Nunca me deixe

2 2 - Driblando a distância


Estou parada diante da esteira e minha mala nunca aparece. Quase todos os passageiros do meu voo já pegaram suas bagagens, saíram da área de desembarque e seguiram seus destinos. Mas eu continuo aqui, parada diante dessa esteira, consumida pela ansiedade, esperando minha mala. É a primeira vez nessa cidade, é a primeira vez que vou vê-la pessoalmente. Ela estará mesmo me esperando? Ela está sem celular, como vou encontrá-la nesse aeroporto tão grande? Sou mesmo maluca. Atravessei o país para encontrar uma ‘desconhecida’ com quem passo grande parte dos meus dias conversando no skype. Já faz dez meses que nos conhecemos nesse grupo de fãs, mas agora, pela primeira vez, vamos nos ver pessoalmente. E se não nos entendermos? E se toda aquela intimidade que tínhamos pelo skype só funcionar à distância? Agora não há mais como fugir. Foram longas horas de voo, dias de planejamento, ansiedade só para abraçá-la pela primeira vez no seu aniversário.

Estou com medo. Acredite, essa não vai ser a última vez que você vai me ver dizendo isso, eu faço muito isso, sou uma medrosa contumaz. Durante boa parte da minha vida, vivi e convivi com o medo. Desenvolvi intimidade com ele. A ponto de ele ditar as regras na minha vida. E agora, olhem só para mim. Atravessei o país sozinha para abraçar minha amiga que tanto amo. Ela não foi a única amiga que fiz naquele grupo. Lá conheci e desenvolvi boas amizades, mas nenhuma como esta. E nenhuma como esta também com os amigos reais, os não virtuais. Sempre tivemos uma intimidade difícil de explicar, como se não precisássemos mesmo de tantas explicações quanto as outras pessoas. E então ela me pediu isso:

— Venha me ver no meu aniversário.

Como recusar, se eu queria de coração? Se pela primeira vez na vida eu queria fazer algo que eu escolhesse e não que meu medo determinasse? Se ela morava em uma cidade linda e eu quase nunca abandonava minha rotina nem que fosse por um pouquinho? Eu sabia que a gente tinha algo especial e que essa amizade valia enfrentar inclusive aquele caminhão de medos que eu tinha. Que estava ali, me consumindo naquele exato momento. Mas ao mesmo tempo eu estava feliz. E ansiosa. A ansiedade era minha outra companheira. Medo e ansiedade, como companhias, que ridícula eu sou...

Essa é só minha segunda viagem de avião. Na primeira, 3 anos atrás, fui com um grupo de amigas do trabalho para a praia por uma semana. Dessa vez, vim sozinha e agora tenho que lidar com essa ansiedade sem fim. Só mais umas 5 pessoas esperam as bagagens aparecerem no fim da esteira. Espero que não tenham extraviado minha mala, seria muito azar. Finalmente ela aparece e eu saio da sala de desembarque. Olho para todos os lados, não a vejo. Nunca a vi pessoalmente, só por fotos das redes sociais, mas sei que nos reconheceremos. Como nossas almas se reconheceram desde o primeiro momento. Ela não está ali. Onde terá se enfiado? No alto falante, uma frase me chama atenção:

_ Senhora Laura Ramos, compareça ao balcão de informações da infraero.

É o meu nome. Sorrio. É ela, só pode ser ela. A única pessoa que conheço nessa cidade. Ou que ainda não conheço. Saio pelo aeroporto procurando esse balcão da infraero e as pessoas não querem me dar informações, por que essa gente não pode entender minha ansiedade? Sem muita ajuda, finalmente encontro o balcão, mas ela vem em minha direção antes de eu chegar a ele. Sorrindo. Tão linda. Meu coração está disparado, nos abraçamos pela primeira vez.

Ela está feliz também, posso ver no rosto dela. Ela é sempre tão transparente, é possível lê-la em uma conversa só por áudio, sem olhar para ela, mas agora, sentadas nessas cadeiras do aeroporto nos olhando, é muito mais fácil de lê-la, é muito mais fácil saber cada palavra que ela está pensando. A intimidade é a mesma, é até maior.

