Now it's your turn, Hirose!
1 Hirose está atrasado!
Notas iniciais
Parando para pensar bem, eu nunca tive dificuldade em me relacionar com outras pessoas. Na realidade, é justamente o contrário. Sempre foi fácil fazer novos amigos, não importa onde estivesse. No jardim de infância, ou no fundamental, em uma festa familiar ou em um piquenique no parque. Não… novas amizades eram tão naturais quanto respirar no instante em que acordo.
Mas então… por que com ele era tão difícil?
Okuto Nakamura. Lembro bem da primeira vez que o vi. Foi na cerimônia de abertura das aulas do colégio. Magro, bem arrumado, um pouco mais alto que eu e, claro, aquela cara fechada que fazia metade da turma passar reto quando ele chegava. Nakamura estava me encarando, com os olhos levemente arregalados e, honestamente, parecia ter visto um fantasma. Lembro de ter imaginado que havia sujado o uniforme sem querer, logo no primeiro dia! Ou que haviam colado alguma placa estranha em minhas costas, talvez uma pegadinha? Mas nunca soube o porquê. E, naquela época, não fiz questão de perguntar. Achei que, eventualmente, ele viria conversar e seríamos bons amigos.
Sinceramente, Okuto Nakamura me irritava.
Não que fosse sua intenção, eu acho. Quer dizer… com certeza ele não fez nada específico. Nem parecia desgostar de mim, ou coisa do tipo. E esse era exatamente o problema! Deus. Já fazia quanto tempo? Três ou quatro meses do início das aulas?
Frustrante.
Parecia haver uma barreira erguida em pedra ao redor daquele garoto. E, para alguém como eu, isso era quase uma calamidade! O apocalipse das boas relações. Bem, claro que eu tentei conversar uma vez ou outra. Mas então ele me olhava com aqueles olhos estreitos, como se eu fosse uma doença contagiosa a ser evitada. Dava uma desculpa pior do que a outra e logo saia correndo. Por algum tempo, até cheguei a cogitar que estava fedendo após a caminhada para a escola. Eu até comprei um perfume!
Muitas vezes, eu queria chutar as suas costas.
Talvez muitas vezes seja um exagero. E talvez eu estivesse sendo um pouco infantil. Mas algo nele era diferente. E eu não conseguia dizer se era no bom ou no mau sentido. Então, em algum momento, acho que… apenas desisti. E Okuto Nakamura tornou-se apenas o colega de turma que não conversava com ninguém.
Até a aula de culinária.
Claro, eu estava atrasado. Isso não devia ser nenhuma novidade! Atrasos são relativos. Se a aula começava às oito, tenho certeza que em algum lugar do mundo deveria ser oito da manhã! Mas não é esse o ponto. Com certeza não. Foi naquela aula que eu vi Nakamura sorrir pela primeira vez. Ele parecia animado enquanto brincava com o polvo, parecia um hábito. Ele estava feliz e, por algum motivo, eu gostei de ver aquilo.
Trocamos algumas palavras e tive a certeza de que ele era um cara legal. Também fiquei animado, claro. Parecia que finalmente iríamos nos tornar amigos.
As coisas andaram um pouco mais devagar do que eu esperava. Apesar disso, cada vez mais aquele garoto calado do fundo da sala parecia se infiltrar na minha rotina. Tal qual os polvos que ele tanto gostava se enfiavam nos mais estreitos orifícios do oceano. De toda forma, ausência virou presença, presença virou rotina, rotina virou amizade e amizade virou necessidade.
Nakamura era divertido, ao seu modo de ser. Tinha gostos tão exóticos que faziam minha atenção desviar por vários minutos para os oito tentáculos de um polvo, ou sobre como eles eram extremamente inteligentes e como seu coração funcionava. Era… fofo. Porque mesmo tão calado, Nakamura adorava falar.
E eu… bem, eu adorava escutar.
Se fosse preciso responder com honestidade, não saberia responder em qual momento do último ano letivo acabei me afeiçoando tanto a ele. Talvez na viagem ao distrito comercial, na qual eu finalmente pude escolher fazer o que eu realmente queria? Ou talvez na vez em que, ao seu modo, ele me defendeu daqueles caras que estavam me importunando para ser modelo. Quem sabe tenha sido naquela peça… ah, deixa para lá. Vamos esquecer o ápice da vergonha do meu ensino médio. Mas voltando ao que importa, claro. Onde eu estava mesmo? Oh, sim. Minha afeição crescente pelo garoto do fundo da sala.
