Novice
12 La valse d'Kadar
Notas iniciais
Diante de várias religiões atuais e inclusive a da sua terra natal eram questionadas por si, Kadar nunca queria entender o que se passava na cabeça dos velhos sábios, nem dos que montaram e louvavam o grande Ala. Era estranho louvar um Deus.
Kadar não tinha lembranças de quando era pequeno e morava em Masyaf, na Síria. Não tinha a intenção de lembrar de algo que se comentasse em casa traria lembranças dolorosas para sua mãe e seu irmão.
Hayat comentava como eram as ruas, cheias de vida e pessoas trocando e vendendo seu comércio, crianças correndo livres nas ruas, isso tudo antes dos rebeldes chegarem e tomarem tudo, só de lembrar sua mãe chorava copiosamente e abraçava o filho como se aqueles dias felizes tivessem virado cinzas.
Mas o que eram cinzas era quando tentava indagar de seu pai, Faheem. Malik ficava com raiva quando tal nome era mencionado e sua mãe parecia sentir desgosto pelo marido, como se ele fosse um dos rebeldes.
Mesmo ao terem se mudado para a América, o preconceito em relação a estrangeiros era enorme e não era amenizada ainda que na infância, quando os irmãos Al-Sayf começaram a estudar. Malik tivera mais dificuldade que Kadar para poder aperfeiçoar o idioma novo e com pouco tempo, Kadar era o sorriso bondoso enquanto seu irmão era o escudo daqueles que achavam que por serem sírios, eram culpados dos ataques a Europa.
Os irmãos Al-Sayf trouxeram medo durante a pré-escola, as meninas olhavam admiradas para Malik e os meninos encaravam Kadar por ser o mais fraco, só que protegido pelo irmão, mas uma vez Malik não estava ali para protege-lo. Durante a saída da escola, alguns bully's se reuniram e cercaram Kadar num beco perto da escolinha, aproveitando que nem a mãe do pequeno o buscava e tirando sarro pelo fato de Mal sempre busca-lo quando podia, o chamando de bebê e batendo no mesmo.
Nunca sentira tamanha dor, onde o bom Deus de qualquer religião para ajuda-lo? Onde estava a ajuda? Indefeso e deitado no chão, os outros garotos se afastaram aos poucos por alguém e mesmo tremulo, Kadar pode ver que um outro garoto diferente brigava com os bullys, o olho inchado dificultava identificar quem ele era. Gritos de revolta eram ouvidos e aos poucos os arruaceiros tinham ido embora.
Restou apenas o silêncio e um mortal silêncio fora cortado quando passos do menino desconhecido se aproximaram. Acanhado e com medo do seu salvador, Kadar encolheu-se, abraçando a si mesmo como um meio de se proteger de outro ataque.
— Eles já se foram — A voz tranquila e com um sotaque francês fez Kadar erguer o olhar, olhando para a mão estendida que oferecia ajuda para que ele levanta-se e receoso, a aceitou — Seus olhos são bonitos — Comentou, podendo ver melhor a face de Kadar e limpando o rosto do mesmo devido as lágrimas — Você é um garoto forte, mas até o mais fortes choram.
O sorriso acalentador do garoto contagiou Kadar, seu rosto se aqueceu e as lágrimas da dor tinham ido embora, pareciam que as mesmas nunca existiram diante daquele que o ajudou.
Sendo acompanhado até em casa, de longe o pequeno Al-Sayf se despedia do outro garoto, observando a face corada do mesmo e entrando em casa, tendo uma nota mental de que não se lembrara de perguntar o nome do mesmo e tendo saído para indagar o nome do garoto de sua idade, o mesmo já tinha ido a muito tempo. Um frio e a tristeza o balançou, decepcionado e tendo seu corpo abraçado pelo irmão mais velho que lhe atirava perguntas e mais perguntas do que tinha acontecido, da raiva em claro em sua face. Com sua mãe Hayat fora diferente, ao invés de ficar raivosa, a mesma chorava copiosamente pela dor do filho, o abraçando junto de Malik como se aquilo amenizasse a crueldade do mundo perante Kadar.
Mal sabia sua mãe que um garoto de sotaque francês tinha levado a dor dos ferimentos embora, mas deixando uma dor estranha em seu coração.
