Nuvens de Sangue
21 Penúltimo Capítulo - Arilia
Notas iniciais

O sangue de Luiza escorria sobre minha pele, tremendo muito continuou com aquele doce olhar, queria que tudo fosse diferente. Planejei em meus devaneios momentos felizes ao lado dela, queria construir uma família, viver uma longa vida, mas tudo foi destruído por eles. Minhas lágrimas escorriam e caiam sobre sua face pálida, chorei em desespero, abafei gritos. Desolado ao vê-la daquele jeito tentei de todas as formas conseguir forças para me acalmar e tentar amenizar sua dor. Não acredito que aconteceu isso, deixei que Luiza fosse infectada, não teria mais como salvá-la e ela sabia, pois sorria futilmente pelo canto da boca.
— Não! Sua boba por que fez isso, não era para me salvar, não quero ver você virando um deles.
— Me desculpe, Nic...
— Eu te amo, você conseguiu me transformar em uma pessoa diferente. Seus trejeitos, seus sorrisos, o gosto da sua boca, da sua pele... Não vou conseguir sem você Luiza, eu quero você.
— Não diga isso Nicolas, você vai conseguir. — Suspirou fundo, — é a pessoa mais forte que conheci na vida, sabe por que te amo tanto Nicolas? Você despertou um lado que jurava estar morto dentro de mim, esse frio que paira sobre a Terra não me afeta quando estou com você, você me aquece e me sinto segura...
— Não fale meu amor, você tem que respirar fundo. — Isso vai ter que acabar agora, sei como fazer. Observei ao meu redor, em meio as ruínas dos prédios avistei as granadas e um facão que brilhou em meus olhos. Seria tudo ou nada, a trombeta já havia sido tocada e o recolher dos infectados chegando. Tinha que agir de imediato. Deixei Luiza encostada em uma parede partida ao meio e corri pegar as granadas e o facão, arfei pelo frio intenso que meu corpo recebia, não sentia as pontas dos meus dedos e isso era bom para ajudar no que faria. Me aproximei de Luiza novamente.
— Amor, preste atenção, você terá que ser muito corajosa.
— O que foi Nicolas? — Ela arfou de dor.
— Me morda, morda meu dedo esquerdo. — Assim que falei Luiza arregalou os olhos.
— Você pirou? Ficou maluco, nunca farei isso. — Grudei nos dois ombros da menina que suspirou forte.
— Tenho que fazer isso, vou explicar melhor. — Ela apertou os olhos cansados e tentou prestar atenção em minhas palavras, — as nuvens de sangue não desceram mais desde que os ataques da C.U.F.A começaram, isso quer dizer que eles estão focados em guardar as naves, e não estão mais fazendo as nuvens, isso me parece seguro para continuar com meu plano. A luz só leva quem estiver com os Zoens, pois Marry tentou subir e caiu. Se eu entrar na nave por onde os Zoens entram terei uma chance de explodi-la por dentro, ou seja, só conseguirei entrar na nave se estiver infectado.
— Como tem certeza que vai parar dentro da nave? Nic isso é suicídio.
— Tenho que tentar.
— Eu vou no seu lugar. — Encostei minha testa na dela, sentindo o seu respirar sobre minha face.
— Luiza, você não pode ir, está infectada, — lágrimas continuavam escorrer de meus olhos. — Droga por que fez aquilo?
— Fiz por que te amo já disse e não aguentaria vê-lo ser morto em minha frente.
— E você acha justo eu ver você desse jeito? Quero entrar lá, por você, por todos...
— Mas você virará um deles igual a mim!
— Não! Torres foi mordido na mão e Bruno arrancou-a, farei o mesmo. Você me infectará e quando eu estiver dentro da nave arranco minha mão.
— Não posso arriscar sua vida. — Falou me abraçando, senti que ela estava indo embora. Me desesperei, — ela vai morrer? — Luiza não, ela não. Quero voltar no tempo, quero matar o Maycon, destruir sua existência aniquilar sua passada nesse mundo.
— Luiza, e esse é meu último pedido, me morda, vou acabar com toda essa merda.
— Sabe o que mais me dói nisso tudo? — Ela falara me olhando fixamente, — não posso sentir seus lábios novamente. — Luiza puxou minha mão e cravou seus dentes sobre meus dedos. Soltei um cronometro no meu relógio marcando exatamente três minutos até eu virar um deles.
