Nuts
1 Mad Hatter: Nuts.
Cá estou eu sentada em minha cama olhando diretamente para o rosto feminino de Jess. Ela parecia calma, parecia ser à prova de fogo, nada parecia abalá-la. Gostaria de ser assim.
Confesso que com apenas um comentário infeliz já me sinto a pior pessoa do mundo. Desabo em lágrimas e me pergunto qual o motivo da minha mera existência. Eu realmente odeio crises existenciais.
Jess, quando me vê chorando, dá muita risada de mim. Sempre. Ela acha que sou boba e que eu deveria perder meu tempo fazendo algo útil, em vez de chorar e chorar.
Acho que ela não me entende. Minha única amiga não me entende. Seria engraçado se não fosse trágico.
— Ei, Liz, vamos tomar sorvete? — convidou ela, subitamente.
Olhei para os cabelos negros e olhos violetas, ela era tão linda!
— Está escuro e faz quinze graus lá fora, Jess. Não acho que seja um dia propício para tomar sorvete — murmurei, fazendo careta ao ver seu revirar de olhos.
— Pare de inventar desculpas e vamos logo! Eu conheço uma sorveteria e quero te levar lá, tenho que te apresentar um amigo — disse ela, de repente, parecia muito animada.
Jess quando estava animada tinha um motivo específico: algo nada bom viria pela frente.
— Jéssica eu não quero me meter em confusão, está bem? — apenas balancei a cabeça quando vi seu sorriso travesso, o que essa menina estava aprontando?
Jess tinha a minha idade, dezesseis anos, mas parecia mais uma criancinha de oito.
Peguei minha jaqueta e nos encaminhamos para fora de casa. Tudo parecia em ordem, nem mesmo havia indícios de que horas atrás uma briga ocorreu na sala da minha casa.
— Para de pensar nisso, Liz. Sua mãe vai fazer as pazes com seu pai e tudo vai ficar bem de novo, como sempre foi, não é? — comentou Jess, tentando me animar.
— Por que ninguém te enxerga, Jess? Eu não entendo… Mamãe diz que você é uma amiga imaginária, mas eu sei que não é. Eu consigo tocar em você, sentir você, ver você e…! Você não é de mentira — sussurrei, sentindo um aperto no peito.
Aquela sensação de que ninguém me entendia novamente me atacou. Eu me sentia extremamente sozinha, se não fosse por Jéssica. Ela era a única amiga que eu tinha, mas para os outros, eu não tinha nenhuma amiga, porque ninguém conseguia vê-la.
Eu passava horas me perguntando se eu não era louca ou se eu não tinha criado Jess apenas para me sentir menos solitária. No fim, eu sabia que a resposta era um audível “sim” para todas essas perguntas. Mas eu não queria acreditar que eu estava sozinha.
— Você não está sozinha, Liz. Eu já disse para você que só pessoas especiais podem me ver. Você sabe, Liz, eu não sou igual a você ou os outros. Eu sou diferente e ninguém pode saber disso, por isso ninguém me vê. Agora vamos, eu estou louca para tomar sorvete de baunilha — exclamou ela, sorrindo.
Eu amava Jess, ela era incrivelmente bonita e inteligente. Além de ser simpática e agradável.
Sorri. Ela sabia como me animar.
Apesar do vento gelado, foi agradável andar nas ruas desertas com a companhia de Jess. Não demoramos para chegar em uma sorveteria colorida e muito aconchegante.
Haviam dois jovens sentados no fundo e uma mulher solitária no telefone perto do balcão, fora isso, estava um completo vazio.
Caminhei até o balcão encontrando um garoto da minha escola. Ele trabalhava como atendente à noite naquele lugar, sempre foi muito simpático comigo, mas não éramos amigos.
— Boa noite, Liz. O que vai querer hoje? — questionou ele, mostrando um lindo e largo sorriso, era encantador.
Ele tinha cabelos negros e olhos violetas, assim como os de Jess.
— Um sorvete de morango e outro de baunilha — pedi.
— Olá para você também, Jess — cumprimentou ele, pela primeira vez alguém dava oi para Jéssica, além de mim.
Arregalei os olhos e olhei-a, questionando-a silenciosamente.
Assim que ele preparou os sorvetes, nos sentamos em uma mesa afastada do balcão e não demorou para que eu a bombardeasse de perguntas.
— Você o conhece, Jéssica? Por que nunca me disse? — perguntei, birrenta.
— Eu falei que queria te apresentar um amigo, Liz. Ele é meu amigo e coincidentemente é seu colega também, não é legal? — disse ela, extremamente animada.
— Odeio quando você aparece com surpresas — exclamei.
— Ei, Josh, venha cá! — chamou ela, de repente, apontando para Josh.
Josh sorriu e veio até nós. Eu quis me esconder em baixo da mesa… O que Jéssica aprontaria?
— Precisa de alguma coisa, Jess? — questionou ele, amigavelmente.
— Por que não se senta aqui conosco? Liz quer conhecer você — pediu ela, sorrindo. Josh deu de ombro e sentou ao meu lado.
Eu me senti muito nervosa, porque não sabia como agir perto de um estranho. Mas, estranhamente, a conversa fluiu como água e tudo parecia ótimo e agradável.
Conversamos por minutos e pareceu que estávamos conversando há séculos. Ele era tão incrível quanto Jess.
— Veja só, se não é a maluca da nossa escola… Como é nome dela mesmo? — ouvi alguém atrás de mim comentar.
— Eliza, acho eu. Ela é da minha classe, bem doidona — encarei a mesa e continuei prestando atenção na conversa, enquanto Jess e Josh trocavam palavras entre si.
— Ela vive conversando sozinha. Eu ouvi falar que ela tem problemas mentais, por isso ninguém chega perto dela. Afinal, quem seria amigo de uma louca qualquer?
— Liz, está tudo bem? — questionou Jess, olhando-me preocupada.
— Por que eles estão me chamando de louca, Jess? — perguntei baixinho, sentia meus olhos encherem de lágrimas.
— Eles não estão falando de você, Liz. Afinal, você nem se chama Eliza! Relaxa! Vamos sair daqui. Você vem, Josh? — Josh sorriu e assentiu, os dois passaram a me acompanhar.
Paguei os sorvetes e antes de sair olhei novamente para nossa mesa. Havia um sorvete de baunilha em um copo e ele estava derretendo rapidamente, sujando toda mesa.
Sorri. Eu realmente era louca.
Mas e daí se sou louca? As melhores pessoas são.
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