NyahN - 54 Natais
1 ÚNICO
Notas iniciais
As luzes da rua chamam minha atenção através da janela, mais um natal chegou na minha vida, mais um dia que com o passar dos anos possuiu diversos significados para mim. Sento-me ao lado da janela e olho para baixo, as ruas começam a se esvaziar, as pessoas correm pelas calçadas com sacolas de presentes, os carros disputam corrida tendo a linha de chegada em seus respectivos lares, as lojas estão fechadas e sei que em breve só o que restará serão essas luzes que piscam para mim agora.
Natal oito...
Quando eu era criança me lembro de ficar deitado no tapete da sala aos pés do meu pai enquanto ele me contava histórias natalinas. A boca cheia de biscoitos com gotas de chocolate que minha mãe fez durante a tarde e me deliciando com uma caneca enorme de chocolate quente. O cheiro do chá de morango da minha mãe tomava conta do ar, ela passava a maior parte da noite na cozinha se certificando que a ceia seria perfeita, e sempre era.
O relógio batia meia-noite e eu estava cochilado sobre o sofá, minha mãe me pegava em seu abraço e me chamava para comer sua deliciosa comida. A mesa era sinônimo de alegria, elogios para minha mãe pelo seu maravilhoso trabalho, meu pai pegando a mão dela sobre a mesa e lhe direcionando aquele olhar tão cheio de amor que ele sempre lhe dava, eu terminava meu prato com um sorriso no rosto para logo ser levado à cama pelos meus pais.
Na manhã seguinte eu era o primeiro a acordar, correndo escada abaixo e pulando de felicidade ao ver os presentes debaixo da árvore, o Papai Noel se lembrou de mim!
Natal treze...
Eu estava em casa esperando meus pais chegarem do supermercado, era manhã do dia 24 e meu pai provavelmente estaria brigando com alguma pessoa por um pedaço de pernil. Minha mãe me deixou dormir até mais tarde, mas antes de sair me disse novamente sua lista de recomendações intermináveis, "não abra a porta para ninguém", "não mexa no fogão" e muito mais, talvez ela ainda me via como um bebezinho.
O dia começou a ficar estranho quando a hora do almoço se aproximava e nenhum sinal dos meus pais, minha mãe não ligou para saber como eu estava, meu pai não estacionou na garagem pensando ser um astro de corrida, nada. Estava começando a ficar com fome, desci as escadas pulando e fui na cozinha ver se minha mãe já havia feito alguns dos seus famosos biscoitos de natal. A cozinha estava cheirando ao seu costumeiro chá de morango e havia uma caneca no seca-louça, mas não havia biscoitos então peguei uma maçã e sai.
Fui para sala e me joguei no sofá ligando a televisão no processo. Vagando pelos canais um me chama a atenção, era o noticiário mostrando um carro capotado na estrada, o acidente foi horrível, o carro estava acima da velocidade recomendada, derrapou na pista e capotou duas vezes antes de parar. Quase não dava para reconhecer o modelo do carro, mas eu não demorei mais de dois segundo para perceber que era o carro dos meus pais!
Não acreditava no que meus olhos viam, eu não conseguia escutar o que a repórter dizia, a única parte que consegui compreender foi o nome do hospital que as vítimas, meus pais, tinham sido levados. Contrariando todas as recomendações que minha mãe já poderia ter me dado, corri pela casa com lágrimas desfocando minha visão e fui para a garagem. Não lembro se tranquei alguma porta no caminho, apenas subi na minha bicicleta e pedalei desesperado pelas ruas que me levavam ao hospital.
Quando a silhueta do prédio do hospital apareceu na minha frente cada pedalada tinha o peso maior, o que eu poderia encontrar do outro lado aquelas portas? Meus pais estariam mortos? Meus pulmões pareciam estar sendo cortados pelo ar gelado que eu puxava com toda a força para dentro de mim. Derrubei a bicicleta de qualquer jeito na entrada do hospital e corri para dentro, as paredes brancas e imaculadas da sala de espera me cercaram e eu não sabia para onde ir.
Corri para o balcão que havia ali e a mulher que estava lá percebeu o desespero estampado no meu rosto. Perguntei pelos meus pais, minha voz estava fraca e tremida, mas a pior coisa que poderia ter acontecido naquele momento foi a expressão de pena no rosto da recepcionista. Todas as possibilidades do que teria acontecido pioraram dentro da minha cabeça. A mulher chamou um enfermeiro que estava passando e pediu para que ele me encaminhasse para a área de emergência.
O chão era frio debaixo dos meus pés e foi aí que percebi que estava descalço, meus pés roxos e sujos, eu vestido com uma roupa de dormi e meu casaco, deveria estar mesmo parecendo um daqueles pobres órfãos das histórias que meu pai me contava. O enfermeiro me guiou até uma nova sala de espera e me deu um singelo aperto no ombro antes de ir. Eu fiquei ali sentado, apenas esperando, mas esperando o quê?
Um homem aparece no final do corredor com um braço na tipoia, a cabeça enfaixada e o rosto coberto de curativos, mas o reconheci de longe, meu pai. Um alivio enche meu peito e saio correndo na direção dele. Meu pai parece não ter me notado ainda, sua cabeça está baixa e seus olhos parecem não ter luz.
Não ligo muito que ele esteja machucado quando me choco contra ele e o abraço, eu só precisava ter a certeza que ele estava vivo. O braço que não estava na tipoia envolve meu corpo magro e sua mão se afunda no meu cabelo, puxando ainda mais minha cabeça conta seu peito. Choramos em silêncio, chorei pelo medo que senti e que agora não precisava mais sentir, mas meu pai estava chorando por muito mais, foi então que percebi.
