Novocaine
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Sophia estava extremamente animada para sair com James. Só precisava esperar um dia para que ele aparecesse em sua porta para busca-la, mas mesmo assim era tempo demais. Suas expectativas a respeito dele só tinham aumentado, sabendo que talvez tivesse uma chance de dar certo, e ela ainda não sabia direito como lidar com isso. Seu coração não havia desacelerado desde que tinha deixado a casa do garoto, sua mente não parando por um segundo. Ainda tentou ser produtiva, pegando o computador para adiantar alguns trabalhos, mas sua cabeça estava turbulenta demais para focar em alguma coisa. Tentou se sentar para assistir o jornal, mas se viu agitada e desconfortável, desligando a televisão rapidamente. Estava entediada e ansiosa, e não sabia o que fazer sobre isso. Acabou limpando a casa toda, deixando tudo brilhando. Tinha sido extremamente exagerada na arrumação, e a casa parecia completamente nova, como se ninguém nunca tivesse posto os pés ali dentro. Mesmo assim, só eram dez da noite, e a menina ainda não sentia sono. Da mesma maneira, só para passar o tempo, tentou dormir, mas acabou se virando de um lado para o outro da cama a noite toda, sem conseguir realmente descansar o cérebro por mais de cinco minutos. Acabou desistindo quando a luz do sol se espreitou pelas persianas, iluminando de leve o quarto. Se levantou, grunhindo, e preparou uma boa quantidade de café. Odiava a bebida, mesmo, mas sabia que não tinha outra opção. Devia se manter acordada pelo resto do dia, e cafeína era a única maneira que conseguiria fazer isso.
Lavou a xicara que usou para tomar suas cinco doses da forte bebida preta, a colocando para secar logo em seguida. Só se sentia levemente mais energizada, mas sabia que não conseguiria dormir nem se quisesse. Voltou para o quarto e arrumou a cama, ainda sem abrir as cortinas. Por algum motivo, gostava da luz amarelada que entrava aos poucos no quarto, e gostava que ficasse assim o maior tempo possível. Às vezes passava dias sem abrir as cortinas. Provavelmente só tinha liberado a janela naquele dia porque sabia que precisava de mais iluminação para desperta-la mais. Olhou para seu relógio na cabeceira e resmungou algo sem sentido para si mesma quando percebeu que ainda eram apenas seis da manhã. James só viria a tarde e ela não aguentaria mais algumas horas para que finalmente o visse. Por isso pegou rapidamente uma roupa de ginastica em seu armário, na esperança desesperada de ocupar sua cabeça com qualquer outra coisa.
Trancou a porta de casa, ajeitou os fones de ouvido e deu play em seu Ipod. Respirou fundo e começou a correr pelas ruas ali perto, como fazia quando estava estressada demais ou ansiosa. Não que fizesse isso com a frequência que seria benéfica para ela; ela só não se via tendo esse tempo todo. Não parava de estudar para a faculdade, e os momentos os quais fazia era para ler ou para sair com seus amigos, mantendo sua reputação de uma pessoa social. Corria quando dava tempo, e por algum motivo, tudo ficava melhor. Corria tanto que seus pulmões doíam, e todo o resto sumia. Os trabalhos, as expectativas sociais, a tentativa de encontrar um emprego, o terror de estar desapontando os pais, o gosto ruim na garganta quando pensava o quanto os pais investiam nela, o medo de mesmo tentando ainda estar fazendo tudo errado, o medo de apenas não ser boa o suficiente. A dor física causada pela falta de ar nos pulmões era tanta que ela esquecia de toda sua dor psicológica, e era ótimo. Era um momento em que sua mente lhe dava uma pausa, colocando todas suas energias em fazer o corpo da menina continuar funcionando. Não lembrava onde tinha ouvido falar que a corrida ajudava, mas desde a primeira vez que tentou, caiu de amores. Ela não era a melhor nisso, nem tinha um bom preparo físico para correr o tanto que corria de uma vez, mas mesmo assim, era sua terapia. Era como colocar o corpo em água quente depois de tremer de frio por horas. Era libertador.
