Novos Capítulos
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Notas iniciais
Não sei se ficou muito bom, mas enfim, foi o que saiu :P Espero que gostem!
Boa leitura :D
Um longo suspiro de pesar escapou por entre seus lábios quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair sobre a janela do ônibus. Seus fones de ouvido estavam no volume máximo, e havia um livro aberto em seu colo, o qual ela deixara de ler há algum tempo. Ela fechou os olhos por alguns instantes, deixando-se levar pelas batidas da música, e seus pensamentos viajaram pelas memórias de uma época que estava sendo deixada para trás. "Um novo começo", ela disse a si mesma. Uma nova chance que a vida lhe deu de presente, a qual ela não iria desperdiçar. O passado estava cheio de erros. As linhas do livro eram tortas. Esta era, então, a oportunidade de mudar –– nunca reescrever, apenas dar início a um novo capítulo.
Ela teve muitos ao longo de sua vida, que não é tão comprida assim. Aos dezessete anos, seus olhos já conheceram diversas vezes a sensação do choro, e seu corpo estava acostumado aos soluços quase intermináveis que se sucediam às longas horas após o término das lágrimas, quando estas já haviam secado por completo, e tudo o que permanecia era aquela vazio, o qual nunca parecia capaz de ser tapado. Ela aprendeu a lidar com a dor, embora. Ela conhece muitas de suas formas, e as maneiras que estas a afetam; portanto, a cada ferida, seu conforto era ter a consciência do que viria pela frente, permitindo-lhe a se preparar e tentar amenizar o impacto. Ela nunca realmente conseguiu, mas se tornou melhor em esconder seus sentimentos.
Não há muito tempo, seus amigos a chamavam de "Rainha do Gelo". Esconder seus sentimentos e esconder-se de si mesma tornou-se uma arte que ela parecia dominar por completo. Por anos, ela deixou que todos os outros, exceto ela mesma, ditassem o modo que ela se comportava, vestia-se, falava, suas relações sociais, seu modo de viver. Apesar daquela vozinha no fundo de sua mente estar sempre gritando, sempre fazendo-se presente, ela nunca a escutou de verdade, preferindo ignorar seus desejos com medo de nunca realizá-los, como ela realmente acreditou que não faria.
E, quatro anos depois do momento em que ela pisou pela primeira vez no WMHS, ela finalmente pode se sentir completamente livre, sem amarras, deixando-se ser, deixando-se sentir, deixando-se viver –– ela aprendeu, com o passar de sua adolescência, que as decisões não são sempre fáceis, que haverá consequências, mas, se ela acreditar em si mesma, então não há motivos para temer. E com a ajuda de seus amigos, ela tentou. Ela conquistou. Dentro de um ônibus rumo a Nova Iorque, apesar da chuva embaçando a vidraça, ela ainda conseguia ver um futuro brilhante à sua frente. Um futuro onde ela poderia, de fato, encontrar a felicidade.
–– Não completamente –– ela disse, num sussurro.
Seus dedos tocaram levemente a capa do livro aberto em seu colo, o qual ela observou com carinho. Ele era um presente de uma amiga –– sua melhor amiga –– que havia sido, desde o momento em que se conheceram, a pessoa mais importante em sua vida. Ela não percebeu durante muito tempo que seu mundo girava em torno dela; aquela baixinha mandona, irritante, egocêntrica, que às vezes não media esforços para conseguir o que queria. Quantas vezes elas não bateram de frente? Quantas vezes elas fingiram não se importar quando, na verdade, faziam de tudo para garantir o bem-estar uma da outra? Quantas vezes elas enganaram a si mesmas, sendo traídas por seus olhares traiçoeiros que, em algum momento, sempre acabam voltando para o mesmo ponto? O ponto em que elas sabiam ao qual eles pertenciam. Elas sempre souberam, embora dissessem o contrário.
É engraçado como ninguém nunca percebeu antes –– nenhum de seus amigos, seus professores, elas mesmas –– quando a verdade era assim tão óbvia. Engraçado como todos fecharam os olhos e não foram capazes de ver o que estava ali, o que sempre esteve ali, e o que elas nem ao menos faziam a questão de esconder. Ela podia ser a Rainha do Gelo para quem a conhecia, mas um bom observador poderia enxergar além das aparências. E isso foi sempre o que mais a irritou sobre ela.
Rachel Berry era uma boa observadora. Ou talvez fosse apenas o sexto sentido que ela dizia ter, mas, de qualquer forma, a garota, na maioria das vezes, parecia estar um passo a frente de seus colegas, descobrindo coisas antes de todo mundo, percebendo detalhes onde ninguém mais poderia ver. Sendo irritante, na definição de todos os outros; sendo sua salvação, na definição da Rainha do Gelo. A verdade inegável era que, se não fosse pela Berry, então ela nunca teria conseguido. Foi Rachel quem estendeu a mão nos momentos mais difíceis; foi Rachel quem deu conselhos, mesmo quando ela não pedia, e eles pareciam ser a coisa certa a ser feita; foi Rachel quem a fez acreditar em si mesma, que a convenceu a lutar, quem deu o empurrãozinho inicial que foi o grande responsável por ela sua mudança.
O toque do seu celular –– Don't Rain On My Parade –– despertou-a de seus pensamentos. Ela revirou os olhos ao ver o nome que apareceu na tela, e, por alguns segundos, debateu-se sobre atender ou não atender. Soltando um palavrão em voz baixa e um suspiro de desistência, ela tirou os fones de ouvido e apertou o botão para atender a chamada.
