Nuvens roxas
1 Nuvens Roxas
Eu corri o máximo que meu fôlego permitiu, então corri mais ainda. Meus pés já não sentiam o tocar do solo, cada novo passo parecia acontecer mais lentamente, porém o horizonte acelerava, a adrenalina corria em minhas veias bombeando energia para meus músculos cansados. Eu sentia o navalhar das gotas no meu rosto conforme me atingiam, meus cabelos encharcados chicoteavam para os lados conforme meu balanço mudava durante a corrida. Meu destino estava próximo mas eu me sentia distante, a fachada era grande e convidativa mas eu me sentia intrusa.
Cheguei ao portão e num breve piscar já estava abrindo a porta. Meus olhos começam a procurar em desespero sem saber o que encontrar, meus ouvidos filtravam os menores ruídos sem saber ao certo o que deixar passar.
Adentrei sem hesitar pela sala, então cozinha, banheiro, porém parei na porta do quarto. Senti meus arredores me alcançarem, minhas mãos tinham tempo para enfim tremular e minha boca sentiu a necessidade de água, entretanto minha mente contínuo. Meus pensamentos saltavam e giravam, minha cabeça operava em capacidade total. Enfim tomei conta da minha situação, pingando no carpete novo do corredor, molhada, congelando, tremendo e na companhia das minhas inseguranças.
Não sentia meus membros mas podia ver minha mão subir até a maçaneta da porta de carvalho envernizado. O metal roubava o pouco de calor que meu corpo conseguia manter a cada segundo que eu hesitava em abrir a porta do quarto. Eu sabia o que ia encontrar lá dentro, já estava escutando claramente o que se passava por ali, mas meu cérebro se negava a processar essa informação, eu precisava ver, não com os olhos mas com o coração.
Com o giro da maçaneta agora encharcada, senti a água escorrer pela minha palma em direção ao chão e a porta ceder para traz lentamente enquanto os sons abafados tomavam mais forma, permitindo minha mente de entender a situação em que eu me encontrava. Eu senti cada pedaço da madeira se movimentando, as dobradiças pareciam entender meu estado e tentavam se negar a fazer seu trabalho, talvez elas estivessem certas, mas minha vontade não queria saber de obstáculos.
A porta abria lenta e silenciosamente e meus ouvidos captavam os gemidos e suspiros mais claramente, já não tinha pra onde fugir, a realidade não bateu à porta, simplesmente fez ser como já é. Senti o ambiente quente aquecer meu rosto, porém o gosto de suor no ar era nauseante. A caça já havia acontecido e o predador abatia sua presa sem nenhum remorso. A presa entendia seu papel e deixava que seu rival a tivesse de todas as maneiras. Não haviam dúvidas que ambas as partes queriam que a caçada acabasse naquilo e naquilo a caçada então acabou.
E acabou ali. Não eram necessários textos, desculpas ou motivos, eu era o alien no quarto. Invisível e quieta, saí sem deixar rastros, apenas um carpete molhado no corredor, perto da porta de carvalho envernizada.
Cada passo mais próxima da saída, o passo da chuva silenciava aquilo que eu não tinha mais interesse algum em ouvir. Cada gota que atingia as telhas e telhados ao meu redor era uma censura ao absurdo com o qual eu tinha que lidar. Ao passar pelo portão, joguei para dentro as chaves daquele lugar inóspito a mim, trancando dentro deste a fera suja e cruel que ali vivia.
Andei passivamente até onde pude, então andei mais até minha mente conseguir andar além da onde eu estava. Meus pensamentos eram mistos, uma salada colorida de ódios amargos, lembranças salgadas e futuros aguados. Pobre de quem for ter que limpar essa bagunça toda, rever planos, refazer metas, reajustar sonhos e realinhar desejos. O pequeno problema era que o pobre coitado era eu mesma.
Cheguei em casa, entrei na sala, passei pela cozinha, pelo corredor, pelo quarto, sentei na privada do banheiro. Paralisada, estagnada, congelada e desconexa. Roboticamente peguei a toalha a minha frente e comecei a esfregar meus cabelos. Para frente. Esfrega. Para trás. Esfrega. Checar umidade. Nível inaceitável. Recomeçar processo.
Com os cabelos secos, notei enfim minha desconexão com a realidade, visto que estava a despir-me para adentrar no banho. A água quente tentava reviver meu corpo gelado e duro. As gotas agora abraçavam-me com seu calor corporal, transmitiam seu afeto e empatia, ouviam-me em meu desespero e davam seu ombro amigo. Conforme viajavam pelas curvas do meu corpo, entorpeciam-se da minha tristeza e chegavam aos meus pés frias e sentidas com a minha aflição.
Meu estômago parecia em festa, incomodando o resto do corpo conforme a balada fazia mais e mais gente pular, revirando o bairro todo e incomodando os vizinhos. Eu sentia a vizinhança reclamar e, fazendo me nausear, querendo acabar com a festa expulsando todo mundo do baile. No fim, quem resolveu sair era minha esperança embutida em lágrimas tímidas e constantes, levando embora qualquer devaneio que pudesse alimentar uma falsa realidade inexistente naquela situação.
A falsa realidade de que eu não havia acabado de ser traída.
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