Nu ma opri
11 Capítulo 11 – O início de tudo
Notas iniciais
Maura ainda estava calada pensando sobre o que a detetive havia dito quando ouviu novamente batidas na porta da cozinha. Levantou-se do balcão e abriu a porta já sabendo que encontraria Alison usando sua camisola com um sorriso quase pueril nos lábios lhe desejando bom dia.
– Oi, Maura! Desculpa, eu sei que até tem uma cozinha lá na casa de hóspedes mas é que não tem nada para preparar nela...
– Bom dia, Alison. Geralmente a Angela toma café aqui comigo, é por isso. Tem leite na geladeira e instantâneo no gabinete à esquerda, fique a vontade. – respondeu a loira sem muita emoção.
– Ok, obrigada. Olá Jane, bom dia!
A morena acenou enquanto tomava um gole de seu café. Viu a ruiva se encaminhar para a geladeira e sussurrou para a outra:
– Você ofereceu instantâneo pra garota? Dra. Isles, isso vindo de você é o mesmo que oferecer veneno!
– Não exagere, Jane! Apenas eu não estou com vontade de ensinar ninguém como usar minha máquina italiana de expresso a esta hora da manhã.
A ruiva saiu de trás da geladeira apoiando o leite sobre a bancada, sorriu rapidamente para as duas e se dirigiu ao gabinete em busca do instantâneo. Por ser mais alta que Maura, (a ruiva tinha praticamente a mesma estatura que Jane) a camisola emprestada ficou bem curta, e também por ter mais quadril e peitos um bocado apertada.
Jane sussurrou de novo:
– Ela está usando uma das suas camisolas? – a loira ergueu uma sobrancelha assentindo – Ok, não fique chateada, buscaremos as roupas dela ainda hoje!
A ruiva parecia com problemas para alcançar o que queria tendo empurrado mais para trás o pote de café, ficou nas pontas dos pés totalmente esticada fazendo a roupa que usava subir completamente, Maura inconformada sussurrou para Jane:
– Essa biscate dorme sem calcinha??
Jane engasgou com o pedaço de biscoito que mastigava começando a tossir violentamente. A legista se levantou para acudi-la levantando seus braços, dando tapas nas costas e trazendo um copo d’água na sequencia.
Após se recuperar, Jane falou rapidamente de maneira profissional com Alison sobre o que havia sido decidido sobre seu destino, pediu o endereço da moça e uma lista de pertences e roupas que queria que trouxessem e onde estavam para que uma equipe de policiais fosse até lá buscar. Depois saiu acompanhada de Maura para o departamento.
Após uma reunião demorada com o tenente a portas fechadas, afinal a suspeita de um agente infiltrado naquele caso nunca fora descartada, os detetives traçaram um plano de ação. Como era sexta-feira deixariam passar o final de semana, dando assim alguns dias para preocupar o romeno com o desaparecimento de sua principal dançarina e que ele agora considerava uma ameaça já que ele tinha certeza que ela havia dedurado um de seus homens, na segunda-feira usariam a moça, fazendo-a entrar em contato com um dos seguranças que a vigiava na boate marcando um encontro pessoalmente com Mitrea. Até que enfim parecia que finalmente eles tinham um plano que daria certo e botariam as mãos naquele safado de uma vez por todas. Ligaram para a moça contando do plano e também a tranquilizando que ficaria segura em todo processo.
Como a vida não para, ocorreram outros assassinatos na cidade e a equipe de detetives e a legista passaram um dia agitado resolvendo novos casos. Já era bem tarde da noite e todos ainda estavam lá finalizando relatórios e arquivando evidências.
– Ahh por hoje chega, rapaziada! – disse Korsak em meio um bocejo longo – Terminei o último e vou pra casa, tudo que preciso é da minha cama, de preferência pelos próximos dois dias.
– Se os “vilões” deixarem não é? – riu Frost praticamente deitado em sua mesa também já desligando tudo.
– No meu caso nem precisa de vilões – resmungou Jane estalando o pescoço enquanto se levantava da mesa – A família Rizzoli tem reunião no domingo, enfrentar todos juntos é quase um esforço de guerra!
