Novembro de 1854
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
3 de Novembro de 1854
O velho relógio de carrilhão tiquetaqueava incessantemente, o céu chuvoso se erguia opressor sobre a cidade naquela tarde, dando a tudo um ar ainda mais sombrio e depressivo.
Eu me encontrava sentado em minha poltrona de couro avermelhado, já um pouco puída pelo tempo, e fumava meu cachimbo enquanto observava pela janela o pequeno fluxo de transeuntes na rua, ainda enlameada devido as chuvas do dia anterior. O relógio badalou, indicando-me que mais uma hora havia se passado, já era uma hora da tarde e eu ainda não havia tido sequer a decência de tirar minhas roupas de dormir. Havia apenas levantado-me da cama e dirigido-me até a sala junto de meu fumo e uma garrafa de conhaque, a qual já passava da metade aquela hora, e ficado lá apenas a observar o tempo passar, as pessoas viverem suas vidinhas pacatas.
Eu agora nada mais era além de um mero observador da vida, já que a minha mesma parecia haver acabado, havia sido tirada de mim junto com a partida de minha doce amada. Desde que ela se fora, eu nada mais era do um receptáculo vazio, uma casca morta.
Eu que era acostumado a resguardar a vida de outras pessoas, agora não sabia o que fazer com a minha própria. Desde que Mary se fora, a quase dois meses, eu não tinha mais forças para ir até o meu consultório, onde costumava atender aos meus pacientes.
Meu olhar vagava pela rua, até que focalizou-se na charmosa floricultura que ficava localizada do outro lado da rua, já havia comprado flores ali diversas vezes para Mary. Era um pequeno e aconchegante estabelecimento, sua fachada era pintada com um belo tom carmesim, e podia-se ler, pintada em uma caligrafia cursiva e rebuscada os dizeres Le Charmant na cor branca. Grandes painéis de vidro faziam o papel de vitrine, deixando à mostra, no interior da loja, os mais diversos tipos de flores, das mais variadas cores, conseguia-se ver também o caixa, onde uma cliente qualquer estava sendo atendida. Segui seus movimentos com o olhar, ela trocou algumas poucas palavras com a atendente e logo em seguida tirou a quantia necessária para pagar pelas flores e dirigiu-se até a porta de madeira branca, que ficava entre as duas vitrines e saiu de volta a rua, já iria desviar minha atenção para algum outro ponto quando algo prendeu totalmente minha atenção novamente.
Entrando pela porta da floricultura estava o ser mais perfeito que eu já havia visto em toda a minha vida. Sua pele tão branca quanto a neve que cobria a cidade no inverno, seus longos cabelos louros caíam cacheados como uma cascata dourada pelas suas costas, estava vestida com um vestido verde musgo simples, que apenas complementava sua beleza natural, seu rosto tinha feições suaves apesar da distância em que me encontrava não permitir-me ver mais detalhes como a cor de seus olhos ou coisas do tipo. Ela adentrou a loja, cumprimentou a atendente e sumiu recinto adentro, enquanto eu fiquei ali, petrificado diante de tal visão da perfeição. O relógio novamente badalou, eram duas horas.
4 de Novembro de 1854
Faltavam exatos vinte e cinco minutos para as duas, de acordo com meu estimado relógio tiquetaqueante. Eu me encontrava totalmente inquieto, andando pela sala de forma incansável, os rangidos do piso de madeira polida ressoavam pelo aposento, meu copo de bebida jazia esquecido sobre a mesinha ao lado de minha poltrona. Há tempos eu não me sentia disposto dessa forma, não sentia essa agitação percorrendo meu ser, tudo isso apenas pela esperança de poder vê-la novamente.
Vinte minutos para as duas.
Ontem eu passei todo o período da tarde ali sentado, apenas esperando, aguardando ansiosamente e rogando a todos os seres divinos que eu não cultuava, a graça de poder ter apenas mais um vislumbre da perfeição. Se realmente existisse um Criador, ela seria, definitivamente, sua obra-prima. E, creio eu, minhas preces foram ouvidas, mesmo que de forma rápida, uma vez que eu consegui vê-la mais uma vez no dia de ontem.