Voltou para casa depois de duas horas. Nunca teria imaginado que tanto tempo havia se passado, mas normalmente era assim. Ela corria, parando para pegar fôlego várias vezes, mas quando voltava a se mexer não se lembrava mais de consultar o horário. Mesmo assim, ainda era cedo. Sophia teria que esperar muito até que James chegasse, e ainda era muito cedo para que fosse se arrumar. Um pouco frustrada com a notícia resolveu que faria tudo que precisava com calma, tomando um bom café da manhã e tentando acelerar alguns trabalhos. Talvez enviaria alguns currículos. Tinha tempo, e mesmo que ainda estivesse um pouco estressada, a corrida havia aliviado um tanto de sua pressão, e ela sabia que conseguiria se concentrar em algumas tarefas. E foi exatamente isso que fez; tomou seu café, adiantou trabalhos para faculdade e enviou alguns currículos. Quando terminou seus afazeres, que incluíam limpar e organizar a cozinha, seu alarme despertou no quarto, a avisando que eram dez horas; a hora que Sophia pretendia ter acordado para se arrumar. Riu um pouco para si mesma, o desligando e balançando a cabeça; talvez precisasse de mais uma xicara de café, concluiu.
Ela se arrumou rápido; o banho não havia sido demorado, nem a maquiagem. Não quis parecer muito diferente do que parecia no dia a dia, então fez o habitual, colocando muito corretivo para esconder as olheiras e uma boa quantidade de rímel, destacando seus olhos extremamente bonitos. Acabou também por passar um batom forte, um roxo quase preto, como gostava de fazer no outono. Não sabia o porquê ao certo, mas a estação sempre a deixava com vontade de experimentar batons escuros que destacassem seus lábios carnudos, mas mesmo assim pequenos. Colocou seu vestido favorito, de manga comprida e saia rodada, completando tudo com seu coturno. Nunca usava o sapato, na realidade, mas o amava. Tinha medo que as pessoas a julgassem, o que não fazia sentido, mas mesmo assim Sophia tinha medo. Mas, por algum motivo, quis muito usa-los, e então o fez. E acabara feliz com o que tinha conseguido.
Ficou sentada no balcão da cozinha, os dedos batendo impacientemente na pedra que o cobria. Estava ansiosa e não tinha combinado um horário ao certo com James. Sabia que deveria ter feito isso, mas por algum motivo desconhecido achou que era calma o suficiente para esperar alguém que não avisou quando chegava. Bem, ela não era, e apenas ficar ali esperando tinha a deixado extremamente ansiosa. Os minutos pareciam horas e a garganta da menina chegava a arder com o ácido estomacal que subia pelo esôfago, seu estresse sendo demais até para seu corpo aguentar. Puxou o computador para perto de si e procurou algo para fazer, mas realmente nada a animava o suficiente. Foi então que sua campainha tocou, e o coração da menina bateu tão forte que ela podia ter jurado que sua pele havia rompido com tal intensidade. Não só porque James estava ali, mas também pelo susto que havia levado. Ela se assustava fácil, e o fato de alguém por quem ela se interessa ter causado isso também não ajudava. Retirou rapidamente a toalha que cobria sua cabeça e jogou os cabelos de um lado para o outro, em uma tentativa falha de secar um pouco seus fios.
A bolsa estava do lado da porta, e Sophia a pegou rapidamente antes de sair e fechar a casa atrás de si. James estava parado bem perto dela, com as mãos atrás das costas, um sorriso aberto em seu rosto. Vestia uma blusa simples com jeans rasgados, um converse preto de cano alto nos pés, e a menina jurou que havia se derretido um pouco. Esperava que sua reação não tivesse ficado muito exposta para o menino. Como este manteve a mesma expressão de antes, apenas concluiu que ele não havia percebido nada. Ele tinha, sim, percebido um olhar dela e a pequena mordida no lábio que ela obviamente tentou disfarçar. O problema é que ele provavelmente havia feito a mesma coisa, seu ar roubado de seus pulmões assim que ela passou pela porta. Sophia era linda, e James tentava lidar com a beleza dela. Não que ele não tivesse saído com uma menina bonita antes, era só que Sophia era... excepcional.
