Nunca Mais Sem Você
6 Sete anos depois - Final
A atmosfera da décima primeira Casa era fria, muito fria. Era como se o cosmo de seu guardião permanecesse ali, mesmo estando a quilômetros de distância agora. Desisti de correr, abri os olhos e observei o interior da Casa, tendo esperança de encontra-lo ali. Tinha quase certeza que seria impossível, mas...
– Camus. – chamei baixinho.
Sem resposta. Uma onda de dor voltou a me tomar e me enfraquecer. Queria tanto vê-lo e dizer tudo que eu sinto. Será que o perdi dessa vez? Por que ele fez isso? Ir embora do nada e nem me procurar para, ao menos, se despedir.
Senti algo ou alguém passar ao meu lado, mas não o vi. Ouvi passos em direção as escadas que levam à Casa de Capricórnio. Quem poderia ser? Já estavam todos lá em cima. Segui até a entrada da Casa de Aquário e não vi ninguém. Me recompus o mais rápido que pude. Alguém havia invadido o Santuário? Eu ia tratar de acabar com a raça do infeliz agora.
– Quem está ai? – perguntei em tom ameaçador, já me preparando para chutar o rabo do sujeito.
Nenhuma manifestação.
– Se não se mostrar eu vou fazê-lo por você! Apareça! – ameacei novamente e concentrei meu cosmo. Usei o sétimo sentido para tentar ver quem se movia por ali, e eu conseguiria mesmo que fosse na velocidade da luz. Mas não identifiquei nada. Que tipo de inimigo era esse? Não importava. Eu ia derrota-lo e proteger o Santuário. Como ele ousava passear pelas 12 casas com aqueles pés imundos. Estava zombando de nós, Cavaleiros de Ouro, e pior, da nossa Deusa. Isso não seria perdoado por Milo de Escorpião.
Ouvi os passos de novo, agora bem mais distantes, já na Casa de Capricórnio. Desci na velocidade da luz e entrei lá. O mais estranho é que eu não sentia nenhum cosmo emanar dessa coisa. Devia o estar escondendo. Maldito. Agora os passos haviam se apressado, desciam pelas escadas e seguiam para Sagitário. Não, imbecil! Fugir não está dentro das opções que eu te dei. Continuei a persegui-lo até a minha Casa, onde os passos cessaram. O filho da p&*% não contava que eu o tinha seguido a tal ponto que ouvi exatamente onde tinha dado o último passo.
– RESTRICTION! – mirei na direção do último som. Os passos cessaram. Te peguei, desgraçado. Ninguém nunca escapou de mim com vida ou com condições de sobreviver (posso estar me gabando, mas é verdade e ela tem que ser dita. Humpf!). Mas que droga! Cadê esse ser que eu que acabei de paralisar?
Os passos voltaram e os ouvi correram bruscamente na minha direção. Me esquivei de um possível ataque e os acompanhei para ver até onde iam para tentar paralisá-lo novamente. A coisa seguiu em direção à sala onde eu dormi mais cedo e parou ao lado de uma mesa de centro na frente do sofá que usei como cama.
– RESTRICTION! – esse foi com o máximo que pude concentrar de cosmo, tanto que a mesa tremeu e quebrou em vários pedaços e farpas que se espalharam pelo chão. O RESTRICTION não é uma técnica de ataque, somente de paralisação. Se causou dano, mesmo que em um objeto, não seria possível que esse idiota voltasse a se mover. Se não, era mais provável que não fosse humano. Apesar de que eu já tinha combatido seres sobrenaturais usando meus golpes sem problemas.
Mas algo me chamou atenção naqueles pedaços de madeira. Um cosmo muito sutil estava emanando deles. Resolvi me aproximar, ao mesmo tempo em que concentrava meu sétimo sentido para prever qualquer movimento e contra-atacar se necessário.
Uma luz fraca se projetou dos restos da mesa e se extinguiu rapidamente, deixando algo brilhoso sobre as madeiras. Aquilo me chamou muita atenção... Era como se eu tivesse que chegar ainda mais perto, e foi o que fiz. Me ajoelhei e estendi a mão para tocar aquilo que a luz havia deixado. Quando o fiz, a cosmo energia que antes estava quase oculta se revelou. Era nada mais que a que eu mais esperava aquela noite e sempre, desde a primeira vez que a senti: a de Camus de Aquário.
