Nuvens de Sangue

18 Capítulo 18 - Sacrifício


Notas iniciais
Desculpem a demora! Mas o capítulo saiu. Tive uns problemas pessoais e não tive tempo de escrever nesses dias, mas espero que gostem!

"O tempo não para como dizia aquele cantor. O som da guerra sobre nossas cabeças era uma devastação inimaginável. Quem venceria? Impossível saber (...)"

Torres saltou sobre as escadas largando sua metralhadora nos meus braços. A água suja batia na altura de nossas canelas e o frio a transformava em agulhas, sentia que ia congelar. A ferida de Gabriel fora sobre seu ombro, e seu sangue jorrava como uma bexiga de água recém-estourada. Marry berrou em desespero por ver o amor de sua vida naquela situação, ele tentou confortá-la segurando sua ferida, mas ela sabia que aconteceria em breve. Bruno e Luiza tentou acudir os dois, enquanto eu, subi para ajudar o policial.

Assim que toquei minhas duas mãos sobre a fria escada de ferro enferrujada, Torres já estava com metade de seu corpo para fora do esgoto. Teria que fazer força para levantar a tampa de aço que Gabriel não fechou, mas como eu ajudaria? Tentei subir o mais rápido possível.

Lembrando de tudo que havíamos passado até agora, Torres sem dúvidas foi fundamental para o nosso crescimento. Sem ele não conseguiríamos sobreviver, assim como não vamos conseguir sem João. Agradeço cada segundo por ter conhecido essas pessoas, mesmo sendo nessa situação. Tudo que vivi até hoje foi pequeno perto do que estou vivendo hoje. Nunca tinha passado tanto tempo com meu irmão, consigo entender tudo o que se passa em sua cabeça agora, e minha querida irmãzinha. Sei que é forte e que tem uma vontade de viver que uma criança normal não teria. Por eles que agradeço Torres e João.

— Essa merda é pesada. – O PM brincou enquanto a boca de bueiro era trancada.

— Como está ai em cima Torres? — Estava escuro demais.

— Eles estão chegando e são milhares, mas fechando essa entrada não teremos problemas.

— Então não preciso subir? Gabriel precisa de ajuda. — Olhei para o lado e via que o sangramento continuava.

— Não, estou conseguindo fechar. – Ele olhou para baixo enquanto a tampa era colocada em seu lugar, e com um sorriso de canto de boca cuspiu algumas palavras. – Vamos conseguir.

Mas em meio ao escuro lugar e a única brecha de luz que ainda ficara devido ao bueiro não se fechar por completo, uma mão surge e agarra o braço de Torres. A tampa cai novamente e mais um braço podre e esverdeado, segura-o.

— Torres, não! – Soltei o grito mais alto que já dei em toda minha vida.

— Porra! – Vociferou com dificuldade retirando de sua cintura uma faca, não pareceu desesperado, aquele homem conseguia manter-se firme perante aquelas coisas, era incrível. Segurei suas duas pernas puxando seu corpo para baixo. Luiza e Michele se desesperaram, Léo correu para tentar me ajudar, era evidente o trabalho em equipe que sempre executamos, mesmo Michele que está a pouco tempo conosco sabe lidar com situações extremas. Mas ele não, aquele maldito do Oliver, meus olhos encontraram os seus por um segundo em meio ao opaco. Todavia, fiz questão de ignorá-lo, Torres precisava de nós.

— Torres acertar eles. – Luiza tentou ajudar com palavras. Torres conseguiu atingir em cheio a cabeça de um dos mortos que caiu sobre o asfalto, porém ao fazer isso sua instabilidade cedeu e seu corpo foi para frente, fazendo o que estava ao lado dele enterrar seus dentes nos dedos do policial, que arfou de dor e agonia.

— Me solte, me solte seu filho da puta! – Não conseguia acreditar. A criatura mordia os dedos de Torres, que no ato pegou sua faca e cravou na cabeça do desgraçado. E foi nesse momento que senti Léo me empurrar e correr para as escadas, não pude segurá-lo. Seu corpo magro e pequeno se colocou entre Torres e o buraco do bueiro. Mirou sua arma e começou a disparar, destruindo os seres que estavam se aproximando. Dando o exato momento de fechar o maldito lugar.

Léo respirou fundo descendo junto com Torres da escada apertada. O lugar se tornou um breu gigantesco, nem um sinal de luz era presenciada. Porem Caroline retira de sua mochila algumas lanternas. Dando uma luz na escuridão.