“Para onde vamos, cavalheiro? ” Perguntou a menina, um sorriso plantado no rosto, enquanto arrumava a alça da bolsa no ombro. “Não poderia te contar madame, estragaria minha surpresa” respondeu, sorrindo, e a garota assentiu com a cabeça, claramente nervosa. “Sophia, eu tive uma ideia para hoje. Eu tinha pensado que poderíamos deixar nossos eletrônicos em casa. Eu já estou sem meu celular e tudo, mas seria legal se você topasse também. Se não se senti confortável com a ideia, entendo completamente” pronunciou James, sem tirar os olhos da menina, seu pé brincando com as pedrinhas que delimitavam o jardim frontal da garota, e essa apenas sorriu. “Não tenho celular, mas me recuso a deixar meu Ipod para trás” disse, rindo, e o garoto abriu um sorriso de lado, assentindo. “Seu Ipod vai ser bem-vindo” completou, e a menina guardou as chaves na bolsa, sinalizando que estava pronta.
Os dois caminhavam lado a lado na calçada, James brincando com as pedras que encontrava no caminho e Sophia o olhando de soslaio toda vez que achava que ele não estava olhando. Ele fazia a mesma coisa, encantado com o cabelo castanho relativamente cacheado que caia sobre o rosto quase angelical e melancólico da garota toda vez que ela fingia não o espiar. “Desculpa perguntar, mas como assim você não tem um celular? ” Perguntou, enfim, e Sophia deu de ombros. “Eu não me interesso muito em tecnologia, então eu só não tenho um. Tenho o Ipod porque gosto de ouvir minhas músicas em qualquer lugar, mas esse negócio de ficar no celular o tempo todo e ter todas suas relações sociais naquela telinha ainda me é estranho” explicou, seus braços se cruzando na frente de seu corpo, se sentindo um pouco envergonhada. “Então você não tem facebook, Instagram ou Snapchat? Nadinha? ” James não tirou os olhos da garota nem por um segundo, mas essa só continuava andando, tomando cuidado para não tropeçar e cair. “Não tenho nenhuma rede social, não” completou, mordendo o lábio, e o garoto só assentia com a cabeça. “Não entendo muito, na verdade. Parece que de uma hora para outra tudo que estava no mundo físico foi parar em uma coisa virtual, e o mundo de verdade foi completamente abandonado. É meio estranho para mim, mas eu ainda vou aderir a ideia” concluiu, suas palavras batendo um pouco nas outras ao explicar a coisa com um pouco mais de entusiasmo. “Eu disse que você era intrigante” provocou o menino, e Sophia só revirou os olhos enquanto um sorriso crescia sorrateiramente em seu rosto.
Continuaram andando e, depois de algum tempo a garota sentiu sua jaqueta ser puxada de leve pelo garoto, que a arrastou para dentro de uma espécie de buraco na parede. “Que lugar é esse? ” Perguntou, um nervosismo batendo em seu peito fazendo seu coração pular “É onde eu trago minhas vítimas e as mato dolorosamente” brincou, e Sophia revirou os olhos, ainda um pouco assustada. Ela tinha sim, um senso de humor, mas se pegava acreditando em brincadeiras bestas assim facilmente. “É um lugar subterrâneo. Você vai gostar, confia em mim”. A puxou gentilmente pela sua jaqueta, fazendo com que descesse uma escada completamente sem iluminação, até chegarem em um salão de bom tamanho. O lugar era todo destruído, mas mesmo assim tinha uma certa mágica nele. Parecia um bar, mas a secção que normalmente servem as bebidas era inexistente. Era tomado por mesas e cadeiras com aparência bamba, e no fundo tinha um palco muito mal iluminado, onde uma menina se encontrava sentada com um violão no joelho, tocando alguma coisa que Sophia não reconheceu. As paredes eram todas tomadas por grafites e pichações, sem que nenhuma parte do cimento pudesse ser vista. As luzes do teto estavam todas apagadas, mas pela iluminação barata que clareava o palco podia se ver que o que deveria clarear o local não passavam de lâmpadas antigas penduradas. O lugar estava caindo aos pedaços, mas alguma coisa nele encantava Sophia. Era horrível, mas