Nublado
1 Único
— Este verão será incrível! – disse Lily, sua prima, completamente fora de si na hora do almoço, antes da última aula da tarde, antes das férias começarem.
Ela sempre fora assim, empolgada sobre tudo ao extremo, amiga de todos, bruxos, trouxas e até mesmo animais, elfos ou plantas, nascera exatamente no verão. Enquanto Hugo, por outro lado, era exatamente o contrário, muito fechado e quase não falava com ninguém, nascera no inverno.
— Fiz uma lista do que iremos fazer – ela lhe entregou na mesa da grifinória.
Hugo passou os olhos no pergaminho enorme que a prima havia lhe entregado. Ainda com a boca lotada de comida tentava ler por cima o que ela havia escrito. Havia desde banhos no lago perto da casa dos avós Weasley, até corridas de bicicletas pelos campos.
— Vai ser incrível.
— Vai ser mesmo... isso se não chover – respondeu calmamente entregando o papel a ela e focando seu olhar para a comida.
Lily olhou para o primo horrorizada e quase não encontrou palavras para o que ele havia dito.
— Porque você tem que ser tão pessimista sobre tudo e todos sempre?
— Isso não é ser pessimista Lily, olhe para cima – ele apontou o teto magicamente projetado no salão para parecer o céu lá fora – esta armando a pior tempestade.
— Isso é hoje – ela deu de ombros como se não ligasse para as nuvens cinzentas acima de sua cabeça – amanhã estará limpo.
— É melhor mudar os planos – terminou por fim o primo, deixando a garota mais preocupada ainda.
xx
No dia seguinte porém, o noticiário da TV de sua casa, já em Londres, só dizia que o verão começaria com muita chuva. Lily, parada na frente da TV só balançava a cabeça negativamente não querendo acreditar.
— Ei, quer jogar videogame em casa? – Hugo apareceu na porta da sala convidando a prima a ir em sua casa que ficava exatamente na frente da dela.
— Não obrigada, estou muito ocupada no momento – nem se deu o trabalho de olhar para ele.
— Olhar o noticiário o dia inteiro não fará as nuvens irem embora.
Lily virou seu rosto finalmente olhando e fazendo uma careta para ele.
xx
Uma semana depois, Londres só se desfazia em chuva. Deitada na sua cama, Lily só lia e relia sua lista de um verão perfeito.
— Acho que preciso descartar o piquenique ao ar livre – bufou nervosa.
— Ei – escutou a voz de Hugo e batidas na sua porta.
— Não precisa me lembrar que o mundo está se acabando em chuva Hugo.
— Posso entrar?
— Tenho escolha?
O primo entrou e encontrou a ruiva de 15 anos sentada na cama deprimida.
— Como tirar essa sua expressão de luto?
— O pessimista aqui é você, não eu.
— Acho que trocamos de posto.
Ele sentou do lado da prima e lhe entregou um pedaço de pergaminho.
— Fiz minhas próprias anotações de um verão perfeito, e com muita chuva – tentou lhe entregar um sorriso que mais pareceu uma careta.
Lily passou os olhos pela lista, que continha, videogame e filmes na televisão.
— Metade da sua lista esta titulada com jogos.
— Sim – ele apontou o dedo indicador pra ela – mas são os melhores jogos.
Lily suspirou chateada e deitou na cama suspirando.
— Pelo menos me dê uma chance – ele levantou da cama e lhe esticou a mão como um convite mudo – Nem precisa trocar de roupa. Pode ser uma festa do pijama.
Convencida, Lily levantou e três horas depois não conseguia entregar o controle para o primo.
— Vai, vai VAI! Isso, isso isso! – Lily chegava a pular e levantar o controle para seu personagem conseguir realizar as missões.
Hugo só conseguia rir interiormente se deliciando sobre as novas sensações que a prima se permitia viver.
— Ok – ele entrou a frente do console e o desligou.
— Hugo! – reclamou a garota.
— É melhor ir para a sua casa, já é meia noite, antes que seu pai me mate.
— Amanhã voltaremos ao jogo? – perguntou com a testa enrugada com vontade de jogar.
— Tenho outros planos – Hugo esfregou as mãos uma na outra.
xx
O dia amanheceu com mais chuva, e Lily levantou chateada, mas ao mesmo tempo curiosa com o próximo plano de seu primo.
— Ok, o que temos para hoje? – foi a casa dele em plena seis da madrugada, o acordando em sua cama.
— Lily? – perguntou sonolento – Está um lindo dia para dormir, o que acha?
— Acho que me prometeu um ótimo verão.
— Ok.
Hugo levantou da cama e foi até a escrivaninha de seu quarto, pegando um notebook.
— Sente-se aqui – deixou um espaço para que a prima sentasse ao seu lado.
— Hugo, eu conheço intermet – respondeu brava.
— Não vai mexer na inteNet, mas vou te mostrar algo.
Convencida, Lily sentou-se ao seu lado.
— Já ouviu falar de animes japoneses?
— Ai Hugo, você e sua mania de coisas dos trouxas.
— Mas é por isso que gosto de dias nublados.
— Dias nublados são tão depressivos – ela fez uma careta de desanimo.
— Acho que as pessoas é que são depressivas – constatou levantando uma sobrancelha — vai, sente-se e de uma chance a depressão.
