Novo Recomeço
6 O Retorno do Passado
Notas iniciais
"Foi o que pensou, antes de ser sugado por uma nova luz, mais fria que a que estava habituado. Ouvia o choro de duas criaturas.
Abriu os olhos e percebeu-se deitado ao lado de uma mulher. Sua esposa, constatou.
Seguiu o olhar dela e seus olhos estranhamente não se chocaram com a cena que via.
Seus corpos, estirados e ensanguentados no chão.
Sentou-se ao lado de sua mulher, observando com ela enquanto algumas mulheres, silenciosamente, tiravam um bebê que mexia-se por baixo das saias de sua rainha.
– Nosso filho... – Ouviu a mulher solução ainda mais. – E eu nem pude segurá-lo.
– Acalme-se, mulher. – Ele a abraçou, passando a mão por seus cabelos ruivos. Só então percebeu as correntes em seus peitos. Mais uma vez, um pensamento lhe veio à mente.
De fato, peculiar.
Permitiu-se sorrir de lado. Olhou para a esposa, que ainda chorava, e a ouviu murmurar um pouco antes que a dor em seu peito aumentasse – a qual parecia vir da maldita corrente.
– Meu pequeno Ulquiorra... – A ruiva soluçou, e o mundo do glorioso rei voltou a escurecer."
(Fanfic Aeternum, de SellyBee, Capítulo 1: Sub vesperum')
– Ulqui-kun, me assustaste! Não apareças assim de repente!
Orihime posou as suas duas mãos no peito, procurando abrandar a sua respiração descompassada pelo recente sobressalto. Tinha-se esquecido o quão silencioso um espada poderia ser quando queria, principalmente quando se tratava do quarto espada.
– O que tanto olhavas nesse objecto inútil?
– Eu estava…
O breve interrogatório de Ulquiorra relembrou à humana o enigmático acontecimento anterior, voltando a dirigir seu olhar para o espelho. Porém, em vez de revelar a elegante mulher de kimono refinado, o objecto só reflectia a sua imagem. Teria sido imaginação sua? O relato sobre os espadas estaria a criar-lhe alucinações? Deveria contar ao Ulquiorra o que viu? Ele poderia saber como ajudá-la. Torceu o nariz com essa hipótese, não soava uma boa ideia. Iria achá-la louca e a chamaria de estranha. Mas pensando bem, ele já não fazia isso?
– Estavas...?
– Eu ia… ia preparar o pequeno-almoço, é isso!
A ruiva disparou em direcção da cozinha, não esperando por uma resposta por parte do arrankar, que manteve-se impassível. Não entendeu o nervosismo da mulher, só conseguia pensar em como ela era escandalosa por nada. De facto, sua estadia no Mundo Real iria ser cansativa. No entanto, havia remota hipótese de essa permanência até ser agradável. Mesmo estando rodeado de humanos fúteis e ter de agir como um reles ser, ele pelo menos ao lado daquela mulher peculiar, não se sentia tão vazio… Como se o seu buraco hollow fosse preenchido por algo. Porém ele não conseguia enxergar esse algo. Era semelhante ao que sentiu no dia em que seu corpo se reduzia em cinzas, o desejo de a alcançar o possuiu, fazendo com que seu braço se estendesse na direcção dela sem seu cérebro comandar tal movimento.
Ulquiorra recriminou-se mentalmente pelos seus próprios pensamentos. “O que os seus olhos não podiam ver, não existia.” Simples assim. A companhia de Inoue Orihime deveria estar a afectar sua mente, era a única explicação plausível para tais incoerências vindas da sua parte. Logo ele, que fora considerado o súbito mais leal de Aizen, estava pensando agora sobre emoções afectivas relacionadas a uma humana. O que aconteceu ao espada frio e imperturbável?
– Qual será o teu verdadeiro poder, mulher?