No ensino médio, no primeiro ano para ser exato, Kadar acabara por conhecer um amigo peculiar de seu irmão, um cara galanteador e com piadas horríveis, mas com carisma invejável. Ezio Auditore, o italiano que sempre trazia um sorriso para Malik pelo mesmo ser um ótimo amigo, mas trazendo uma pitada de encrenca consigo por carregar o fardo do seu nome, brigas e mais brigas o seguiam e Kadar e o irmão sempre o ajudavam, bem, Kadar fazia o possível.
Em uma das brigas que se seguiram, os colegas de Vieri de'Pazzi acabaram por provoca-los, sendo em maior número em combate, mas não tão fortes quanto o irmão de Kadar e ágeis como Ezio, mas os mesmo não contavam com o jogo sujo de um do que apanhara feio, uma atitude infantil e perigosa que foi tirar um canivete do bolso e puxar Kadar para perto, tendo a lamina no pescoço do Al-Sayf.
O medo descomunal assolou Kadar e antes de qualquer reação, alguém pareceu acertar o idiota do canivete, mostrando ser ninguém menos que o irmão de Ezio, Federico Auditore.
Os olhos de Kadar brilharam e borboletas dançavam em sua barriga, suas mãos suavam de nervosismo e um sorriso singelo surgia em sua face, Federico era belo e sentir aquilo por outro homem não deveria ser errado, deveria ser maravilhoso, e era.
Sempre que conseguia, Fed acompanhava o irmão até a escola ou o levava, passando na casa dos Al-Sayf e os levando. Kadar achava que os sonhos e ambições de Federico uma coisa incrível, estranhas e quase impossíveis de serem alcançadas, mas possíveis com a determinação que Federico empunhava.
Lembrava com clareza quando decidiu se declarar para o mesmo, vindo depois de tanto carinho e afeto que o Auditore mais velho tinha por si, uma declaração parecia ser uma ótima para Kadar, não tendo muito nervosismo por si, apenas temeroso, mas não nervoso.
Aconteceu quando ambos estavam sob a sombra de uma árvore, o parque quase sem vida e um Federico indagador, com um sorriso para deixar o coração de Kadar palpitando tanto que o mesmo temia que Federico ouvisse.
— Eu gosto de você Fed — Confessou, olhando para outro canto que não fosse o outro a sua frente, mas ao erguer o olhar para Federico, viu pena.
Kadar não queria pena, não queria que sentissem pena dele, principalmente o seu amado.
— Oh Kadar, eu sinto muito... — Num suspiro vindo do mais velho, Kadar piscava os olhos com a resposta, negando a ter os olhos lagrimejantes pela rejeição — Desculpe-me.
E Kadar aceitou suas desculpas, aceitou logo depois de ter chegado em casa e ter recebido o ombro de seu irmão para chorar como uma criança. Assim como Malik tinha lhe oferecido apoio e proteção, Kadar tinha oferecido sua raiva quando Malik foi traído por Maria, dando um tapa bem acertado no rosto cheio de blush da garota. Sem arrependimento com aquele que causou dor a seu irmão.
Vida que se segue, tendo criado o clima tenso entre ambos e o ápice de tolerância depois da negação foi ter visto no mesmo parque em que se declarou, Federico beijar o filho da família rival dos Auditore, Vieri de'Pazzi. O mesmo que liderou a gangue e do cara que quase cortou a garganta de Kadar... E pior do que tudo isso junto era que Kadar reconhecia aquela área, fora a mesma árvore o onde se declarou.
A pessoa que porta o amor de alguém e não corresponde é cruel quando pode, principalmente quando não nota. Depois daquilo Kadar jurou nunca amar alguém além de seu irmão e sua mãe, mas jurar é coisa de mentiroso e promessas são para aqueles que não podem cumprir.
Meses depois só haviam poucos resquícios do doce Kadar de antes, parecia um mini Malik em pessoa. No meio do ano um aluno tinha chegado, e com isso Kadar se indagou, que aluno troca de escola no meio do ano? Até antes do tal aluno entrar, as meninas cochichavam curiosas e os meninos pareciam empolgados, bem... Isso até o aluno em si entrar na sala e as meninas ficarem mais empolgadas. O nome? Arno Dorian. Função? Fazer menininhas suspirarem e Kadar torcer a cara numa careta. Típico de filmes e digno dos mesmos.