– Onde está minha mãe?- perguntei me afastando do abraço e o olhando nos olhos.
Meu pai não me respondeu diretamente, mas a expressão de destruição no rosto dele disse tudo. Minha mãe morreu...
Minha mãe não está mais viva, ela não vai estar em casa quando eu chegar da escola, ela não está na cozinha preparando seu chá de morango, nunca mais vou comer seus biscoitos, nunca mais vou ter seu abraço caloroso e seus beijos salpicados pelo meu rosto, nunca mais vou revirar os olhos pelos seus cuidados exagerados, nunca.
Cai no chão chorando e meu pai veio junto comigo, ambos destruídos no chão frio daquele hospital. Perdidos e quebrados sem minha mãe para nos guiar.
Natal quinze...
Fazia dois anos que minha mãe havia morrido, o natal não possuía qualquer outro significado para mim se não o dia que minha vida desmoronou. Faz sete meses que meu pai e eu tivemos que deixar a nossa casa, o lugar onde cresci e onde tinha todas as lembranças da minha mãe, e nos mudarmos para um apartamento minúsculo em um bairro menor, pois a hipoteca da casa venceu e recebemos a ordem de despejo. Eu tive que mudar para uma escola pública do bairro e perdi todos os meus amigos.
Meu pai é uma mera sombra do que já foi um dia. Perdeu o emprego e agora trabalha como gerente em uma loja de roupa, passa a maior parte do dia fora, provavelmente dentro de algum bar vagabundo e quando chega em casa apenas bebe mais até dormir no sofá-cama.
Estava próximo da meia-noite e ele ainda não havia chegado, juntei um pouco de dinheiro no ultimo mês e comprei um frango pequeno para dividirmos. A lâmpada amarela se balançava sobre mim por causa do vento que vinha da rua, os carros buzinavam freneticamente ainda que já estivesse tarde e eu podia escutar os vizinhos de cima tendo mais uma discussão barulhenta. Como eu sentia falta da minha mãe, de seu carinho e amor, de como ela sempre fazia tudo ficar bem e como éramos felizes antes.
Acordei com a porta sendo batida com força, eu havia dormido em cima da comida e minha bochecha estava suja de farinha. Meu pai estava encostado na porta abraçado com uma garrafa de bebida pela metade.
– Pai, você está bem? — perguntei receoso.
– Não... Eu nunca vou estar bem novamente!- disse ele com a fala enrolada pela bebida.
– Vem cá pai, senta, você precisa comer um pouco..- levanto e o ajudo a se sentar na cadeira perto da mesa.
Ele parece finalmente notar a comida sobre a mesa. Mais cedo tirei uma coxa do frango para mim, mas de qualquer forma é um avenço em relação a ceia do ano passado, que foi uma garrafa de whisky pro meu pai e um salgado de padaria para mim.
Meu pai olha pra mesa e depois para mim e fica alternando o olhar até que se fixa nos biscoitos que tentei fazer mais cedo, não estão ruins, mas não se comparam com os da minha mãe. Ele pega um biscoito de forma cuidadosa como se fosse um cristal, depois de o olhar atentamente ele morde um pedaço.
Fiquei atento a sua reação, inicialmente ele fechou os olhos, imaginei que saboreando ou sentindo falta dos gostosos biscoitos da mamãe, mas ele cuspiu o biscoito no segundo seguinte.
– NÃO SÃO OS BISCOITOS DELA! ELA NÃO VAI MAIS VOLTAR! — gritou ele se levantando da cadeira- PARE DE TENTAR! NÃO PODEMOS SEM ELA, ENTENDE?! NADA IMPORTA SEM ELA!- ela berrava em meio à lágrimas, foi quando ele simplesmente desceu os braços sobre a mesa e derrubou tudo no chão.
Lágrimas tentavam sair de meus olhos, mas eu estava me esforçando para não sucumbir. Eu sabia muito bem que nossa família havia morrido junto com minha mãe, meu pai se transformou em um fantasma atormentado e eu tinha que aprender a viver sozinho, mas ter isso esfregado na minha cara fazia doer ainda mais. Eu odeio o natal!
Natal dezessete...
Era meu segundo natal por trás desse balcão de atendimento de posto. Depois do natal em que meu pai deixou claro como nada mais importava sem minha mãe, acabamos nos distanciando e aos poucos eu me sentia cada vez mais só.
Nosso vizinho de andar, o Sr. Antunes, notou como éramos uma família destruída, uma vez até tentou conversar com meu pai, o que só lhe rendeu um murro no queixo e muita gritaria. De toda forma ele tentava ser alguém para mim, me convidava para jantar com sua família quase todos os dias, me dava carona pra escola, pois seu filho, Charles, era meu colega de classe e mesmo aos finais de semana tentava me incluir em algum passeio de família deles.
O Sr. Antunes era um homem muito bom e quando lhe perguntei se ele sabia algum lugar no qual eu pudesse trabalhar ele me ofereceu o emprego no balcão na loja de conveniência do posto que ele era gerente. Mas havia um detalhe, eu só poderia ficar com o trabalho se me dedicasse aos estudos e batalhasse para entrar na faculdade. Na época eu concordei apenas para ter o meu próprio dinheiro e quem sabe conseguir sair dessa cidade, minhas notas haviam decaído muito comparadas a da minha antiga escola e eu não tinha mais vontade de estudar.
