Nunca Fui Beijada

6 O tal do japonês


Notas iniciais
IMPORTANTE!!!! Olá pessoas, depois de mais de um mês aqui estou eu novamente com uma notícia nada boa: não voltarei a postar até novembro, depois do Enem. Vou morrer de saudade de vocês meus amores. Espero que esse capítulo possa satisfazer vocês até novembro. Vou sentir falta de vocês, isso ta doendo em mim, de verdade. Obrigada por tudo gente, até mais!

R O S E G R A N G E R — W E A S L E Y

— Scorpius – esbravejei gemendo de dor – Seu idiota.

— Me desculpe, Rose, por favor. – disse, me ajudando a levantar.

O loiro aguado estendeu seu braço para que eu segurasse e assim fiz. Com apenas um leve impulso do Malfoy, já estava de pé novamente.

— Esta é Rose Weasley? – ouvi a voz de Astoria ressoar pelo local. Ela aproximou-se a fim de auxiliar-me também – Você está bem, querida? – inquiriu preocupada.

Antes mesmo que eu pudesse responder, a jovem senhora virou-se para o filho e começou a estapeá-lo. Ri com aquela cena.

— Ai, mãe. – reclamou – Para com isso.

— Vamos ver se pelo menos assim você aprende a respeitar uma dama.

— Está tudo bem, Sra. Malfoy. – intervi – Acho que Scorpius já prendeu a lição.

— Certo. – disse ao findar a sessão de castigo ao filho, logo virou-se para mim com ar de preocupação – Tem certeza de que está bem?

— Absoluta. – sorri para enfatizar.

— Eu não. – protestou o loiro – Seus tapas doem, mãe.

Astoria lhe lançou um olhar que faria até Voldemort parar a guerra e ir correndo ao cantinho do pensamento refletir sobre o que fez.

— Vamos entrar, srta. Weasley. – ofereceu simpaticamente abrindo a porta para a minha passagem.

Agradeci o gesto e entrei, afinal estava ali para isso. E para comer, é claro. Confesso que tinha uma certa curiosidade sobre a aparência do apartamento do medibruxo. Era bem agradável e até menos luxuoso do que imaginava. Uma cobertura duplex num bairro chique de Londres. Era acolhedor como a minha casa, porém mais sofisticada, moderna e masculina. Fiquei admirando a lareira apagada e a televisão desligada no outro canto da sala, me impressionando com o apego de Scorpius a artigos trouxas. Senti uma mão nas minhas costas, era dito cujo. Perdi a sra. Malfoy de vista, certamente enquanto estava atenta à decoração do apartamento.

— Sente-se aqui. – apresentou-me o sofá – Mamãe foi buscar gelo para a sua cabeça.

— Não é preciso Scorpius, nem está doendo, foi só uma pancadinha de nada.

— Eu sou o medibruxo aqui e digo que precisa de gelo para a cabeça. – sentenciou – Vou ajudar minha mãe, já volto.

Diante de tal situação restou-me somente assentir e aguardar. Sem demora, a elegante senhora apareceu com uma bolsa térmica e sentou-se a meu lado no sofá pressionando o objeto gelado na parte de trás da minha cabeça.

— Segure isto bem aqui, está sentindo? – instruiu-me. Obedeci imediatamente tomando o lugar de suas mãos – Já estou de saída srta. Weasley, Draco deve estar impaciente para o almoço. Aquele lá quando está com fome consegue ser pior do que um dragão.

— Me chame de Rose, por favor. – pedi após rir de seu comentário.

— Claro, no entanto só o faço se começar a me tratar por Astoria e não sra. Malfoy, assim teremos um ar de intimidade em nossas conversas futuras.

— Mãe, não acha que está alugando a Rose por tempo demais? – Scorpius falou atrás de mim apenas para mostrar o quão maroto era capaz de ser.

Imaginei que Astoria se levantaria e daria mais uns bons sopapos na cara daquele loiro aguado, entretanto quando saiu do sofá, recolheu sua bolsa logo em seguida. O filho tomou o lugar antes ocupado pela mãe. Ela parou em nossa frente com um sorriso travesso nos lábios.

— Você tem razão meu filho. Imagino que você e Rose tenham coisas mais interessantes a fazer agora, não é? – terminou com uma piscadela.

