Seis anos depois...

Abri os olhos e me espreguicei. Olhei pela janela e vi que já era de manhã. Ergui meu tronco nu e senti bater na pele uma brisa quente que entrava por uma parte do vidro quebrado. O que havia restado dentro do meu estômago subiu e desceu. Eu mesmo sentia o meu hálito de álcool. Havia passado dos limites dele ontem à noite e estava com uma ressaca da po$%&. Ouvi um suspiro ao meu lado e o som de lençóis se arrastando. Cabelos negros e cacheados pertencentes ao corpo de uma mulher nua adormecida repousavam sobre a cama. Inspirei fundo e me levantei dali, procurando minhas roupas que deviam estar espalhadas pelo quarto.

Já vestido, fui ao banheiro e me olhei no espelho para ver se estava com muita pinta de quem tinha enchido a cara. Até que não estava tão ruim. Lavei bem o rosto, passei pasta nos dentes com o dedo e bochechei para disfarçar o cheiro de ouzo* que saía da minha boca. Penteei os cabelos com a mão, e quando achei que tava mais ou menos, saí do quarto. Chamei o elevador e desci. Chegando à recepção, paguei a diária e saí do hotel. Olhei para o meu relógio: 10:50h-10/11/1986.

Ontem eu completei vinte anos. Aiolia e Aldebaran (que tinha acabado de voltar à Grécia para uma missão) me chamaram pra sair para comemorarmos. O que eu não contava é que os dois tinham preparado uma surpresa e fechado a boate com bebida liberada e prostitutas à disposição a noite toda. Eles são fo*% mesmo! Óbvio que ficamos muito bêbados e fu%¨@ à vontade. Foi bom pra relaxar e gozar no meio do caos que começava a reinar no Santuário. Voltei a pensar nas minhas obrigações como Santo de Atena. Fazer o quê?

Me apressei para voltar ao Santuário e ocupar meu posto na Casa de Escorpião, afinal, nós, Cavaleiros, só temos uns momentos de “folga” nos intervalos entre uma missão e outra. Eu não podia dar mole de ficar passeando pela cidade enquanto a oitava Casa estava vazia. Cheguei a Casa, tomei um banho, comi um pedaço de bolo com um copo de suco e vesti a armadura, como devemos nos manter enquanto estamos no chão sagrado do Santuário de Atena.

- Mestre Milo, — disse uma voz masculina rouca e familiar – há um recado urgente aqui para o senhor.

Me virei para encarar o mais antigo criado da Casa de Escorpião: Daros. Já devia ter mais de sessenta anos, mas estava muito bem conservado para sua idade e trabalhava muito melhor que muitos dos criados mais novos.

- Deixe-me ver, Daros. – estendi a mão para pegar o envelope dourado que ele portava, já sentindo um calafrio percorrer minha espinha.

- Veio remetido diretamente do Grande Mestre. – acrescentou ele.

- União Dourada... – li somente o final. Quando vi aquele tipo de envelope já esperava essa mensagem. Era o mesmo que eu havia recebido sete anos atrás para comunicar a guerra contra Cronos e os titãs.

O motivo dessa União Dourada era bizarro demais pra mim: foi declarada uma guerra ao Santuário por uma garota que dizia ser Atena e quatro Cavaleiros de... Bronze??! Li e reli várias vezes porque não acreditei. Como podem Cavaleiros de BRONZE e uma menina representarem ameaça para o Santuário que requeira uma União Dourada?! Parecia que o mestre havia enlouquecido. Hoje compreendo que todo o medo dele era por causa de sua farsa e que tinha quase certeza que Saori Kido era verdadeiramente a encarnação da Deusa, já que ele não tinha conseguido mata-la na noite em que Aiolos a salvou, fugiu com ela e foi considerado um eterno traidor.

A União Dourada iria ocorrer hoje mesmo, e os Cavaleiros de Ouro tinham até o pôr-do-Sol para comparecerem ao Salão Durado. O não cumprimento dessa exigência seria considerado traição.

- Obrigado, Daros. – agradeci – Se quiser, pode se retirar.

- Às suas ordens, mestre Milo. – disse ele ao fazer uma reverência, e se retirou em seguida.