— Uma chance a depressão, como assim?
— Lhe apresentarei Memma.
E Lily começou a ver um episodio de anime, com caretas e na defensiva, ainda mais que o áudio estava em japonês.
— Como consegue ler a legenda tão rápido?
— Você acaba acostumando.
E ela permaneceu assistindo o “desenho” e ficando cada vez mais hipnotizada na história.
Cinco horas depois, ela estava chorando aos prantos pelo final da história. Hugo havia pego lenços de papel para ela tentar se recompor.
— Ah meu Deus, porque foi me mostrar essa história? Eu nunca mais vou esquecer a Memma.
— Ela me lembra você na verdade – ele sorriu gostando do efeito que havia causado na prima.
— Ah meu Deus, acha que sou um fantasma?
— Não é isso, acho a personalidade dela parecida com a sua – ele deu de ombros chateado – achei que ia gostar.
— Eu amei, mas amanhã me traga um verão mais alegre ok?
xx
Hugo resolveu levá-la para o cinema, estava estreando um novo filme de animação do estúdio pixar. Ela havia pego sua capa de chuva amarela e seu guarda chuva também amarelo. Hugo por outro lado, não usava proteção nenhuma contra as gotas que caiam do céu.
— Vai pegar um resfriado.
— Gosto da sensação das gotas em minha pele.
Lily teve direito a muitas risadas no filme, a pipocas e uma grande barra de chocolate ao leite.
— Adorei tudo sobre hoje, estou adorando tudo sobre esse verão – ela pulava saltitando na volta para casa, dançava com o guarda-chuva na mão sem se importar em se molhar.
— Achei que não gostava de chuva.
— Achava também. Nunca gostei da cor cinza. Sempre a achei triste. Nunca gostei de nublado, mas acho que há uma beleza na escuridão.
Ela sorria. E Hugo a adorava vê-la sorrir. Lily olhava para cima sentindo as gotas molharem seu rosto.
— Já que está mais aberta a relação com a chuva. Acho que não se importará de tomar um pouquinho dela no rosto amanhã.
— Porque está dizendo isso? – abriu os olhos abruptamente e olhou o primo.
— Tenho dois ingressos para um show de seu cantor favorito trouxa, aquele Ed Sheeran.
— Ah meu Merlin!!! Conseguiu ingressos pro show dele? Sempre quis ir num show dele! – respondeu totalmente empolgada.
— É, mas vai ser em campo aberto e a previsão diz que estará chovendo.
— Já lhe disse que estou amando chuva! Ah meu Merlin! Será incrível.
xx
Lily se arrumou para o show, com botas de plástico rosa choque e um casaco de plástico combinando com as botas.
— Acha que estou chamando bastante atenção para ele me notar no meio da multidão?
— Com certeza.
Ambos foram para o local do show e esperaram quase quatro horas a abertura dos portões. Assim que Lily garantiu um lugar privilegiado, o mais próximo do palco. Curtiu e cantou todas as músicas. E quando se viu voltando para a casa com o primo, estava em êxtase.
— Eu juro Hugo, ele abanou a mão para mim. Ele me notou no meio daquela multidão enorme.
— Sei – ele disse meio descrente, mas rindo da prima.
— Vamos tomar um café no Starbucks?
O primo a atendeu, ambos pegaram um copo de café e sentaram numa mesa completamente encharcados.
— Acho que esse pode ser titulado o melhor verão de todos.
— Não era você que estava toda depressiva na frente da TV assistindo a previsão do tempo?
— Isso foi a Lily do passado. Agora quero mais chuva e mais chuva. Afinal Londres é ou não é a cidade cinzenta?
Hugo a olhou sorrindo, amava o jeito da prima, o jeito puro e simples de ser, que ela tinha. O contraste perfeito consigo mesmo. Lily adorava como ele era diferentes dos outros garotos que tinha amizade, Hugo era sim, fechado em seu mundo particular, mas permitia que ela visse e a garota se sentia muito especial por isso.
E foi nesse fim de dia chuvoso, que os sentimentos começaram a se esclarecer, como se as nuvens que os escondia fossem embora e deixassem o sol surgir. Foi nessa de pensar o que sentiam um pelo outro, que se perderam um pouco, sentiam que não deviam pensar tanto naquilo, era proibido, sentiam que não conseguiam não sentir. Foi nessa confusão entre nublado, chuvoso e ensolarado que seus lábios se grudaram por poucos segundos.
Afastaram os lábios tão assustados que quase não se permitiram sentir o gosto da chuva, misturado com pipoca e chocolate, café e lágrimas de emoção e um pouco e êxtase pela fase completada no jogo.
— O que faremos amanhã? – Lily perguntou, tentando fugir do momento de constrangimento que provavelmente se seguiria.
— Eu acho... – Hugo sentou ereto e permitiu a si mesmo segurar a mão fria da prima – que agora é por sua conta.
Ele apontou para fora, onde o céu escuro de chuva havia desaparecido feito magia e um sol forte e poderoso reinava no céu.
No noticiário no café dava para ouvir que as próximas semanas seriam de sol e calor intenso.
— Eu acho que é a mistura de um verão perfeito.
Ambos se levantaram e se encaminharam para novas aventuras de um verão, chuvoso e ensolarado, um verão Hugo e Lily.
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