E então fazemos tudo o que se faz em um primeiro encontro. Tiramos fotos, nos abraçamos mais de uma vez e nos encaminhamos para sua casa. Sempre a achei meio maluca por isso. Como se convida uma pessoa estranha que você conheceu na internet e mora do outro lado do país para ir à sua casa? Mas o motivo de eu achá-la maluca é minha mania de racionalizar as coisas, o medo de fugir da zona de conforto ainda que seja para arriscar por algo que pode ser maravilhoso. Entretanto eu fiz. Nós duas fizemos.

***

O passeio está sendo maravilhoso. Foi a melhor decisão que tomei em minha vida, vir visitá-la. É possível ver nos olhos dela que ela realmente ficou feliz em me ver. Mas isso não só nos seus olhos, em suas palavras também. Desde o aeroporto, chegando em sua casa, passeando pela cidade, ela me repetiu várias vezes:

— Você aqui é o melhor presente que eu poderia receber em meu aniversário.

Eu sou problemática. Sempre recusei qualquer tipo de intimidade, fugia quando percebia que meu coração estava se apegando. A verdade é que eu sou muito insegura. Mas com ela... Como erguer e manter barreiras com ela? Cada vez que eu sinto o amor dela, meu coração dispara. Ela é tão incrível, tão extrovertida, tão confiante, tão... diferente de mim. Eu sou tímida, me acho feia, me escondo, fujo das pessoas. Menos dela.

Só vou ficar 4 dias, então precisamos aproveitar o passeio e é o que fazemos. Ela é muito mais do que uma simples guia turística, é a melhor companhia e aquele medo que eu tinha de que nossa amizade não fosse tão calorosa pessoalmente, não se mostrou mais do que uma bobagem. Pessoalmente nos damos muito melhor até. Nos divertimos muito juntas, claramente desfrutamos da companhia uma da outra. Ela me trouxe para visitar um local mágico. Mas esse lugar é no topo de um monte de 154 metros de altura. À metade da subida, ela começa a reclamar. E como ela é fofa reclamando.

— Estou cansada de subir, meu joelho está doendo. – Aurora reclama

— Você reclama muito. – Respondo.

— Não reclamo não.

— Deixa de ser chata, vamos subir. – Ela sorri quando eu a chamo de chata.

— Eu não sou chata.

— Sim, você é chata!

Do alto a vista é estonteante. Um lugar incrível, mágico. O lugar mais lindo que eu já vi na minha vida, não tenho dúvidas. Agradeço a ela:

— Obrigada por me trazer aqui, esse lugar é lindo.

— Fico feliz que você tenha gostado. Eu gostava muito de vir aqui na minha adolescência. Ficar sentada aqui olhando o mar, a cidade.

— Com seus namorados? – Me mostro curiosa.

— Também, mas eu vinha mais sozinha.

— Agora você vai se lembrar de mim quando vier aqui.

— Todas as vezes. – Ela responde sorrindo e me olhando de um jeito tão terno. – E não só quando eu vier, é um ponto alto, dá pra ver de várias partes da cidade. À noite é iluminado. Vou me lembrar de você muitas vezes olhando para cá.

Ela tem essa ternura no olhar. Essa ternura que eu só conheci agora, pessoalmente, à distância eu só sentia em sua voz. Mas a forma que ela me olha é muito terna. Sinto que ela me ama de verdade, como sempre me diz. Sinto isso quando ela me olha. Ninguém nunca me olhou desse jeito, com tanto amor. É muito bonito que alguém me olhe assim. É muito bonito que ela me olhe assim.

À distância costumamos dizer que nos amamos. Conversamos muito, todos os dias e noites, até que dormimos. Começamos uma noite em que ela ficou fazendo manha para encerrar a chamada. Ela fica tão dengosa quando está com sono e me aquece seu coração vê-la fazendo dengo. Conversávamos há horas e no dia seguinte, eu iria trabalhar cedo. Então tentei me despedir dela, encerrar a chamada do skype:

— Amor, preciso dormir.

— Por favor, fica comigo. – Aurora pede com uma ternura que é impossível de negar.

— Amanhã eu acordo cedo.

— Fica mais um pouquinho comigo.

— Eu fico. – Não consigo resistir.

Continuamos conversando até que ela dormiu. E depois disso, foram muitas outras noites conversando até que dormíamos. Eu gostava de sentir a ternura, o dengo dela quando está com sono. A sentia mais perto de mim, mais minha... E essa ternura, essa ternura me fazia cada vez mais próxima dela.

Depois de jantar, vamos para o quarto dela. Eu estou ficando em uma cama de solteiro que fica do outro lado do quarto e seguimos conversando. Aurora então fica sonolenta e com aquele jeitinho terno tão lindo.