Contudo, poucos meses depois de aceitar o emprego, um juiz foi dar uma palestra na minha escola e eu percebi que eu queria ser aquele tipo de homem: rico, bem sucedido, poderoso e livre. Decidi que estudaria para passar na faculdade de direito, mas não a daqui, uma que já me proporcionaria sair desse lugar. Contei minha ideia para o Sr. Antunes e ele me apoiou totalmente, disse que eu tinha capacidade e potencial. Naquele momento jurei que quando eu fosse rico e tivesse condições eu voltaria aqui para agradecer o Sr. Antunes e o ajudar da forma que eu pudesse.
Meu pai continuava na sua forma espectral, vagando pela casa com uma garrafa na mão, as vezes o pegava conversando com o retrato da minha mãe. Ele perdeu o emprego na loja de roupas quando confundiu uma cliente com minha mãe e a perseguiu. Ele diz procurar emprego, mas isso já tem cinco meses e quem está pagando o aluguel sou eu nesse tempo.
No último natal sequer passei em casa, preferi pegar o turno da noite no posto à aguentar a companhia e a bebedeira do meu pai. Na loja era tranquilo, eu podia colocar a música que eu quisesse, comer algumas guloseimas e até beber um pouco. Nos quase dois anos que estava ali eu fui assaltado quatro vezes, mas até que não foram tantas considerando o bairro em que trabalho e moro.
Nesse natal também preferi o posto, optei por ACDC, uma garrafa de Heineken e um saco grande de Doritos. Duas semanas atrás fiz a prova para a faculdade e estava ansioso pelo resultado que sairia dali um mês. Senti a cerveja gelada descer por minha garganta e fechei os olhos fazendo um brinde solo por sobreviver a mais um natal.
Natal vinte...
Eu estava no meu quarto semestre de direito, não consegui passar na prova que fiz três anos atrás, mas não desisti e no ano seguinte passei e finalmente pude me mudar daquela cidade. No dia que fui me mudar meu pai estava dormindo jogado no sofá-cama, capaz que nem se lembrasse que eu partiria em poucas horas. Terminei de arrumar minhas coisas e Charles, filho do Sr. Antunes e o meu único amigo, me ajudou a descê-las para o carro de seu pai.
Carregamos a velha caminhonete do Sr. Antunes com caixas e malas contendo tudo o que me pertenciam, não deixei nada naquele apartamento. Mas antes de ir subi uma última vez para olhar meu pai, ele não parecia em nada com o homem que um dia chamei de pai, o homem que era meu herói e no que eu queria me tornar. Ele babava sobre sua barba grande, a mão ainda envolta ao gargalo da garrafa e o corpo jogado de qualquer jeito. Peguei um pedaço de papel e escrevi uma breve despedida, nada profundo ou tocante, apenas um adeus.
Na rodoviária eu comprei minha passagem com o dinheiro que vinha guardando ao longo desses anos, coloquei minhas malas no ônibus, dei um forte abraço em Charles que iria continuar na sua faculdade ali, recebi um estralado beijo na bochecha da Sra. Antunes e quando fui me despedi do Sr. Antunes pude sentir a emoção do momento. O baixo e gordo Sr. Antunes me prendeu no seu abraço e me deu fortes tapas nas costas enquanto me dizia para não me perder e nunca esquecer o que era realmente importante. Depois de me soltar ele me deu um envelope com algumas notas de dinheiro, eu tentei recusar, mas no fim foram parar dentro da minha mochila.
Fazia um ano que não os via, natal passado eles me convenceram a passar lá, o que foi realmente uma passada, pois havia combinado de encontrar meus amigos da faculdade em uma festa em uma cidade próxima dali. Apenas desci do carro do meu amigo, dei um abraço em cada um e sem sequer parar na frente da porta do meu pai voltei para estrada em direção a tal festa.
Sempre que falo com Charles ou com o Sr. Antunes eles tentam me dizer algo sobre meu pai, o que apenas ignoro. Na maioria das vezes são comentários otimistas como dele procurando tratamento para a bebedeira ou que arrumou um novo emprego, mas isso não muda nada em relação a mim, ele não me procurou ou se importou com nada que tivesse haver comigo, não vejo porque não fazer o mesmo com ele.
A noite estava prometendo! Todo o campus da minha faculdade se organizava em uma festa totalmente desorganizada, bebidas, música alta e comida por todas as partes. A maioria dos alunos preferiam ficar no campus curtindo a festa do que ir para a casa partilhar de um momento de baboseiras familiares.
A música ecoava na minha mente já entorpecida pelo álcool, a praça de convivência do campus estava lotada de estudantes dos mais diversos cursos dançando, bebendo e se pegando pelos cantos como se não houvesse amanhã. Meus amigos estavam perdidos pela multidão com alguma garota debaixo do braço, aproveitando da melhor forma possível a noite.
Fui até o cooler de bebidas ali perto e peguei mais uma, não deveria beber mais, mas não tinha porque não fazer. A faculdade era um novo mundo para mim, um mundo de liberdade e curtição no qual eu não precisava de limites. Logo que cheguei consegui um bom emprego de meio período em uma loja de carros, aluguei um apartamento legal perto da faculdade com minhas economias e estava me mantendo bem esses últimos dois anos sozinho.
Eu estava um pouco tonto com toda a bebida e a música alta que ressoava nos meus ouvidos, mas foi impossível não a notar. Linda. Simplesmente linda rindo e dançando com as amigas no meio daquela multidão, com os cabelos longos e loiros se agitando de acordo com a batida da música. Só em vê-la meu coração pulsou, uma onda de deslumbre percorreu minha pele.
Eu não tinha vontade de nada senão ficar ali a observando, nunca a vi pelo campus, tenho certeza que me lembraria se tivesse a visto antes. Ela parecia tão livre ali curtindo com as amigas, como se não houvesse preocupações, como se fosse uma deusa em sua absoluta grandeza e perfeição. Acho que já tinha bebido demais, meus pensamentos não tinham mais sentido...