O brilho do objeto se cessou. Revelou ser um papel... Meio amarelado e amassado, e o peguei para vê-lo mais de perto. Era... Uma foto! Impossível não sorrir ao olhar pra ela: um moleque loiro de camiseta vermelha, calça jeans e sandália e um ruivo, de camisa de manga comprida preta, calça comprida branca e tênis. Éramos nós dois quando pequenos: eu com uma expressão menos feliz que o normal (odiava tirar foto) e segurava o braço dele, que dava um sorriso de canto e olhava na direção da câmera. Ao fundo estava a entrada da Casa de Aquário.
Ver a foto me trouxe alguma felicidade momentânea pelas recordações de alguns de nossos momentos de diversão quando crianças, mas logo depois a dor de antes voltou mais forte. Aqueles tempos não voltariam, nem a nossa amizade a ser como era. Aqueles Camus e Milo da imagem eram verdadeiros “grudes” (como dizia o mestre Shion), mesmo sendo tão diferentes. Se eu pudesse voltar no tempo...
O mais estranho é que aquela foto... Eu não me lembrava da ocasião em que ela tinha sido tirada. As roupas que usávamos na imagem não eram do tipo que passávamos a maior parte do tempo. Naquela época (assim como hoje, mas não rigorosamente), ficávamos muito restritos aos domínios do Santuário e o mestre não costumava nos expor levando-nos a lugares públicos (no máximo, nos levava pra visitar Rodório) que exigissem roupas normais. Vestíamos quase que somente túnicas gregas ou vestes de treinamento.
Fiquei observando a fotografia por um bom tempo, tentando lembrar que ocasião era aquela. Depois me toquei de olhar o verso dela. Havia uma pequena frase escrita e uma
“Ao meu melhor amigo, Milo.
7 de fevereiro de 1973”
É... Era a letra dele, mas de quando criança. Meio garrancho de quando se está aprendendo a escrever, mas não dos piores. Aperto no coração. Aquela data...
–-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
#Flashback#
– Acorda, preguiçoso! – gritei eu, enquanto sacodia o pobre Camus, que tentava dormir.
– Para! Ainda tá cedo! – irritou-se ele.
– Já são sete horas!
– Já?! – se espantou Camus, que se levantou num pulo.
– Hahahahahahahahaha! – eu ri alto.
– Qual é a graça? – perguntou ele, cheio de sono.
– Mentira, são cinco e meia. – parei de rir e o encarei com um sorriso.
– “Tisc” Pô, Milo, não dá pra você ser menos chato não? – disse ele, p&%#.
– Não dá! Eu nasci pra te irritar, picolé. – disse eu, rindo da cara dele, que já voltava a se deitar e cobrir a cara.
– Ah, vai importunar outro! Me deixa dormir. – disse a voz dele abafada pelo cobertor.
– Não! Acorda! Sabe que dia é hoje? – continuei.
– Quarta. – respondeu com um bocejo.
– Ahnn... Tá! É quarta, mas que dia do mês? – ele sempre foi difícil de lembrar datas, mas não essa.
– Sei lá, Milo! – se irritou de novo – Posso dormir agora?!
– Nã-ão! Nã-ão! Nã-ão! – comecei a cantar e pular em cima da cama gigante de casal – Se eu não durmo ninguém dorme! (berro muito alto)
– Shhhhhh! Milo, tá muito cedo. Vai acordar todo mundo. – disse ele se descobrindo, ao mesmo tempo que quicava por causa dos meus pulos.
Caí de bunda na cama e disse:
– Eu só paro se você acordar. – falei, fazendo muxoxo.
– Ahhhh... Tá. Mas vou ficar deitado. – disse ele, sério.
Sabia que o derrotaria gritando e bagunçando. É muito certinho pra me deixar acordar os outros e nós dois levarmos esporro.
– Trato feito. – falei e me deitei ao seu lado – Mas é sério que você não sabe que dia é hoje?
– Já disse. É quarta... – disse ele, deixando transparecer uma voz triste. Que criança fica assim no dia do aniversário?