Meu corpo ficou quente no mesmo instante, mas não importou o que sentia. Era só esperar a luz descer. Marcos André correu até onde estávamos e gritou desesperado quando viu a cena, pareceu não acreditar, com violência me segurou pelo colarinho da camisa, fazendo meu corpo se levantar e deixar Luiza ao chão.
— Não Nicolas, você não!
— Vai ficar tudo bem, meu amigo. — Berrei e me soltei dele, olhei para o céu, segurei firme minha mochila e antes da luz me atingir, disse olhando para Luiza. — Obrigado meu amor, eu farei uma promessa para você, vou acabar com o que eles começaram! Marcos André, retire a Luiza da luz e leve-a com você mesmo infectada, por favor diga a minha família que sempre os amarei. — Coloquei a mão no meu bolso lembrando de algo importante.
— Nicolas isso é um erro, não tem como entrar nas naves, já tentamos de tudo. — Marcos continuou gritando e sorri para meu primo.
— Olhe tenho outro pedido, está um pouco rasgada e amassada por ter sido molhada, mas leve essa foto para a esposa Joana e a filha Isabel de Jhonatan, foi o último pedido dele, isso é muito importante, procure-as na Base, tenho certeza que estão vivas e seguras, gostarão de ver que Jhon lembrou delas no fim da vida.
Joguei a foto ao chão, vendo-a cair me fez lembrar de muita coisa. Passei por tantas coisas difíceis, vi tanta gente morrer em minha frente. Amigos que fiz para toda a vida serem esquartejados, sangue senti respingado por todos os cantos. Tudo que lembro desse incidente é medo, pânico, desespero... A Luz caiu sobre meu corpo. Não consegui descrever o que foi aquilo. Meu corpo esquentou como se houvesse sol, meus braços foram posicionados para baixo sem minha ordem, olhei para Luiza que era levada por Marcos André pela última vez antes de apagar em uma hipnose desconhecida.
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Me senti intrépido, forte e capaz, a luz me fez enxergar coisas maravilhosas, mas sabia que eram apenas miragens. Vi em minha frente uma bola azul. A mesma bola que ganhei quando era criança, ela ia percorrendo um campo gramado, enquanto meu pai chutava ela para mim. Na grama verde um lençol florido, — nossa eu odeio aquele lençol, mas minha mãe adora. — Ela estendia e minha irmã colocava as coisas para comermos, um enorme piquenique se estendia sobre aquele céu azul. O mundo era quente, próspero, feliz e harmonioso.
Léo balançava Caroline em um balanço feito de uma corda com um pneu velho. Olhou para mim e seus pensamentos estavam unânime aos meus. Sorri ao ponto de gargalhar, uma voz me chamou. Vinha detrás de uma árvore velha com folhas esverdeadas. Andei na direção da voz, chegando mais perto reconheci no ato e quando viro o tronco meus olhos se arregalam na imagem divina que presenciei. Luiza segurava em seus braços um bebê, recém-nascido.
— É nosso filho Nicolas. — Chorei, pelo pseudo que estava vendo. Tudo era mentira. Luiza está morrendo, eu estou morrendo, meu pai morreu e Léo está perdido pelo mundo devastado.
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Senti meu corpo molhado, abri os olhos e minha vista ainda embaçada não reconheceu o lugar. A água era rala, — não espere! — Isso não me pareceu água, era viscoso e denso. Sangue? Saltei de onde estava ficando em pé. Assim podendo perceber que ao meu redor centenas de Zoens me cercavam, mas não se mexiam, pareciam estar em um estado de transe. O ar daquele lugar me fazia sentir repulsa, era denso e o gosto de sangue era tremendo. O odor devastador, cheiro de carne podre, de decomposição, haviam Zoens sem pele, sem partes do corpo, pareciam que estavam se desfazendo pelo tempo que os corpos estavam mortos. Ergui a cabeça, o que vi foi um lugar de dezenas de metros em uma circunferência aguda, como se estivéssemos em um casulo gigantesco. Andei entre os Zoens com cautela de não esbarrar em nenhum deles, o lugar era escuro e com uma luz vermelha sobre nossas cabeças. A cúpula grande parecia ser feita em uma estrutura de ferro, mas o ferro era diferente, em certos pontos se mexia, nunca havia visto coisa mais estranha. Parecia até mesmo que as paredes respiravam. Curioso coloquei minha mão sobre a superfície do material desconhecido, me assustei quando a parede mexeu em ondulações. Ao levar a minhã mão a altura de meus olhos me lembrei do que tinha que fazer, meus olhos foram direcionados ao meu relógio de pulso que marcavam um minuto e dezessete segundos até o vírus Zoen infectar meu corpo. Pareciam que horas haviam passado, mas em segundos fui sugado para dentro da nave deles, agora percebo. Os Zoens que estão aqui dentro permanecem em transe, dentro desses corpos podres ainda existe um resto de alma, eles acreditam estarem vivendo uma realidade falsa, eu só acordei por que o vírus não me atingiu, que desumano.
