A Casa Segura, 4 de maio de 2012, 6:40PM
— Pizza, grande… A maior que você tiver — Melinda May dizia para o atendente da pizzaria através do telefone.
— Me desculpe senhora, mas nós não estamos fazendo entregas hoje — o homem respondeu e ela revirou os olhos.
— Façam a minha pizza e eu já vou buscar — disse por fim e suspirou exasperada assim que desligou o telefone. Em um salto, ela saiu do sofá e arrastou-se até o quarto, onde vestiu uma calça e calçou sapatos, antes de voltar pra sala, quase tropeçando na enorme tartaruga no meio do caminho — Se você não morrer em seis meses eu juro que te mato — ela resmungou ao passar por Molly e pegou a 9mm que estava em cima do balcão da cozinha, enfiando-a na parte de trás de sua calça e cobrindo-a com a jaqueta. Após passar por todo o sistema de segurança para sair, Melinda pisou na rua, que obviamente estava um caos. A Batalha de Nova York havia sido no outro lado da ponte do Brooklyn, mas havia afetado em larga escala o bairro. De um lado para o outro, pessoas passavam apressadas e ainda assustadas, e o trânsito era absurdo. De longe, era possível ver os focos de fumaça na ilha de Manhattan, e a agente agradecia aos céus por não ser mais uma agente de campo, pois não precisaria lidar com nada daquilo. Após dois quarteirões de caminhada, ela chegou à pizzaria onde sempre fazia o mesmo pedido todas as sextas e sorriu para o atendente.
— Senhorita Shang — o homem italiano disse com um sorriso, chamando-a pelo nome falso que ela sempre usava.
— Como vai Angelo? — ela perguntou e ele respondeu que “bene”, como sempre — Eu acabei de ligar, pedi uma pizza grande.
— Claro, claro, já vai sair — ele respondeu e olhou para fora da loja por um instante — Eu tenho 36 anos e nenhum dia de minha vida foi tão estranho como hoje — comentou pensativamente e ela teve que concordar — Alienígenas descendo dos céus… Quem poderia imaginar — continuou e ela permaneceu calada, desviando um olhar rápido para seu olhar de pulso. 6:54pm, tempo de sobra pra que ela voltasse pra casa a tempo de assistir o filme que marcara na televisão — Pelo o menos nós temos esses super heróis — disse por fim e ela sentiu o repuxar de um sorriso em seu rosto, pensando o quanto Phil deveria estar orgulhoso de si mesmo.
— É, com certeza nós temos heróis — concordou e logo em seguida o pizzaiolo anunciou que eu pedido estava pronto. Rapidamente, ela entregou o dinheiro para o atendente e recebeu sua pizza, despedindo-se brevemente, antes de voltar para a rua.
Ela quase correra de volta pra casa, pois tudo o que menos queria era que sua pizza esfriasse, e assim que cruzou os dois quarteirões de volta, posicionou sua mão sob a maçaneta da porta de entrada do prédio, e aguardou que ela lesse suas digitais. O processo para chegar até o apartamento durou quase três minutos como sempre, e assim que o elevador abriu-se no segundo andar, ela percebeu que algo estava errado, ao ler no painel: “último acesso, 6:57pm”. 6:57pm, enquanto ela ainda estava na pizzaria. Silenciosamente, ela abaixou-se para colocar sua pizza no chão, e com um único movimento, ela sacou sua arma, antes de pisar para fora do elevador e caminhar pelo curto corredor até a porta que encontrava-se meio aberta. “Merda”, ela pensou com irritação, sabendo de imediato que outra pessoa estava no prédio, e essa pessoa não era Phil, que sempre fora muito cuidadoso sobre portas abertas. Cuidadosamente, ela passou sua arma pela brecha na porta e usou o quadril para empurrar a madeira, somente o suficiente para entrar. A luz do corredor de entrada estava desligada, mas a luz da sala e a televisão estavam ligadas. Com uma ultima respiração profunda, Melinda virou o corpo em direção a sala.
— Mãos pra cima — ela disse durante o movimento, com a arma apontando para frente, somente para encontrar Maria, Natasha e Clint sentados no sofá, de frente para a TV. Os três a olharam ao mesmo tempo e imediatamente se colocaram de pé — Que diabos vocês tão fazendo aqui? — ela perguntou com a voz exaltada, não muito contente com o susto que levara — Eu quase atirei em vocês.
— Que bom que você não fez — Barton rebateu e Melinda esperou ouvir uma risada em sua voz, que não veio.
— Então, vocês agora são Vingadores — falou, voltando para o corredor onde tinha deixado sua pizza.
— Aparentemente sim — Hill respondeu, com a voz muito séria e ao voltar, a chinesa fez uma careta.
— Vocês estão sérios demais pra quem acabou de salvar o mundo — comentou e colocou a pizza sobre a bancada da cozinha — Pizza de mozzarela — anunciou, abrindo a tampa da caixa — Foi o Phil que mandou vocês? Eu tô livre da minha prisão domiciliar? — perguntou enfim, após pegar um pedaço da pizza, imaginando que seu melhor amigo havia ficado preso no escritório, lidando com toda a confusão que surgira após a batalha.