A pergunta suou como um sussurro, que ecoou pelo cómodo. Suspirando, o moreno seguiu o mesmo trajeto da ruiva, encontrando-a com um avental florido e os cabelos apanhados num rabo-de-cavalo desajeitado. Ela arrumava a mesa para eles os dois, não deixava de ser caricata a situação. Seus papéis se inverteram. Agora era ela quem preparava a comida para ele, mesmo ele não pedindo. Seus olhos esmeraldas vaguearam pela mesa, erguendo uma sobrancelha com o que viu. Aquilo que estava na mesa era pão com pasta de feijão? Aquela combinação seria saudável?
– Isto é combustível mulher? Não estarás a tentar envenenar-me? Ou só desejas matar-te?
– Vejo que estás melhor Ulqui-kun! Até já fazes piadas!
Ulquiorra desistiu de a reprender, ela sempre o voltava a tratar por aquele apelido, e o pior é que ele estava a acostumar-se ao ser tratado como um lixo. Viu a humana abrir um enorme sorriso, orgulhosa, ao constatar o resultando final da sua refeição.
– Bom proveito!
Orihime saíra cedo de casa para comprar os alimentos para preparar o seu almoço com o moreno. Ela o convidou para a acompanhar mas Ulquiorra estava mais estranho e reservado do que o normal. Desde que acordara parecia pensativo, mesmo perguntando o motivo ele não lhe respondia, até parecia que não a ouvia.
A jovem caminhava tranquilamente, imaginando algumas receitas tentado optar uma para logo cozinhar. Entretanto, uma dor de cabeça fez com que a ruiva se agachasse no chão, idêntica àquela que Ulquiorra teve antes de desmaiar.
Lembranças apossavam sua mente, a mesma mulher do reflexo adentrava em suas memórias e inconscientemente levou as mãos trémulas ao ventre, enquanto enxergava-se numa outra vida, acariciando a sua barriga voluptuosa pela avançada gestação. Inoue viu o sorriso radiante da mulher misteriosa, mas para além disso, era como se ela sentisse a mesma felicidade que ela. A humana não compreendia aquelas visões, seriam sonhos que ela ambicionava e que estavam presos em seu subconsciente, e agora estavam a despertar?
Talvez ela fosse construída de sonhos, de pedaços inconsistentes que vagam pelo mundo buscando sua própria resposta perdida em um grão de areia. Talvez seja tudo um faz de contas muito bem elaborado, cujas linhas são tão bem enlaçadas que não importa se é real ou não. Talvez o bater de asas de uma borboleta realmente possa causar um tufão do outro lado do mundo.
Começou a gritar agoniada na rua enquanto as pessoas que passavam por ela, paravam para a socorrer. Lágrimas escorriam pelo rosto dócil da ruiva, enquanto esta apertava com as mãos sua cabeça. Alguém falava com ela mas esta não conseguia decifrar as palavras. Orihime implorava que Ulquiorra viesse em seu auxílio, que respondesse ao seu chamado naquele momento. Precisava que ele estivesse ao seu lado, necessitava da sua presença...
Um vento suave bagunçou as madeixas ruivas, e Orihime desviou as pérolas acinzentadas para o lado vendo uma fisionomia entre as sombras. Parecia uma criança. Inoue queria ignorar seu mau estar e poder ajudar a criança desconhecida, parecia que estava perdida. Mas o mais suspeito da situação não era o facto de eles não se conhecerem, nem o facto de uma criança estar parada na calçada observando Inoue com ternura. Foi quando por breves momentos a ruiva conseguiu encarar o rosto do jovem rapaz, em que os lábios finos dele pronunciaram uma simples palavra que deixara Orihime estupefacta. Uma palavra que o vento lhe levou, uma palavra que mudaria sua vida… E que a deixou inexplicavelmente emocionada.
– Mãe…
A ruiva sentiu suas forças esvaírem-se de seu corpo, caindo lentamente contra o solo. O rosto suado da mulher porém demonstrou um cálido sorriso. Como se de certa forma já conhecesse aquela felicidade, mas precisasse daquele estranho reencontro para relembrá-la.
"Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo."
(George Santayana)
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