Nove Meses
11 "-O que é isso, Valentina?!"
Notas iniciais
José Miguel acenou para Damien, o capataz, e segurou a mão dela.
Uma brisa suave brincou em seus rostos, ainda era cedo e ele havia conseguido convencê–la para uma caminhada, mesmo que muita curta, pelo menos seria um começo ! Estavam vestidos com agasalhos e tênis confortáveis.
Ele a olhou de esguelha, parecia muito quieta, mas ainda assim, mantinha uma feição tranquila.
Precisava dar um jeito de ligar para o médico, antes da consulta daquela tarde, sem que ela soubesse.
Mas ela parecia adivinhar, desde que acordaram, não saíra de perto dele! E ele precisava saber se era normal aquela perda de peso. Não conseguira respostas em seu livro.
–O que foi Mi Cielo?
–Como?
–Por que está me olhando assim… de lado?
–Eu?
Ela começou a rir, estava se sentindo confortável ao lado dele, tivera uma boa noite de sono, e seu café da manhã havia lhe trazido energia, além daquela brisa lhe fazer bem
–Tem mais alguém aqui?
–Não estou te olhando… de lado.
–Está sim… tenho a impressão que está maquinando alguma coisa. Pode dizer!
–Não é nada!
Eles pararam para que um carro passasse e atravessaram a rua rapidamente, alcançando a longa estrada.
Algumas pessoas também caminhavam, outros corriam e outras pareciam apenas seguir para seus trabalhos.
–Estou esperando!
–Por que acha que estou planejando alguma coisa?
–Conheço esse olhar!
–Está ficando paranoica!
–Sei…
Ela resolveu ficar quieta, se estava escondendo alguma coisa, ia acabar descobrindo.
…....
–Acho que vou tomar um banho, depois podemos sair para almoçar, o que você acha ?
–Claro… Bonita.
Ela seguiu em direção ao quarto e ele rapidamente abriu a agenda para procurar o telefone do Dr. Sergio, encontrando em segundos.
A secretária demorou para atender, e assim que ele disse seu nome, ela o reconheceu.
–Olá Sr. Montesinos! Posso pedir a ele para retornar? Está em outra ligação.
–Por favor… eu agradeço!
Ele se sentou no sofá e bateu os dedos nervosamente nas coxas.
Alguns minutos depois, o telefone mal tocou e ele atendeu aliviado.
Eles se cumprimentaram e em um tom de voz bastante discreto explanou suas preocupações, ele avisou que ela estava perdendo peso, e que gostaria de saber antes que a levasse para a consulta. Não queria preocupá–la!
–É absolutamente normal, ela tem se sentido bem? Alimentação… tudo em ordem?
–Sim…
–Houve uma mudança de rotina? Aconteceu alguma coisa fora de seus hábitos?
–Ela esteve em uma conferência empresarial por três semanas em Cancún.
–Ao que me parece esse pode ter sido o motivo, sabe se ela teve poucas horas de descanso, estresse, ou talvez uma mudança mesmo que provisória na alimentação?
–Temo que sim… geralmente é o que ocorre nessas situações.
–Vou pedir novos exames, mas ao que tudo indica, não deve se preocupar.
–Muito obrigado, doutor!
–Até mais tarde!
–Eu sabia!
Ele se virou rapidamente, assustando-se.
Ela estivera o tempo todo ali!
–Sabia que estava me escondendo alguma coisa.
–Eu… desculpe… Valentina…!
–E o que foi que ele disse?
–Para não me preocupar. — Ele confessou rapidamente. -Não fique brava comigo… isto estava me consumindo!
Ela se inclinou e abraçou seu pescoço por trás, com o sofá entre eles.
–Tudo bem, vou lhe perdoar… desta vez! Mas não quero mais que me esconda nada!
–Sim senhora Villalba Montesinos.
Valentina lhe deu um beijo estalado e ele segurou seus braços os apertando.
–Pensei que estivesse no banho.
Ela sorriu e colou seu rosto no dele.
–Tinha que confirmar minhas suspeitas.
–Espertinha!
…........
Eles estavam sentados na sala de espera, havia uma paciente em final de consulta.
Um homem quase esquelético e um garotinho de cabelos encaracolados esperavam por ela.
O menino era um serelepe, não parava um segundo, e ficava encarando José Miguel com um sorrisinho bastante simpático. Parecia não ter dois anos, era bem pequeno e rechonchudo.