Estava a ponto de responder que sim, faríamos algo mais interessante, o que no caso seria comer, então entendi o que ela quis realmente dizer. Scorpius ao meu lado apenas ria, e eu completamente ruborizada, tentei esclarecer as coisas.

— Astoria, não é o que você está pensando. Scorpius e eu não estamos juntos, quer dizer, estamos como amigos, mais que amigos porque temos um objetivo a ser alcançado que vai além dos limites da amizade só que...

— Não precisa criar desculpas, querida, eu entendo como o início de um relacionamento pode ser embaraçoso, entretanto saibam que têm o meu apoio. – a mãe de Scorpius aproximou-se e deu um beijo na bochecha de cada um de nós, e seguiu em direção à saída com um sorriso de orelha a orelha. Já na porta, tornou a falar – Seu pai vai amar a notícia, Scorpius! – e saiu quase que saltitando.

Scorpius fechou a porta com um feitiço e trancou-a a mesmo modo.

— Sua mãe está totalmente surfando nas ondas da imaginação. – expus.

— Deixe-a com essa felicidade. Quando essa empolgação toda acabar eu explico tudo. Ela só está assim porque gosta de você, senão estaria cheia de ciúmes.

— Sua mãe gosta de mim? – inquiri surpresa.

— Claro, você é um prodígio, Rose, se esqueceu? A pessoa mais jovem a ocupar a subsecretaria sênior do Ministério da Magia e tudo mais, ela te acha muito competente.

— Sua mãe é um amor. Um tanto maluca, mas um amor.

O loiro me abraçou de lado e instintivamente apoiei minha cabeça em seu ombro.

— Vamos pedir algo para comer. – Scorpius sugeriu – Você escolhe.

— Eu escolho que você faça a comida, do jeito que prometeu.

— Não vai rolar.

— Por que? – quis saber indignada.

— Porque eu carreguei uns setenta quilos por mais ou menos meia hora, apanhei da minha mãe na frente de uma mulher e de quebra entrei num relacionamento imaginário criado pela mulher que me pariu. Meu dia está sendo difícil e ainda nem chegamos à metade dele, então se você não quiser que a cozinha pegue fogo ou algo do tipo, é melhor aceitar a minha oferta. Eu pago.

— Okay, você venceu. – admiti – Só mais uma coisinha.

— Sim?

Desvencilhei-me de seu abraço e com a minha mão livre dei um tapa bem forte na cabeça dele.

— O meu peso não chega nem perto dos setenta quilos.

Scorpius reclamou da dor e assentiu repetidamente várias vezes.

— O que quer comer? – perguntei não fazendo muita ideia do que pedir.

— Você. – expôs sorrindo cinicamente. Encarei-o mortalmente até que ele desfizesse aquele sorrisinho presunçoso – Você escolhe, poxa, também nem me espera terminar de falar, eu ia dizer você escolhe.

— Sei...

Senti que minha cabeça já estava bem melhor, não que estivesse ruim antes, portanto deixei a bolsa sobre a mesa de centro e aconcheguei-me melhor naquele sofá maravilhoso.

— Podemos pedir um japonês, o que acha? – propôs o loiro.

— Ótima ideia! – concordei.

— Gosta mesmo de comida japonesa? – indagou um tanto desconfiado.

— Ah, sim, me dou muito bem com os dois pauzinhos.

Scorpius começou a rir desenfreadamente. Não entendi de início contudo revisei minha frase e um clarão surgiu em minha mente. Meça suas palavras, Rose Weasley!

— Deveria filtrar meus pensamentos antes de externá-los. – reconheci envergonhada.

— Não, Rose. – Malfoy se opôs – Se não fosse desse jeito atrapalhado não seria você.

Sorri satisfeita.

— Eu ligo e você prepara o resto, sou amiga do entregador de um restaurante que fica aqui perto, ele entrega para a gente em menos de trinta minutos, aposto.

Retirei o fone do aparelho telefônico do gancho e já ia discando os números. Não me espantava Scorpius ter um telefone também, como já fora comentado, ele adora objetos trouxas, até aqueles meio inúteis. É como o vovô Arthur e seu fascínio por patinhos de borracha e artigos trouxas em geral. Pedi tudo rapidamente, ansiosa pela chegada de toda a comida, estava morrendo de fome. Quando voltei com o telefone ao gancho, Scorpius me encarava.

— Por quanto ficou? – questionou retirando a carteira do bolso.

