Nu ma opri
9 Capítulo 9 - Bumerangue
Notas iniciais
Estavam na sala do tenente Cavanaugh: Jane, Korsak e o tenente Martinez. Frost, Maura e Frankie do lado de fora ouvindo sem muito esforço o que os outros falavam lá dentro já que todos estavam bem alterados.
– Ele está obstruindo a nossa investigação!! – gritava Jane.
– Vocês é que obstruíram a minha! Estou perseguindo esse cara a meses e ninguém me avisou que ele estava sendo vigiado? Não é a toa que perdemos dois flagrantes porque ele não apareceu! – berrava Martinez em resposta.
– Vocês prenderam o cara errado, Rafael! – se intrometeu Korsak – Ele é peixe pequeno, no fundo estamos atrás do mesmo sujeito: Marcel Mitrea.
– Ah, por favor, Vince! Eu sei muito bem que prendemos o cara certo. Esse Mitrea estava envolvido sim, mas eram negociatas, o verdadeiro traficante era o Ramirez todo o tempo.
– Você bateu a cabeça por acaso? – disse Jane quase espumando de raiva – Solta já esse cara ele é o único que pode nos levar ao romeno!
– Ok, ok, já chega! – esbravejou Cavanaugh levantando-se de sua mesa e encarando o trio – O que parece que houve de verdade aqui foi uma falta total de comunicação entre os departamentos e que eu espero que nunca mais ocorra! Não vou duvidar do seu trabalho Rafael, se todas as evidências levaram a esse tal Carlos Ramirez como o traficante que vocês procuravam está certa a prisão, no entanto também não vou duvidar dos meus detetives, se ele é o único caminho que os leva ao mandante de uma série de assassinatos então preciso que você recue na decisão e colabore conosco.
Martinez suspirou fundo e passou a mão no rosto tentando se acalmar. Jane e Korsak permaneciam de braços cruzados o encarando.
– Eu não posso. – ele disse por fim, olhando para os próprios sapatos. – Eu não posso tirar ele de lá, já foi condenado, como disse foi um flagrante não precisou de audiência, a esta hora está sendo transferido pra detenção máxima...
– Droga, Rafael! – gritou Korsak levantando as mãos para o alto e dando uma volta pela sala.
Cavanaugh baixou os ombros em sinal de derrota e anunciou num tom mais calmo:
– Com paciência e algumas autorizações especiais vocês podem entrar lá pra falar com ele. Sei que não é o ideal, que com o rapaz solto havia a possibilidade dele levar vocês até o romeno pessoalmente mas, bem é o temos agora, então vamos lá, vou tentar agilizar a papelada. Voltem ao trabalho.
Martinez abriu a porta e esperou os dois detetives passarem na frente. Jane foi reto na direção de sua mesa. Ele ainda encarou Frost, Frankie e Maura que permaneciam ali acompanhando tudo mas sem dizer uma só palavra, depois foi na direção da morena:
– Jane. Jane, me desculpa, ok? – ele parecia realmente arrependido e tentava ser doce – Eu nunca quis te ferrar, você tem que acreditar em mim.
A detetive não o olhou nem respondeu nada, só pegou seu casaco e saiu andando, antes de cruzar a porta de vidro em direção ao corredor parou e se voltou pra trás:
– Não, você não quis me ferrar. Apenas quis ser o melhor sem se importar por passar por cima dos outros, como você sempre fez. Muito obrigada, Rafael!
Renderam dois dias de muito esforço, assinaturas, telefonemas e mais telefonemas do tenente para que finalmente Jane e Korsak conseguissem uma autorização para ir até o presídio falar com Ramirez.
– Ah não, vocês de novo? – resmungou o homem ao ser levado para sala de entrevistas e dar de cara com os detetives. – Olha, não faço ideia de por que estão aqui, mas digo uma coisa: perderam seu tempo, como podem ver, o amigo de vocês foi mais rápido e já me prendeu...
– Calma rapaz, só queremos conversar. — começou Korsak num tom apaziguador – Sabemos por que está aqui e não temos nada a ver com isso, só queremos a sua ajuda.
– Minha ajuda? – o outro disse com ar desconfiado.