Ele atacou a caixa vermelha de brinquedos em formato de urso, e ia dando a ele um a um, com seus cachinhos balançando cada vez que ele esticava o bracinho para ele aceitar.
–Esse...
Valentina ria a todo instante de sua carinha sapeca, e sua vontade ficava maior ainda quando via a expressão de seu marido.
Ele parecia meio confuso, mas estava gostando da brincadeira.
O pai do garoto parecia alheio, lendo um jornal.
–Esse…
De repente o pequenino se achegou nele, escalou suas pernas e conseguiu se aconchegar em seu colo. José Miguel ficou ainda mais perdido, olhando para o homem à sua frente, sem saber que atitude tomar.
Valentina quase não acreditou.
–Dylan!
O menino nem se atreveu a olhar para o pai, e se aninhou no peito dele, esfregando os olhinhos.
–Ele parece gostar de você! — O homem disse.
–É verdade, Mi Cielo! — Valentina completou.
–Se importa?- José Miguel apontou para o garoto, mas olhando para o pai.
–Não… vá em frente.
Ele abraçou Dylan com cuidado e bateu com a mão esquerda em suas costinhas.
–Está com sono, Dylan?
Ele balançou a cabecinha e segurou seu indicador, fechando os olhinhos pequenos.
–Eu… estou impressionado com esse moleque, ele faz amizade com todo mundo !
–Seu filho é mesmo uma graça, senhor…
–Ele não é meu filho! É do primeiro casamento de minha mulher.
–Oh…
Valentina ficou surpresa com a declaração, notando que ele não se parecia mesmo em nada com aquele homem.
–Mas… vai ganhar um irmãozinho, não é bebê?
Ele não ouviu, já havia pegado no sono.
José Miguel ainda o acalentava com cuidado, estranhando muito.
–É seu primeiro? — O estranho quis saber.
–Sim…Serão os nossos primeiros!- Valentina respondeu com simpatia.
–Gêmeos, que legal! Ele leva jeito!
O homem apontou para seu marido e pela primeira vez, deu um pequeno sorriso.
–Também acho!
Ela tocou na mão dele e lhe deu um sorriso brilhante e José Miguel respondeu com outro, de canto!
A porta se abriu e a mulher saiu.
Com toda certeza, estava em seu final de gravidez.
No momento em que ela olhou aquela cena, quis ralhar com seu marido.
–Thomaz… pedi para você cuidar dele!
Ele levantou os braços, se rendendo.
–Foi ele quem escolheu… querida…
Ela foi até José Miguel, muito envergonhada.
–Me desculpe senhor… eu nem sei o que dizer…
–Tudo bem… ele parece estar com sono!
Ela pegou com delicadeza o garotinho e ele se agarrou ao dedo dele, não querendo soltar.
–Vamos meu amor… precisamos ir para casa… Bob está sozinho!
–Bob? — Ele repetiu sonolento.
–É… e está sentindo sua falta. Desculpe-me… de verdade.
–Não se preocupe, ele é adorável!
Dylan encostou a cabecinha em sua mãe o encarando.
–Diga bye bye ao seu amigo, meu filho!
Ele balançou a mãozinha sorrindo e José Miguel acenou de volta.
A mulher olhou para Valentina se desculpando mais uma vez!
–Ele é mesmo uma graça! — Foi a resposta dela.
–Valentina? José Miguel? Vamos entrar?
….......
Dr. Sergio a fez subir na balança, confirmando sua perda de peso.
–Vamos fazer novos exames, para saber se está correndo tudo bem.
Eles conversaram por muito tempo, Valentina contou sobre a viagem, o tempo corrido, as poucas horas de sono, porém bastante renovadoras, contou sobre sua alimentação quando esteve fora, confessando que fez o possível para manter um padrão razoável e por fim, informou sobre iniciar suas caminhadas.
–---------
–Isso é bom!
José Miguel a ouviu descrever suas atividades longe dele, prestando atenção em absolutamente tudo, sua mente digeriu as informações, e mesmo que ela não gostasse, iria demonstrar seu descontentamento. Ela tinha que se cuidar! Agora sabia por que emagrecera daquele jeito!
–Vou lhe passar vitamina C. Isso a ajudará a reforçar sua imunidade, e fazê–la ficar mais disposta. Prossiga com suas caminhadas, e mantenha a serenidade. Está entrando no quarto mês e seus bebês entram em um processo mais rápido de desenvolvimento.