Voltei meu olhar pra linda loira, mas ela havia se movido na multidão e eu a perdi de vista. Acho que aquela foi a minha dádiva de natal, melhor eu ir para casa e me afundar na cama rezando para não ter uma ressaca forte amanhã.
Joguei minha garrafa em um arbusto do meu lado e fui andando, ou tentando, na direção do meu apartamento. Estava passando pelo estacionamento sul do campus quando escutei um barulho estranho, quando olhei eram dois idiotas cercando a garota loira e duas de suas amigas. Minha primeira reação foi partir pra cima dos valentões, mas minha chegada pouco silenciosa só fez o cara maior virasse e desse um soco certeiro no queixo me fazendo cair como uma jaca no chão.
Meu corpo implorava para que eu apenas ficasse no chão e me fingisse de morto, mas minha consciência gritava para que eu levantasse e fizesse o meu melhor para defender essas garotas. Contrariando meu corpo e ignorando a dor no meu queixo me levantei e tentei firmar meus pés no chão antes de encarar os caras. Quando olhei, um deles estava segurando com força o braço da garota loira, que se contorcia tentando se soltar.
– Ei, seu babaca! Larga a garota e vem aqui que eu ainda não terminei com você!- gritei e não sei de onde aquela merda saiu.
Os dois caras riam de mim, mas pelo menos soltaram as garotas. Sem que eles percebessem disse para as garotas se afastassem, o que elas fizeram discretamente. O cara que havia me batido antes, dá espaço para o amigo fazer "as honras" começando a me bater.
Eu me envolvi em diversas brigas desde a minha adolescência, na maioria me saia bem, mas naquele estado de embriagues e a vontade que esses idiotas estavam de quebrar a minha cara por atrapalhar o lance deles, tenho a impressão que iria apanhar e muito.
O primeiro veio pra cima de mim com vontade e tentou me dar um soco, mas consegui desviar na ultimo minuto. Acho que eles não gostaram muito de um saco de pancadas que se mexe. O maior cara tomou a dianteira e desceu o braço no meu estômago fazendo com que eu me curvasse para frente, onde o outro não teve dificuldades em me acertar com um chute na lateral do rosto. Provavelmente foi nessa hora que perdi a consciência, a última coisa que me lembro é de ver um vulto loiro próximo de mim.
Quando acordei dois garotos da minha faculdade me arrastavam pela rua que levava a minha casa e escutava vozes femininas ao meu redor. Minha cabeça parecia que ia explodir e meu tórax doía tanto que parecia que quebrei uma costela. Os garotos perceberam que eu acordei e me ajudam a ficar de pé, ao meu redor estavam a garota loira e suas duas amigas. Reconheci uma das meninas da minha aula de Ética e os garotos eu sabia que eram do curso de engenharia.
A garota loira toma frente e se aproxima de mim, sua voz é doce e tímida quando me agradece por tentar, ainda que de um jeito torto, as salvar. Ela me explica que quando eu disse para elas saírem, elas encontraram alguns garotos da engenharia e lhes pediram ajuda. Quando eles chegaram lá eu já estava desmaiado no chão, um dos garotos sabia onde eu morava e pretendiam me levar para lá.
Eu estava encantado apenas por a ter ali, tão perto, e ver sua preocupação comigo. Sei que não era o momento certo para a chamar para sair ou mesmo para falar qualquer coisa idiota, mas foi exatamente o que eu fiz. De uma forma absolutamente estúpida eu a olhei nos olhos e disse:
– Você é a coisa mais linda do que eu já vi.
Um pequeno sorriso se espalhou no seu rosto, ela deveria me ver apenas como um bêbado louco que se meteu em uma briga para a ajudar, é quase como se eu fosse um vira-lata querendo chamar a sua atenção. Não demoramos a chegar na porta do meu apartamento, por sorte sempre deixo uma chave extra embaixo do tapete, os garotos da engenharia me ajudam a deitar na cama e logo se despedem dizendo que voltariam para festa. A garota loira se apresentou como Laura e me perguntou onde eu guardava minha caixa de primeiros socorros, como se eu tivesse algo do tipo. Quando ela percebeu que os únicos remédios que eu tinha eram um vidro de xarope pela metade e alguns analgésicos ela balançou a cabeça rindo e disse que voltava logo, e de alguma forma estranha eu tinha certeza que ela voltaria.
Não sei quanto tempo se passou desde que ouvi a porta da frente batendo, é possível que eu tenha apagado de novo, só sei que o barulho da porta do meu quarto sendo aberta me despertou e vi Laura entrar na ponta dos pés.
– Oi, está acordado?- perguntou ela quando ficou ao meu lado.
– Estou... Onde estão suas amigas?
– Os garotos da engenharia convenceram elas a voltar para a festa.- disse colocando uma sacola em cima do meu criado mudo.
Não sabia o que falar agora que estávamos sozinhos, então apenas fiquei calado a observando enquanto ela tirava caixas de remédios da sacola.
– Eu não sabia muito bem o que trazer, trouxe alguns curativos, uma pomada para o inchaço do seu rosto e outro remédio para dor, pois os que você têm estão vencidos.- disse sorrindo e eu só pude imaginar o quão ruim eu estava.- Ah, eu também trouxe um chá!
– Sinta-se em casa! Mi casa és tu casa!- disse e Deus, onde eu estava com a cabeça? Laura apenas me proporcionou mais um de seus lindos sorrisos antes de sair do quarto.