— Vamos achar um lugar seco, tenho que cuidar das feridas de vocês. – Bruno suava mesmo o frio sendo tenebroso.

Coloquei a luz sobre o ferimento do policial durão. Não consegui me expressar em ver tamanho horror. Faltava o dedo indicador e metade do dedo do meio, seu sangue expirou sobre nosso caminho. Michele retirou o laço que prendia seus cabelos armados e amarrou sobre os dedos de Torres. Entretanto Bruno estava inquieto.

— O que foi bruno, por que está assim, foi ferido também? – Clarice segurou a mão do médico, e ele balançou a cabeça, olhando para um relógio em seu pulso.

— Não temos tempo. – Retirou um facão médio de sua cintura e foi em direção de Torres, — temos que conversar, por um segundo e a sós.

— Eu já imagino o que seja, Doutor. – Falou sussurrando e rangindo os dentes de dor.

Nenhum dos dois olharam para os lados, partiram para uma parte escura do lugar. Fiquei apreensivo, o que Bruno vai fazer? Matar Torres, não! Isso deve estar fora de cogitação, as coisas saíram do controle. Gabriel e Torres feridos por aqueles monstros, me recordo de Dona Carmem e do que aconteceu com ela. Será que irão se tornar um daqueles monstros? Aquilo me torturou como se eu estivesse como eles. Gabriel arfou de dor enquanto Marry tentou segurar o amado pelos braços.

— Meu amor, aqui seu livro, consegui pegar! – Não acredito que ele havia perdido a vida por um livro, talvez fosse o amor, uma prova de que faríamos tudo por quem amamos. Luiza entrelaçou seus dedos sobre os meus, e me beijou, não conseguia ver nitidamente seu rosto, mas sabia que chorava pelo molhado de suas lágrimas me envolver.

O lugar era sombrio, sem sinal de vida e o cheiro insuportável. Grandes paredes nos envolviam, paredes de três metros de altura de cor barrenta. Pequenas passagens em formato de quadrado serviam de caminhos para a água do esgoto. Mesmo estando embaixo do solo sentíamos os pequenos tremores que abalavam a grande metrópole, não consigo imaginar uma batalha nos céus. Nunca ganharíamos de coisas assim, será que Marcos André está lá? Vivo, lutando por nós? Me sinto um inútil, nunca chegarei aos pés deles, os soldados que estão arriscando a vida para salvar o Planeta. Sou um simples estudante, como conseguir levar essa gente salva até o lugar que meu primo falou? João perdeu sua vida, Gabriel e Torres feridos...

— Por favor, quero que todos saibam, que o que farei com Torres é para ao bem dele. – Bruno falou aproximando-se.

— Vai matá-lo? – Perguntou Léo friamente.

— Não, por isso preciso da ajuda de Oliver e Léo. – Oliver que até então estava calado, disse com aquela maldita covardia aguda.

— Não vou fazer nada, olha o que aconteceu no mercado. – Olhei furiosamente para seus olhos iluminados por minha lanterna, mas senti o aperto de mão que Luiza me deu, Léo então tomou a frente soltando os braços de Caroline.

— Eu ajudo!

— Certo, não temos tempo, Léo se encarregue de iluminar o lugar. – Léo, eu e o doutor seguimos até onde Torres estava sentado. Ele se encontrava em uma pequena elevação, onde a água podre não atingia seu corpo.

— Preste atenção, Nicolas segure com as duas mãos os bíceps de Torres de forma que seu braço fique para cima, vamos logo que temos apenas quarenta segundos. Léo pegue este pano, molhe ele com água potável, tem uma garrafa em minha mochila e em seguida fique aposto para pressionar no rompimento da ferida.

— Rompimento? – Perguntei, no mesmo momento que Léo molhou o pano branco e grosso, que Bruno tinha em sua mochila.

— Ele vai decepar minha mão.

— O que? – Arregalei meus olhos, e Léo fez o mesmo.

— O único jeito de fazer a infecção se desintegrar. Por ser uma mordida, o tempo que os Zoens ficam concentrados na ferida é de três minutos, por isso, podemos decepar os Zoens antes que eles comecem a correr sobre as veias de Torres. – Bruno encarou Torres que deu uma piscadela para o doutor. Léo segurou a lanterna com a boca e com as duas mãos o pano pronto para segurar o local da ferida.

