Nu ma opri
5 Capítulo 5 – Vida que segue
Notas iniciais
Jane se vestiu correndo e em poucos minutos já estava no carro a caminho de uma cena do crime. Seu cabelo estava mais armado que o normal, visto que dormiu com ele molhado então tratou de o prendeu num rabo de cavalo de qualquer jeito. Mal desceu do carro começou a espirrar, pensando: “Ótimo, só me faltava ficar gripada agora!”. Viu um aglomerado de pessoas e a fita de isolamento logo a frente.
– O que temos aqui, Frost?
– Bem, acho que você deveria ver pessoalmente...
Jane se aproximou do corpo e viu um homem por volta de 30 anos vestindo terno estirado no chão com um furo de bala no meio da testa.
– Espera um pouco, esse não é um dos seguranças do Mitrea?
– Ele mesmo! – Frost abriu uma gravação no tablet que trazia – Aquele da entrada que “recepcionou” vocês e depois você o acertou com uma bandeja. Quais as chances de ser uma coincidência?
Jane olhou em volta, estavam numa rua sem saída próximo de um parque. Não havia sinal de sangue ou luta, o bairro era relativamente distante da boate, e o único tiro no meio da cabeça tinha toda cara de execução. Ali era apenas o local que desovaram o cadáver, tudo indicava que aquele dia prometia ser mais longo do que a noite anterior.
Como de praxe, fizeram uma vistoria em todo perímetro, conversaram com algumas pessoas, esperaram o corpo ser liberado e a equipe da perícia realizar uma busca completa, então voltaram ao departamento.
Frost foi direto para seu computador juntar os novos dados que possuíram, Korsak levantou os olhos vendo-os entrar:
– Ei, bom dia! Então o cara é rápido não? Nem nos deu tempo de intimidar um possível comparsa...
– Pois é! – disse Jane colando as fotos da cena num mural com informações do caso – Mas enquanto aos outros, conseguiu trazer alguém?
– Mandei Frankie e uma patrulha até os endereços que consegui localizar daqueles que tinham um contato mais direto com o nosso romeno, eles já devem estar chegando com alguns funcionários.
– Ótimo, vou tomar um café, assim que for começar os interrogatórios me chama!
Jane desceu até a cantina encontrando sua mãe sorrindo enquanto servia os clientes.
– Hei, Ma! Me vê um café, por favor? Bem forte, de preferência!
– Ah, querida, você não quer comer nada antes? Sabe o que a Maura diz: café em excesso pode prejudicar o estômago e eu sei muito bem que você não se alimenta direito, chega aqui de barriga vazia porque está sempre correndo e...
A detetive nem ouviu o resto da frase de sua mãe, subitamente se lembrou do sonho que teve e que ainda não tinha visto a loira naquele dia, foi tomada por uma apreensão, pensando que se possível preferia não vê-la por um tempo mesmo, quem sabe assim as imagens do sonho sairiam da sua cabeça. Mas isso seria difícil, ou melhor, quase impossível já que estavam no meio de um caso importante e trabalhando nele juntas. Encarou o nada por alguns minutos e quando voltou a si a italiana já estava com dois copos térmicos na sua frente:
– Que seja, você nem me ouve mesmo! Leva então seu café, e o dela!
– Como?
– A Maura me pediu um café daqueles especiais que só ela toma e ficou de vir aqui buscar mas até agora não voltou. Enquanto você me ignorava mandei uma mensagem para ela falando que você vai levar antes que esfrie!
– Ei, e desde quando eu sou garçonete da “Rainha dos Mortos”?
Sua mãe fez cara feia e lhe beliscou o braço antes de virar de costas e entrar na cozinha para continuar seu serviço.
A morena bufou e se retirou com os copos em direção ao necrotério. Definitivamente não teria como evitar a amiga.
Maura estava sentada em seu escritório lendo alguns relatórios e fazendo anotações que associassem os corpos das últimas vítimas e o segurança encontrado naquela manhã. Ela usava um vestido estampado simples e uma anabela clara, os cabelos soltos caindo sobre o jaleco que trajava por cima. Apesar da aparência serena internamente se sentia incomodada com algo. Não sabia explicar exatamente o quê, vinha a sua cabeça a lembrança da noite anterior, durante toda missão ela devia ter ficado com um certo medo ou receio, mas a sensação se assemelhava mais a de empolgação. Estava fazendo algo perigoso que lhe causou aumento de adrenalina, o que cientificamente poderia comprovar essa sensação, mas mais do que isso, a verdade é que gostou da experiência por alguns pontos específicos: gostou da maneira como se sentiu protegida por Jane naquele momento. Gostou de admirar a morena em plena atividade de sua função, a postura séria e imponente tomando o controle da situação sem deixar de se preocupar com ela, nos poucos momentos que se olharam ela transmitia carinho e confiança que tudo acabaria bem e aquilo era tão...excitante! Será que era errado se sentir assim? Foi tirada de seus pensamentos pela voz rouca que sempre a fazia sorrir espontaneamente:
– Bom dia, Dra! Trouxe seu pingado!
– Na realidade é um macchiato feito com grãos orgânicos e adoçado com um pouco de açúcar mascavo.
Jane revirou os olhos, mas não evitou sorrir com a correção da loira. Pôs o copo dela na mesa e se sentou no sofá ficando assim o mais distante que podia da outra.
– Então, já temos a arma que executou nosso amigo grandalhão?
– Eu não disse que ele foi executado, Jane!
A detetive suspirou profundamente:
– Ok, você poderia me descrever então o que descobriu sobre a maneira como ele foi morto?
