Novos Rumos

11 Capítulo 11


Por Elisabeta

Eu mal podia acreditar no que Darcy acabava de me contar, tudo não havia passado de uma armação para nos separar. E eu fui burra o suficiente para cair naquela armadilha sem pestanejar, eu sabia que aquele suposto Darcy da carta era uma afronta ao caráter que o meu Darcy tinha me provado ter, mas eu preferi acreditar que havia me enganado e que ele não passava de um mentiroso. Na época Jane havia me aconselhado a procurá-lo e eu preferi ignorar o seu conselho, se eu tivesse ouvido a minha irmã, agora tudo poderia ser diferente.. mas não adiantava chorar o leite derramado, não adiantava sofrer por algo do passado quando o futuro parecia assustador. A minha atitude de ir embora fez com que eu decidisse também ocultar de Darcy o fato de termos um filho, e saber que ele não teve culpa de nada me faz sentir um enorme remorso. Remorso e medo. Remorso por ter privado Darcy e Thomas de um convívio de pai e filho, e medo de que Darcy nunca me perdoasse por ter feito isso.

E para piorar tudo teve a entrada daquela moça na sala de Darcy, invadindo o nosso almoço e a conversa mais importante que já tivemos em anos. Eu estava prestes a contar a Darcy sobre nosso filho, estava receosa pela sua reação mas não podia mais escondê-lo, ele tinha o direito de saber que tinha um filho e Thomas também tinha o direito de conviver com o pai. Mas a entrada acabou com tudo, vê aquela mulher vestida daquela forma, oferecendo vinho e diversão a Darcy, entrando sem permissão como se já estivesse acostumada a fazer aquilo, me fez pensar que talvez durante esses anos eles tivessem algo, talvez ela fosse sua namorada.. essa constatação me fez ferver de raiva, imaginar Darcy com outra, beijando outra, aquela mulher.. eu não consegui raciocinar, peguei minha bolsa e me encaminhei para a porta, Darcy ainda tentou intervir mas eu estava decidida. E sai pisando duro. Com todo ciúme que eu nem sabia que existia em mim, me consumindo.

Quando cheguei em casa, agradeci a Jane por mais uma vez ficar com Thomas e informei que havia enviado uma carta para papai pedindo que ele viesse a São Paulo, pedindo que ele fosse discreto, eu contaria a ele sobre o seu neto e disse a Jane que ele estava para chegar e pedi que ela viesse passear conosco, ela no entanto disse que apesar de estar morrendo de saudade de Seu Felisberto eu precisava conversar com ele a sós, depois ela falaria com ele. Eu assenti e comecei a arrumar Thomas para o encontro, queria deixá-lo adorável para conhecer o avô.

— Mamãe, eu não gosto dessa roupa, está muito calor.

— Meu amor, é só até você conhecer o seu avô, depois eu prometo que você poderá retirar. — disse tentando convencê-lo a ficar com o pequeno terno.

— Os sapatos também? — disse em expectativa — Mamãe eu não vejo a hora de conhecer o meu avô!! Vamos logo!!

— Calma, garotinho. Nós já vamos sair, deixa só eu achar a minha bolsa. E nada de tirar os sapatos hein..

Caminhei de mãos dadas com Thomas até a pracinha onde havia combinado de encontrar com papai, e quando o vi sentado em um dos bancos, a emoção tomou conta de mim. E o chamei de longe:

— Papai! — ele virou na direção em que chamei e seu sorriso se abriu e ele veio rapidamente na minha direção me abraçando.

— Minha filha querida! Minha número 1, que saudade eu estava de você!! — ele me abraçava apertado e tentava a todo custo conter suas lágrimas.

— Ah pai, eu também morri de saudade de você. De todos vocês! — depois do abraço ele notou o meu menino que segurava a minha mão e o olhava com curiosidade.

— E quem é esse garotinho? — dito isso ele me olhou e percebeu que eu chorava, estava emocionada.

— Papai..

— Não me diga que.. — ele pareceu entender tudo.

— Sim, esse é Thomas, pai. O seu neto! — agora as lágrimas rolavam em meu rosto sem pedir licença.

— Ei garoto, você não vai da um abraço no vovô? — ele abriu os braços e Tom correu para abraçá-lo.

— Vovô!! Eu estava ansioso para conhecer o senhor.

— Ele é lindo, Elisa. Mas como.. Porque você não nos contou? — ele parecia confuso.

— Eu vou explicar.

Me abaixei ficando na altura de Thomas e falei com ele, retirando parte do seu terno, como havia prometido.

— Meu amor, a mamãe precisa conversar com o vovô, o que você acha de ir brincar com as crianças nos brinquedos.

— Supimpa! Eu posso mesmo?

— Claro meu amor, mas não saia de perto!

Quando Thomas saiu eu tentei me explicar, ele me questionou o fato de ter me mudado sem informá-los para onde iria e sem dar notícias, eu contei a ele o episódio da carta de Darcy, explicando logo em seguida que tudo não havia passado de uma grande armação, desabafei com papai todos os meus medos e receios, e ele tentou me tranquilizar.

— Calma minha filha, eu sei que tudo irá se resolver. Mas me prometa que irá pensar antes de tomar qualquer atitude, agora você não age mais só por você, precisa pensar no meu neto, no melhor para ele.

