Novos Horizontes
5 First Blood
Notas iniciais
Se passaram cinco meses desde o meu primeiro dia treinando. Descobri que na verdade o meu treinador sabia de tudo um pouco, que era mestre em Ninjutsu e professor de Kung Fu, assim que como criança ganhou alguns campeonatos com o boxe. Só tem um detalhe, quando ele disse que os treinos eram puxados, não sabiam que eram de um nível tão grande assim, geralmente mal aquentava andar pro trabalho depois.
Minha rotina ficou meio assim: Sair as quatro da manhã pra treinar até as oito, voltar pra casa, tomar um banho e ir para o trabalho, ficar lá até as seis da tarde, voltar para o treino, que graças a deus envolvia apenas aprimorar os sentidos, até as dez, ficar um pouco com as garotas e dormir; folga apenas aos domingos, se tivesse sorte. Mas pelo menos fazia progresso rápido, bom pelo menos física e mentalmente. Ele não ensinou um golpe ou kata, apenas me passava exercícios físicos ou me botava pra correr, sempre com pesos, ou me forçava a meditar. Quando eu perguntava o porquê, ele apenas me nocauteava e dizia que ainda era fraco.
Minha irmã Carla ainda trabalhava e malhava o suficiente pra manter a boa forma, alem de duas vezes por semana fazer aulas de muay-thai, segundo ela pra “Deixar a barriga lisinha e o bumbum durinho!”. Já a clara apenas fazia dieta e passava o resto do dia ora navegando, ora escrevendo algo no seu caderno, além de vez ou outra procurar por qualquer indício que exista outra pessoa como eu, mas sempre sem sucesso. Sem contar que saia de forma misteriosa, voltando com caixas fechadas que trancava em um dos quartos vazios.
Passamos para o ano de 2016, e nada de novo aconteceu. Até o dia cinco de fevereiro. Algumas pessoas desapareciam na nossa região metropolitana, mas sempre sumiam pessoas, não houve um grande aumento na lista de desaparecidos, mas uma vez um cara ligou pra polícia, na cidade vizinha, e disse que um cara pulou do prédio de três andares, e apesar de uma das pernas ter se partido, ele apenas a colocou no lugar e correu atrás dele, pedia socorro cada vez mais desesperado e os últimos segundos foi apenas gritos histéricos da vítima.
O celular foi encontrado junto com as cinzas de uma pessoa, mas não podia se ter certeza de ser o cara, por que os dedos, dentes e o sangue dele desapareceram, os outros meios de se confirmar demorariam em torno de um mês. Tinha outro conjunto de cinzas, mas o local e o corpo indicavam que ele foi queimado vivo, uma provável queima de arquivo. Ouvimos tudo o que a Clara conseguiu, tentando ligar os pontos.
— Talvez ele tenha poder, mas lembre-se que a mente de uma pessoa pode enganá-la com o medo, além de produzir alucinações sobre algo que não conhecemos ou entendemos. – Ela disse.
— É, mas talvez... – Sentei no sofá da sala, precisava descansar, e muito disso por causa dos treinos exaustivos que tinha. Bom, às lembranças, que tinham se tornados recorrentes sempre mostravam sobre um lugar onde havia outros de nós. Não via os seus rostos, só me lembrava da sensação que me passavam, a maior parte era medo ou terror. Mas uma se mostrou útil agora. Um deles tinha a habilidade de um morcego, junto com outras partes de DNA aleatórios. A combinação disso, dentro de um agente transmissor, causou transformações nele, criando uma espécie de vampirismo, podendo transmitir para os outros. Lembro dele tentar me morder. Aquilo foi... estranho, eu tentei ler o DNA dele, mas obviamente não daria certo.
Talvez pudesse? Não devia pensar nisso agora, o meu foco é se ele escapou. Ele não podia ter escapado de lá, os que podiam transmitir as suas “mutações” por meios tão simples quanto um aranhão ou mordida devia ter guarda reforçada.
— Talvez eu saiba quem seja, mas será difícil de verificar.
— Por que? – A Clara perguntou.
— Por que ele deve de atuar apenas a noite, o que podemos fazer é ir lá e verificar alguma coisa.
— Mas vê se não some Paulo Oliveira. — Disse a Clara com um pequeno sorriso.
— Eu? Sumir? Imagina! — Disse antes de bater a porta.