Algumas carteiras de bruxos são bem práticas. A de Scorpius, por exemplo, possuía uma abertura com um feitiço indetectável de extensão para o armazenamento dos galeões. Eu mesma tinha uma como aquela, a diferença é que era cor-de-rosa e de veludo. Em minha defesa, devo acrescentar que fora um presente de Louise.

— Por nada. Vamos fazer esse valer pela pizza do outro dia. Além disso, sou íntima do entregador, já disse. Acerto tudo depois.

Mesmo relutante ele cedeu.

— O quão íntima você é desse entregador?

— O suficiente para me ver de camisola e descabelada no meio na noite, porém não o bastante para me ver sem a camisola.

— Certo então. – murmurou – E qual o nível de intimidade que alguém teria que ter para ver você sem a camisola? – perguntou com a mesma expressão marota de antes, entretanto desta vez eu iria acabar tudo de um modo divertido, afinal sabia que aquilo tudo não passava de uma grande brincadeira.

— Bem, aí você só precisa conviver comigo por bastante tempo, me dar presentes no meu aniversário, Natal, Dia das Bruxas e ser do sexo feminino.

Sem graça, Scorpius deu-se por vencido e esperamos pacientemente nossos amados sushis, sashimis e todo o resto chegarem para começarmos a festa. Depois da chegada de nossos prestigiados convidados, comemos até sentir que nossas barrigas estourariam. Como boa amiga que sou, ajudei Scorpius a limpar toda a bagunça. Passamos o resto da tarde sentados em seu tapete em frente à lareira, ainda apagada, relembrando os tempos de Hogwarts e a forma estranha como nos tornamos amigos.

— Ainda lembro de você choramingando atrás da estátua da Bruxa Corcunda de um Olho Só. – Scorpius provocou.

— É, só que você chegou lá só para se mostrar o maioral. “Moça, você está machucada? Meu pai é curandeiro, eu posso ajudar”. – imitei sua voz infantil.

— Mas você estava machucada, lembra?

— Meu coração tinha partido, não foi isso que eu disse?

— Não, você disse que ele havia ido embora. E aí eu falei que era um absurdo, porque corações não saem correndo assim, do nada. Então você riu.

— E agarrei seu pescoço com tanta força que não queria mais soltar.

— E me confidenciou que seu coração parecia querer voltar naquela hora.

Sorrimos com aquelas lembranças, era divertido relembrar o passado.

— Agora outra pessoa que eu amo está com o coração em pedaços e eu estou ajudando o cara que ajudou a quebrá-lo. É. No mínimo, irônico.

— Não vou quebrar mais ainda o coração do seu irmão, vou ajudar a reconstruí-lo. Sou medibruxo, Rose, sei como fazer isso, curar as pessoas. É o meu ofício, o que sei fazer de melhor e se nós dois não conseguirmos, ninguém mais vai.

— Espera. – uma ideia surgiu na minha cabeça – Mais uma pessoa pode fazer isso acontecer, Scorpius, e você vai me ajudar a encontrá-la.

〰✍

Semanas passaram-se desde que me encontrara com Scorpius pela última vez e, confesso, sentia falta daquele loiro não mais tão magrelo que mais uma vez tornava-se presente em minha vida. Sete anos após nossa graduação em Hogwarts sentia que ele continuava o mesmo garoto gentil, inteligente e dedicado que conheci no terceiro ano.

Por muito tempo perguntei-me as razões pelas quais o garoto parara na Sonserina, já que suas qualidades indicavam Lufa-Lufa mais do que qualquer outra casa. Talvez por tradição, ou era esse seu desejo profundo. Havia também a hipótese de que meu amigo era, de fato, muito frio, a ponto de esconder seus reais sentimentos e sensações. O diferencial era que Scorpius utilizava isso em favor de causas nobres, como as de seus pacientes, para os quais sempre se apresenta disposto e prestativo, sempre com um sorriso no rosto. Ele fingia felicidade mesmo quando não a sentia, e isso era uma qualidade considerável. O engraçado era que o símbolo da medicina para os trouxas era uma serpente enrolada numa varinha. Sim, uma varinha. Os trouxas pensam ser um cajado, mas a verdadeira história não fora contada a eles. A varinha representa poder e autoridade, já a cobra seria o bem e o mal, a sagacidade e a imortalidade, o elo entre o mundo conhecido e o desconhecido, filosofia típica da Sonserina. Sem contar que a cor predominante nesse símbolo é o verde – e eu sei de tudo isso, é minha obrigação saber, uma das modalidades da prova para conseguir o cargo de subsecretária era conhecimentos gerais. Talvez estivesse tudo conectado desde sempre e o Chapéu Seletor seja mais inteligente e poderoso do que todos pensávamos.