– Mas é seu dia, Camus! É seu aniversário! – disse eu, indignado.
– Ah é. – disse ele, e colocou o braço sobre o rosto.
– Você tá triste? – perguntei, preocupado. Ele podia ser certinho e sério, mas não tanto assim.
– Não. – suspirou – Tô é com sono. Humpf...
Fiquei olhando pra ele, perdido. Queria animá-lo e vê-lo feliz, principalmente hoje. Nunca o tinha visto tão desanimado.
– Mestre Shion falou que vai nos levar pra passear na cidade depois da ronda por Rodório. Vamos comprar o seu presente e ir ao cinema! – disse eu, tentando animá-lo – Não é demais?! A gente só foi lá uma vez há um tempão. O que você vai pedir pra ele, hien?!
Ele se levantou correndo e foi em direção ao corredor.
– Aonde você vai?! – disse eu, me levantando – Peraí!
Corri atrás dele pela Casa de Aquário, lá fora ele seguiu até um canto em que se ajoelhou e começou a vomitar. Não tive nojo de olhar, mas estava muito assustado com aquilo. O que saía dele era vermelho vivo.
– Nossa! Você tá passando mal! – disse eu, nervoso – Vou chamar o mestre!
– Não... – disse ele, ainda vomitando.
– Mas você tá doente!
– Eu tô bem... Não – vomitou ainda mais – chama o mestre...
Fiquei estático. Perdido! Não sabia o que fazer naquela situação. Um cheiro de ferrugem característico muito familiar a nós, devido aos treinamentos, inundou minhas narinas. O que ele estava expelindo era sangue puro. E muito... No mínimo, um litro.
Ele parou, ficou de cabeça baixa e com a respiração ofegante.
– Milo... – falou ele baixo com a voz enrolada. Sua boca devia estar cheia de sangue – Me ajuda a voltar pra cama, por favor...
– Tá! – e me apressei para pegá-lo no colo. Camus sempre foi mais leve do que eu. Mesmo assim, a gente já levantava mais que vinte vezes o nosso peso naquela idade. Os 20 quilos dele eram o mesmo que papel.
Voltei com ele para o quarto e o coloquei na cama o mais cuidadosamente possível. Ele me pediu para deitá-lo de lado e foi o que fiz. O pijama dele, que era branco, estava todo pontilhado de vermelho. Seus lábios manchados de sangue e sua respiração, difícil. Fui até o banheiro e trouxe papel para limpar seu rosto. Depois que fiz isso, me ajoelhei ao pé da cama e o fiquei vigiando.
Olhei para o relógio na mesa de cabeceira. Eram seis horas. O mestre logo passaria aqui pra nos buscar. Mas Camus não estava em condições de sair.
– Ei. – tentei chama-lo – Tá me ouvindo?
Ele abriu os olhos e me encarou tristemente. Droga. Aquele olhar mexia (e mexe) comigo de uma tal forma que meus olhos se encheram de lágrimas. Não aguentava vê-lo daquele jeito, naquele estado. Uma das lágrimas correu. Sem que eu percebesse, ele estendeu o braço e levou a mão ao meu rosto.
– Não chore, meu amigo. – disse ele baixinho, e deu um sorriso – Não quero ninguém triste no meu aniversário.
Retribuí o sorriso, subi na cama e me deitei ao lado dele, que já havia me acalmado. Peguei a mão que havia me acariciado, a fiquei segurando e fazendo carinho com os dedos. Ficamos nos olhando. Nos adorando, na verdade. Mesmo que não se sentisse bem, seus olhos brilhavam vivamente naquele momento, e eu sei que os meus demonstravam o mesmo. Meu coração batia com intensidade. Eu me sentia mais vivo do que nunca quando ele estava comigo, ainda mais assim.
– Bom dia, crianças. – disse uma voz grave, porém, suave.
Me virei num pulo para olhar para o mestre, que acabava de entrar no quarto.
– Bom dia, mestre. – respondemos juntos.
Me levantei e ajudei Camus a fazer o mesmo. Em seguida, nos ajoelhamos perante Shion.