Saí, fui primeiro até o local onde a Clara indicou de onde a vítima fez uma ligação. Avaliei o local, o prédio de onde a vítima diz que ele pulou, mas nada que indicasse quem foi. Havia apenas um ponto onde o nosso suposto “vampiro” provavelmente caiu, estava um pouco rachado, com a marca de dois sapatos tamanho 43. Fui até onde a vítima foi encontrada, não pude fazer muita coisa, pois a polícia já estava no caso e não deixariam entrar. Investiguei os arredores dos dois lugares, os vizinhos deram a desculpa de sempre: não viram nada, não sabem de nada, não escutaram nada. Esperei escurecer, talvez aparecesse apenas à noite, então saí atrás de algum inseto pra absorver.
Procurei pelas fachadas, em um monte de entulho e algumas lixeiras, encontrei apenas formigas e uma aranha, que logo coloquei em um pote, pra caso precisasse fugir. Procurei por mais alguma coisa, mas não tinha nada, além disso, então peguei uma das formigas e tentei absorver. Senti a palma da minha mão coçar, era como sentir cócegas nos pés. Dela saiu um pequeno filamento, da espessura de um fio de cabelo, totalmente branco. Ela se contorcia de um lado para o outro. Achei que fosse algum verme, então tentei retirá-lo a força, mas cada vez que puxava, sentia uma dor enorme.
“Não pode ser! I-Isso faz parte de... mim?”. Por mais que eu tentasse compreender, aquilo era surreal. Ele se retraiu devido as puxadas, a formiga que estava na minha mão fugiu. Peguei outra no chão e me concentrei mais uma vez focando no meu poder. O filamento voltou a sair, de forma mais lenta, como se esperasse ser puxado de novo, pronto pra fugir a qualquer momento. Relaxei, agora que entendia que, de alguma forma, aquele “verme” fazia parte de mim. Ele se estendeu por mais dez centímetros, se remexeu na minha mão lentamente e, em um movimento rápido, envolveu as pernas da formiga, impedindo-a de escapar. Outros desses “vermes” saíram da minha mão e começaram a perfurar a formiga, ela começou a brilhar levemente, um ponto na minha mão começou a brilhar também, ela começou a afundar nele e desaparecer completamente.
Não senti nada por alguns instantes, até que a minha pele se tornou mais rígida. “O exoesqueleto, esse é meio óbvio”. Senti meus músculos se contraírem relaxar rapidamente, me causando uma dor enorme, mas cessou rapidamente, me sentia mais leve, mais... forte. “Eles se fortificaram, mas... A força da formiga! Como fui estúpido! Elas suportam dez vezes o próprio peso, devia me fortalecer pra poder fazer isso.”. Senti um gosto ruim na boca, cuspi em um gramado qualquer. O local onde ele acertou fumegou levemente, e as plantas atingidas derreteram. “Ácido Fólico! As formigas produzem isso em pequenas quantidades, e atacam os predadores com elas e suas quíceras.” Não senti grandes alterações além dessas, mas lembraria de alguma coisa mais tarde.
Sorri, com certeza aquilo me ajudaria a enfrentar o vampiro. Se eu o achasse. Retirei e entrei a forma da formiga várias vezes, pra que não me cansasse como a última vez, dei diversas voltas no bairro, mas nada de diferente. Já era tarde da noite, mas não tão tarde pra não haver ninguém nas ruas. “Deve ser o recente assassinato.”. Devia ser umas dez da noite quando decidi voltar. Precisava ver como as minhas irmãs estavam afinal, saí correndo de lá pra ir atrás de algo que nem sabia se existia.
Caminhava até onde estava o meu carro, devia estar a uns três ou dois quarteirões de distância, não demoraria a encontrar. Ouvi um silvo no ar, virei a minha cabeça pra ver de onde vinha quando uma das luzes do poste explodiu. Ouvi o mesmo barulho e a Lâmpada do outro lado da rua estourou. Depois a que ficava próximo de mim, me deixando totalmente no escuro. Uma pedra caiu do poste, indicando que ele as estourara assim. Enfiei a mão no bolso, procurei pela formiga, mas eu devo ter perdido em algum lugar, então peguei a aranha e a absorvi. Esperei alguns segundos e tentei ver ao meu redor.
Antes que pudesse abrir os olhos, senti um soco acertar o meu peito, me arremessando a dois metros distância dele. Senti a pele do peito quebrar, se não estivesse com ela teria morrido na hora. Senti a minha mão coçar, liberei a aranha, mas ela já estava morta. Meu peito doía bastante, mas nada estava quebrado. Tentei procurar algo ao redor, mas o que me acertou colocou os dois joelhos em cima da minha barriga e tentou me morder. Tentei me proteger com o braço, mas ele logo afastou com um soco, quebrando-o. Ele pegou minha cabeça e a segurou firme, abrindo um espaço no lado esquerdo do meu pescoço.
