Fazem 3 meses. Não, espera... fazem 4 meses. Fazem 4 meses que o mundo não é mais o mesmo, que ele simplesmente mudou de uma maneira em que ninguém imaginava. Já estamos no mês de Julho, mas sinto que o ano não começou, ou começou e vamos simplesmente pulá-lo e passar direto para 2021. Sabe aquela história de “o ano só começa depois do carnaval”? Então, depois do carnaval teve a pandemia de Covid-19, onde parou tudo: comercio, shoppings, lazer, indústria, itens não essenciais para sobrevivermos. Por isso não considero que o ano de 2020 tenha começado realmente. E tudo por causa de um vírus, que, fala sério, não é considerado nem um ser vivo.

Todos esses meses fiquei em casa, lógico. O que foi difícil, pois sou fotografo e costumava ficar fora o dia inteiro, até nos fins de semana, voltava para casa só para jantar e dormir. Sentia e apreciava a agitação da cidade de São Paulo, via pessoas, sempre apressadas disputando espaço com os carros, ônibus e bicicletas. Sentia e apreciava a floresta de concreto, onde é moradia de diversos tipos de pessoas e famílias vivendo suas rotineiras vidas. Sentia e apreciava as árvores e arbustos esvoaçando com o vento, deixando cair folhas e pequenos frutos e formando um tapete na calçada, prontos para serem varridos pelos garis. E sentia e apreciava o cheiro da poluição que se misturava com os odores inconfundíveis de pães e tortas saindo do forno de padarias, almoços sendo preparados em restaurantes e perfumes doces emanando de lojas e comércios. Viajava por causa do trabalho, adorava não ter rotina, cada dia um dia novo e diferente.

Mas agora? Agora eu me forço a sair da cama e começar mais um dia dentro do apartamento. Devo ter engordado alguns quilos, pois peço comida de fora, bem mais prático. Tento me exercitar puxando alguns pesos que tenho, fazendo alongamentos e flexões, mas o que eu gostava mesmo de fazer era correr no parque Ibirapuera no final de semana. Acho que assisti quase todos os filmes e séries que tem na Netflix, mas mesmo assim parece que as horas não passam e o dia não rende.

Amanhece mais um dia nesse mundo que se tornou tão estranho. O sol invade meu quarto pela janela parcialmente fechada. Levanto meio preguiçoso e olho no meu celular para saber que dia é hoje, dia 15. Faço meu café da manhã e olhando para minha geladeira e dispensa me lembro que preciso sair e ir ao mercado. Sento na frente da TV e ligo no jornal, que sem surpresas está falando sobre a pandemia, atualizando o número de óbitos, novos casos e novos curados. Deixo a TV falando sozinha, pois na verdade cansei de ouvir sobre a pandemia e só ligo para que o apartamento não fique muito silencioso e sem graça.

Já que não posso sair e fazer meu trabalho, a alguns meses atrás comecei a tirar fotos das paisagens que vejo pela minha varanda da sala, pois eu vi em algum lugar na internet um projeto de olhar esse confinamento dentro de casa na quarentena de outros pontos de vista. Então, as pessoas faziam várias coisas e compartilhavam: musicas, poemas, esportes, aulas e ajudavam os jovens a estudarem. Eu resolvi me juntar e compartilha que mesmo dentro de casa ainda podemos apreciar o belo mundo lá fora. E a vista da minha janela é ótima: dá para vários telhados de prédios menores de onde estou, no 10º andar. São vários pequenos prédios de 4, 5 e 6 andares se estendendo no horizonte paulistano até alcançarem prédios maiores. Muitas vezes dá para ver as pessoas se exercitando, dançando, praticando algum instrumento musical em suas varandas e nesses telhados. O dia está lindo, com o sol radiante e sem vento, assim as copas das árvores estão estáticas e floridas. Seria um ótimo dia para tirar fotos.

Peguei minha câmera e me dirigi a varanda. Fiquei a manhã interna lá. Já que o dia estava bonito tinha várias pessoas em suas varandas também.

Quando estou terminando para preparar meu almoço, minha atenção é desviada e focada em uma mulher no telhado de um prédio de 6 andares, perto do meu. Ela está dançando, acho que é ballet, com uma música que só consigo ouvir a melodia, mas ela está no ritmo. Calma e leve, ela percorre todo o telhado, rodopiando, saltando, pulando, esticando os braços e pernas. É muito bonito de se ver e parece que ela não se importa se tem alguém olhando, ela simplesmente parece estar sozinha no bairro e no mundo. Parecia flutuar do chão de tão graciosamente se movia, com movimentos precisos.

E assim vendo ela acabar, deitada no chão descansando com os braços cobrindo o rosto, provavelmente por causa do sol, eu queria que ela me notasse, assim como eu a notei. Queria falar que ela dançara lindamente e pediria para não parar, que queria dançar junto com ela.

