Notas iniciais
O tema dessa rodada foi o quadro Parable Of The Rich Man, de Rembrandt. Dessa vez, as nuvens foram só um cenário, mesmo, mas elas estão presentes!

Poucas pessoas andavam pelas ruas naquela tarde enfadonha. Uma chuva fina caia: aquele tipo de chuva que encharca até os ossos mesmo parecendo inofensiva. O céu estava coberto por nuvens cinza claro até onde se podia ver e o Sol parecia uma lembrança distante. Sem se importar com a chuva que caia, um garoto caminhava alegremente, vez ou outra pulando numa poça d’água. Seus cabelos, que precisavam ser cortados, estavam colados no rosto e suas roupas começavam a ficar pesadas por causa da água, mas ele não dava sinais de ter percebido isso.

Logo chegou ao casarão de seu tio, onde passaria todas as tardes daquele mês para “amolecer o coração do velho”, como dissera seu pai. Era uma casa antiga e imponente. Seu jardim era forrado de uma grama verde vivo aparada, coberta em alguns pontos por folhas mortas encharcadas pela chuva. Uma árvore desfolhada se erguia acima do telhado, insinuando seus galhos mais baixos para as janelas do segundo andar. As paredes eram de um branco desgastado e envelhecido pelo tempo, mostrando que precisavam de uma nova pintura, mas isso era compensado pelas altas janelas que distorciam e refletiam a paisagem, dando a impressão de serem vitrais. Na parte frontal da casa, uma escada de pedra dava acesso à varanda, que possuía colunas branco-peroladas sustentando um pequeno telhado cinza escuro. O segundo andar era ofuscado pelo último, provavelmente o sótão. Em certos pontos o telhado abria lugar a pequenas janelas, duas de cada lado de uma espécie cúpula. Nela, janelas redondas de vidros coloridos azulados e arroxeados davam um toque místico à casa.

Ele ficou alguns instantes parado olhando os detalhes da varanda antes de bater na porta. Quando bateu ela foi aberta quase imediatamente por uma senhora de expressão triste usando um vestido gasto.

— Eu vim ver o meu tio. – Murmurou ele. A senhora convidou-o a entrar, porém em seguida lhe lançou um olhar de reprovação ao ver a poça de água se formando aos seus pés.

Ela entrou em um corredor, mas logo voltou com uma toalha em mãos e tentou enxugar como podia as roupas e cabelo molhados do garoto.

— Tire os sapatos para não sujar o chão ­– ordenou ela –, seu tio está te esperando.

Depois de tirar os sapatos e colocá-los ao lado da porta, ele a seguiu até o último andar, onde a senhora foi até uma grande janela que ia até o teto. Confuso, o garoto olhou em volta a procura de seu tio, mas antes que pudesse perguntar algo ela pegou uma escada encostada na parede e abriu um alçapão que havia no teto, indicando que ele devia subir.

Os degraus machucaram um pouco seus pés, mas logo ele estava em uma sala alta abarrotada de livros e papéis. Havia uma janela redonda em cada parede, mas muito pouca luz entrava no recinto. Seu tio era um homem de idade com a cabeça calva coberta por uma boina preta que aparentava ser o rabo de um gambá. Sua testa era enrugada e seus olhos pequenos observavam atentamente algo sob a luz de uma vela. Ele estava sentado em uma escrivaninha quase totalmente coberta de papéis com um enorme livro ao seu lado.

­– Olá! O que o senhor está fazendo?

Sobressaltado, ele se virou e derrubou o que estava segurando. Quando viu o pequeno garoto com meias molhadas parado no meio da sala, lhe lançou um olhar severo e pegou o objeto que havia caído.

— Sente em algum lugar e fique quieto. Tenho muita coisa para fazer e não preciso de alguém me atrapalhando.

“Parece que as pessoas aqui só sabem dar ordens e olhar feio para mim!”, pensou o garoto. Ele soltou um suspiro e começou a procurar um lugar para sentar. Depois de alguns minutos, achou um banquinho velho e bambo atrás de uma pilha de livros e se sentou começando a perceber que aquele seria um longo e entediante mês.

Notas finais
Espero que tenham gostado... Foi uma confusão só para conseguir postar esse capítulo! Deixem nos comentários o que acharam ;)