Novos Horizontes
2 Awake and alive
Notas iniciais
Eu caminhava calmamente pelas ruas da minha cidade, estava novamente atrasado, atualmente só conseguia me atrasar pra tudo. Era sozinho, como todos já esperavam de mim, não tinha nada nem ninguém. Meus pais morreram ano passado, em um acidente. Pelo o que a perícia disse, estavam em um ônibus de viagem, rumo ao Mato Grosso do Sul, queriam ver o Pantanal, mas o ônibus perdeu o controle matando dez dos treze ocupantes, inclusive eles. Mas os sobreviventes disseram que o ônibus capotou por causa de um cara parado na pista, o cara acertou um soco na lateral esquerda, fazendo-o perder o controle e capotar. Além disso, ele matou sete dos dez, apenas com as mãos, quebrando os seus pescoços. Mas é óbvio que isso é mentira.
Depois de tudo, minhas irmãs, foram para os meus tios, já que a justiça decidiu que era jovem demais para cuidar de duas “crianças”. Eu, por outro lado, fiquei sozinho. Eu devo de ter no momento uns dezenove anos, cabelos e olhos negros, pele clara, não fazia o tipo galã de novela, mas com certeza conseguia qualquer garota se tentasse, mas, por ironia do destino, eu era tímido. Eu tenho 1,79 de altura, peso cerca de 75 quilos, e podia dizer com orgulho que nada daquilo é gordura, mesmo sem ir a academia. Gostava de cores neutras, odiava chamar a atenção, principalmente numa cidade violenta como essa, sempre tendo ao menos uma peça preta. A única coisa que eu não desgrudava nunca era o colar que os meus pais me deram, era uma cruz, ela tinha pontas em forma de setas, mas nenhuma delas era reta, elas eram feitas de curvas leves, era totalmente prata com uma pedra azul no centro, ela de certa forma emitia um brilho especial, sempre a deixava debaixo da blusa, mas sempre estava comigo.
Caminhava mais rápido, não podia me dar o luxo de perder outro emprego. Foi quando uma van parou a alguns metros de mim, saíram dois homens com roupas pretas, com duas armas apontadas pra mim, me deram ordens para entrar na van.
Saiu da manga direita da minha blusa um bastão tático retrátil, sempre andava com ele para casos assim, acertei a mão do primeiro, ele deixou a arma cair, o segundo ameaçou atirar, mas dei um chute entre as pernas dele, ele caiu ajoelhado, com a mesma perna chutei o seu rosto, fazendo-o cair apagado no chão, virei a tempo de impedir um soco, mas alguém colocou um pano no meu rosto, me forçando a respirar um líquido que me deixava cada vez mais tonto, até eu desmaiar.
...
Acordei em um galpão, não entendi o porquê do meu sequestro, nem conseguiria raciocinar direito naquele estado, “preciso descansar um pouco, esperar o efeito passar.”. Depois de alguns minutos de olhos fechados, escutei passos, pareciam que quatro pessoas entraram lá, todas tinham o mesmo padrão, como se marchassem. Um deles, o que me enfrentou primeiro falou:
— Tem certeza que é esse garoto, senhor?
— Tenho sim, soldado! Ele é o 62 B, um projeto nosso à parte. Ele vai conosco para a Alpha, preciso testá-lo e ver se já está apto para a fase dois. – A voz dele era autoritária, com certeza ele devia ser o líder. Nunca vi bandidos se referirem uns aos outros como “soldado”. Escutei alguns murmúrios como, “ele parece fraco!”, “será que ele não se enganou?”, foi quando o líder disse mais uma vez. – Todos vocês, quietos! Eu tenho certeza que é ele, nós o vigiamos há anos! Se eu disse que ele faz parte do projeto Nova Gênesis, é por que ele faz! Se me questionar de novo soldado, garanto que se conseguir trabalhar de gari vai ser muito! — Eu fingi que acabara de acordar, eles rapidamente me doparam de novo.
...
Acordei dentro de um lugar branco, depois de alguns segundos vi que estava vestido com uma roupa hospitalar, tinha alguns aparelhos ligados a mim, indicando que estava vivo, vez ou outra ouvia o bip da máquina. Não conseguia me lembrar de muita coisa, apenas que precisava fugir. Retirei as ventosas do meu peito, a máquina começou a apitar muito alto e rápido, denunciando minha fuga. O médico logo apareceu à porta, e antes de fazer qualquer coisa, ele me dopou de novo.