– O que aconteceu contigo, Camus? – o vi se aproximar e pegá-lo no colo, e ergui a cabeça para ver melhor o que acontecia – Por que precisou de ajuda para se levantar? E que manchas são essas na sua roupa e na do Milo? Você está cheirando à... Isso é sangue? – questionou ele enquanto segurava Camus por debaixo dos braços.
Ele baixou os olhos, não querendo contar o que aconteceu para o mestre. Eu revezava em olhar para um e para o outro. Shion franziu a testa com as inconfundíveis pintinhas e olhou para o chão. Arregalou os olhos em seguida e disse:
– Mas o que houve aqui? – e sem soltar Camus, seguiu para o corredor, sem tirar os olhos do chão.
Mas o que afinal ele tava seguindo? Olhei também: tinham pocinhas vermelhas por todo o caminho que eu o tinha trazido desde lá de fora. Estava tão apavorado com o que tinha visto que nem me toquei que isso obviamente tinha acontecido. Fui atrás dos dois até lá fora. Encontrei um mestre espantado olhando para a poça enorme onde Camus havia vomitado, e um pouco menos desesperado do que eu quando vi aquela quantidade de sangue sair de uma criança de 20 quilos.
– Camus, esse sangue todo é seu?! Você está ferido?– disse Shion, com a voz tremula, erguendo o moleque e tentando encará-lo.
– É sim, mestre. – respondeu ele baixinho, sem olhar para Shion – Não estou ferido. Eu vomitei esse sangue.
– Por Atena! – clamou o mestre, seu cosmo preocupado tentando se manter calmo – Perdão, criança... Perdão. – e abraçou Camus intensa e carinhosamente.
Perdão? Por quê? Era culpa do mestre o Camus estar assim? Aquilo me soou muito estranho. Detesto ficar alheio às situações. Eu ia descobrir qual era a do mestre já.
Shion, ainda agarrado a Camus, voltou para o quarto (e eu os segui). O mestre colocou o moleque ruivo ensanguentado de volta na cama e o cobriu.
– Quero que seja sincero comigo. Sabe que é seu dever como Cavaleiro saber de sua própria força. – disse Shion, em tom um pouco mais firme – Está fraco para ir hoje?
– Não, mestre. Já passou. – respondeu ele – Podemos ir hoje.
– Tem certeza, Camus? – perguntou o mestre, franzindo as pintinhas.
– Sim, mestre. – afirmou Camus em tom firme – Tem minha palavra como Cavaleiro.
O mestre suspirou, preocupado e disse:
– Tudo bem. Então vamos um pouco mais tarde, daqui a umas duas horas, para que você se recomponha, os dois tomem um banho e se vistam — e virou-se para deixar a Casa – Milo, você fica com ele?
– Sim, mestre. – respondi em tom firme.
– Agradeço. A propósito, feliz aniversário, Camus.
– Obrigado, mestre.
Depois que Shion se retirou, eu voltei a me deitar ao lado de Camus.
– Por que o mestre te pediu perdão? – perguntei logo.
– Acho que ele se sentiu culpado de eu ter passado mal. – respondeu ele.
– Mas por que ele se sentiria assim? – perguntei de novo.
– ... – ele não conseguia falar. Sua expressão estava ficando igual à de mais cedo, quando quase extinguiu todo o sangue de seu corpo. De novo aquele olhar que me matava... O que ele não queria me dizer? Eu não admitia ficar sem saber algo dele, o meu melhor amigo.
– O que você tá escondendo? – alterei o tom de voz.
– Milo... – nem o deixei começar.
– NÓS PROMETEMOS QUE SEMPRE ÍAMOS CONTAR UM PRO OUTRO NOSSOS SEGREDOS! — me alterei e comecei a gritar. Me senti traído por ele estar me escondendo algo. Tá ok que a promessa não era totalmente cumprida, já que o MAIOR segredo eu nunca contei a ele (se bem que eu tentei).
– Eu... Vou embora. – disse ele tão baixo que eu quase não escutei.
A dor imensa. Desespero. Solavanco no coração, que batia em ritmo de galope. É por isso que ele tinha passado por toda aquela dor... Não conseguia me contar que ia partir. Sabia que eu sofreria muito. Queria me proteger...