— Eu sei papai, eu prometo. Eu estive mais cedo com Darcy, eu iria contar a ele que temos um filho mas fomos interrompidos por uma moça, e eu acabei me vendo dominada por ciúmes, eu preferi me retirar e acabei não contando nada a ele. No final das contas acho que agi mal. — nesse momento fomos interrompidos por Thomas.

— Mamãe, vovô! Estou com sede, será que não podíamos tomar um sorvete? Por favorzinho?! — ele me lançava aquele olhar de pidão e eu tinha vontade de apertá-lo.

— Claro que sim. Agora que eu conheci o meu netinho vou mimá-lo e fazer todas as suas vontades. Não é isso que os avôs fazem? — meu pai disse rindo.

Caminhamos até a sorveteria e lá continuamos conversando enquanto degustávamos de um delicioso sorvete de chocolate.

— Pai, eu gostaria de saber como estão todos? Estou com tanta saudade das minhas irmãs, da mamãe, de tornado. Com tanta coisa na minha cabeça acabei esquecendo de perguntar para Jane e durante os anos conversando por cartas, não da pra saber de tudo.

— Estão todos bem filha, morrendo de saudade de você. Elas não sabem o que vim realmente fazer em São Paulo, disse que viria a negócios. Mas vou atualizá-la. Cecília e Rômulo estão mais felizes do que nunca, sua irmã teve dificuldades para engravidar durante anos mas adotaram um bebê, Mário, e estão radiantes de felicidade, o menino é um encanto. Bom, Jane você já sabe, teve um filho com Camilo e voltaram às boas com Dona Julieta. Mariana está casada com Coronel Brandão e grávida, também muito felizes. E Lídia está noiva do Sargento Randolfo. Tornado está muito bem também, cuidamos dele como se fosse um filho — nós rimos — e sua mãe está muito feliz com o rumo das coisas, mas ela sente sua falta filha, por vezes a encontrei chorando preocupada com você.

— Ah Papai, eu lhe chamei aqui exatamente por isso, não quero mais ficar ausente da vida de todos. Perdi o casamento de Mariana, o nascimento dos meus sobrinhos, privei meu filho do contato com a nossa família.. eu não quero mais isso. Quando você retornar, quero que conte a todos tudo o que lhe relatei e diga que em breve eu e Thomas estaremos no Vale para matar a saudade de todos.

— Pode deixar, filha. Acho melhor nós irmos, já está tarde, Thomas já dormiu sobre a mesa e amanhã eu volto cedo para o Vale.

Dizendo isso, peguei meu filho no colo e nos encaminhamos para a saída do estabelecimento. Papai insistia para que eu desse Thomas para ele carregar.

— Filha, me deixe carregá-lo, ele deve estar pesado.

— Obrigada pai, mas não é necessário, eu já estou acostumada e amo esses momentos com ele tão pertinho de mim.

— Elisa, e sobre a escola, se você precisar de ajuda para pagá-la conte comigo.

— Fico muito grata pai, mas não quero incomodar, eu já estou em um emprego, consigo pagar.

— Filha, não seja orgulhosa, eu quero ajudar, afinal, é o meu neto.

Nesse momento esbarramos com Camilo, que ficou surpreso por nós ver.

— Elisa, meu sogro! Como estão? — ele nos cumprimentou.

— Estamos bem, e como está minha Jane e Ian? — papai respondeu percebendo meu nervosismo.

— Estão bem também, estou indo buscá-los na casa de minha mãe. Bom eu vou indo. Ah, Elisa seu filho parece ser um belo garoto!

— Obrigada, Camilo! — foi só o que consegui dizer antes de sair praticamente fugida, com o medo tomando conta de mim.

Papai me seguia e tentava me tranquilizar em vão. Chegamos a pensão e nos preparamos para dormir, e eu só pensava no que aquele encontro com Camilo poderia atrapalhar nos meus planos. Já imaginava Darcy vindo atrás de mim me cobrando por não contar a ele sobre nosso filho. Me culpando por todos os anos que passou longe de Thomas. E nessa noite eu não consegui dormir.

O dia já dava sinais e a luz já entrava pelas janelas, papai se preparava para voltar ao Vale quando Jane chegou para ficar com Thomas, eles conversaram e mataram um pouco da saudade antes dele partir. Informei a Jane que precisaria ficar até mais tarde no trabalho hoje e ela me garantiu que poderia cuidar de Thomas, enviaria um bilhete a D. Julieta pedindo que ela ficasse com Ian após a escola. Eu a agradeci e disse que amanhã mesmo iria procurar uma escola para Thomas.

Segui para o trabalho, tentava me distrair de tudo o que havia acontecido durante o dia anterior. Resolvi arrumar alguns livros em um dos corredores mais calmos da biblioteca, ele estava vazio e silencioso como de costume, estava precisando de um pouco de paz para colocar minha cabeça no lugar, aqui parecia ideal. Mas constatei que ela duraria por pouco tempo quando ouvi passos atrás de mim. Me virei e notei que ele vinha na minha direção, um medo me consumiu e imaginei Camilo contando tudo a ele e ele vindo tirar satisfações comigo. Darcy continuava caminhando até mim e eu não sei como consegui me manter de pé, eu tremia, minha respiração parecia falhar a cada passo, até que não havia mais distância alguma entre nós.

Notas finais
Sei que todo mundo tá ansioso pela aproximação, mas calma que já já ela vai acontecer. Gostaria de pedir que vocês comentassem o que estão achando e suas sugestões pra história. Desde já agradeço a todos que acompanham.