— É agora! – Bruno molhou o local da ferida com álcool, fazendo o PM morder um pedaço de cabo de vassoura, já sentindo as dores. Não pude fechar os olhos, pois uma corrente elétrica passou por mim como um impacto. Bruno movimentou-se em um ato rápido e sem pensar. A única coisa que vi foi o olhar de Torres apertar em um fechar de olhos, desesperador. O brilho ofuscante da lâmina sobre a luz rala da lanterna, por fim, o rompimento. Um rompimento mortal.

— MEU DEUS DO CÉU, QUE MERDA! – Torres ergueu o braço para cima, enquanto sua mão voou e caiu sobre a água cinza do esgoto sumindo no meio do lixo molhado. Seu sangue vazou desesperadamente, ele gritou como se fosse morrer.

— Doutor, isso é normal? Ajuda ele, ele está sentindo muita dor. – Disse.

— Léo o pano, vamos estancar a ferida. – Léo em um ato rápido levou o pano até a ferida. Enquanto eu segurava as costas do homem em choque. Bruno pegou uma fita adesiva e enrolou sobre o toco do que sobrou em Torres.

— Acalme-se Torres, temos que sair do esgoto. Logo vamos conseguir ajuda e tudo ficará bem.

Eu não consegui falar, estava tremendo de uma forma que nunca tremi. Ele estava sem mão foi decepada por completa. Uma amputação perfeita aos olhos do médico em nossa frente, o sangue transbordou para os lados tingindo o branco do tecido com o sangue interminável. Mesmo assim o homem uniformizado mantinha-se firme, mesmo perdendo a cor de sua pele que agora estava pálida como a fumaça pulmonar que saia de nossas bocas e narinas. Segurei os braços de Torres e com a ajuda de Bruno voltamos onde estavam todos.

Léo me mostrou o cronometro que colocamos para rodar quando saímos do mercado, marcava dois minutos. Esse era o tempo até as bombas atingirem São Paulo. Esse era o tempo de tentarmos sobreviver, correr por estes corredores mortos e esquecidos até o rio Tiete, esse é o tempo que trassará nosso destino totalmente incerto.

— Vamos temos que correr. – Conclui assim que encontrei o resto de nós. Enquanto eu e Léo ajudávamos Torres. Bruno e Marry levavam Gabriel que estava mole e sem forças para andar sozinho.

— Quanto tempo ele ainda tem? – Marry gritou, e Bruno balançou a cabeça, triste.

— Não muito tempo.

O tempo não para como dizia aquele cantor. O som da guerra sobre nossas cabeças era uma devastação inimaginável. Quem venceria? Impossível saber, não sabemos como entrar naquelas coisas. O único jeito de começarmos a caminhar pelo caminho da chance de vitória, é matar nós mesmo, destruir nossos próprios patrimônios. Isso é vantagem? Não! Tenho uma certeza de que é isso que os Alienígenas querem, e como somos humanos estamos indo pelo caminho do inimigo. São Paulo vai desaparecer, estamos sobre o ciclo de morte.

Segurei firme o braço de minha irmã. Adentramos ainda mais para o fundo do esgoto, deslizando sobre a água do lugar que descia rapidamente para uma tubulação, formando uma correnteza. A cada passo dado, mais a água tomava forma. Estávamos literalmente indo por água a baixo.

Escutei o primeiro impacto, fora baixo, entretanto as paredes úmidas do lugar sacudiram, fazendo uma grande poeira cair sobre nossas cabeças e misturar-se no líquido que já era preto, não poderia mais chamar de água. Abracei Luiza e Clarice e deslizamos para um lugar mais precário ainda, porém isolado do resto do mundo. O segundo tremor veio mais forte. Perdi minha lanterna, mas ainda sentia Luiza e Clarice comigo.

— Galera, falem, gritem, vamos nos comunicar para sabermos onde estamos. – Disse.

— Mano o cronometro parou! – Berrou Léo balançando uma lanterna, tentei me aproximar dele.

— Fiquem perto de... — O barulho foi ensurdecedor não vi nada, a escuridão me consumia me afogando junto com a água putrificada. Senti Luiza desaparecer de meus braços quando o estrondo nos atingiu. Não ouvi mais os gritos de ninguém, estava submerso. Pedras e escombros caiam sobre mim, batendo em meu corpo que girava dentro da água que aumentou devido uma parede ceder pela explosão.

Não abri meus olhos, mas sentia como se estivesse dentro de um liquidificador. Meu Deus, minha irmã e meu irmão! Luiza onde está? Não posso me mover como quero, pois a água me arrastou para lugares desordenados. Um corte em minha barriga era evidente, minha cabeça doía como se fosse explodir. Eu queria ar, mas ele não existia, bati minhas costas em uma estrutura de concreto e senti meus ossos estralarem. Parei quando me choquei na parede, minha cabeça estava para fora da água que subia sem parar.