– O que? Vai... Embora? Hoje? – eu mal conseguia falar.
– Vou... – a voz dele quase sumiu.
Nós, Cavaleiros de Ouro predestinados, recebemos nossas armaduras sagradas aos sete anos, e partimos do Santuário para continuarmos nossos treinamentos com mais especificidade. O mestre já nos havia falado sobre isso, mas eu não esperava que fosse logo no dia em que os sete anos eram completados. Meu coração... Estava doendo demais. Não conseguia aceitar, suportar aquilo.
– Ai... – gemi de dor, apertando meu peito, onde as batidas eram tão fortes que pareciam que iam quebrar minhas costelas – Meu... Coração...
Camus se aproximou de mim, me abraçou forte e me deu um beijo na testa. Meu coração deu um ultimo pulo e começou a desacelerar. Ele pôs a mão embaixo da minha que estava sobre o peito e começou a acaricia-lo.
– Eu tô aqui. – disse ele baixinho.
Deitei minha cabeça no braço dele e retribui o abraço. Ficamos assim até que adormecemos por um tempo, depois fomos despertados por um feixe de luz que atravessava a janela no quarto. Aquela sensação horrível tinha passado por hora. Tomamos banho e começamos a nos trocar, quando mestre Shion chegou. Estava de calça jeans bem clara e sapatos pretos, camisa social branca, e havia prendido seus cabelos em rabo de cavalo. Nossa, era muito estranho vê-lo vestido assim. Também carregava várias sacolas em um braço.
– Olá, crianças. – disse ele- Não vistam essas túnicas. Trouxe essas roupas aqui pra vocês. – e me deu as bolsas.
As abri e peguei uns pacotes embrulhados para presente, cada um deles identificado com o nome de seu dono.
– Esses são seus, Camus. – entreguei os pacotes empilhados nas mãos dele, que sorriu.
– Obrigado, mestre. – respondemos.
– De nada. Tomara que sirvam. – disse e sorriu o mestre.
Trocamos nossas roupas novas, as mesmas da imagem. Ficamos nos olhando e pensando o quanto ficávamos diferentes daquele jeito. Dava até pra enganar que éramos meninos normais.
– Ficaram muito bem. Devem estar se sentindo tão estranhos quanto eu. – disse o mestre rindo – Ah, ganhei isto de presente e vou testar com vocês. – se levantou, tirou algo do bolso e se virou para sair do quarto. – Vamos lá fora.
Coitado do mestre. Estava tentando ser divertido conosco pra ver ser amenizava aquele momento doloroso que era a partida de Camus. Dava para sentir a tristeza emanando de seu cosmo. O seguimos até a entrada da Casa de Aquário, até que ele se virou e nos mostrou o que era: uma câmera fotográfica instantânea Polaroid.
– Façam pose para a foto, garotos. – disse ele, tentando posicionar a câmera nos rosto e se ajoelhando para ficar perto da nossa altura. – Vamos ver se esse negócio funciona.
A pose foi aquela mesma da foto encontrada nos restos da mesa. A câmera expulsou a foto, o mestre olhou e sorriu.
– Ficou boa, eu acho. – disse ele.
– Mestre, posso... – disse Camus, meio sem jeito — ...ficar com ela?
– Claro, Camus. – e estendeu a mão com a foto – É sua.
– Obrigado, mestre. – disse ele, sorrindo ao olhar pra foto – Posso ir ao meu quarto?
– Sim, mas não demore. – respondeu o mestre – Vamos partir logo.
Camus virou-se e correu para o interior da Casa.
– Mestre, vou ver o Camus de novo? – perguntei.
Ele me encarou com um ar preocupado e triste.
– Milo, o nosso destino está nas mãos da Deusa. – respondeu ele suspirando. – Tente compreender e aceitar isso como um verdadeiro Cavaleiro. Você também irá partir em breve.
Abaixei a cabeça e fechei os olhos. Eu faço aniversário em novembro. Ia ter que encarar todo aquele tempo no Santuário sem o meu melhor amigo ao meu lado.
– Que seja. – respondi, mesmo sem aceitar.
Camus voltou da Casa e me olhou, percebendo que eu voltava a me entristecer.