Talvez eu esteja me fazendo um pouco repetitivo demais. Talvez eu esteja dando muita importância a pequenos eventos enquanto estou aqui, deitado na cama do meu quarto, olhando para o teto e aguardando ansioso as horas passarem para que tenha início o segundo ano do ensino médio. Talvez eu tenha sentido a falta, um pouco além da conta, que Nakamura havia feito na minha rotina na última semana. E, certamente, ele jamais saberia desse detalhe. É… se eu não tivesse acabado de lhe falar exatamente isso em uma mensagem no LINE.
Aiki Hirose (20:50): Estou com saudade! T-T
Okuto Nakamura (21:00): Eu também.
Aiki Hirose (21:01): Espero que fiquemos na mesma sala novamente!
Okuto Nakamura (21:12): É… eu também.
Aiki Hirose (21:12): Não senti a sua animação nessa mensagem!
Okuto Nakamura (21:25): Desculpa, por dentro eu estou animado para isso.
Okuto Nakamura (21:26): (figurinha de polvo feliz)
Aiki Hirose (21:27): Melhor assim. Vejo você amanhã!
Okuto Nakamura (21:37): Espero por isso.
— Eu também espero. — Murmuro baixo, logo após deixar o celular de lado com um sorriso nos lábios.
A verdade é que eu já não conseguia imaginar a rotina sem ele. Desde o término com a Hana, Nakamura havia se tornado um dos meus melhores amigos. E passar um dia sem trocar ao menos uma mensagem com ele, era como sentir que havia pulado uma refeição. De todos os modos, seu humor me fazia bem.
— Aiki Hirose, eu já mandei você desligar esse celular e ir dormir. — Desvio os olhos do teto do quarto por um momento, soltando uma risada baixa para minha mãe que estava de braços cruzados e cara amarrada em frente a porta do quarto. — Vai acabar se atrasando amanhã.
— Certo, certo. Culpado. — Respondi com as mãos erguidas em sinal de rendição.
— Do jeito que ele passou os últimos dias grudado na tela desse celular… — Viro brevemente os olhos na direção daquela voz. — …certamente ele deve ter arrumado uma namorada. Nosso Aikizinho está tão crescido!
Saho inclinou a cabeça pela porta do quarto, o suficiente apenas para que eu pudesse ver o seu sorriso de canto. Imediatamente arremessei uma almofada em sua direção.
— Idiota! — Sentia minhas bochechas queimarem como se tivesse acabado de levar um tapa. Minha irmã tinha essa grande capacidade de me envergonhar sem fazer muito esforço.
— Já chega, vocês dois. — Voltei os olhos na direção de minha mãe, que havia recolhido a almofada. Ela não demorou em entrar no quarto e deixar o objeto ao meu lado. — Sem mais celular por hoje, Aiki.
Ela mantinha um sorriso curto em seus lábios, calorosa e serena. Assim era minha mãe. Isso fez diluir um pouco o rubor em meu rosto.
— Tudo bem… — Respondemos em uníssono.
Ela depositou um beijo casto em minha testa. E não demorou para que voltasse a caminhar para fora do quarto novamente. Mas não sem antes parar na entrada do cômodo e lançar um comentário curto e provocativo.
— E… se meu Aikizinho estiver namorando, é claro que vou querer conhecer essa jovem sortuda.
— MÃE!
Meu protesto foi abafado pelo som da porta se fechando, ao mesmo tempo em que a risada de minha mãe e irmã ecoavam do outro lado do corredor. Sentia as bochechas voltando a queimar. O que, sendo bem sincero, não fazia muito sentido. Não estava namorando. E provavelmente não iria começar a fazê-lo tão cedo.
As garotas são complicadas. E particularmente difíceis de lidar.
Por isso prefiro a companhia de meus amigos. Garotos são mais simples de conviver. Ficam felizes sem precisar de muito. Às vezes basta uma caneta temática. Ou um chaveiro de polvo.
— Oh. — Suspirei baixo. A memória do meu primeiro, e único, término invadindo minha mente.
Imaginei que levar um pé na bunda fosse me deixar mais triste. Ou desanimado. Mas acabou sendo muito libertador. Foi como corrigir algo que estava fazendo errado.
Ou talvez, ter o apoio de Nakamura logo após aquilo tivesse me ajudado a superar com mais facilidade.
— Charme…
Acabei murmurando sozinho, já de olhos fechados, esperando o sono vir. Ele havia dito que eu era charmoso. E eu o convidei para ir ao cinema. Não necessariamente nessa ordem. Só que naquele momento, parecia o certo a se fazer. Foi uma tarde divertida e, desde então, praticamente não desgrudamos mais um do outro.
— Talvez eu só tenha namorado a pessoa errada. — Logo afundei a cabeça no travesseiro. — Será que alguma outra garota pensa o mesmo que você?
A resposta não veio. E também não fez falta. Em poucos segundos meus olhos se fecharam e, antes que eu me desse conta, minha mente havia se entregado ao sono.