– Sim. Estamos atrás de Marcel Mitrea e acho que você pode nos levar até ele não é mesmo?
– Novamente perderam seu tempo. Eu não faço ideia da onde está aquele homem.
– Tem certeza? – disse Jane num tom provocador. – Olha Carlos, nós sabemos o que aconteceu no parque, e caso não se lembre não foi indiciado por isso. Sua pena pode ficar bem mais pesada com um homicídio na conta.
– Mas que porra é essa? Eu não sei do que vocês estão falando!
– Não sabe? Então quem mandou a sua prima, uma mulher exemplar buscar um carregamento de drogas com um fornecedor num parque, que teve um surto e a atacou com uma faca?
O homem ficou agitado por um instante depois se calou.
– E quem deu fim no cara? Usando o próprio cinto de tanta raiva dando a volta no pescoço do sujeito, hein?
Ramirez permanecia em silêncio encarando as algemas no pulso. Jane olhou para Korsak que se prontificou:
– Olha, nós podemos arranjar um acordo sobre tudo isso, ok? Basta você dizer que vai nos levar até o Mitrea.
– Já disse que não sei do que estão falando. – disse o homem por fim. – E mesmo se soubesse, vocês tem provas que eu matei esse cara?
Os detetives disseram juntos que sim, mas o rapaz riu se levantando da cadeira:
– Desculpe, eu não acredito nisso. Acho que terão que encontrar outro meio de chegar ao homem que procuram. Adeus!
Voltaram à Central mais uma vez de mãos vazias. Aquela investigação parecia ir mais para trás do que para frente e aquilo incomodava de maneira descomunal a toda equipe. Jane não tinha mais cabeça para se concentrar, estava com muita raiva de tudo ter dado errado até o momento e pediu o resto do dia de folga. Permaneceu no precinto, porém utilizando a academia, descarregou toda sua raiva esmurrando um saco de boxe aproveitando para manter seu treinamento em dia.
Maura apareceu na sala dos detetives já após a hora de finalizarem o expediente, curiosa de nenhum deles ter lhe informado mais nada sobre o andamento do caso:
– Detetive Frost? – disse ela suavemente ao ver o rapaz guardando suas coisas e desligando o computador.
– Olá, Dra, Isles. Está tudo bem?
– Sim. Só queria saber o que aconteceu hoje lá no presídio. A Jane não me mandou nenhuma mensagem nem foi ao necrotério...
– Ah sim. – o detetive fez um breve resumo do ocorrido depois acrescentou – A Jane nem voltou para o departamento, foi direto pra academia, talvez ainda esteja lá, sabe como ela fica quando temos um caso difícil desses!
A outra sorriu em compreensão, depois se despediram. Ela foi até à academia procurar pela morena, viu na sala de aparelhos, no ringue, no vestiário e nada de encontra-la.
“Com certeza ela se exercitou até ficar exausta e foi embora”, pensou a loira já pegando seu celular e ligando para a amiga. Chamou algumas vezes e ela não atendeu, mas nem precisava. Maura conhecia bem até demais a outra para saber do que ela necessitava em momentos como aquele: agora que já tinha descontado sua raiva imediata, era um bom prato de comida, uma cerveja e ela própria. Ou melhor, um ombro amigo pra conversar, o que seria um sinônimo. Se dirigiu então ao estacionamento pensando quais restaurantes tinham no caminho que faria para a casa da detetive.
Jane havia largado seu celular na bolsa com sua roupa de trabalho no banco de trás do carro e realmente nem o ouviu tocar, nem queria. Seu objetivo desde que foi pra academia era ficar um tempo sozinha digerindo sobre o caso.
Chegou em casa realmente cansada e enquanto procurava suas chaves viu uma silhueta sentada na escada da entrada de seu prédio. Foi andando devagar, já trazendo a bolsa para próximo da mão no caso de precisar sacar a arma quando ouviu uma voz rouca e conhecida:
– Boa noite, detetive!
– Alison? – a morena se arrepiou ao dar de cara mais uma vez com aquela ruiva. – O que está fazendo aqui? Como sabe meu endereço?
A outra soltou um riso e se levantou calmamente indo em direção à detetive:
– Calma, quantas perguntas. Eu precisava falar com você.
– Você podia ter ido à Central durante o dia...