Os homens riram e Korsak completou:
– Ei, é verdade, quero a minha cama por um dia, porque no segundo quero é comer bolo da dona Angela.
Frost tirou sarro da gula do amigo, depois combinaram o horário que apareceriam na casa de Maura para a festa do sobrinho de Jane. Ela concordou e mandou mensagem para a legista avisando isso e também que já estava de saída. A loira respondeu na mesma hora que tudo bem e que também estava indo embora, se elas não podiam se encontrar no dia seguinte para comprar alguns acessórios para a festa que sua mãe havia lhe pedido. Jane obviamente contrariada disse que sim, não seria nesse fim de semana que se daria ao luxo de descansar um pouco.
Maura chegou em sua casa e estranhou ao ver a luz da cozinha acessa. Abriu a porta devagar e viu um bolo simples sobre a bancada. Franziu a testa enquanto se aproximava dele e ouviu a voz de Alison:
– Espero que goste de bolo de milho. É que fiquei um tanto entediada aqui sozinha o dia todo e também queria te agradecer de algum jeito pela ajuda.
Maura encarou a ruiva realmente admirada com sua atitude, sorriu sem graça:
– Muito obrigada, Alison. Não precisava ter se preocupado. — A outra sorriu e Maura deixou sua bolsa num canto, depois foi buscar uma faca para cortar o bolo — Parece ótimo, vamos provar?
As duas mulheres se sentaram na cozinha comendo uma fatia de bolo, Maura observava a outra que aparentava ter menos de 30 anos, e pela primeira vez a via sem nenhuma maquiagem, os cabelos presos num coque frouxo, vestida com um pijama que lembrava muito os de Jane: uma camiseta larga de algodão com uma estampa qualquer e um shorts curto escuro. Pensou o que teria levado aquela bela moça à vida que tinha, mas não quis parecer intrometida então puxava assuntos casuais. Num determinado momento a ruiva disparou:
– Há quanto tempo você e a detetive Rizzoli namoram?
Maura ficou corada imediatamente fazendo a outra se apressar em concertar:
– Oh, desculpa! Não queria me meter nem nada, só ia comentar que achei engraçado quando você falou que a mãe dela mora aqui na sua casa de hóspedes. Quer dizer, a sua sogra mora com você, mas a sua namorada não? Sei lá, a Rizzoli parece tão durona mas tem medo de relacionamentos é isso?
– Na verdade nós não namoramos...
– Ah, ok, vocês tem algo mais casual então?
– Não, nós somos só amigas mesmo. – a ruiva fez cara de espanto – Sabe, somos muito amigas, quero dizer, aquele tipo de amigas muito íntimas mesmo. Não íntimas no sentido sexual, quer dizer, íntimas em termos de proximidade e, bom...
– Você gosta dela! – foi a vez de Maura olhar com espanto para a outra – E ela de você!
A ruiva fez um pausa dando um riso debochado ao ver o semblante confuso da legista na sua frente:
– Ora essa, Maura, se até eu que conheci vocês faz pouco tempo percebi, vai me dizer que nunca nem pensou nisso? Só a sua cena de ciúmes ontem na casa da Jane já demonstrou tudo, e todo cuidado dela com você, o jeito que vocês se olham, meu Deus, eu como estou acostumada a trabalhar com todo tipo de provocação deveria dizer que vocês têm vocação pro assunto, praticamente sai fogo quando trocam alguns olhares, viu?
A loira ficou ainda mais corada e sem graça, há muito tempo se sentia atraída por Jane, mas era confuso, achava que não passava de admiração pela pessoa que ela era. Porém, com tudo que passaram na semana passada só serviu pra confirmar ainda mais aquilo que internamente ela negava: estava apaixonada pela sua melhor amiga e até um estranho podia notar isso.
Alison ainda deu alguns pitacos sobre o relacionamento delas mas percebendo que a outra ficava desconfortável com o assunto deixou pra lá, depois se despediu indo dormir. Maura fez o mesmo, mas até cair no sono rolou muito tempo na cama pensando nas palavras da ruiva.