Alguns minutos se passaram e eu só conseguia escutar os passos dela pela casa, seus passos em minha casa, quem diria que isso iria acontecer quando eu apenas a admirava mais cedo. Se bem que eu tão pouco imaginava que levaria uma surra e ela só estaria aqui por alguma forma de agradecimento. Ainda assim é bom saber que ela está aqui. Tenho vontade de fazer tantas perguntas, de a conhecer melhor, mas parece que cada vez que abro a boca falo algo mais estúpido.
Estava pronto para colocar vergonha na cara e ir dizer que ela podia ir aproveitar a noite com as amigas, que conseguia me virar sozinho quando um cheiro tomou conta do ar, um aroma que eu não sentia a muito tempo, mas que provavelmente nunca esqueceria: chá de morango. Em um modo de alerta me sento na cama e sinto uma dor onde o idiota me socou mais cedo, mas mesmo assim me levanto e saio do quarto. Na bancada da cozinha Laura servia duas canecas de chá ao lado de algumas bolachas que sinceramente não sei onde ela achou na bagunça que são meus armários.
– Ei! Você não devia ficar de pé assim!- me repreende ela quando me vê apoiado no umbral da cozinha.
– Senti o cheiro do chá.- digo me concentrando em não falar nenhuma besteira mais.
– É o meu favorito, você gosta?
– Na verdade não, mas acho que hoje posso fazer um esforço.- respondo abrindo um sorriso, o que se mostra uma tarefa difícil pelo inchado na lateral do meu rosto.
– O meu chá é o melhor chá do mundo, garanto que não será nenhum sacrifício.- disse convincente.
– Já vi que temos uma pessoa convencida no recinto!- brinco e tive o prazer de vê-la sorrir para mim.
Fomos nos sentar no meu sofá, onde ela limpou um pouco de sangue seco da parte de baixo do meu queixo e aplicou a tal pomada que comprou. Depois mandou eu tomar um analgésico junto com o chá e ainda que eu não goste de chás, o dela pareceu mesmo o mais delicioso do mundo. Começamos a conversar e por incrível que pareça eu sai do meu modo babaca e fui eu mesmo em uma conversa divertida e leve.
Quando Laura disse que tinha que ir embora o sol estava aparecendo no horizonte e temi que nunca a visse novamente, foi quando eu tive o impulso mais instantâneo da minha vida. Estávamos na frente do meu prédio e ela começava a se afastar quando eu a puxei pelo braço fazendo que nos chocássemos e, ignorando qualquer dor que aquilo me causou, eu apenas a beijei, ali na frente do meu prédio na manhã de natal. E o natal voltava a ter um gosto bom, gosto de chá de morango e de amanhecer.
Natal vinte um...
Fazia exatamente um ano que Laura entrou na minha vida. O beijo que lhe dei naquele dia a assustou um pouco no começo, ela não me empurrou nem nada, retribuiu até, mas no fim ela disse que esse não era o melhor caminho para tomarmos. Ainda que a contragosto aceitei ser seu amigo, continuamos a nos falar de forma cada vez mais constante, ela estudava sim na mesma faculdade que eu, mas como fazia nutrição suas aulas eram do outro lado do campus, coisa que não se tornou um obstáculo quando eu o atravessava para almoçarmos juntos ou apenas aproveitarmos algum tempo livre.
Não demorou para que estivéssemos muito próximos. De uma forma boa acho que ela me mudou, parei de sair tanto como antes, passava a maior parte do meu tempo livre com ela fazendo algum programa bobo como cinema ou ir ao parque, mas eu gostava disso, não parecia que eu estava perdendo tempo ali, cada minuto com ela era absolutamente especial. Quando a tentei beijar novamente junho já se aproximava e dessa vez ela não me parou ou me lembrou que somos amigos, ela apenas me abriu um sorriso maravilhoso e me puxou de volta pra si. No mesmo dia a pedi em namoro, quem diria, eu em um namoro! Quando contei para Charles ele riu e perguntou qual era a pegadinha, mas aquela era a mais pura verdade: eu estava namorando a garota pela qual estou apaixonado e isso é ótimo.
Eu continuava com meu estilo de vida um pouco torto quando comparado a certinha da Laura, mas ela estava me ajudando, por assim dizer. Meu apartamento não vivia mais tão bagunçado e eu sabia onde as comidas estavam no meu armário, que agora sempre tinha uma caixa de chá de morango para quando Laura ia para lá. Eu estava me saindo bem nisso de namorar, na minha humilde opinião, mas parece que nem todos concordavam com isso.
Naquele natal pensei em fazer um jantar especial para mim e para Laura, acordei cedo e fui no supermercado comprar um chester, um bom vinho e os outros ingredientes da receita que pesquisei na internet. Minha surpresa foi quando cheguei em casa e Laura estava sentada no meu sofá, toda arrumada e com uma mala do seu lado.
– Você ainda não está arrumado?- perguntou ela sem nem me dar bom dia ou um beijinho.
– Arrumado para quê? Não lembro de termos combinado nada.- respondo enquanto levo as sacolas de compras para a cozinha.
– Claro, você só escuta o que você quer. Eu disse que ia passar o natal com a minha família e te chamei para ir junto.- explica ela parecendo irritada.
– E o que foi que eu respondi?
– Você soltou um daqueles seus múrmuros sem tradução enquanto continuava a beijar meu pescoço.
– A rá! Eu não confirmei nada, então você não tem porque ficar com raiva de mim!- rebato me sentindo um excelente advogado.
– Sério isso? Você não vai viajar comigo?
– Amor... Eu pensei que seria como no ano passado, comprei até as coisas para fazer um jantar!
– Ano passado meus pais foram fazer um cruzeiro nessa época do ano e só por isso fiquei no campus, eu te falei isso também, mas estou começando a duvidar que você realmente me escuta quando falo.