era belo. Ela tinha amado. “Onde estamos exatamente? ” Perguntou, quase em sussurro, para James, que a puxou para sentar em uma mesa longe do palco. “É um antigo pub abandonado. A prefeitura nunca fez nada com ele, então as pessoas tomaram esse lugar como uma pequena casa de shows. Alguns artistas desconhecidos se apresentam aqui, e as pessoas vem assistir. É bem legal” disse, no mesmo tom de voz da garota, por fim soltando sua jaqueta, se apoiando um pouco por cima da mesa. “Como descobriu isso? ” Continuou, perplexa, e o loiro sorriu quando viu os olhos da menina brilharem “Um amigo se apresentou aqui há alguns meses. Desde então eu venho aqui quase todo final de semana. ”
Olhou tudo de novo, ainda perplexa. Gostava de como o lugar era, e com o quão confortável estava ali. Era estranho, já que o teto podia ruir encima deles a qualquer momento, mas mesmo assim era aconchegante. Pessoas subiam e desciam do palco, o olhar iluminado, e Sophia se encantava com cada música tocada. Sempre amara ver os outros se apresentarem. Gostava de ver o brilho que irradiava dos artistas, felizes por terem uma oportunidade, mas ao mesmo tempo com medo de não serem bons o suficiente. A menina mesmo assim sempre admirava a coragem deles. Não de encarar uma plateia, mas sim de escolher a música como uma parte grande assim de suas vidas. Ter coragem de mostrar esse amor ao mundo. A própria menina era apaixonada por música, e na realidade, tinha muito talento. Sua voz alcançava diferentes tons, difíceis para muitas mulheres pela sua gravidade, mas também alcançava tons agudos que fariam qualquer soprano ter inveja. Porém, nunca tinha mostrado esse talento a ninguém. Tudo que sabia sobre canto havia aprendido sem a ajuda de ninguém, treinando sempre que ficava sozinha em casa, até que sua garganta doía de tanto usa-la. Mesmo assim, nem seus pais haviam escutado a garota fazendo isso. Tinham escutado seu violão, mas em raras ocasiões. A menina não conseguia se sentir confortável suficiente com eles para mostrar essa parte de si. Não se sentia confortável com ninguém, na realidade, mas mesmo assim cantava, para si mesma, porque era bom, e ela amava. “Você deveria se apresentar” cutucou James, e Sophia apenas riu, apoiando seus dois cotovelos na mesa, prestando atenção no menino que tocava o piano. “Eu não canto” respondeu, dando de ombros, e o menino segurou seu mindinho “Você parece encantada demais com o local para não ter nem um pingo de vontade em você para subir naquele palco e cantar até seus pulmões arderem”. E ele estava certo, mas ela não iria admitir isso. Principalmente porque se o fizesse ela com certeza teria que cantar, e ela não estava pronta para isso. “Talvez um outro dia, mas não hoje” disse, colocando o cabelo atrás da orelha. “Vou te trazer aqui outro dia então, mas você não me escapa Sophia” disse, sorrindo, e a garota respirou fundo.
Saíram do lugar pouco tempo depois disso, os dois com fome. Sophia tinha comido pela última vez as nove e meia da manhã, e já eram três da tarde. Como não era uma garota que podia passar horas e horas sem comer, já sentia seu corpo ficar meio bambo com a pressão abaixando. “Onde estamos indo? ” Indagou, e James riu, colocando suas mãos no bolso “O dia todo é uma surpresa, minha cara. Não te contarei nada” disse, e a menina mordeu o lábio. “Mas eu estou com fome” resmungou, mas sem deixar que o sorriso deixasse seu rosto. “Não se preocupe, eu te alimentarei” respondeu, cutucando a menina com o cotovelo “Agora sim você vai deixar uma menina extremamente feliz” comentou, colocando uma mão na barriga, e James riu “Quer dizer que meu pub não te impressionou o suficiente? ” “Eu amei o pub, James. De verdade. Mas eu sou um saco sem fundo, um buraco negro. Me conquistar pelo estomago realmente não é uma má ideia” concluiu, fazendo com que o garoto risse um pouco mais alto. “Depois dessa até aprenderei a cozinhar melhor”.