— Rose. – chamou Larah despertando-me de meus devaneios – Prestou atenção?

Ela estava mais nervosa do que o normal, e não era para menos, Shacklebolt retornaria ao Ministério naquele mesmo dia, e tudo precisava estar em perfeita ordem.

— Desculpe. – pedi envergonhada – Me distraí. O que disse mesmo?

Ela soltou um suspiro impaciente antes de responder.

— Quero saber se já arrumou o gabinete de Kingsley.

— Larah, quando você me perguntou isso, dez minutos atrás, a sala já estava organizada.

— Você não espera o que está por vir, Weasley. – resmungou virando-se para sair.

Murray bufou e retirou-se batendo as canelas até o escritório do Ministro. Não tardei a me levantar e ir atrás dela a fim de descobrir sobre o que ela quis insinuar com aquela frase. Ao chegar lá, reparei que ela trocava tudo o que eu havia arranjado mais cedo de lugar.

— Você sabe que ele é canhoto, não destro. – praticamente gritava com a voz embargada – O tinteiro deve estar na extremidade esquerda, atrás das penas. Quanta incompetência!

Por um momento duvidei do que presenciava. Nunca antes vira Larah chorando e aquilo abalou-me profundamente, o que me levou a aproximar-me dela, envolvendo-a num abraço.

— Calma, o que há? – procurei confortá-la.

— Ele volta hoje. – referiu-se ao nosso chefe.

— Eu sei. – sorri – Isso é ótimo, não precisa chorar.

— Você vai entender. – declarou ao largar-me. Logo estava limpando as lágrimas e recompondo-se – Agora volte ao seu posto, certo? Se Kim chegar aqui e não ver você, ficará uma fera.

Assenti retornando à minha mesa. A primeira secretária fez o mesmo e sentada em sua cadeira começou a assinar diversos documentos aos quais eu não tinha acesso. Eram confidenciais e de extrema importância, porquanto disponíveis apenas ao ministro e sua primeira secretária.

Sem nada para fazer, resolvi redigir uma carta a Victoire. Há um certo tempo não recebia notícias suas e do bebê. Gostaria de saber se ela se mantinha saudável e se já tinha expulsado Teddy do quarto como fizera da última vez, alegando que ele não a deixava respirar. Teddy deveria ser considerado um santo por aguentar Victoire tanto em casa quanto no trabalho. Achei prudente acrescentar à carta também uma recomendação para que ela não viajasse tanto agora. Chaves de portal são prejudiciais em demasia às gestantes, além de causar um enjoo imenso, coisa que ela não precisava de estímulo algum para ter.

Antes mesmo que pudesse levar minha carta até o corujal do Ministério, um estalo parecido com algo se quebrando foi ouvido no meio do escritório e no meio desse crac surgiram duas figuras: Kingsley Shacklebolt e... Scorpius?

— O que faz aqui? – indaguei observando-o, antes mesmo de dar atenção ao meu patrão.

— Obrigado por me ignorar totalmente, Rose Weasley. – Kim fingiu-se de ofendido, e me obriguei a encará-lo, sorrindo em seguida – Poderia demitir você por justa causa, sabia?

Abracei-o apertado. Era bom tê-lo de volta.

— Obrigado, menina. Salvou minha vida. – sussurrou em meio ao enlace.

— Só fiz isso porque tenho medo de outro ministro não me dar folga às quartas. – brinquei.

— Claro. – soltou-me para abraçar Larah.

— Ora, Murray. – começou – Está mais velha do que quando saí. O que houve, saudade ou preocupação?

— Ah, seu bobo convencido. – ralhou, mas sorria – Venha aqui – abriu os baços como um convite – ou agora só abraça garotinhas?

O homem foi de encontro a ela e os dois se envolveram num abraço cheio de significados. Estavam há mais de vinte e cinco anos juntos, era mais do que eu tinha de vida.

Virei-me para Scorpius e ele sorria, foi aí que percebi que eu estava do mesmo jeito. Parecia ser involuntário.

— Agora vai dizer o que faz aqui ou não? – tornei a perguntar.