— Clarice, Léo, Luiza! – Berrei como se minhas cordas vocais fossem explodir.

— Socorro! – Era a voz de Caroline, — alguém me ajuda.

— Aqui, me ajuda, aqui. – Também escutei Oliver. Tinha que ajudar, tinha que achar o local onde estavam. Segurei uma barra de ferro que se soltou das colunas do esgoto e fui me arrastando, tentei chegar até onde a água se dissipava para os lados, mas um choque fora sentido em meu corpo. Coloquei a mão sobre minha barriga e senti um buraco aberto.

— Droga, não vou morrer aqui em baixo, prometi que vou levar meus irmãos embora. — Falei para mim mesmo, e foi o que fiz.

A água foi abaixando, e pude ficar em pé. Andei com muita dificuldade, escutei os berros de Caroline e Oliver novamente, estavam atrás de uma estrutura de tijolos, mas percebi que a enxurrada cinzenta estava sendo sugada por alguma abertura. Tive que mergulhar. Aquele líquido sujo adentrou diversas vezes em minha boca, era amargo e doce ao mesmo tempo. Sabia que engolia todo tipo de sujeira, mas a vida de meus amigos me alimentou. Quero salvar todos.

Passei pela abertura, e a surpresa foi gigante, uma espécie de cachoeira se formava, caindo de tubos enormes de quase dois metros de diâmetro. Entretanto o que me fez correr foi Caroline, que estava segurando uma barra de ferro, seu corpo ia caindo do tubo e se afogava conforme a enxurrada batia em seu rosto. O frio me consumia, e me fazia quase não conseguir andar. Quando a água deixou de bater em minha barriga, percebi a gigantesca ferida ficara sobre minha pele.

— Dói, mas eu tenho que te salvar Caroline, aguenta.

— Nic, não dá, não posso segurar, eu não aguento, nós dois! – A menina de cabelos negros, soluçava de dor e medo. Eu conseguia enxergar seu medo perante aquela situação, mas por que dira – nós dois –, o que significa?

— Me ajuda! – Oliver? Sim foi ele quem gritou. Me aproximei e descobri o do que se tratou, Oliver se prendia na cintura de Caroline, pressionando o corpo magro da criança para baixo.

— Minhas mãos Nic. – Caroline chorou, suas mãos sangravam a cada batida de água em seu rosto devido ao peso do filho da puta o Oliver.

— Não se mexa, estou chegando, Oliver você vai ter que largar a Caroline, tente segurar em alguma coisa. – Apoiando minhas mãos sobre a superfície do tubo fui me aproximando da boca do desastre.

— Não dá seu merda, lá em baixo está cheio deles. Eles estão na água, acho que quando a explosão caiu sobre São paulo alguns foram arrastados para esse poço, se um de nós cair vamos ser devorados.

O desgraçado tinha razão, pois mesmo com o barulho insuportável da queda d'água, os gritos desordenados dos mortos eram escutados. Mas o meu pânico apenas aumentou com tudo aquilo, se um dos meus amigos estiver caído dentro do poço? Meus irmãos? Droga, tenho que salvar a Caroline. Me desculpe Deus, mas tenho que fazer isso para o bem dessa garota.

— Caroline não vou aguentar segurar os dois, se Oliver não te largar, vocês dois vão cair, ou até mesmo eu.

— Do que você está falando, não vou largar essa menina, se eu morrer que morra junto.

— Que merda que você está falando? Seu desgraçado, você matou o João, você está pressionando a Luiza e agora quer matar essa menina? — Me enfureci, segurei onde pude, me sentando no tubo. Quase arrastado, mas decidido em salvar Caroline.

— Me solta, seu filho da puta, não quero mais te ajudar. — A garota tremeu o corpo e Oliver soltou uma de suas mãos, foi a deixa para eu segurar os braços finos dela.

— Não me deixe cair.

— Desculpe, mas eu adorava aquele velho. — Caroline se referiu a João e conseguiu chutar Oliver. A única coisa que vi foi o seu olhar profundo pela última vez, ele caiu e seu grito foi abafado quando o barulho de seu corpo fora escutado se chocando sobre a água.

—Vai ficar tudo bem! — Abracei Caroline, enquanto os berros de dor de Oliver iam se alastrando, ecoando uma dor eminente de um banquete exótico. Sua carne era demorada por dezenas de Zoens.