– Bem, de acordo com a forma do furo que havia no crânio, é possível afirmar que o ângulo que a bala entrou não foi linear. — Jane a encarava com uma sobrancelha já erguida, a loira continuou – ela fez um trajeto descendente, ou seja, ou o atirador estava num lugar elevado ou a vítima estava abaixada. Considerando os resíduos encontrados na calça, na altura dos joelhos, posso afirmar que em algum momento ele se ajoelhou sobre uma superfície que continha areia de construção. O exame toxicológico ainda não saiu então não há respostas conclusivas, mas como não encontrei mais nenhuma marca que configure luta ou lesão recente, tirando um vergão do lado esquerdo do rosto que corresponde à bandeja que você mesma utilizou para golpeá-lo durante nossa fuga, a causa mais provável da morte foi de fato o tiro.
Jane fez cara de espanto:
– Oh! Quer dizer então que a vítima estava ajoelhada, levou um único tiro no meio da testa, sem reagir, sem ter lutado antes? Hum...vamos pensar...isso me parece com, deixa eu ver...AH! Uma execução??
A loira fez cara feia para a outra que ria e se afundava de forma descontraída em seu sofá.
– O projétil ainda está no laboratório de balística, mas sei que possui aproximadamente 10 mm de diâmetro e de acordo com o desenho que fez no crânio ao ser disparado, posso afirmar que ele levou um tiro de uma pistola calibre .40.
– .40? – Jane se ergueu desfazendo o sorriso do rosto. – Isso é ruim...
– Qualquer calibre de bala seria ruim, se entrasse em sua cabeça, não é, Jane?
– Não, não é isso... – A morena se levantou tirando a própria arma do coldre e levando até a amiga. – Isto é uma .40! É um calibre restrito, só a polícia utiliza! O que quer dizer que nosso assassino ou contrabandeia armas do governo ou pior: faz parte da corporação.
Maura arregalou os olhos e encarou a arma em silêncio. Jane já estava de saída dizendo que precisava atualizar os colegas sobre a nova informação quando seu celular tocou:
– Rizzoli! Oi, Korsak. Claro, já estamos subindo, obrigada! – guardou o celular e fez sinal para a legista a seguir. Frankie havia retornado com os funcionários e eles começariam a série de interrogatórios. Combinaram que a Dra. Isles participaria de todos como ouvinte na sala de vidro, assim poderia traçar o perfil dos interrogados através de seus gestos e expressões corporais acelerando o processo de investigação.
Estavam em frente os elevadores quando Jane começou a espirrar novamente a outra lhe desejou saúde e a fitou por um instante.
– Não é nada, Maur, eu só esqueci de secar o cabelo antes de dormir, deve ter ventado muito a noite, enfim...
O elevador chegou e elas entraram. Mal as portas haviam se fechado a loira foi bruscamente em direção a detetive abriu mais seu casaco e colocou uma mão em sua testa e outra no pescoço. Jane se assustou com a proximidade da outra ficando paralisada. Maura permaneceu um tempo, talvez maior do que o necessário checando sua temperatura, tirou a mão da testa, mas escorregou a da jugular lentamente pelo ombro e braço da detetive com o pretexto de arrumar seu casaco de volta sem deixar de a encarar nos olhos todo tempo.
Chegaram ao andar que queriam e Jane ainda estava colada contra a parede do elevador olhando apreensiva para a legista. Seu rosto estava tão próximo que dava para ouvir sua respiração.
– Você está um pouco febril. Eu tenho aspirinas lá no escritório caso você sinta algum mal estar, é só pedir... – Maura disse com um sorriso enquanto se afastava da outra e já caminhava pelo corredor em direção à sala de interrogatórios.
Jane balançou a cabeça meio sem graça e a seguiu dando de cara com Martinez:
– Ei, Rizzoli! Que história é essa de usar o outro Rizzoli para suas investigações? Eu preciso do garoto na unidade de entorpecentes sabia disso?
– Que eu saiba ele não é exclusividade do seu departamento – respondeu Jane bufando – Estamos num caso que aliás começou em vocês e eu não vi nenhum relatório que pudesse nos ajudar!
O outro se aproximou mais da detetive colocando as mãos na cintura e estufando o peito. Martinez era arrogante, mas ninguém ousaria dizer que não era atraente ainda mais quando lançava aquele sorriso cínico que estava esboçando agora:
– Não vamos começar com uma competiçãozinha besta entre a gente, está bem? Apenas libere o garoto pra mim e se tiver alguma coisa que ajude vocês nesse outro caso garanto que entrego pessoalmente.
Korsak, Frost, Frankie e Maura estavam parados no corredor apenas observando o diálogo dos dois detetives. Jane revirou os olhos vencida e fez sinal para seu irmão ir com o outro. Martinez pousou uma mão no ombro da detetive sussurrando de maneira debochada em seu ouvido:
– Boa menina, como nos velhos tempos!
Jane ainda estava com os punhos cerrados e contando até 100 mentalmente quando ouviu ao longe Korsak a chamar pra entrar numa das salas. Frost acompanharia a Dra Isles na sala de vidro, já que não tinha mais um parceiro para fazer outro interrogatório simultaneamente.
Entraram na sala e Korsak sentou numa cadeira enquanto Jane ainda encostava a porta com a cabeça abaixada lendo o nome que constava na ficha que tinha em mãos em voz alta:
– Stra. Montgomery?
– Sim? — uma voz rouca porém menos grave que a dela mesma respondeu em tom calmo, só então Jane levantou os olhos e segurou a respiração por alguns segundos ao dar de cara com a ruiva que por pouco não a fez perder o juízo na noite passada a encarando mais uma vez com um olhar penetrante e naturalmente provocador.
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