— Fury nos mandou — Natasha disse após um longo olhar trocado com os dois companheiros.
— Por acaso ele quer que eu faça algum serviço de última hora? — questionou, sentindo-se perdida no meio da conversa.
— Não … Mel, a gente precisa conversar — a comandante disse com um suspiro e sentou-se no sofá. Melinda espelhou o movimento da mulher, sentando-se em uma das poltronas da sala.
— Eu imagino que o Phil tenha contado pra você sobre o Loki — o arqueiro começou, com a voz muito firme, escondendo seu real propósito.
— Ele falou sobre o roubo do Tesseract e sobre o cetro, e sobre você ter sido controlado por ele — explicou, e sentiu que os amigos hesitaram por um momento — Gente, o que vocês estão escondendo de mim? — perguntou, e colocou de lado seu prato de pizza.
— Loki causou uma confusão na base… Ele conseguiu sair do módulo de contenção onde a gente tinha prendido ele… O doutor Banner tinha perdido o controle sob o Hulk, e o aeroporta-aviões tava despencando dos céus — Natasha narrou lentamente e Melinda estreitou os olhos, desconfiada que algo bom não sairia dessa história — Loki estava escapando … Ele tinha prendido o Thor dentro da jaula onde ele tinha ficado. O Phil foi até o nosso arsenal. Ele pegou uma das novas armas, foi até onde o Loki tava … — nesse momento a voz da russa fraquejou e um calafrio subiu pela espinha de Melinda. “Ele está morto”, uma voz ecoou no fundo de sua cabeça, e ela se forçou a se livrar de tal pensamento. “Ele está morto”, essa voz gritou dessa vez, e a mulher sentiu sua respiração engatar.
— Ele … — ela começou e teve que pigarrear para continuar — Phil… ele morreu? — perguntou, com um nó se formando em sua garganta.
— Quando os médicos chegaram, não tinha mais nada que eles pudessem fazer — Hill declarou, e uma carranca se formou na expressão de Melinda, que involuntariamente colocou-se de pé.
— Audrey… Ela já sabe? — perguntou imediatamente, sentindo um tremor em suas pernas e mãos.
— O Diretor foi para Portland, ele vai avisá-la — a comandante informou, um pouco surpresa com a pergunta da amiga.
— E sobre o funeral? — ela prosseguiu, de costas para os amigos.
— Fury já cuidou de tudo — Natasha garantiu — Daqui a dois dias, em Manitowoc.
— É claro… Ele queria ser enterrado ao lado dos pais — Melinda disse involuntariamente, apoiando suas mãos no balcão da cozinha — Quanto tempo até a SHIELD vir fazer a limpa no apartamento? — questionou, tentando o seu máximo para manter suas emoções em cheque.
— Setenta e duas horas ... — Barton informou e levantou-se, antes de caminhar lentamente na direção da chinesa — Nós conversamos com o Diretor… Tudo o os pertences pessoais do Phil agora são seus, incluindo o carro e a tartaruga.
— Lola — ela corrigiu-o automaticamente — E Molly é um jabuti — disse por fim, antes de sentir uma mão em seu ombro. Seu primeiro instinto seria se afastar, mas naquele momento, sentia-se frágil demais para recuar.
— May, se você precisar de qualquer coisa … — o arqueiro começou a dizer, mas ela interrompeu-o.
— Clint, eu vou ficar bem — garantiu, e virou-se para o homem, mesmo sabendo que sua expressão facial dizia o contrário, e sentiu seu coração partir-se ao ver o quanto o homem parecia ferido.
— Ele era o melhor homem que eu conhecia — sussurrou, e fungou um segundo depois. Maria e Natasha haviam se aproximado também, e pareciam tão abaladas quanto o arqueiro.
— Nós não seríamos nada sem ele — Hill comentou em voz baixa e os outros três concordaram com um resmungar baixo.
— Ele salvou minha vida, mais de uma vez — Nat relembrou, e forçou um sorriso de canto.
— Nós vamos ficar bem — Melinda prometeu, com uma força que a surpreendeu, e mesmo sentindo os olhos ardendo em lágrimas, ela manteve-se firme. Ela sabia que se quebrasse, se demonstrasse toda sua fraqueza naquele momento, arrastaria os três agentes mais jovem junto. Os três agentes que sempre correram para ela e Phil em busca de apoio nas horas mais difíceis, e que agora só tinham a ela para recorrer — Nós vamos ficar bem, eu prometo — insistiu, e colocou uma mão sobre o rosto de Hill e a outra sobre o rosto de Natasha, que posicionaram-se ao lado do homem — Nós vamos ficar bem … — ela repetiu mais uma vez, mais para si mesmo do que para os outros, e antes que pudesse evitar, estava no centro do abraço mais sincero já compartilhado entre seres humanos tão mortais.
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