– Claro que escuto, querida, apenas devo ter me esquecido..- digo tentando me aproximar e a abraçar, mas ela se desvia cruzando os braços e me encarando.
– Então você vai arrumar a mala e vai comigo?
Para acabar com o que parece ser nossa primeira briga séria, minha primeira reação seria dizer sim e correr para arrumar tudo, mas diferente do que Laura pensa eu escuto sim quando ela fala, escuto como a família dela é tradicional e unida, como é grande e feliz, como em todas as festividades estão todos juntos na casa dela ou dos avós dela, e eu sinceramente não me vejo ali. O que eles iriam achar de mim? O pobre garoto órfão, provavelmente não vão me achar o namorado adequado para a ela, eu não quero terminar nosso namoro.
– Sabe, eu já comprei tudo e se não começar a arrumar pode estragar.. Você não quer ficar aqui comigo e próximo ano vamos para lá?- ela não pareceu nada feliz com a minha resposta, diria até decepcionada.
– Olha... Apenas não, tá? Eu achei que era só impressão minha isso de você ficar estranho quando se trata de família e de natal, mas não é. Se você não confia em mim para falar da sua família ainda, tudo bem, eu não sei o que pode ter acontecido, mas eu respeito o seu espaço. Mas eu vou passar o natal com meus pais, esse ano não nos vimos muito e é importante para mim. — de alguma forma suas palavras fizeram o meu coração se encolher dentro do peito, seria o medo dela terminar?
– Amor, você não entende... Eu confio em você, só não...- tento me explicar, mas não achava os meios.
– Não. Tudo bem, eu respeito o seu tempo.- diz ela levantando a mão como um sinal de que eu não preciso continuar.- Eu vou pegar o ônibus em pouco tempo, tenho que sair. Quando eu voltar conversamos melhor.
Ela pegou a mala e a veio puxando até onde eu estava e parou na minha frente. Tento a beijar, mas antes que estivesse perto o bastante ela me abraça e me deseja um feliz natal depositando um simples beijo na minha bochecha, saindo do meu apartamento logo depois. Aquele não foi um natal feliz.
Natal vinte e três...
Laura só voltou da casa dos pais depois do ano novo e nesse intervalo de tempo não nos falamos muito, isso me deixou mal. Comecei a questionar se não deveria ter ido com ela, se não havia chegado a hora de eu lhe falar a merda que é a minha vida e encarar as consequências. E foi exatamente isso que eu fiz quando ela voltou, preparei um jantar romântico no meu apartamento e telefonei para ela.
O jantar foi um pouco estranho, não sabia bem como a cumprimentar quando ela chegou, minha vontade era lhe encher de beijos e matar a saudade, mas sabia que eu tinha que lhe falar tudo primeiro. Ela estava linda, havia cortado o cabelo na altura dos ombros e usava o vestido que dei para ela no seu aniversário, estava maravilhosa. Servi o vinho e puxei assunto de como tinha sido o fim de ano dela, Laura me contou de forma animada como foi bom rever os primos, os avós e tios, disse como foi a ceia e que foram para a casa de praia no ano novo para ver a queima dos fogos. A felicidade nos olhos dela era algo incrível, ela amava a família dela acima de tudo e ficou claro que eu nunca poderia competir com eles.
– Laura, eu pensei naquilo que você disse antes de viajar.- começo a dizer e vejo que ganhei sua atenção.- Você provavelmente vai entender porque eu nunca falei disso tudo antes, mas se é importante para você eu falo.
De uma forma crua e detalhada, como eu sei que ela preferiria, eu contei tudo. Contei da minha família, da morte da minha mãe, de como meu pai se afundou em bebida e como minha família desmoronou. Contei até sobre o Sr. Antunes e a família dele e tudo que vivi até aquele momento da minha vida. Ela me escutava vidrada em cada palavra que saia da minha boca e quando não havia mais palavras para serem ditas ela ainda assim me encarava. Notei quando ela apertou as mãos, o que ela sempre faz quando está nervosa, e eu só rezava a Deus que ela não estivesse com pena de mim, pois não era daquilo que eu precisava.
Laura respirou fundo algumas vezes se preparando para finalmente falar e não pude evitar fechar um pouco os olhos me preparando para o rompimento inevitável. Contudo, antes mesmo que eu pudesse ter aberto meus olhos eu senti os lábios dela sobre os meus e seu peso caindo sobre o meu colo. Ela me beijava e me abraçava ao mesmo tempo e eu só conseguia retribuir, aproveitando ao máximo o que pensei ser o momento de despedida. Quando ela se afastou mais respirando com dificuldade e com algumas lágrimas rondando seus olhos ela me disse o quanto ela ficou feliz e emocionada por eu ter dividido isso com ela, que ela entendia que era algo difícil para mim e que para ela saber que eu confiava nela ao ponto de mostrar meus fantasmas assim significava muito.
Eu apenas concordei com tudo que ela disse e a estreitei nos meus braços matando a saudade que eu estava da minha loirinha. A noite foi incrível e quando acordei a sensação de a ter nos meus braços me fez sorrir feliz.
Ela me convenceu a ir com ela visitar a sua família no natal anterior, todos eram muito afetuosos e divertidos, via um pouco de Laura em cada um deles. Fiz o meu melhor para que gostassem de mim, ri e brinquei com as crianças, mas ainda assim me sentia deslocado. Fazia tanto tempo desde que participei de algo remotamente parecido com aquela ceia tão farta e cheia de felicidade. No fim me despedi de todos com abraços calorosos e promessa de aparecer mais vezes, o que tentaria cumprir de verdade.