Se existir algum deus dos sonhos, ele deve estar um pouco irritado comigo. Por que? Bem, não acho que uma noite inteira sonhando com um polvo gigante me julgando tenha sido um bom sinal. Digo, ele até mesmo falava!
— Idiota, idiota, idiota… — Ele agitava seus tentáculos em minha direção enquanto me encarava com seus olhos gigantes e uma expressão de poucos amigos. — Lerdo, lerdo, lerdo…
Era só o que me faltava. Ser xingado em sonho por um polvo. Quando dei por mim, já estava sentado na cama, e quase podia sentir uma ventosa em minha bochecha. Esfreguei os olhos, tentando acostumá-los a luminosidade que invadia o quarto ao mesmo tempo em que aquele som irritante atingia meus…
Espera. Som irritante?
— Hm? — Desviei os olhos na direção da cabeceira. 07:48. — EU TÔ ATRASADO!
Claro que estava. Havia ido dormir tarde e os horários não eram o meu forte.
Pulei da cama e corri para o banheiro para realizar o básico da higiene matinal. Não lembrava a última vez que havia precisado tomar um banho tão rápido em toda minha vida. Parabéns, Aiki Hirose! Vai chegar atrasado no primeiro dia de aula do segundo ano do ensino médio. Começou com o pé direito!
Então fiz o que pude. E, infelizmente, não pude muito.
Por pura sorte, porque isso certamente não era da minha rotina, havia decidido organizar a bolsa com o mínimo de materiais antes de dormir noite passada. Então assim que terminei de me vestir, agarrei minha bolsa e atravessei voando a porta de entrada do meu quarto, descendo as escadas e praticamente voando para fora de minha casa.
“Deixei algumas torradas prontas. Como sabia que iria se atrasar, não quero que saia sem comer. ~ Mamãe.”
Essa mulher definitivamente sabe o filho que criou! Todos possuem compromisso cedo. Seja a mãe, o pai ou minha irmã. E meu sono pesado não era novidade para ninguém. Então o bilhete estava colado na porta, o que me fez dar meia volta apenas para pegar uma das torradas que estava sobre a mesa e voltar a sair correndo de casa.
Ao menos, o caminho foi tranquilo. A escola não era distante e uma breve corrida matinal não iria matar ninguém. Descontando algumas buzinas por ter avançado pelas ruas enquanto os sinais estavam vermelhos, mas… ei! A faixa de pedestres estava ali por algum motivo e eu estava bem disposto a usá-la!
Não demorou para que conseguisse ver os muros do colégio. 08:20. Isso significava que eu não estava tão atrasado assim. Apesar de ter sentido o celular vibrar várias vezes ao longo do caminho, acabei não tendo tempo para conferir as mensagens. Então, se eu não fosse tão azarado, iria perder apenas o início da palestra de boas-vindas. Mínima foi minha surpresa ao ver pouca gente em frente aos quadros das turmas, é claro. Todos deviam estar no ginásio. Mas ainda havia alguém ali, parado em frente às listas, como um robô com as pilhas descarregadas.
— Hey, N-Nakamura! — Seu nome falhou em minha boca devido a falta de ar momentânea em meus pulmões após a corrida. — Você atrasado é uma surpresa.
Ele soltou um pequeno guincho, pulando brevemente com o susto pela minha chegada. O que me arrancou uma risada sincera. Apoiei as mãos nos joelhos, tentando recobrar o fôlego enquanto ele se virava em minha direção com uma mão sobre o peito. Diferente de mim, ele estava muito bem arrumado. Uniforme alinhado, cabelo bem penteado e mochila sobre o ombro. Ele era bem bonito, certamente faria sucesso com as garotas se não fosse tão tímido.
— H-Hirose. — Ele gaguejou um pouco, antes de respirar fundo e voltar a atenção para as listas. Seu olhar parecia vago, bem mais do que o normal. — Na verdade, eu cheguei mais cedo.
Franzi as sobrancelhas com aquela informação. O que diabos ele estava fazendo ali então?
— E por que você não foi para o ginásio?
Suas bochechas estavam levemente vermelhas. E seus punhos cerrados. Ele voltou a encarar a lista, erguendo um dos dedos e apontando na direção de uma delas.
— Ehr… bem, é que… então, eu só… — Ele pareceu se perder nas próprias palavras. Então ergui os olhos para onde ele estava apontando. E, por algum motivo, senti meu peito apertar. — Nós…
Meus próprios olhos deveriam entregar a decepção que estava sentindo naquele momento. O sorriso sumiu de meu rosto mais rápido do que eu poderia imaginar. Não era do meu feitio fazer questão por algo tão pequeno, mas mesmo assim, não consegui esconder a frustração em minhas palavras.
— Nós não estamos na mesma sala.
Fale com o autor