– Eu fui. Mas me disseram que você não estava então pedi seu endereço.
– E eles te deram, assim? Sem mais nem menos? – Jane parecia chocada.
– Ah, não foi bem assim, eu tive que jogar um certo charme no oficial que fica na entrada, dizendo que tinha algo para lhe entregar e era urgente, enfim... – deu um sorriso sapeca que não passou desapercebido pela morena.
– Certo, então...sobre o que exatamente você precisa falar comigo?
Nesse momento passou um carro com farol alto na rua e a ruiva deu um sobressalto. Olhou para todas as direções até se aproximar mais da morena segurando uma de suas mãos:
– Não aqui, detetive. Por que não me convida para entrar? – ela piscou de maneira provocante, mas Jane entendeu o que estava acontecendo ali. Por um minuto se viu na outra: era uma mulher segura de si mas que por algum motivo estava com medo e tentava disfarçar isso usando sua sensualidade. No caso de Jane seria o sarcasmo e ironia, mas não deixou de se comover um pouco.
Uma vez dentro do apartamento Jane parecia perdida. Largou a bolsa num canto e começou rapidamente a recolher roupas espalhadas pela sala e jogar fora recipientes vazios de comida sobre a bancada da cozinha, fechou a porta do quarto e ainda sem encarar a outra disse sem jeito:
– Desculpe a bagunça. É que não tenho ficado muito em casa, sabe? Quer alguma coisa? Uma água?
A ruiva sorriu com simpatia. Aceitou a água e de repente viu uma cadelinha vir pulando em seus pés.
– Oh, olá! Quem é você?
Jane pediu desculpas mais uma vez e apresentou Jo Friday, entregou o copo d’água e voltou à cozinha para pegar outro para ela mesma. Tomaram a água em silêncio, depois a detetive assistiu Alison brincar com sua cachorra. Houve um momento de silêncio estranhamente confortável. Ambas estavam apoiadas sobre a bancada da cozinha mas de lado opostos. A ruiva soltou um suspiro profundo e Jane resolveu retomar a conversa:
– Então, o que está acontecendo?
– Olha, sei que é difícil de acreditar, mas eu realmente não sei de muita coisa sobre o Mitrea. — Jane a encarou com atenção e ela continuou – Mas eu sabia sobre o Carlos, eu só não podia falar nada pra vocês por que...por que, ele é meu amigo. Meu único amigo naquele lugar pra falar a verdade! E agora que vocês o prenderam, bem, ele acha que fui eu que dedurei. Droga!
– Ele quem?
– O Mitrea! O Carlos sabe que eu jamais faria uma coisa dessas. – ela fez um ar preocupado olhando para o nada – Ao menos eu espero que saiba, por que de fato eu não faria, mas também não tive a oportunidade de falar com ele depois...
Jane continuava observando a outra mulher que parecia a beira de lágrimas agora.
– Vocês tem que me ajudar! O Mitrea está atrás de mim, botou um dos seguranças dia e noite na boate pra me vigiar, e hoje tenho certeza que vi um outro armado na porta da minha casa, deu um trabalhão despistá-lo para ir até a delegacia! Eu não quero morrer, por favor, me ajude!
A ruiva começou a chorar copiosamente, Jane sem saber bem como agir foi ao se encontro tocando de leve seu ombro:
– Ei, está tudo bem, nós vamos te ajudar, ok?
Alison num impulso abraçou a morena com força. Entre soluços agradecia:
– O-obrigada detetive. Muito-o obrigada.
– Jane. Acho que não tem problema você me chamar pelo primeiro nome agora. – disse a outra com suavidade. – É um direito adquirido somente as pessoas que entram na minha casa no meio da noite e choram no meu ombro, sabe?
A outra riu, se afastando alguns centímetros da morena para encará-la nos olhos. Jane sentia o perfume do shampoo do cabelo macio da outra e ergueu uma mão para limpar seus olhos borrados pela maquiagem misturada com as lágrimas. Nisso ouviu um barulho de chave na porta:
– Jane! Passei no seu chinês preferido, mas estava fechado então eu trouxe um... – Maura parou de falar ao se deparar com a cena que via, deixando cair a sacola com cervejas no chão.
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