O ano estava sendo incrível para mim. Laura aceitou se mudar para o meu apartamento, consegui um estágio em um escritório conceituado de advocacia e pouco depois do meio do ano tomei uma decisão muito importante: iria pedir Laura em casamento.
Ainda que eu não pense em ter uma família grande nem nada, ainda que eu tenha que comparecer vez ou outra nas festividades da família dela, eu a amava e ela era o que me bastava. Conseguia imaginar muito bem nós dois vivendo para sempre como tem sido os últimos meses, acordar juntos, jantar em algum restaurante quando não estávamos afim de cozinhar, viajar nos finais de semana... Era o plano perfeito!
Comprei o anel em meados de setembro e percebi o quanto é difícil esconder algo quando se mora junto, acabei por pedi para o Charles guardar para mim até o dia em que faria o pedido, que seria no natal. Combinei com o pai dela dele dizer que iam viajar todos e que era melhor ela passar o natal comigo mesmo, tudo estava seguindo o planejado.
Contudo, no começo de novembro Charles me ligou, era madrugada e eu estava meio dormindo ainda quando o atendi. Ele me disse que o pai dele havia sofrido um infarto e não resistiu, aquilo me alertou totalmente. Não podia acreditar que o Sr. Antunes estava morto, ele sempre pareceu tão cheio de vida que em alguns momentos eu cheguei a pensar que ele era mesmo imortal. Laura se mexeu ao meu lado, mas esse momento triste não era algo que eu quisesse dividir com ela. Levantei da cama e me vesti em silêncio, deixei um recado no criado mudo dizendo que tive um assunto importante para resolver e sai de lá pegando o primeiro ônibus que me levasse ao velório do Sr. Antunes.
Certamente foi um dos momentos mais tristes de que me lembro participar. Era o segundo velório que eu ia na vida, o primeiro foi o da minha mãe e estava mais vazio que esse, pois tínhamos poucos conhecidos e praticamente nenhuma família. Já o Sr. Antunes com o seu coração tão grande e alegria no olhar conquistava as pessoas por onde andava, seu velório estava cheio de amigos, vizinhos e familiares lamentando realmente a morte daquele homem tão bom. Lamentei nunca ter podido retribuir tudo o que ele me fez, não ter agradecido o suficiente por toda a imensa ajuda que ele me deu, era mais uma pessoa que eu via ir embora sem ter lhe dado o meu melhor.
Dei um forte abraço na Sra. Antunes, que estava desolada, reconheci a falta de brilho nos olhos e o abatimento no rosto dela e só pude tentar lhe passar conforto da melhor forma de consegui. Charles estava tentando ser forte por sua mãe, mas sei o quanto o pai era importante para ele e sei o quão ruim é perder aquele que era seu herói. Ele me entregou o anel de noivado e disse que era melhor eu guardar comigo mesmo, coloquei a caixa no meu bolso e prestei atenção nas palavras do pastor ali presente.
Quando a última pá de terra foi jogada sobre o túmulo era quase dez horas da manhã, me despedi de Charles e de sua mãe, lembrando-os que se houvesse algo em que eu pudesse ajudar não hesitassem em me ligar. Caminhei pelo cemitério em silêncio enquanto via as chamadas perdidas de Laura no meu celular, eu me explicaria quando voltasse, então bloqueei o telefone e o guardei no bolso. Estava quase atravessando os portões da frente quando uma coisa me chama a atenção, um casal conversando um pouco longe de mim, o homem segurando um bebê, eu conhecia aquele homem. Parei de andar me focando no casal com a criança, o homem que segurava o bebê era o meu pai, limpo, feliz e quase irreconhecível comparado ao fantasma que ele era quando eu fui embora. Ele olha para mim, vejo que ele pensou em falar o meu nome e vir na minha direção, mas eu apenas lhe dei as costas e fui embora.
***
Era noite de natal e eu estava me preparando para o que seria a pergunta mais importante da minha vida até ali. Laura e eu passamos a tarde na cozinha fazendo nossa primeira ceia a sós e ela estava no quarto terminando de se arrumar enquanto eu colocava a mesa. Estava tudo perfeito, uma champanhe no gelo, música suave tocando, caixa com anel no meu bolso, eu e ela, nada estava faltando.
Começamos a comer e surpreendentemente tudo estava uma delicia, rimos e conversamos como sempre, mas quanto mais o momento do pedido se aproximava mais nervoso eu ficava. Ela tinha terminado a sobremesa e me olhava parecendo totalmente satisfeita, não poderia haver ocasião melhor! Me levantei e andei até o seu lado da mesa me ajoelhando na sua frente.
– Laura, meu amor, você aceita casar comigo? Aceita ser totalmente minha e vivermos para sempre nessa perfeição de mundo que é nós dois juntos?- digo nervoso, mas com um sorriso estampado no rosto.
Sua primeira reação é sorrir e cobrir a boca, como ela faz quando está realmente surpresa, mas no segundo seguinte o brilho no seu olhar diminui e ela baixa as mãos e me olha séria.
– Não.- é a resposta dela.
– Para de brincadeira, amor, não tem graça!- digo rindo daquela situação.
– Eu não estou brincando. Você sabe que eu te amo demais, mas você escutou o que falou? Me pediu para viver para sempre só nós, um mundo perfeito para você. Para você basta o "nós" como família, mas isso não é família para mim, é apenas o começo... Eu quero filhos correndo pela casa, quero passar os natais com aquela bagunça de gente que é a minha família, eu quero mais!
– Como assim? Você não quer casar comigo?- questionei totalmente perdido.