— Tenho que acompanhá-lo, ele é meu paciente, Rose. – esclareceu.

— Pensei que fosse um envenenamento. – expus preocupada – Depois que o veneno sai do corpo não há riscos, há?

— Não, porém... – parou por um instante tentando formular algo coerente – São termos médicos, Rose. Você não entenderia.

Fingi acreditar, mas continuava desconfiada. Não queria armar confusão ali, naquela tarde que tinha tudo para ser agradável.

— Vamos comer alguma coisa? – inquiri no intuito de deixar meus superiores a sós.

— Uau. – ele riu – Está me assediando, Weasley?

Acompanhei-o, pois sabia que aquilo não passava de uma brincadeira.

— Estou em horário de trabalho, Malfoy. Só poderá considerar como assédio depois das seis. Alegre-se, já são cinco horas.

— Ótimo, não vou ter que esperar demais.

Avisei Larah que estava saindo, não que ela tivesse prestado atenção, já que estava muito ocupada com nosso Kim. Saímos, o loiro e eu, para uma chamada área de lazer no Ministério. Haviam-na construído com o objetivo de desocupar a mente dos funcionários quando a pressão em seus cargos tornava-se excessiva, principalmente para os aurores e membros do departamento jurídico, incluindo a mim, que participava de boa parte dos julgamentos como parte do Conselho.

Sentamo-nos ao lado de uma janela que dava para a imagem de um jardim. Óbvio que não passava de um feitiço ilusório, visto que o Ministério localizava-se no subsolo. Pedi um chá com tortinha de caldeirão, ao passo que Scorpius optou por um café preto sem açúcar.

— Não consegui me comunicar com você por esses dias. – o homem se queixou – Anda muito ocupada?

— O Ministério inteiro transforma-se num caos quando o ministro não está presente. – justifiquei – As últimas semanas foram as piores, foi como se Larah tivesse se tornado ministra e eu a primeira secretária, no entanto sem ninguém para me auxiliar.

— Parece complicado. Percebi que nem foi ao hospital visitar seu chefe.

— É, não tive tempo. Mamãe também precisou da minha ajuda para manter algumas coisas em casa. Vovó Granger não está passando muito bem, os ossos andam fracos e sofreu uma torção no ombro, que deslocou. Minha mãe passou a semana acompanhando-a a médicos até que o vovô conseguisse desmarcar os compromissos para tomar posse das obrigações.

— Você deveria ter me avisado, eu podia ajudar a sua avó, conheço uma poção que resolve qualquer tipo de torção em segundos. – oferecia, o que me fez gargalhar de sua ingenuidade.

— Meus avós até conhecem o nosso mundo, mas não a esse ponto, Malfoy. Seria um exagero, ainda assim, obrigada. – parei de rir – Além disso, imagina o alvoroço que seria caso Hugo descobrisse que você cuidou da avó dele!

— É, você tem razão. – admitiu envergonhado – Isso foi ridículo.

— Não, não foi. Você é bondoso, Scorpius e isso não é ridículo.

Ele sorriu de um modo tão inocente que me encantou. Suas bochechas estavam vermelhas, como se estivesse corando, entretanto não tinha certeza, a barba impedia-me de comprovar minhas suspeitas.

Continuamos a conversar banalidades, como a situação nada boa dos Chudley Cannons no campeonato de Quadribol que se iniciara há pouco. Meu amigo acabava zombando de mim pois torcia para os Tornados de Tutshill, decacampeões consecutivos da Liga, no tempo em que os Cannons, mesmo com vinte e um campeonatos ganhos na história, não chegava sequer às oitavas de final desde 1982.

— Você havia comentado lá em casa que uma pessoa podia nos ajudar na questão do seu irmão comigo. – mudou de assunto para a minha alegria. Odiava quando zombavam do meu time do coração – Quem é?

— Ainda não posso dizer. – disse, mesmo que meu intuito fosse contar tudo a ele – Ela é muito ocupada e devido à minha falta de tempo e disposição, não consegui entrar em contato ainda, mas assim que me corresponder com essa pessoa, aviso-lhe, está bem?

— Claro. – acatou meio a contragosto – Podemos pedir a conta?

— Conta? Não tem conta. Eu sou funcionária, tenho direitos.

