas.

Após o primeiro dia de batalha em Chipre, eu mal desembarcara e já trazia temor aos homens, minha fama parecia ter corrido aos ventos. Às ordens, tínhamos montado uma formação tartaruga, onde fazíamos uma “bolha” de escudos, as lanças passavam por cima e as flechas em chamas fincavam neles. Em apenas um dia tinha matado tantos homens que “limpamos” a praia. Os últimos sinais da morte tinham se tornado visíveis, meus olhos antes castanhos agora estavam claros como água, o que antes restava de um Darius Khulack dentro de mim, agora se transformara em fumaça.

Aproveitei a trégua da véspera natalina para ir à grandiosa biblioteca de Chipre, subi em meu cavalo e conduzi suas rédeas atravessando da praia à cidade. Parei em frente à construção, sentindo um arrepio correr meu corpo, dei alguns passos a frente e toquei as portas sentindo as travas se locomoverem do lado de dentro das madeiras, as empurrei e os candelabros se acenderam iluminando metros de salas e saguões, nem sabia por onde começar minha busca.

Considerando que a veracidade das lendas sobre a morte era um segredo, optei por iniciar a procura por uma sala que me parecia escondida a olhos destreinados, por algumas grandiosas estantes, novamente ao menor toque as portas se destrancaram como mágica e bastou um mísero empurrão para que revelassem seus segredos.

Aquela era uma pequena sala coberta por retratos dos hospedeiros passados, seus nomes e datas. No canto um pedestal se encontrava vazio, passei por ele com estranhamento e fui em direção a um livro grosso. Sua capa estava coberta de poeira e ao meu assoprar revelou ser o livro de capa avermelhada com um desenho de lua, tão aclamado em meus sonhos.

Coberto de curiosidade, o abri, e comecei a ler, as primeiras páginas contavam sobre a lenda a cerca dos hospedeiros e a história a respeito da morte. O capítulo que se seguia chamou-me atenção, falava sobre o ritual de transmissão da condição.

“A Adaga de Ouro tem o poder de passar para traz ou para frente à condição de hospedeiro, ou seja, caso o hospedeiro antigo seja morto pela arma, sua condição será totalmente mandada para frente, mas caso contrário ela será retransmitida ao antigo portador”.

- Será que era sobre isto que o mago queria me alertar? – Murmurei com a cabeça repleta de dúvidas – Não matei Ming, será que ela pretende me assassinar para reassumir a condição e viver mais trezentos anos? – Olhei novamente para o pedestal, imaginando que ali era o local onde a arma deveria ser guardada.

Dei meia volta saindo da sala, olhava para todos os lados do hall, a espada flamejando em punho, os sentidos aguçados, deveria haver mais alguém ali. Aos fundos, no chão, atrás de um emaranhado de livros avistei uma mão, ainda armado andei cauteloso até o local, espreitando por todos os cantos. Abaixei-me retirando livro a livro e senti um pesar tomar-me quando notei tratar-se do mago, ele tinha as costas perfuradas e seu sangue tinha colorido os papéis de vermelho, encarei aquela cena por um tempo.

- Chocado? – Uma voz rasgava o silencio no prédio, a mesma odiosa voz que eu ouvira durante o sonho, virei caçando seu dono e quando encontrei, fixei meus olhos nele de maneira mortal – Não fique logo se juntará a ele no mundo dos mortos. – Ming falava firme, o sorriso em seu rosto mostrava o quanto longe estava determinada a ir por suas causas. Ela brincava com a adaga em mãos.

- Não sei pelo que estou mais chocado – Eu dizia levantando com a espada apoiada no ombro – se é por ele ter tentado me avisar, ou por eu nunca ter desconfiado antes, então, conte-me seus planos, tenho direito ao menos de saber o porquê deste “circo” todo.

- Eu quero a longevidade e a juventude que ser portadora pode me proporcionar, nada mais justo pela servidão – Ela andava cautelosa atravessando o corredor em minha direção, seus passos eram surdos, mas nem por isso, menos perigosos – apenas tive que esperar seu corpo ficar saturado...

- Venha pegar! – Sibilei e com essas palavras ela passou a ziguezaguear velozmente pelo corredor para tentar dificultar meu golpe.

Esperei o momento certo, dando dois passos à frente, erguendo-a pelo pescoço, e jogando contra o chão, finquei minha espada em seu corpo para que não escapasse, afinal, lidava com isso todos os dias, eu era comandante de um exército, enfrentar-me em uma luta corpo a corpo era uma atitude patética.

Ela colocava suas mãos na lâmina tentando tira-la, uma batalha de imortais, tomei de suas mãos a adaga, imaginando se a cortaria aos poucos ou mataria de uma vez. – Adeus Ming – A apunhalei e as veias de seu corpo se tornaram arroxeadas, a pele empalideceu e seus movimentos acabaram. Agora eu era o único hospedeiro.

Deixei a biblioteca com o corpo do mago, meu amigo, precisava dar-lhe um enterro digno, o coloquei sobre o cavalo e galopei até um bosque, cavei um túmulo e fiz sua sepultura. Logo depois segui para o acampamento e deitei na cama refletindo sobre meus conturbados pensamentos com meus incaláveis demônios.

Assim que o sol mostrou seus primeiros raios, vesti túnicas de plebeu e fui até a tenda de Ricardo, Filipe arrumava seus pertences, provavelmente retornaria a sua terra mãe, o cumprimentei e pedi que fosse anunciado ao Rei britânico.

Ele saiu tomado por um bom humor matinal visível em seu sorriso, olhou com estranhamento para minhas roupas e por fim iniciou a conversa.

- Então Darius, o que lhe traz aqui? – Cobria os claros olhos com a mão, seus cabelos loiros e curtos levantavam-se ao vento.

- Quero deixar o exército, Senhor... – Ontem fui a um lugar que me revelou segredos de vida de forma inimaginável.

- Comandante, está certo na decisão de abandonar suas tropas perante batalha? – Ele frisara a palavra “abandonar” para que eu repensasse a atitude, mas não havia nada a ser feito, eu já tinha refletido o suficiente.

- Sim, conclui que está mais do que na hora de seguir o meu próprio caminho. – Falei firme.

- Certo... – Ele falou pensativo – Poupar-lhe-ei dos procedimentos de deserção e estarás livre para seguir em frente. Filipe está retornando para a França, certamente poderás contar com sua nau para voltar ao continente. Como dizem nesta terra, que a paz esteja com vós.

- E com vós também.

Parti com Filipe que foi generoso cumprindo sua palavra. Durante o tempo em que a guerra em Jerusalém acontecia, eu reunia meus próprios comandados, conquistava terras e riquezas, com a fama de Cavaleiro da Morte, por isso não tinha que me esforçar muito. Um ano depois eu tinha me tornado o Rei Darius I, de Kyrenia.

- Então, me tornei Rainha – Interrompeu Elise sentando-se conosco. – Os empregados arrumavam a mesa. As areias da ampulheta terminaram de correr. Era hora de ceiar. O javali era servido com uma maçã na boca.

- Feliz Natal – Disse Marco.

Notas finais
Enfim, deixem-me saber suas opiniões. Espero que tenham deliciado cada parágrafo como eu, quando escrevi. Feliz Ano Novo!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!