Dei meia volta e fui para o meu quarto. Chegando lá, me joguei na cama com os braços cruzados atrás da cabeça, ansioso. Os “Cavaleirecos de Latão” não me preocupavam nem um pouco. Fala sério! Uns bostas daqueles pensando em passar por nós, Cavaleiros de Ouro? Parecia piada. O mestre me chamou uma semana atrás lá em cima pra me conceder a missão de acabar com eles. Eu pensei que era uma pu&$ brincadeira de mau gosto. Ai, o bichano resolveu aparecer e aceitar a missão, ainda dizendo que me derrotaria se o mestre preferisse a mim para executa-los. Deixei pra lá... Ele que se humilhasse lutando contra esses merdinhas de Bronze.

O que mais interessava era QUEM eu ia encontrar hoje. Seis anos se passaram e meus sentimentos em relação ao Camus nunca mudaram, mas eu estava mais controlado agora. Talvez fosse porque eu havia amadurecido e aprendido a lidar com eles. Criei uma barreira capaz de bloqueá-los em parte. Me tornei mais po$#@ louca do que já era antes e tentei conhecer outras pessoas. Nenhuma delas nunca me satisfez por inteiro. Era só sexo casual que terminava logo após o gozo. Vou confessar que muitas vezes preferi bater uma punheta pensando em “vocês sabem quem” em meus momentos de fraqueza do que participar de uma orgia com mais de cinco pu$#s. Acabei por ter fama de pegador e destruidor de corações. Até que gostei bastante disso. Era bom que elas não esperassem nada de mim além de sexo.

Talvez fosse porque eu tinha certeza que, apesar da distância que nos separava, ele me amava. A nossa foto estava muito bem guardada na gaveta do meu criado mudo, trancada à chave. Antes de dormir, eu sempre a pegava e a ficava olhando, lembrando do que aconteceu a última vez que ele foi embora às pressas, há seis anos. A sensação que me vinha era sempre a mesma daquele dia, em que seu cosmo me envolveu e me senti amado por Camus. Isso me conformou e trouxe um pouco de paz até hoje.

Aquela cama gigante do meu quarto sempre foi o meu refúgio. Como se tudo que era mais precioso e sagrado para mim tivesse acontecido em cima dela (não foi, mas é o único local que não havia sido associado a outros acontecimentos posteriores). Só eu e ele (óbvio, além dos outros Cavaleiros de Escorpião que me antecederam) tínhamos deitado sobre ela e vivido muitos momentos juntos ali. Nunca nenhuma outra pessoa a tinha compartilhado comigo. Sempre que eu estava com outro alguém (que mais servia para esquecê-lo), nos encontrávamos em outro lugar. Isso é o que era tão importante naquela cama: era inundada de lembranças e, de alguma forma, só nossa. Especial porque nela eu me permitia ser não o Cavaleiro de Ouro guardião da Casa de Escorpião, aquele sem misericórdia dos inimigos, mordaz, perigoso, sarcástico, po$#@ louca, pegador ... Mas ser somente EU, sem muitas das máscaras que criei para me proteger de mim mesmo.

Passei a mão pela colcha de cor vinho antiga que a cobria, querendo que ele estivesse ao meu lado, como tantas vezes quando éramos pequenos. Podia ser lendo seus livros que eu tinha que me livrar, ou conversando comigo e fazendo cara feia quando eu o chamava de “chambinho”, “picolé” ou “freezer”, ou simplesmente dormindo e ressonando, o que parecia mais um anjo caído. Ele de qualquer jeito... É, a barreira que eu criei contra esse amor começava a ficar frágil com a minha expectativa de vê-lo de novo esta tarde.

Deu vontade de olhar a foto. Me levantei, fui até o meu armário e peguei a chavinha da gaveta e a abri. Sorri ao ver nós dois na imagem. A porta se abriu com um ruído.

— Bom dia, mestre Milo! – cantarolou uma voz feminina e irritante.

Suspirei irritado por ter sido interrompido, ainda mais desse jeito e nesse momento.

- Não sabe bater na porta, Adamantina? – falei pu&*.

- Ahhhnnn, tava aberta. Ai eu pensei que... – disse ela, como se fosse inocente.