Dei um zoom com a câmera para poder olhá-la melhor. Ela é linda, com os cabelos escuros soltos, meio bagunçados. Ela sentou e no segundo seguinte me peguei acenado. Fiquei acenando por algum tempo até que ela percebesse. Me notando, sorriu e acenou de volta. Paramos de acenar, mas continuamos sorrindo e olhando um para o outro. Mesmo longe aquela foi a interação social mais verdadeira desses últimos meses. Será que ela se sentiu incomodada de alguém ter olhado sua dança? Será que ela acha que eu a estava espionando? Eu preciso falar com ela, mas como?

Já sei, tenho uma ideia. Corri para meu quarto, para o armário. Vasculhei-o, procurando o que queria, tirando vários sapatos da frente do caminho. Onde eu tinha guardado?

Achei. Um drone. É uma boa ideia, eu voaria com ele até ela, mesmo um brinquedo, posso colar um papel com meu número de celular. Se ela não se sentiu incomodada comigo pode me responder. Tomara.

Foi isso que fiz. Voltei para varanda, ela estava sentada em outro canto, mexendo no celular. Liguei o drone e com o controle dirigi suavemente até o encontro dela. Pousei o drone a uma distância segura, talvez uns 2 metros de onde ela estava.

Ela levantou, caminhou até o drone, desconfiada, olhou para mim, agachou e pareceu anotar o número na própria mão. Depois olhou de volta para mim e levantou a mão escrita. Eu acenei e sorri. Ela também sorriu, acho que deu certo. Flertar para mim sempre foi difícil, mas depois de tanto tempo em isolamento eu estou desesperado por interação social. Eu tinha que tentar, tinha que ter minha chance depois desse começo ruim de 2020.

Sentei no sofá, olhando meu celular. Ela tinha ido embora depois que anotou meu número e eu retornei o drone para o apartamento. Não demorou muito para eu receber uma mensagem dela.

“Oi, eu sou a mulher no telhado ” “Meu nome é Tereza”.

Adorei como ela se identificou, ri sozinho lendo a mensagem.

“Oi, sou o homem do drone, Nicholas” “Espero não ter te ofendido ou algo assim, mas vi você dançando e foi muito bonito”.

“Muito obrigada” “Eu não me incomodo, afinal sou bailarina. Se eu me incomodasse estaria em um conflito interno”.

Uma bailarina, que de mais. Isso explica a dança, os movimentos precisos, leves e incríveis. Ri sozinho de novo. Gostaria de ouvir sua voz.

Continuamos conversando, nos conhecendo. Descobri que ela se formou no Municipal e foi para Nova York estudar em uma escola de dança. Ela voltou a 6 meses para se apresentar e dar aulas no Municipal.

“Ei, eu ainda não almocei”. Tereza me manda essa mensagem depois de alguns minutos com a conversa parada. “Topa almoçar juntos?”

“Sim”. Sorri com o fato dela também querer ouvir minha voz. “Mas onde e como? Estamos em quarentena”. Será que ela quer que a gente fure a quarentena? Será que ela é aquelas pessoas que acredita ser uma gripezinha?

“Posso te ligar no vídeo?”

“Claro”.

5 minutos depois Tereza ligou. Eu tinha ajeitado meu cabelo e colocado para esquentar a água do macarrão que iria comer no encontro.

— Oi – Tereza apareceu na tela do meu celular, tinha ajeitado o cabelo também e seus lábios estavam brilhando.

— Olá – respondi – Então, o que vamos comer hoje?

— Bom, não sei você, mas eu fiz um arroz de forno, couve e fritei uma carne – virando a câmera do celular pude ver o prato completo. Parecia estar delicioso. Disse isso a ela.

— Aparentemente não estamos no mesmo restaurante imaginário porque eu fiz macarrão – mostrei a Tereza meu prato. Nos dois rimos e eu disse que não tinha muitos dotes culinários.

— Eu aprendi tudo que sei agora nessa quarentena vendo vídeos na internet – disse ela – Esse isolamento trouxe algum benefício.

Entre uma garfada e outra algumas observações e puxada de assunto. Até que a conversa seguiu pelo único caminho inevitável.

— Então, como você está trabalhando nessa quarentena? – Tereza perguntou.

Contei todas as dificuldades de um fotografo não poder sair de casa. Contei a ela sobre o projeto que estou participando na internet. Contei como eu adorava sair e não ter rotina. Depois perguntei como ela estava se saindo.

— Bom, as aulas foram canceladas, assim como as apresentações e ensaios. Mas a um mês atrás estamos tentando retomar com aulas online.

— Tentando?

— É... não é tão fácil dar uma aula de dança por vídeo. Aquilo que você viu no telhado era a coreografia que estou ensinado. Mas não filmou metade porque eu saia da tela.

Falei que se precisasse do meu drone era só pedir. Tereza adorou a ideia, poderíamos trabalhar juntos. Combinamos que eu controlaria o drone da minha varanda e ela simplesmente dançaria, assim daria para ver melhor os movimentos.

— Podemos repetir isso amanhã? No almoço ou na janta – sugeri esperançoso e nervoso com a resposta ao mesmo tempo.

— Eu iria adorar – Tereza respondeu e nos dois sorrimos, sem jeito, percebendo algo crescer, uma nova amizade ou quem sabe algo a mais.

Apesar do mundo estar assustador agora há sempre uma razão para sorrir. Acho que 2020 está finalmente começando para mim.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!