— Eu amo você. – Diz me olhando.

— Também te amo muito. – Respondo.

Sempre nos dizemos “Te amo” desde muito tempo. Ela não gostava de meios termos. Mas sabíamos que era amizade, só amizade. Que também se pode amar uma amiga com essa intensidade. Isso estava muito claro entre nós, extremamente claro. Éramos melhores amigas e nos amávamos. Eu nunca tinha amado uma amiga assim, mas não via nada demais nisso. Ela dizia que me amava com tanta facilidade e eu me sentia muito bem por sentir que ela me tratava como não tratava a ninguém mais. Eu gostava desse posto de sua melhor amiga, fazia muito bem ao meu coração. Deitada na sua cama, ela volta a me olhar com aquela ternura:

— Vem deitar aqui comigo. – Aurora diz bem baixinho, tão baixinho que a voz quase não sai.

— Não... – Respondo insegura, meu coração está palpitando à mil.

— Vem ficar aqui comigo. – Ela insiste.

— Não, eu estou olhando meu celular. – Volto a negar.

— Tudo bem então! – Ela responde chateada.

Me dói perceber que ela se chateou. Odeio sentir que ela sofre, odeio que qualquer coisa possa fazer mal a ela, odeio sentir que eu faço mal a ela.

— Você ficou chateada? – Pergunto.

— Não, claro que não. – Ela responde seca.

Vocês não têm ideia do quanto ela é transparente. Se ela fica chateada, você percebe imediatamente.

— Claro que ficou.

— Não é nada.

— Eu deito aí com você.

— Agora eu não quero.

Ficamos em silêncio durante alguns segundos. Então eu tento me explicar.

— É que eu tenho medo.

— Medo de quê? – Ela pergunta ainda mostrando sua chateação.

É que ela é assim, ainda que esteja chateada, se interessa e se preocupa comigo. Como quando é amor verdadeiro...

— Eu tenho medo de tanto carinho e contato... Você sabe... eu só fico quatro dias, estamos a mil quilômetros uma da outra. E depois? Depois fica só o vazio.

Ela não diz nada. Só me olha daquele jeito. Até que ela começa a chorar. Quando ela chora, eu me sinto terrível. “O que eu fiz?”, penso. Pulo da cama e corro para bem perto da cama dela e tento fazer com que ela destape a cabeça e fale comigo.

— Não chore, por favor! O que foi?

— Nada! Volte para sua cama. – Ela responde com essa firmeza característica. Ainda está chateada.

— Eu não vou voltar até você me dizer porque está assim. Eu não vou te deixar aqui assim. Por que você está chorando?

— Eu já disse que não é nada.

— Então vou ficar aqui até que esse “nada” passe.

— Não precisa. – Ela continua tentando me expulsar.

— Eu vou ficar. – Eu finalizo.

Ali, sentada no chão ao lado da cama dela, passo bastante tempo afagando seus cabelos. Não é rápido, mas ela vai se acalmando, parando de chorar, mas a tristeza é notável.

— Volta para sua cama. – Ela insiste, agora sem rispidez, só com preocupação na voz.

— Eu não quero. Quero ficar aqui.

— Então deita aqui e sai desse chão frio.

Sorrio e me deito em sua cama com ela. Fico feliz que ela cedeu. E feliz porque vou poder ficar com ela. Sei que ela também pode chorar comigo deitada do seu lado, mas sei lá, sinto que posso protegê-la da dor. Pode ser ingenuidade, mas eu sinto. E não tenho mais vontade de fugir desse carinho, desse contato só porque vou embora em dois dias. Continuo fazendo carinho em seu cabelo, ela me abraça. É tão maravilhoso sentir o afago dela.

— Por que você ficou desse jeito? Por que você estava chorando? – Volto a perguntar.

— Você é muito insistente. – Ela diz em tom de queixa, mas sem irritação na voz.

— Você sabe que sim. E que não paro de perguntar até que você me conte. O que foi?

— É que eu senti.

— Sentiu o quê?

— O que você falou, que você vai embora e vai ficar o vazio. – Uma lágrima escorre no seu rosto quando ela diz isso.

— Eu sei. – Respondo baixando os olhos.

Agora sou eu quem a abraço e sigo afagando seus cabelos por muito tempo. Maldita distância! Maldita distância!.

***

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.