Adamantina era neta de Daros e tinha uns dezessete anos. Tinha uma aparência do tipo angelical (loira, olhos verdes, pele bronzeada, peitos enormes e coxas grossas) gostosa que a maioria dos homens nunca diria não. Eu já devo ter transado sei lá quantas vezes com ela, mas é aquele tipo de mulher que nos faz perder o interesse rapidamente: uma pu&% que parece uma cadela no cio ninfomaníaca pedindo pra ser traçada vinte e quatro horas. Fácil demais. É criada da minha Casa, mas já deve ter rodado pelas outras com certeza. Ontem ouvi o Deba falando de uma “criada safada” que ele não sabia de onde vinha, mas que tinha a descrição dela e fazia de tudo cama.

- Não seja sonsa. – não, eu não tava afim – Agora, se puder se retirar, vai me fazer um grande favor.

- Ahhh não, mestre... – gemeu ela, e olhou para o objeto de minha atenção – O que tem nessa gaveta?

- Não te interessa. – me irritei mais ainda com seu cinismo – Agora, saia.

- Nossa, quanta raiva... – riu-se ela, e faz uma pose ousada, levantando a saia – Vamos resolver isso já...

- Eu já disse que te quero fora daqui. – não estava com a menor paciência (ou necessidade de fu%¨$) para aturá-la. O fato de ela não respeitar a minha autoridade e estar me atrapalhando estava me deixava realmente pu%$. Estava até paciente demais.

- Duvido! — ela correu e se jogou em cima da minha cama e abriu as pernas, se mostrando sem calcinha – Vem cá, vem...

Não! NÃO! Me controlei para não executá-la ali mesmo.

- Não, sua vadia... Essa cama nunca foi nem será um lugar em que você possa encostar seu rabo imundo! – gritei, expelindo e expressando no cosmo todo o meu ódio ao ver aonde ela havia se deitado. Ela, aquela pu$#... Na minha cama... Não... A atmosfera da Casa de Escorpião ficou pesada em milissegundos – Você... – disse eu num tom maligno — ...não será perdoada... – com meus olhos irrigados de sangue. Ela estava destruindo o que eu tinha preservado por todos esses anos...

Ela se ergueu tremendo e me fitou, apavorada. Levantou-se e disse com as mãos sobre a boca.

- P... P... Por favor, mestre... – mal conseguia falar depois que percebeu a gravidade de seu erro.

- Saia daqui... – disse eu, baixo e entre os dentes – Está expulsa dessa Casa.

Ela cobriu o rosto com as mãos e saiu correndo, gritando pelo avô.

- Maldita seja. – rosnei, furioso. Transtornado, resolvi sair da Casa de Escorpião, sem conseguir pensar num rumo. Parecia estar possuído por algum espírito maligno. Comecei a descer as Casas, que estavam todas vazias (ainda bem, porque eu acho que seria capaz de tentar matar todos os que estivessem no meu caminho). Corri na velocidade da luz até chegar a um bosque que fica ao lado de Rodório. Com toda a minha racionalidade esvaída, dei um soco no chão que abriu uma cratera enorme.

- AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHRRRRRR! – gritei de dentro dela para tentar esgotar um pouco do ódio e da frustração que me assombravam. O grito ecoou por todo o bosque.

Ofegante, dei um pulo para o lado de fora. Eu precisava me controlar. Levei as mãos à cabeça e tentei rezar: “Atena, minha Deusa, por favor faça com que eu me acalme e volte a seguir o Teu caminho do amor e da justiça, o qual me desviei. Perdoe-me por ter usado da violência sem necessidade. Que seja!” Andei até uma árvore e me sentei debaixo dela. Ainda tinha muita raiva dentro de mim. Fui tentando controlar minha respiração, abracei minhas pernas, abaixei a cabeça e fechei os olhos Devo ter ficado assim por uma hora.

- Milo? – me chamou uma voz. Por Atena... Essa voz, que eu todos os dias desde que a ouvi pela última vez imaginava como teria ficado depois de uns anos. E aquele cosmo... Só poderia ser pela graça da Deusa que ele estava aqui.

Notas finais
*Ouzo: Bebida típica grega.

u.u Com muito sono... @_@
Mais um capítulo fresquinho feito com um amor do tamanho do desses dois.