Acelerei o passo até sair da zona onde se concentravam os Zoens. Do lado havia uma espécie de esteira onde os Zoens eram arrastados até um tanque, imaginei que era onde as nuvens de sangue eram feitas. Eles matavam na Terra, traziam os Zoens para dentro da nave e a partir dos corpos infectados faziam mais névoas infeccionais. Precisavam de nós para destruir nosso próprio mundo, malditos.
Retirei meu cinto e apertei meu pulso com o mesmo para o sangue não passar para a mão, esperei alguns segundos até perceber o roxear da minha pele. A ferida que Luiza fizera estava feia, sangrando muito e infeccionada, se não fizesse logo viraria um monstro. Coloquei a palma da mão sobre uma superfície reta e o facão com a mão direita. Sem pensar em nada, levantei a arma branca. Arfei de medo...
— Droga não consigo! — Gritei olhando para meu dedo machucado. — Coragem Nicolas, vamos, faltam segundos. —Berrei, em forma de amenizar o medo. Desci furiosamente a lâmina até meu pulso, na junta dos ossos. Um estralo foi dado em meu cérebro, ele havia captado a dor devastadora que surgiu em meu corpo. Gritei o mais alto que pude, não consegui olhar, mas sentia que a minha mão ainda estava presa. Ergui um pouco o braço e minha mão permaneceu, mas pendurada com o corte que recebeu, tinha que fazer de novo. Tremi como se fosse morrer, com o sangue espirrando em meu rosto levantei a lâmina novamente e, por fim, acertei o corte, separando minha mão esquerda do meu braço. Eu não acredito, mas acabei de arrancar uma mão.
Trambiquei para o lado como se fosse desmaiar, o cinto serviu para o meu sangue não fugir por inteiro pelo toco decepado. Enrolei um pano sujo que levava comigo na ferida, coloquei a ferida sobre o líquido gelado no chão para tentar eliminar a dor, o sangue jorrava como se fosse sair por inteiro, apertei novamente meu braço em meu peito. Coloquei o cinto envolta das minhas costas como se o cinto servisse de apoio para meu braço, amarrei-o em meio peito, imobilizando totalmente o rompimento. Se eu não saísse dali morreria antes de encontrar um lugar para jogar as granadas. Suspirei fundo e contando um passo de cada vez fui até uma porta em formato de triângulo,
Havia um botão grande e vermelho, apertei fazendo a porta de formato diferenciado se abrir. Um grande corredor luminoso se estendeu em minha visão. Assim que pisei no corredor a porta triangular fechou, e fiquei preso naquele corredor claro como um amanhecer sem nuvens. Me senti tonto, escorei sobre as paredes metálicas do lugar, era uma parede estranha, gelada como o ar que acostumei respirar, não adiantou, cai de joelhos, perdia muito sangue, vou falhar... Minha visão ficou totalmente apagada, consegui ver apenas vultos em minha frente vindo em minha direção. Desmaiei.
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Abri os olhos. Onde estou? Deitado em uma cama gigantesca com lençóis brancos e quentes. Meus sentidos voltaram totalmente, ergui meu braço esquerdo e minha ele estava curado, com faixas tapando o local do corte, mas sentia que não doía e até mesmo cicatrizado. Com toda certeza ainda estava na nave, pois nunca havia visto aposentos mais esquisitos. O quarto inteiro era branco, a cama tinha formato distorcido, pareciam que raízes de luz saiam do chão e serviam de molde para o colchão macio. Me levantei e ainda estava vestido como vim, e por incrível que pareça minhas granadas e até mesmo o facão estavam comigo, o que significa tudo isso? Me curaram e não me revistaram? As paredes ainda pareciam respirar, pois se mexiam em demasiado tempo. Escutei passos e a porta triangular fora se abrindo.