Acabaram perto da Tower Bridge, que estava completamente lotada de turistas. Sophia já tinha visitado aquele lugar mais de mil vezes, mas se apaixonava um pouco mais toda vez que avistava a ponte. Por um momento, até esqueceu que estava ali com alguém e que estava em busca de comida. O lugar era encantador demais, e se perder em seus pensamentos ali era fácil. Se não fosse James a puxando pela mão, provavelmente Sophia jamais acordaria de seu transe. “Tem três tipos de burritos. Peguei um de carne para mim e um de vegetais para você. Se preferir de carne a gente troca, é que eu não sei se você é vegetariana ou não, e preferi não arriscar. ” Disse, entregando o lanche nas mãos da menina. “Está ótimo. Você não me conhece, mas provavelmente conhece muito bem meu estômago” respondeu, feliz, dando uma mordida na comida. “Gosta de burritos então? ” Perguntou, mas era óbvio. A mordida que Sophia tinha dado no sanduíche respondia tudo, mas ela esperou até que tivesse engolido a comida para lhe dar uma resposta decente “Eu amo burritos” disse, e o garoto sorriu, a puxando para se sentar na ponta da calçada. A rua era fechada para carros, sendo que só pedestres a usavam, então não existia risco de se sentar ali. “Que tal eu conhecer mais do que apenas seu estômago? ” Colocou James, e Sophia segurou a respiração por alguns segundos. “Eu quero dizer, me conte de você” completou, rindo da expressão da menina, que mesmo assim continuava tensa. Nunca sabia o que falar nessas situações, mas nem havia como saber. Havia tanto a ser dito, mas tão pouco tempo, uma intimidade tão inexistente. “Eu ahn... Eu não sou de Londres, eu sou de Bristol. Eu faço economia na London School of Economics. Ah, e eu moro sozinha. Acho que por enquanto é tudo que se tem para saber de mim” disse, e ao terminar deu mais uma mordida no burrito. “É, realmente, eu continuo não sabendo nada sobre você” falou James, rindo, e a menina puxou mais ara para os pulmões. “Você também sabe que eu gosto de burritos”. O garoto suspirou, a olhando de lado, um sorriso torto se encaixando em seus lábios. “Isso não é conhecer alguém”. Sophia se virou completamente para o garoto, cruzando as pernas e apoiando os cotovelos no joelho, ainda segurando o lanche em sua mão. “Acho que eu não seria capaz de te mostrar tudo agora. Eu tenho gostos... peculiares. Você não entenderia” disse, tentando imitar Christian Grey de 50 tons de cinza, e James jogou a cabeça para trás rindo, pegando a referência rapidamente. A menina sorriu, orgulhosa de si mesma por ser compreendida.
“Mas e você, o que faz da vida? ” Perguntou a James, antes que o assunto tivesse a chance de se voltar a ela novamente. O garoto terminou de mastigar o que estava em sua boca calmamente, se virando para ela também. A menina já estava no fim do seu lanche, e o olhava com um olhar curioso que encantava o loiro. Seu queixo estava sujo com algum molho, e ele tentou gravar a imagem na cabeça. Mesmo que nada desse certo, ainda gostaria de se lembrar do olhar inocente da menina, cheio de felicidade e melancolia. Coisas totalmente contrárias, mas que se juntavam perfeitamente com ela. Quando conseguiu se recompor de seu transe, James limpou a garganta para responde-la “Trabalho com edição e produção de sons. Mais especificamente, fiz engenharia musical, e agora trabalho com artistas editando as músicas e coisas do tipo ” disse, calmamente, limpando o rosto da menina com seu dedão, gostando da maneira como a pele da menina fica sob seus dedos. Ela também gostou da sensação de seu toque, mas fez de tudo para fingir que não se importava. “Parece ser um trabalho incrível” suspira a garota, realmente encantada com a ideia de poder ficar perto da produção musical o dia todo. Já tinha pensado em trabalhar com isso, mas não sabia se seria boa o suficiente. “E é. Se gostou do pub, com certeza gostaria do estúdio. Ver os artistas se apresentarem, verem suas próprias produções se tornarem aquilo que queriam com uma pequena ajuda dos editores, ver o brilho nos olhares. É incrível. Terei que te levar lá um dia” disse, e a menina balançou a cabeça concordando com a ideia. Gostaria muito de ver isso.