Acordei com um dos meus tios me observando, ele parecia bastante cansado.
— Vê se não tenta fugir outra vez! – Ele disse fingindo um sorriso. Eu olhei para o lugar, ainda era o mesmo quarto, do meu lado tinha um pote de gelatina. Ele a pegou, abriu e entregou pra mim. – Vamos lá, come.
— Há quanto tempo eu tô aqui? – Eu disse pegando o pote.
— Aqui, quatro meses, sumido, há uns seis. – Eu deixei o pote cair. SEIS MESES! Era muito tempo, foi antes de ontem que eu fui sequestrado.
— Não pode ser, ontem foi 5 de maio, o meu aniv...
— Hoje é 27 de novembro. – Agora era o momento que eu piraria, mas estava cansado demais pra isso. – Você ainda mora sozinho, mas a sua casa já está pronta. Não sei porquê construir algo tão grande se você é solteiro, mas eu e o José tocamos a obra. – Ele disse, pegando uma das vasilhas e comendo.
— E os meus móveis?
— Eles eram bastante velhos, então com a sua parte da herança, compramos tudo novo e terminamos a sua casa. Como criamos as suas irmãs, passamos a guarda delas pra você e ficamos com o restante da herança como... um prêmio de consolação.
— Como assim? Vocês não tinha o direito de fazer isso! Eles deixaram tudo pra mim e para os meus irmãos!
— E vai fazer o que? Levar a gente pra justiça? Quando você desapareceu, e depois ficou em coma por três meses, os médicos disseram que você não ia mais acordar, então a justiça liberou o uso da herança pelos responsáveis legais das suas irmãs, ou seja, eu e a sua tia. Mas um dia depois de ter passado a guarda, você mostrou sinais de melhora, então eu e sua tia decidimos construir e mobilhar a sua casa. Devíamos ter te deixado com nada, tem é que agradecer por isso! – Eu ameacei me levantar, mas uma dor enorme vinda das costas me impediu. Logo em seguida as minhas irmãs entraram no quarto, meu tio se retirou, deixando-nos as sós.
Minhas irmãs eram gêmeas, tinham dezesseis anos. Eram gêmeas idênticas, as diferenças ficaram por pequenos detalhes, que elas faziam questão de evidenciar, seja pelo estilo, seja pela personalidade; a Carla, tem cabelos avermelhados e lisos, olhos castanhos, pequenas sarnas no rosto, dorso e costas, dando m charme e beleza que me encantava, até mesmo a mim, que sou irmão dela; era teimosa, pavio curto e completamente impulsiva. A Clara, como o próprio nome diz, era branca, olhos azuis e cabelos castanhos, mas ela sempre pinta de preto porque acha que combina mais, e ela não está totalmente errada; Era o oposto da irmã, calma e generosa, mesmo sob pressão, sempre pensava muito antes de tomar qualquer atitude. Eu acabei sendo o meio termo, mais a responsabilidade de ser o mais velho. Ambas tinham 1,70m, tinham um corpo normal ,não era acima do peso mas não eram magras como as modelos. Pensei que elas fossem me abraçar, mas eu levei foi um belo tapa no rosto das duas.
— Como você pode fazer isso com a gente? Primeiro você some do mapa, sem deixar rastro, depois nossos “amados tios” roubam a nossa herança...
— ... e você simplesmente resolve voltar do mundo dos mortos, achando que tá tudo bem? Nossa vida foi um inferno nesses últimos seis meses, apenas você impedia que eles fizessem algo contra nós...
— ... e quando eles resolvem fazer, VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI? Como acha que nos sentimos?
— Desculpa tá, se eu fui sequestrado e torturado, ok? – Elas fizeram uma cara de surpresa. Depois voltaram a fechar a cara e fazer biquinho. – Acha que eu queria ficar fora do ar por seis meses? Que eles nos roubassem? Ele teve a cara de pau de dizer isso na minha cara, que pegou a nossa herança e que fez “um favor” ao terminar de construir a nossa casa!