— Eu amo quando as minhas presas lutam! O sangue ferve, fica muito mais saboroso! – Ele disse. Com a outra mão, ele segurou firme o meu ombro e abriu a boca. – Não vá gritar muito, não quero chamar muita atenção.
— Não quero mesmo. – Como meu último recurso, tentei usar o meu poder nele. Coloquei a minha outra mão no seu rosto e me concentrei, os filamentos saíram e logo adentraram na pele dele, sentir cortar a carne até o osso, furando-o e chegando a medula. Ele urrou de dor, saltou de cima de mim e tentou fugir. Escutei os gritos que ele dava, quase não escutava, mas indicava onde estava, apesar de não ver nada. Corri atrás dele, a medida que corria a minha visão melhorava, senti o meu braço fumegar, instintivamente segurei-o firme e puxei, colocando-o de volta no lugar. A pele e os músculos, assim como o osso, logo se curaram, não deixando nem mesmo uma fina cicatriz. Corri o mais rápido que pude, Ele me levou até um descampado, onde se encontrava outras duas pessoas uma em pé vigiando o perímetro e a outra sentada em um tambor. Eles olharam pra mim, depois voltaram a conversar.
— È ele mermo Zé?
— É, num vai avacaiar os esquema de novo!
— É ele mesmo, acharam ela?
— Foi sussa. – O que estava sentado no tambor se levantou e tirou o mesmo, lá em baixo estava uma garota, a Carla.
— O negócio é o seguinte ô purpurina. Ocê se entrega e noiz não transforma ela.
— Aceito — disse a ele rapidamente. Olhei para o chão e vi uma formiga, aquela era a minha chance. Ajoelhei-me no chão e implorei. – Mas por favor, não machuca ela!
— Foi assim tão fácil? – O tal de Zé sussurou para o que segurava a Carla.
— Noiz já brinco cá novinha! Ela é toda sua! — Ela andou até mim, eu continuei ajoelhado. Vi os seus ferimentos, os cortes, o jeito como mancava, e...
— Vocês a violentaram? A-A morderam?
— O chefe disse que você obviamente não cumpriria o acordo, não esperávamos que você aceitasse. Intão... – o tal Zé disse.
— Vocês... – Senti o meu corpo queimar, aquilo, aquilo era... imperdoável. Coloquei a mão no máximo de formigas que pude e as absorvi. Senti o meu corpo gritar de dor, mas não importava. Minha pele ficou mais firme do que o de costume, algumas placas cresceram no meu corpo, como uma armadura. Nas laterais do meu corpo saiu um novo par de pernas, idênticas as de uma formiga, meus olhos racharam, mas a visão continuava a mesma. A minha mandíbula estava mais forte, meus dentes mais pontudos, saíram um par de antenas da cabeça, comecei a sentir o ar e o ambiente ao meu redor. Mas nada importava, eu só sabia que eles pagariam pelo que fizeram a Carla.
— Que porra é essa?
— Cê tá loco! O chefe que se foda eu vô vaza daqui!
Antes que pudessem sair, parti pra cima deles, mas não tinha controle sobre o meu corpo, a única coisa que importava era matá-los, fazê-los sofrer, por tudo. Quando dei por mim, estava em casa, coberto de sangue a Carla chorava abafado no colo da Clara. As formigas se foram, os poderes extras também. Olhei para as minhas mãos, elas estavam cobertas de sangue.
— O que aconteceu? – Me ajoelhei do lado delas, mas elas se encolheram, elas sentiam medo de mim. – Eu.. Eu não machuquei vocês! Eu... machuquei?
— Seu monstro! Vou fazer você pagar! — A Carla olhara pra mim, seus olhos estavam vermelhos, as presas estavam maiores, ela partiu pra cima de mim, coloquei o meu braço na frente pra me proteger, ela o agarrou e o mordeu o antebraço com força, senti o osso quebrar, gritei de dor, ela só sugava o meu sangue com cada vez mais força.
— Não... vou lut... – Minha visão embaçou, a Clara empurrou a Carla, ela saiu de cima de mim, tombei a cabeça pro lado, a vi em cima da Clara, mas ela não mordeu, parece que ela se acalmou e voltou a chorar.
— Precisamos ajudar ele! – A Clara disse, mas soava como um eco distante.
— Ele? – Ela disse em meio às lágrimas. Ela olhou na minha direção, os olhos voltaram a cor original, ela se aproximou de mim, as mãos tremiam, ela estendeu e tentou me tocar, mas antes de afastar eu peguei-a com o braço bom. Absorvi apenas parte do poder, mas não adiantou muito.
— Paulo, pode dormir, eu garanto que você não morre! – A Clara disse com convicção. Não resistiria tanto tempo mesmo, então fechei os olhos e adormeci.
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