Peguei o facão e coloquei em frente ao meu corpo, em guarda me mantive. O que saiu detrás da porta foi tão impactante quanto o lugar que estava. Era uma mulher? Ela parecia uma mulher: era magra, da minha altura, vestia trajes estranhos, uma túnica branca que ia até suas canelas e por cima da túnica um manto azul-claro. O que diferenciou a mulher foram seus lábios de uma cor azul espetacular. Sua pele era tão branca que refletia sobre a luz do lugar, assim como seus cabelos, sobrancelhas e cílios tudo era branco como a neve, uma albina? Percebi seus olhos, eles me deram medo. Um vermelho escarlate.
Não acreditei no que meus olhos me diziam, ela era diferente de tudo que pensei. Achei que veria seres monstruosos com olhos grandes, peles verdes, insetos gigantes, seres horrendos, mas não. Ela era linda, uma beleza diferente, mas não podia baixar guarda ou morreria.
— Desculpe, mas precisa vir comigo. — Ela falou minha linguá? Será que ainda estou sonhando? Não sei oq ue estou vendo, mas respondi com ferocidade.
— Não sairei daqui.
— Nossa Mãe Arilia quer conversar com você.
— Não vou sair daqui, já disse. — Respondi me tremendo dos pés a cabeça.
—Insisto, ela não pode sair de onde está, agora me siga. — A mulher branca virou de costas e sumiu da porta. Com medo e tremendo dei o primeiro passo para frente seguido de um caminhar com falsas esperanças, um caminhar para um harém de morte e sangue, para um lugar que eu desconhecia, todavia não tinha mais nada a perder.
Assim como o corredor onde sai daquela sala do inferno, aquele era igual. Era claro e brilhoso, muito iluminado e com dezenas de portas triangulares. Ao passar por uma aberta consegui ver alguns “deles”, eram iguais a mulher, brancos como neve recém-caídas do céu. A mulher andou devagar, e segui levando comigo meu facão. Chegamos até uma circulo no chão, que ao pisarmos ele se ergueu no ar, o teto abriu e saímos voando para um gigantesco ambiente.
As paredes agora não respiravam, mas eram transparentes como vidros. Eu conseguia enxergar tudo o que acontecia ao redor da nave, muitas aeronave de combates se chocavam contra o vidro que nada acontecia, a cidade era pequena, mas conseguia ver os pontos de destruição. Fiquei pasmo e nenhuma palavra consegui soltar. Estávamos em uma espécie de vórtex de força, as nuvens cinas tomavam a nave como barreiras e por consequência fiquei presos em um casulo feito por eles, imaginei que veria o sol, mas definitivamente esses alienígenas não gostam da nossa estrela maior.
Voamos pela nave e entramos em uma abertura que se formou onde passamos. Uma imagem impressionante se formou em minha visão. Uma gigantesca porta era guardada por dois seres brancos, esses diferentes da mulher. Eram grandes e sem rosto, não tinham olhos ou bocas, usavam uma espécie de armadura branca e não demonstraram nenhuma ação ao nos ver.
— Peço que deixe sua arma nesta cúpula, não se preocupe guardaremos ela para você. — A voz doce da estranha mulher me fez deixar o facão no lugar indicado. Mas por que não me revistam? As granadas ainda estavam em minha cintura, passei minha única mão sobre elas e apertei em meu corpo, as granadas não entregaria de maneira alguma.
A mulher cuspiu palavras que jamais ouvi em minha vida, palavras como grunhidos e zumbidos de abelhas. Foi como ouvir o sopro do vento balançar folhas de árvores, estava certo de que aqueles sons eram a linguá daqueles malditos que estavam destruindo meu Planeta. Os dois estranhos responderam com as mesmas palavras e a porta de dezenas de metros se abriu.
— Entre Terráqueo, Mãe Arilia lhe espera. — A que me guiou ficou e sem ao menos esperar, reprimi o medo e entrei na sala gigantesca.
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