O frio aumentava significativamente com a aproximação do crepúsculo, minhas vãs esperanças iam diminuindo, até que então ela surgiu novamente em meu campo de visão, agora estava enrolada em uma echarpe cor de creme para aquecer-se, trocou o que me pareciam ser palavras de despedida com a jovem que estava no caixa e, sorridentemente, saiu para a rua, onde foi engolfada por uma rajada de vento gelado, que fez seus cabelos agitarem-se entorno de seu rosto, mas isso não pareceu incomodá-la e ela apenas seguiu com seu caminho, para longe de meu olhar contemplativo.
Dez minutos para as duas.
Sentei-me novamente em minha poltrona, rogando silenciosamente que ela aparecesse do novo na loja. Peguei meu cachimbo, acendi e comecei a baforá-lo.
Foi então que o badalar do relógio preencheu o ambiente. Eram duas da tarde.
Meus olhos automaticamente se focalizaram na direção pela qual ela havia ido embora no dia anterior, apenas aguardando que ela surgisse em todo seu esplendor. O que não demorou muito, logo ela apareceu, andando um pouco rapidamente, como se estivesse atrasada, entrou na floricultura. Fez novamente o mesmo processo do dia anterior, cumprimentou a atendente e sumiu dentro da loja. Mas aqueles mínimos segundos em que avistei-a, foram o suficiente para aquecer meu coração.
11 de Novembro de 1854
Quinze minutos para as duas.
Hoje completava-se uma semana desde que havia iniciado-se a minha nova rotina. Eu acordava, arrumava-me e me dirigia até a sala onde ficava aguardando, na companhia apenas de meu cachimbo e meu mais precioso companheiro nos últimos dias, meu velho relógio de carrilhão, a bebida nem mesmo era mais uma companheira inseparável como vinha sendo nos últimos tempos, eu havia substituído-a pelo meu mais novo vicio: observar o anjo cujo nome ainda era-me uma incógnita. Nem mesmo minha falecida esposa passava tanto pela minha mente, ainda doía um pouco, mas ela havia sido substituída em meus pensamentos.
Em todos esses dias ela seguia a mesma rotina que já era de praxe para nós dois. A única coisa que mudava diariamente eram sus vestidos, ela parecia ter vários, já que ainda não havia repetido nenhum até hoje. Meu favorito até o momento era um que ela havia usado no terceiro dia, um vestido azul-marinho, com o bustiê elegantemente enfeitado por alguns bordados pretos, as cores contrastavam perfeitamente com sua pele pálida.
Duas horas.
Desviei minha atenção à direção de costume, apenas esperando-a. E então ela surge, hoje usando um vestido púrpura e uma echarpe lilás, andando graciosamente em direção à loja e entrando. Como sempre foi falar com a atendente, porém, hoje, em vez de apenas sumir, ela esperou a outra jovem sair de trás do balcão do caixa e então assumiu seu lugar, sentando-se ao caixa.
Eu observava a cena perplexo em minha poltrona. Estariam meus olhos me enganando ou ela realmente ficaria ali, trabalhando no caixa, onde eu poderia admirá-la o dia todo?
Todas essas questões foram sanadas, assim que vi a outra mulher se despedir dela com um aceno e deixar o local. Meu dia não poderia melhorar mais.
21 de Novembro de 1854
Dez minutos para as duas.
Dez dias desde a última mudança em nossa rotina. Uma mudança deveras agradável, pode-se dizer. Há dez dias ela está ali, trabalhando no caixa, permitindo a mim, um mero mortal, um pecador, observá-la, dia após dia, fazendo que cada vez mais eu sinta essa necessidade de vê-la, de desfrutar desse tempo apenas olhando-a.
Cada vez mais eu sentia uma vontade quase incontrolável de apenas sair de minha casa, atravessar a rua e dizer a ela tudo o que eu penso, contar desse desejo que se forma dentro de meu ser, esse desejo poder beijar seus lábios para ver se eles realmente tem o gosto do paraíso que eu tanto imagino. Mas sei o quanto essa ideia soa louca, um anjo jamais se sujeitaria a ficar com uma criatura como eu, um ser inferior, imperfeito. Eu não poderia cometer uma heresia dessas.