– Casar com você seria a coisa que eu mais desejaria no mundo, mas eu quero construir uma família com você, enquanto você quer só a mim! Olha como está o seu conceito de família, meu amor, ele está destruído... Lembra o que você me disse mês passado quando voltou de tarde pra casa depois de ter sumido no meio da madrugada? "O Sr. Antunes morreu", apenas isso, não vi você chorando, mas eu sei que você queria isso, eu sabia o quanto ele era importante para você, mas você apenas afoga tudo isso dentro de você, isso não faz bem. Como você quer construir algo comigo se essa sua parte sua está tão quebrada? Eu apenas não posso, me entende?
Eu entendia, mas não sabia o que dizer, apenas fiquei ali no chão parado enquanto a mulher da minha vida passa pela porta indo embora.
Natal vinte e quatro...
Fazia muito tempo desde a última vez que estive na frente daquela porta. Muitos anos se passaram e muitas coisas aconteceram nesse tempo, mas eu sabia que uma hora eu acabaria voltando para ali. O apartamento que morei na minha adolescência, o lugar onde meu pai mora com sua nova família, mas eu não sabia o que esperar. Era noite de natal e eu estava em pé a alguns minutos sem saber se o certo era bater ou não.
Desde que Laura me disse o não e todas as outras palavras que sucederam a rejeição ao meu pedido de casamento eu estive tentado melhorar e consertar tudo, mas nada pareceu adiantar. Ela voltou pro antigo apartamento que dividia com as amigas e acabou tudo entre nós, disse não poder continuar daquele ponto se eu não estava pronto para ter a família que ela esperava.
Tentei de todas as formas possíveis e impossíveis reatar, de buquês e chocolates à humilhação pública com direito a chorar de joelhos e tudo mais, mas Laura, sempre centrada, me dizia para ir para casa e me curar da bebedeira. Sim, eu fui a procura dela diversas vezes embriagado, e naquele momento entendi porque meu pai bebia tanto depois da morte da minha mãe, a bebida de algum modo anestesiava a dor da perda. Contudo, a verdade batia com força na minha cara a cada manhã que eu acordava e ela não estava ali do meu lado.
Foi um ano difícil, era o meu último ano da faculdade, acabei perdendo algumas cadeiras no começo do ano e tendo que as assumir no último semestre, o estágio estava sendo complicado e ainda assim a minha maior preocupação era a falta que Laura me fazia. Nos encontrávamos as vezes pelo campus e ela me olhava e tentava dar um pequeno sorriso por educação que fosse. Acho que aquilo não estava sendo fácil para ela também, ela era a única que podia mudar algo, mas sei que ela não faria, não se eu não mudasse.
Tomando uma respiração profunda bati na porta, era nova, meu pai deve a ter mudado quando começou a vida nova dele. Ouvi uma movimentação dentro da casa e pouco depois a porta sendo destrancada e aberta. A mulher que abriu a porta era baixa e morena, diferente da minha mãe. Ela pareceu me reconhecer e me convidou para entrar, eu não sabia bem o que falar então apenas entrei de cabeça baixa.
A parte de dentro do apartamento nada lembrava como era quando eu o deixei, estava arrumado, os móveis bem distribuídos e sem garrafas e roupas pelo chão. Na mesa do jantar meu pai estava sentado com a mesma criança naquele dia no colo. Todos ficaram em silêncio, foi quando meu pai soltou a criança no chão e ela veio engatinhando na minha direção, ela não parecia ter muita idade, mas foi quem acabou com toda aquela situação de constrangimento. Ela se pendurou na perna da minha calça e tentou se equilibrar para ficar de pé. Eu estava imóvel apenas observando aquele pedaçinho de gente tentando me escalar.
– Ela é sua meia irmã...- a voz de meu pai ecoou por todo o apartamento e entrou na minha mente onde continuou ecoando.
Olhei novamente para ela, tão linda e inocente no meio de tantos problemas que seriam tratados ali. Abaixei e a peguei no meu colo, ela me abriu um sorriso banguela e apertou meu nariz e foi impossível não sorrir de volta. Foi quando percebi que havia redenção no final de tudo, que quando se chega ao fim do poço é possível dar um impulso de volta a superfície e foi isso que o meu pai fez com essa mulher, começou uma nova vida e não havia porquê eu me ressentir com ele por isso. Eu tinha que o ver como espelho novamente e seguir seus paços, começando de novo, começando com Laura.
Foi quando fiz uma coisa que não me permitia fazer a muito tempo, pelo menos não sóbrio, eu chorei. Chorei com minha pequena irmã nos braços, chorei pela saudade que tinha da minha família, chorei pela morte do Sr. Antunes que me ajudou tanto, chorei por ter estragado as coisas com a Laura, por tudo. Meu pai veio ao meu alento e me abraçou forte como fazia quando eu era criança e tinha pesadelos.
Foi uma noite muito emocionante. Meu pai me contou como se sentiu mal quando leu meu bilhete de despedida e como aquilo o fez querer mudar, como conheceu sua nova mulher, Susan, e disse que tinha medo de como eu reagiria se ele fosse atrás de mim na faculdade. No fim nos perdoamos e nos abraçamos como não fazíamos a muito. Aquele natal não teve cheiro de chá de morango, mas me lembrou que o natal também é tempo de perdão.
Natal cinquenta e quatro...
– Tom? Vai ficar aí a noite toda?- minha irmã pergunta do outro lado da sala.
As luzes continuam a piscar do lado de fora em meio as ruas vazias, as janelas dos prédios vizinhos estavam iluminadas e os apartamentos cheios de famílias, grandes ou pequenas, sentadas ao redor da mesa dividindo a refeição de natal. Começo a me afastar da janela quando sinto o cheiro do chá de morango no ar e sorrio, sinal que a nossa ceia já seria servida.
O natal é amor, é compaixão, é perdão, o natal é família.
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