No outro dia Jane apareceu cedo na casa da legista dando de cara com Alison abrindo a porta.
– Bom dia! – disse a morena analisando o pijama da outra que era bem mais adequado do que o último que havia visto – Cadê a Maura?
– Está tomando banho, pediu pra eu ficar aqui e abrir a porta caso você chegasse.
A ruiva se dirigiu ao sofá onde aparentemente estava sentada antes e pegou uma travessa com cereal de cima da mesa de centro. Começou a comer com os olhos na TV assistindo um noticiário local. Jane viu o bolo na bancada e se serviu de um pedaço, indo em direção ao sofá acompanhar a outra:
– Nossa que bolo bom! Onde a Maura comprou?
– Eu fiz.
– Really? Uau, você cozinha bem.
– Tenho muito mais habilidades do que você imagina detetive... – disse a ruiva olhando com o canto do olho para ela enquanto lambia lentamente a colher do cereal.
A outra se concentrou em mastigar e encarar a TV para não ter que responder nada então notou que a mais nova ria:
– Você sabe que eu gosto de te provocar né? Mas não leve a sério, se eu não soubesse que você é comprometida pegaria bem mais pesado!
– Comprometida? – repetiu a morena confusa.
– Bom, pode não ser oficialmente, mas seu coração já tem dona. Aliás se eu fosse você seria mais condizente com essa postura toda machona que resolve qualquer parada que você sabe exibir como ninguém e pegava aquela doutora de jeito!
Jane se afastou mais da outra olhando de maneira assustada e levemente encabulada sem saber o que dizer. Por sorte Maura apareceu descendo as escadas já pronta para elas saírem. Alison deu uma piscadinha de encorajamento para Jane antes que esta fechasse a porta da casa a deixando reflexiva o resto do dia sobre o que havia falado.
Já era noite quando as duas voltaram para casa, exaustas de tantas compras (a maior parte desnecessárias ao ver de Jane). Maura tirava as lembrancinhas das sacolas e organizava em cima da mesa enquanto Jane se esparramou no sofá esticando as pernas sobre a mesinha de centro.
– Jane, vamos lá, me ajude! Só falta isso, pensa que é a festa do seu primeiro sobrinho, tem que ser perfeita!
– Maura, ele vai fazer 1 ano, qualquer coisa pra ele vai ser perfeito, ele nem vai lembrar mesmo...
A legista bufou inconformada, então a outra se levantou e foi ajuda-la a organizar tudo. Assim que terminaram Jane foi pegar um copo d’água, bebeu e deu outro para a loira. Ela tropeçou sobre o salto na hora de devolver o copo a mesa sendo segurada pela morena antes de ir ao chão. Ela agradeceu, mas a detetive não havia retirado a mão de sua cintura. Ela sentiu seu corpo pegando fogo como da última vez que teve o toque de Jane tão íntimo nela. A detetive parecia também não querer sair dali, olhava para os olhos claros de Maura e não conseguia parar de pensar no quanto ela era linda, desviou o olhar para os lábios. A legista traçava o mesmo caminho de olhar, dos olhos negros para a boca de Jane, como ela queria senti-la, mas será que a outra sentia o mesmo? Jane se aproximou de uma só vez tocando finalmente aqueles lábios perfeitos que por tanto tempo ela (literalmente) sonhou. Foi aprofundando o beijo, pedindo passagem para a língua dentro da boca da legista que foi prontamente atendida. Elas se beijaram até que o ar fosse necessário. Quebraram o contato mas parecia que o tempo havia congelado para ambas.
Estavam paradas frente a frente na sala de Maura. Os corpos ainda abraçados sentindo a respiração uma da outra. A legista foi a primeira a quebrar o silêncio com um chamado que mal passava de um sussurro:
– Jane...
A detetive então saiu do transe em que se encontrava se afastando bruscamente da amiga. Com olhos arregalados deu meia volta e saiu da casa como um furacão.
– Jane? – a outra disse confusa correndo até a porta e acompanhando com o olhar a figura morena que dava partida no carro e sumia logo após virando numa esquina.
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