–– "E aí, Juno?"
–– O que você quer, Santana? –– perguntou ela, bufando em irritação. –– Não posso ter um momento de paz?
–– "Por favor, vadia, você vai se livrar de mim temporariamente quando chegar em Nova Iorque, então pode ir parando com a frescura. Escuta, eu estava falando com a Britt há alguns segundos, e ela me disse que falou com a hobbit..."
–– Rachel.
–– "Com a Ru Paul, e ela já está na cidade. Sério, Q., seu ônibus está fazendo cosplay de tartaruga, ou o que?"
–– O pneu furou –– resmungou ela. –– Ficamos um tempo parados, mas vamos chegar em uns vinte minutos. Por quê?
–– "Apenas curiosidade"
–– Santana! O que você está tramando?!
–– "Relaxa aí, Rapunzel, não vai querer perder seus cabelos longos e sedosos..."
–– Eu juro que se você não parar de zoar com a Rachel...
–– "O que?" –– defendeu-se a latina. –– "Foi ela quem começou! Barbie eu até entendo, mas Rapunzel, sério? E quando eu digo que a GayBerry tem problemas mentais, ninguém acredita. De qualquer forma, espero que a droga desse seu ônibus não fure o pneu de novo. Sabe, Q., você deveria ter ido de trem, todo esse seu peso extra deve estar atrapalhando. Mas a culpa é toda sua. Quem mandou deixar as cheerios? Agora, quando voltar a ser a Lucy Ca..."
Ela desligou o celular, irritada, e o jogou no banco vazio ao seu lado. Sério, Santana precisava compreender o significado da palavra "limites", e com urgência. Soltando um pequeno gemido ao imaginar o pesadelo que sua vida seria quando Brittany saísse do colegial, e o casal Brittana se mudasse para Nova Iorque, a loira recostou-se contra o banco e passou as mãos pelo rosto, desejando algum remédio para dor de cabeça. Ela certamente precisaria de um estoque para o futuro.
– x –
Quinn pegou sua mochila, jogou-a sobre o ombro e seguiu o resto dos passageiros para fora do ônibus. Ela não havia imaginado que a viagem pudesse ser tão cansativa assim, e, realmente, tudo o que ela fez no último par de horas foi ficar sentada observando a paisagem passar com rapidez pela janela. A chuva ainda caía –– e com mais intensidade ––, e ela se arrependeu de não ter colocado nenhuma jaqueta quando desceu do ônibus e sentiu o frio cortante contra sua pele. Ao pegar o resto de sua bagagem, ela caminhou a passos rápidos em direção à estação, sem perceber direito por onde andava, e trombando com alguém que estava em seu caminho.
–– Desculpe! –– ela gritou, tentando ser ouvida acima do barulho da chuva e das conversas.
–– Você não acha meio irônico a Rainha do Gelo estar com frio?
Surpresa, a loira ergueu a cabeça e sentiu seu queixo cair em choque ao perceber que Rachel Berry estava parada bem a sua frente, um sorriso caloroso no rosto. A morena indicou o braço de Quinn com a cabeça, e a loira se tornou bastante consciente que estava completamente arrepiada –– só que, agora, não era por causa do frio. Recuperando-se do choque, ela pode retribuir o sorriso e estender os braços, nos quais Rachel se jogou sem nenhuma hesitação.
–– O que você está fazendo aqui, Rach?
–– Eu vim buscar você –– sussurrou a morena em seu ouvido. Quinn suspirou, apertando-se mais contra o corpo de sua amiga e absorvendo todo o calor que podia. Rachel deu uma risadinha e abraçou a garota com força, descansando a cabeça sobre seu ombro.
–– E como você sabia que horas eu ia chegar?
–– Você realmente acha que Santana ia te ligar assim, do nada? –– perguntou Rachel, rindo. –– Fui bastante convincente em pedir esse favor, e você sabe que ela nunca nega nada à Brittany. Queria que isso fosse uma surpresa.
–– Considere-me surpreendida –– murmurou Quinn. –– Mas você chegou há muito tempo?
–– Um pouco –– admitiu a baixinha. –– Então, vim direto para cá esperar por você.
–– Por quê?
Elas se separaram. O sorriso caloroso de Rachel estendeu-se aos seus olhos, e Quinn sentiu seu coração vacilar em uma batida. A morena pegou sua mão e a entrelaçou com a própria, dando um passo em direção à loira, invadindo seu espaço pessoal. As duas prenderam a respiração, analisando-se, seus olhos procurando por qualquer sinal de medo ou hesitação. Mas não havia algum. Se possível, o sorriso de Rachel aumentou ainda mais, e ela aproximou seu rosto do de Quinn, sussurrando-lhe:
–– Digamos que Santana tenha sido bastante honesta comigo na estação de trem, e durante todo o caminho eu só vim pensando em uma coisa...
–– É mesmo? –– perguntou Quinn, sentindo seu estômago se embrulhar, e seu coração bater mais rápido dentro do peito. –– E no que você andou pensando?
E quando Rachel respondeu, ela não precisou de palavras.
Tudo o que ela fez foi juntar seus lábios aos da garota que ela amava, sentindo-se mais feliz do que nunca por dar início a um novo capítulo de sua vida.
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