– Vamos indo. – disse Shion.
– Sim. – respondemos.
Descemos as Casas, e saímos do Santuário sem que ninguém nos visse e entramos em um carro que já nos esperava. Lá dentro estava Mu, e fomos conversando até o aeroporto (eu estava tentando desesperadamente ignorar que aquele momento tão temido tinha chegado.). Quando descemos, fomos recebidos por um casal que carregava suas malas e suas Pandora Box nas costas, envolvidas por mantos para não chamarem tanta atenção. Ela, de cabelos negros curtos, máscara prateada típica das Amazonas e pele muito branca. Ele, negro e alto com um olhar meio orgulhoso demais pro meu gosto. Ambos trajavam conjuntos de moletom e reverenciaram o mestre, que retribuiu com um aceno de cabeça.
– Crianças, estes são Adisa de Pavão e Chioh de Cães de Caça. – disse o mestre, apresentando-os para nós — Camus, eles são os Cavaleiros de Prata que irão te acompanhar até a Sibéria.
– É um prazer conhece-lo, Camus de Aquário. – disse Chioh, estendendo a mão para Camus, que fez o mesmo e deram um aperto de mão.
É. Minha ficha tinha que cair. Aquele não era mais só o meu melhor amigo Camus, um garoto ruivo de sete anos sério e certinho ou o sunday de morango do Santuário (segundo Máscara da Morte, Aiolia, Afrodite e Aldebaran). Ele já ostentava seu título de Cavaleiro de Ouro, e os outros Cavaleiros já o reconheciam assim. Camus de Aquário, o guardião da décima primeira Casa.
– Mestre, o voo já foi anunciado para daqui ha vinte minutos. – disse Adisa. Sua voz era estridente e irritante.
O mestre foi até a traseira do carro, abriu o porta-malas e retirou as malas de Camus.
– Vamos. – disse ele, enquanto Chioh pegava as malas.
Fomos todos para o interior do aeroporto, passamos por todos aqueles procedimentos chatos sem problemas (graças ao mestre, que iludia a todos os funcionários e aparelhos. Hehehe... É óbvio que o detector de metais e os guardas nunca iam deixar passar as Pandora Box.) Enfim, encontramos umas cadeiras. Me sentei ao lado de Camus e o fiquei olhando da cabeça aos pés. Era como se eu quisesse gravar cada detalhe dele, com medo de esquecer como era. Que medo eu estava de nunca mais vê-lo. Ele me encarou com um sorriso leve, levou a mão ao bolso e disse:
– Milo, tem uma coisa que eu quero te dar. – disse ele, a tristeza emanando de seu cosmo. De novo aquele olhar. Me entregou a nossa foto – Por favor, nunca se esqueça do quanto eu te amo.
“Voo 1-1-8 para Vladivostok. Embarque: portal 12.”
–-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Abracei a foto. Meus olhos se encheram de lágrimas que começaram a rolar pelo meu rosto. Ele tinha dito que me amava e eu nem lembrava disso. Como pude me esquecer?
Aquela foto tinha me acompanhado durante alguns meses após a partida de Camus, mas eu sofria tanto ao olhar para ela e lembrar que talvez nunca mais o veria que o mestre a escondeu, dizendo que aquilo estava me desviando do meu dever com a Deusa. Cheguei a pedir a ele várias vezes que para me devolvesse essa foto. É a única que eu tenho de nós dois, afinal. Nunca iria imaginar que ela estivesse escondida dentro da Casa de Escorpião, colada embaixo da mesa de centro.
Naquele momento, pude sentir seu cosmo muito próximo de mim. Foi... Ele que veio me mostrar onde estava a foto para que eu não esquecesse seus sentimentos por mim, mesmo tão distante fisicamente. Ele sempre quis me proteger da dor. Nunca me esqueceu nem deixou de me considerar seu melhor amigo. Por isso evitou que o que havia acontecido ontem se consolidasse, por mais que isso fosse também seu desejo. Talvez tivesse medo de não poder corresponder, já que o Santuário o mantém longe e eu, aqui. Estava certo.
– Eu também te amo... – respondi, desejando mais que tudo que ele pudesse me ouvir.
Fale com o autor