— Nossa casa? – A Clara olhou nos meus olhos, ela era a única que me entendia. Ela abriu um enorme sorriso ao escutar isso. – É sério?
— Assim que ficasse pronta, tiraria a guarda de vocês deles e passaria pra mim.
— Desculpa, a gente não sabia. – A Carla se desculpou, ambas sentaram na cama e me abraçaram. – Quando vamos pra lá?
— Se ele tiver terminado mesmo, assim que tiver alta. – O médico chegou, me examinou e me deu alta naquele dia mesmo. Seguimos nós três até a casa, ela ficava na parte mais afastada da cidade, eu na verdade preferia assim. Era cercada por uma mata, o caminho até ela é por uma estrada de pedra. A casa tinha dois andares, no segundo andar ficava seis quartos, apenas três era mobilhados, o meu era uma suíte, uma cama de casal, um guarda-roupas de seis portas, um criado mudo, todos eles da cor mogno, uma estante com uma TV 29’ e um XBOX360 com alguns jogos, uma escrivaninha embaixo da janela com um note por cima dele; tinha outro banheiro no fim do corredor, ambos eram todo revestido de preto e azul.
O primeiro andar tinha uma sala, mobilhada com um conjunto de sofá dois e três lugares, uma estante simples com uma TV 40’ e um DVD barato, além de alguns livros e filmes, uma mesa de centro com um jarro de flores artificial. A sala de jantar era uma mesa longa, com espaço para doze pessoas, e um pequeno armário, onde se guarda um conjunto de doze louças de cristal. Embaixo da mesa tinha um carpete vermelho que combinava com o piso de madeira.
A cozinha era toda branca, enorme, no centro ficava uma bancada em granito, encaixada nela estava a pia e um fogão seis bocas; as paredes tinham armários, com mantimentos e os utensílios necessários. No final, sobraram dois cômodos vazios e um banheiro branco e bege simples.
— Ele COMPROU móveis NOVOS? – A Carla olhava pra tudo com um ódio. – Esses são os móveis deles, eles compraram tudo novo e nós ficamos com os restos! Ah, mas eu mato aquele filho da puta.
— Você não vai matar ninguém. Apenas senta e relaxa um pouco! – Disse com um sorriso no rosto, apesar de sentir o mesmo que ela.
— Pensa pelo lado positivo Carla, ao menos temos móveis, e vamos morar finalmente longe daqueles psicopatas, além de ser com o nosso maninho!
— Maninho? – Eu e a Carla perguntamos ao mesmo tempo.
— É maninho! O que foi não gostou? – Ela perguntou fazendo cara de choro. Apesar de ser apenas brincadeira, eu não gostava de vê-las chorar.
— A que drama, vou tomar uma ducha! – A Carla foi até o banheiro.
— Eu gostei, não chora por isso vai! – Eu a puxei pra um abraço, não acreditava que ainda corava quando abraçava minha irmã. Eu devia de ser um pervertido mesmo.
— Ai que nojo, ai que nojo, ai que nojo!! – Ela veio correndo do banheiro, fazendo um verdadeiro escarcéu na sala. – Vai lá Paulo, tira aquele monstro dali, tira, tira ,tira!
Lá foi eu até o banheiro pegar o que sabia ser uma aranha. Minha irmã ODIAVA aranhas. Geralmente tinha que ser baratas, mas com ela era aranhas, vai entender. Caminhei até o box, era uma aranha bem pequena, aquelas bege que não faz mal a ninguém.
— Mata logo esse troço! – Ela gritou da sala.
— Vamos, pega logo isso e mata.
— Tive uma ideia melhor. – Eu sussurrei para a Clara, ela entendeu na hora e demos uma risada. Peguei a aranha e fechei entre as minhas duas mãos, começamos a sair do banheiro quando senti cócegas na palma da minha mão. “Deve ser a aranha”, eu pensei e não dei grande importância.
— O-O q-que que é-é i-isso? – As duas apontaram pra minha mão. Dela vinha um fraco brilho prateado, até que sumiu, retirei uma das mãos, a aranha não estava em nenhuma delas. Senti uma forte dor de cabeça, comecei a ter visões sobre uma cela, depois disso eu desmaiei.
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