Regressamos ao meu local de trabalho trinta e cinco minutos mais tarde, tempo do qual arrependi-me ter passado fora, dado que quando chegamos, a sra. Murray estava zangada como um dragão soltando fogo pelas ventas enquanto Shacklebolt divertia-se com a cena.

— Eu disse, Kim. Esta garota ainda tem muito o que aprender. Olhe só, está aqui há apenas cinco anos e pensa saber comandar tudo. – asseverava com fervor – E pare de rir, não tem graça alguma, sabe disso.

— Tudo bem. – o senhor negro veio até mim, envolvendo-me com seus braços protetoramente. – Malfoy, o que ainda faz aqui? Disse que não preciso de babá. – bronqueou o medibruxo.

— Mas, senhor...

— Nada de “mas”. Dê o fora, você paquera a Rose mais tarde. Estamos tentando trabalhar agora.

Ruborizei instantaneamente. Scorpius não estava me paquerando.

— Sim, senhor. – foi o que disse antes de desaparatar.

Uau, pensei que tivesse conseguido essa proeza por estar com Kingsley, pelo visto estava enganada. Se o ministro da magia deu-lhe permissão para tal, significava que ele era importante. Além do ministro, apenas Larah e eu estávamos autorizadas a aparatar e desaparatar naquele local.

— Melhor agora. – declarou a Murray – Estava em tempo de mandar-lhe um memorando, Weasley. – censurou dura.

— Me desculpe, pensei que quisessem conversar um pouco.

— Conversamos o que tínhamos para conversar no hospital, como seu namorado deve ter contado.

— Ele não é meu namorado. – rebati.

— Não me importa seu estado civil, contanto que esteja aqui em horário de trabalho, coisa que não fez.

— Acalme-se, mulher. – Shacklebolt repreendeu-a – A outra garota nem chegou ainda.

— Outra incompetente. – murmurou – Pelo menos assim ganhamos tempo. Quer começar? – questionou ao senhor.

— Evidente que sim. – virou-se para mim – Rose, você não será mais minha subsecretária. – anunciou como se falasse do clima.

Senti meus olhos encherem-se d’água, a garganta seca. Ele estava me demitindo. Larah tinha razão, eu era uma incompetente, ele estava me demitindo. Depois de cinco anos ele fez o que eu mais temia.

— Tudo bem. – pigarreei tentando conter as lágrimas – Eu só preciso recolher minhas coisas.

— O que? – demandou confuso – Não estou demitindo-a, estou promovendo você a primeira secretária.

Encarei-o em busca de vestígios de brincadeira ou zombaria em suas feições e não encontrei nada. Ele estava dizendo a verdade, eu seria promovida.

— E a Larah? – quis saber ainda meio tonta. Minha ficha não havia caído, mesmo assim a situação de minha tutora me preocupava.

— Eu pedi demissão. – ela respondeu aproximando-se – Está na hora de dedicar-me às minhas filhas. Estabilizei-me financeiramente e pretendo trabalhar em casa. A partir de agora serei apenas uma conselheira. Me desculpe por explodir com você hoje, sei que é capaz e competente, só que fiquei por tanto tempo nesse cargo que tenho medo de você não se adaptar. Não me importa o escritório, Rose. Minha preocupação é você. Já deixou tanto de sua vida de lado, não quero que se sacrifique mais.

E me abraçou. Eu já chorava sem acreditar de fato naquilo. Eu fui promovida, promovida a primeira secretária do ministro! Larah afastou-se de mim, observando um ponto fixo em minhas costas. Olhei para o mesmo local e dei de cara com Molly, minha prima. Me virei para Murray em busca de explicações e ela pediu para que Molly se aproximasse.

— Desculpem-me pelo atraso, fecharam três lareiras para manutenção e o elevador estava mais maluco do que o normal. – ela explicou.

A ruiva estava deslumbrante, como sempre. O vestido preto delineava seu corpo de forma respeitosa, perfeito para um ambiente de trabalho e ela usava saltos que se estivessem em meus pés garanto que me esparramaria no chão em menos de dois passos.

Retirei meus óculos para limpar, pois haviam ficado embaçados devido ao pranto recente.

— Oi Rose. – saudou entusiasmadamente, ao que tornei em mesmo tom – Será ótimo ser sua colega de trabalho.

— Colega de trabalho? – indaguei atarantada.

— Sim, Rose – confirmou Kim – Molly Weasley II é a nova subsecretária sênior do Ministério da Magia.