Os dois ficaram ali sentados, cada um terminando seu burrito em paz. Não era que o assunto tinha morrido, ambos só tinham parado de falar o que lhes vinha na cabeça. Não foi um silêncio ruim, nem constrangedor. Foi até aconchegante. Cada um comendo descontraidamente, o barulho dos turistas conversando e andando preenchendo o ar. Eles eram só mais duas pessoas no meio da multidão, completamente invisíveis. E isso não os incomodou. A multidão era a multidão, e eles eram eles, cada um em seu canto. James ficou a olhando, esperando que ela não percebesse que ele a fitava o tempo todo. Gostava do jeito como ela arrumava puxava os cadarços da bota enquanto olhava para as paisagens de Londres, ou da maneira como mexia os dedos do pé, levantando o tecido do sapato, toda vez que um assunto a animava. Não, ele não era nenhum Sherlock Holmes para perceber os pequenos detalhes da garota antes de pelo menos conhece-la direito. Ele era apenas uma raridade: era um observador. Quando se interessava por alguém, romanticamente ou não, o menino dos grandes olhos azuis reparava em todas as particularidades da pessoa. Ele havia feito isso com Sophia na festa, no dia em que ela foi na sua casa e estava fazendo isso com ela agora. Ela podia ser fechada, mas mesmo assim era um livro aberto. Era expressiva em seus olhares, e sua risada mudava drasticamente quando era forçada ou era verdadeira. O jeito como andava mudava quando estava feliz, constrangida, preocupada, brava ou triste. Na festa, seus pés tocavam completamente o chão em passos fortes, mesmo assim delicados. Constrangida em sua casa, Sophia dava passos mais largos. Andando com James, seus pés quase flutuavam, tocando apenas as pontas no chão, quase que saltitando. Significava que estava feliz. James havia adorado tudo isso.
Mesmo depois de terminarem de comer, o silêncio ainda continuou, até que um pequeno chuvisco começou a cair do céu. Mas é claro que isso aconteceria, eles estavam em Londres afinal. Sorrindo, o garoto se levantou rapidamente, esticando sua mão para que Sophia se apoiasse para levantar, e foi exatamente o que fez, sem a soltar depois disso. James adorou o jeito como a mão dela se encaixava na dele, seus dedos automaticamente se entrelaçando, a mão da garota quase desaparecendo na dele. Por um segundo, quase esqueceu que tinham que sair dali antes que a chuva ficasse forte. Os dois chegaram ao metrô rápido, se encostando na porta para deixar que as pessoas passassem sem que os derrubassem. “Infelizmente o universo decidiu que esse encontro acabaria mais cedo” brincou, fazendo a menina formar um bico com seu lábio inferior. Sorriu com o ato e involuntariamente começou a esfregar seu dedão na mão da garota. Ela realmente gostou da sensação, engolindo em seco enquanto um arrepio percorria seu corpo. “Você ainda pode me levar para casa” sugeriu, e James sorriu. “Mas que tipo de romântico seria eu se não o fizesse? ”
Pegaram o metrô, sem em nenhum momento desgrudarem as mãos. Nem sabiam mais quem estava segurando quem, só sabiam que haviam gostado. Ao chegarem na estação em que Sophia normalmente descia, a chuva já tinha passado, sendo substituída pelo ar congelante do outono londrino. Sem conversar, os dois foram rapidamente para a casa da garota, quase congelados pelo frio. Antes mesmo de se despedir, a menina abriu a porta, deixando com que um pouco do ar aquecido da casa esquentasse os dois que ainda estavam na parte de fora. “Obrigada por hoje James. Acho que pode se dizer que eu me diverti” disse, envergonhada, encostada no batente da porta, não sabendo direito como se despedir. “Podemos repetir isso em algum momento, se você quiser...” discorreu o garoto, a voz tão baixa que Sophia nem sabia como tinha escutado. “Eu adoraria, de verdade” disse, e James sorriu, se aproximando e plantando um beijo na bochecha da menina, que ficou paralisada, tentando se lembrar exatamente a sensação dele perto dela. E os dois ficaram assim por alguns instantes, próximos, sentindo a respiração um do outro, não querendo que aquele momento acabasse. Mas James o interrompeu, suas palavras tão próximas do ouvido da menina que seu corpo estremeceu da cabeça aos pés. “Te busco no próximo sábado” disse, e saiu andando, deixando a menina atônita junto a porta, sem saber como passaria uma semana sem a sensação de tê-lo perto.
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