Ao notar que o aluno novo sentou ao seu lado, de soslaio olhou a aparência do mesmo e com cabelos escuros curtos bagunçados, uma cicatriz marcando sua face um sorriso maroto e companheiro.
— Olá, sou Arno — Apresentou-se, mostrando o sotaque francês e Kadar olhou para a mão estendida em sinal de cumprimento, ignorando o gesto e deixando o Arno sem graça — E você seria?
— Sou Kadar Al-Sayf.
— Kadar — Repetiu — Seu rosto, é como se eu já tivesse lhe visto em algum lugar — Franziu o cenho.
— Por que diabos repetiu o meu nome? É idiota? — Rebateu, grosso — E não, nunca vi você na minha vida — Respondeu, vendo antes de virar o rosto o sorriso de Arno sumir e ser substituído por uma adorável careta.
Adorável? Arno poderia ser tudo, menos adorável, pensou.
E assim começou as intrigas entre ambos, por conta de Kadar, ambos brigavam por coisas bobas e o Al-Sayf mais novo sabia que eram bobas, mas ele não perdia a chance de ver Arno Dorian irritado. Quando era para o mesmo ter uma careta ou para gritar consigo de raiva, o francês tropeçava nas suas palavras com o sotaque e ao invés de ser bravo, era mais um chiuaua. Até quando o mesmo terminou com a namorada no segundo ano, as brigas se perpetuaram até Kadar notar a feição triste do outro, deixando com que as borboletas de antes voltassem a voar e causar a irritação de Kadar.
Querendo dar um basta depois da briga que teve com Arno diante de todos ao terem sido chamados na direção, Kadar não culpava o irmão por ter defendido Altair, Abbas merecia tal surra a tempos.
Na hora da saída, restara apenas o francês e Kadar na sala, a luz que vinha da janela era fraca devido ao temporal que cairia em breve e tal clima combinava com a melancolia de Arno Dorian, dava contrastes lindos para sua face solitária.
— O amor doí, o amor é uma dor — Kadar contou, notando que apenas ele e o francês estavam a sós na sala e sem provocações e piadas na sua voz, Arno olhava para si desconfiado, Kadar não podia tirar esse direito do mesmo.
Num suspiro, Arno terminara de guardar suas coisas devido a advertência do diretor, a briga de Abbas e Malik percorria a escola inteira e muitos culpavam ou vitimavam Altair, o parceiro de trabalho de Malik por tal. Numa batidinha na mesa em que sentava na beirada, Kadar aceitou o convite estranho de estar ao lado do outro, notando como sempre fez as feições da face do Dorian.
— Mas os que tem a chance de sentir o que é o amor são sortudos, sofrem, mas não se arrependem
— Por um acaso ele se arrependia de ter ficado ao lado de Élise? Será que amar era tão bom, mesmo quando se era recíproco?
— Lembro quando eu era pequeno, quando tinha encontrado um menino apanhar de valentões — Contou, o sotaque francês presente e o choque sendo mascarado por Kadar, que ouvia o relato que despertava memórias em si, memórias até então esquecidas como conto de criança — Ele tinha belos olhos azuis e chorava, com medo de que eu o ferisse, tinha até dito algo para ele... Foi...—
— Você é um garoto forte, mas até o mais fortes choram — Kadar lembrava aos poucos a fala do menino da época de infância, as malditas borboletas voando em seu estomago e lágrimas se juntando no canto de seu olhar, deixando o azul de suas íris ter um tom lindo com a luz da janela — Nunca perguntei o nome do menino que tinha me ajudado na época... — Contou, a surpresa e o sorriso podiam ser visto de Arno, o mesmo ficando a sua frente e pousando suas mãos calejadas no rosto de Kadar — Nunca fui tão grato por ele ter me ajudado...
Um leve roçar de lábios, apenas isso fez com que o significado de um beijo francês fizesse sentido, tivesse o significado literal por assim dizer. Mãos calejadas que deixaram sua face e que puxavam Kadar para perto do outro, mãos do Al-Sayf que apertavam os ombros de Arno e que bagunçassem o cabelo alheio, o apertando e num suspiro ao ter o termino do beijo, os olhos de ambos se encontraram e todas as palavras antes não ditas foram trocadas naquele momento.
— Seus olhos são bonitos, Kadar.
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