Duas horas.
Sorrio sozinho ao vê-la surgir pela rua, estonteante como sempre e fazer o ritual diário, que eu levo praticamente como um ato sagrado. E eu apenas me deixo ficar ali, confortavelmente sentado em minha poltrona e fumando meu cachimbo, enquanto aprecio a melhor parte do meu dia.
3 de Dezembro de 1854
Alguns dias atrás, algo vem mudando dentro de mim, como se apenas observá-la não me fosse mais suficiente, a necessidade de tocá-la, beijá-la e falar tudo o que sinto por ela está ficando cada vez maior, sinto que chegarei ao ponto de me perder dentro dessas fantasias.
O relógio badala, novamente me avisando da chegada de minha hora sagrada, mas dessa vez não me sento em minha poltrona. Eu fico em pé próximo a janela a aguardá-la, e, no momento em que ela aparece, sinto meu coração falhar uma batida e fico estático ali em pé, até um acontecimento histórico ocorrer, ela ao perceber-me tão próximo à janela dirige a mim um sorriso, o sorriso mais belo do mundo, que causaria inveja à Afrodite, e acena em minha direção num cumprimento simpático. E eu nada mais consigo fazer se não retribuir-lhe com um pequeno aceno e um mínimo esticar de lábios, que não poderia ser considerado um sorriso.
E aquele pequeno gesto que eu jamais esperaria ser direcionado à minha pessoa fez com que tudo o que já estava dentro de mim apenas multiplicasse de tamanho, tornando-se um fardo impossível de carregar-se sozinho.
5 de Dezembro de 1854
Vinte dias para o Natal. Cinco minutos para as duas.
Hoje eu havia acordado sentindo-me diferente. Desde que ela deu-se ao trabalho de gastar míseros segundos de seu tempo comigo, um ser ainda mais mísero, dois dias atrás, eu vinha juntando coragem dentro de mim para ir até lá e dizer tudo o que eu precisava para ela, e havia decidido que esse dia seria hoje.
Tinha colocado minhas melhores roupas, passado de minha melhor colônia e estava apenas esperando o badalar do relógio, para, assim que ela surgisse pela rua, descer até lá e contar-lhe tudo, mas o tempo parecia arrastar-se diante de mim, torturando-me.
Foi quando finalmente o som dos carrilhões fez-se ouvir pelo ambiente e eu rapidamente olhei na direção de sempre e fiquei aguardando. E aguardei. E aguardei. Ela não vinha nunca, alguma coisa errada havia acontecido, afinal, ela nunca se atrasava.
Antes que o pânico tomasse conta de mim, resolvi sentar-me na poltrona e aguardar algum tempo, afinal, imprevistos acontecem.
Sentei-me e esperei.
E esperei.
E esperei. Ela não apareceu naquele dia.
Nem em nenhum outro.
25 de Dezembro de 1854
Era Natal.
Meu anjo salvador nunca mais apareceu na floricultura.
O velho relógio de carrilhão tiquetaqueava incessantemente, o céu chuvoso se erguia opressor sobre a cidade naquela tarde, dando a tudo um ar ainda mais sombrio e depressivo.
Eu me encontrava sentado em minha poltrona de couro avermelhado, já um pouco puída pelo tempo, e fumava meu cachimbo enquanto observava pela janela o pequeno fluxo de transeuntes na rua, ainda enlameada devido as chuvas do dia anterior. O relógio badalou, indicando-me que mais uma hora havia se passado, já era uma hora da tarde e eu ainda não havia tido sequer a decência de tirar minhas roupas de dormir. Havia apenas levantado-me da cama e dirigido-me até a sala junto de meu fumo e uma garrafa de conhaque, a qual já passava da metade aquela hora, e ficado lá apenas a observar o tempo passar, as pessoas viverem suas vidinhas pacatas.
Eu nada mais era que um mero observador da vida. Novamente.
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