Ele lhe entregou alguns folhetos indicando sobre cursos para gestantes, e como seria importante a participação do pai!
–Vamos ao ultra som?
Ela se ajeitou e José Miguel permaneceu ao seu lado, tentando não parecer ansioso.
–Está entrando na décima sexta semana! Nesta fase os bebês adquirem uma fina chamada de pêlos, que chamamos de lanugem. Esta é sua maneira de proteger sua pele muito sensível, os bebês começam a perceber... hum… vão querer saber o sexo dos bebês? — Ele interrompeu suas explicações.
–Queremos sim, Doutor!
–Hum… sinto muito mamãe, mas acho que eles querem fazer suspense!
José Miguel sorriu da maneira dele falar, depois apertou a mão de sua mulher.
–Não tem problema, não é Bonita?
–Não! Vamos esperar o tempo deles…
–Bem… como estava dizendo, é uma fase muito interessante, eles passam a perceber alterações de luz e conseguem diferenciar entre os gostos amargo e doce, seus órgãos crescem em uma velocidade incrível e… olha se prepare, eles começam a ensaiar seus primeiros movimentos.
Muitas descobertas, era gostoso sentir o desenvolvimento de seus filhos, acompanhar as fases, eles estavam a cada dia mais maravilhados.
–Está tudo bem mamãe! Há uma grande chance de eles serem uns bebês bastante grandes! E paciência… eles estão brincando de se esconderem, está vendo, suas pernas bem fechadas? Impossível mesmo de saber o sexo, sinto muito!
–Quem sabe da próxima?
Ela estava ansiosa, queria que ele soubesse o que havia significado para ela, aquele contato com o pequeno Dylan!
Assim que saíram da clínica, ela o agarrou e sapecou um beijo em seu braço.
Valentina parecia radiante, esplendorosa!
–Mi cielo… você foi… maravilhoso com o garoto!
Ele a olhou com doçura e viu um brilho intenso que o comoveu.
Precisava falar com ela sobre algumas coisas, mas acabou perdendo a coragem.
Decidiu que agiria mais sutilmente, sem o peso de uma bronca, ou então… talvez alguma coisa que não parecesse radical demais.
Antes de ele abrir a porta, ela o empurrou e o encurralou no carro, beijando sua boca apaixonadamente, o pegando de surpresa.
Definitivamente, brigar com ela estava fora de questão.
….......
–Eu não credito que não conseguiu ver o sexo dos seus bebês!
Sandra estava com um grande copo de café e ela sorrindo ao seu lado, bebendo apenas água.
–Uma pena… mas quem sabe… da próxima.
–Você tem um palpite?
–Para falar a verdade... não.
–Geralmente as mulheres tem, e na maioria das vezes, acertam.
–Não nos importamos.
–Sabe que fico imaginando o José Miguel com um bebê e não consigo ter uma visão exata?
–Pois saiba que já tive uma prova e... adorei! Sei que não tem nada a ver com estar ás voltas com mamadeiras, fraldas e noites sem dormir, mas mesmo assim foi gratificante.
Sandra a encarou, aquele brilho nos olhos dela era tão espetacular que não se conteve para comentar.
–Você o ama… desde sempre não é?
Um balançar de cabeça e um piscar de olhos bem devagar foi sua resposta.
De repente ela notou alguém vindo pelo corredor com uma montanha de papéis nas mãos.
–Sofia!
–É, fui pega de surpresa quando a encontrei no escritório do José Miguel outro dia. Não sabia que ela estava trabalhando aqui.
Sandra se virou e elas a cumprimentaram com um aceno de cabeça.
–Alguém poderia me dizer onde encontro o Greg?
–Está no escritório do José Miguel.
Sofia olhou para a “nova” visão de Valentina e teve sua confirmação.
Ela parecia diferente e… estava grávida! “Céus! Aquilo sim era tão surpreendente quanto… as alianças em seus dedos!
Desde que zanzara por aqueles corredores pelas últimas três semanas, não havia encontrado com Valentina. Ela quis, mas não conseguiu disfarçar a surpresa.
Elas notaram seus olhos passeando pela barriga da morena, depois um sorriso que para Valentina pareceu bastante sincero.
–Meus parabéns… Senhora Villalba!
–Obrigada.
–O Senhor José Miguel deve estar radiante.
–Sim… “nós” estamos!- Ela finalizou, com seu pensamento inquieto, ela visitara a sala de seu marido e ele não havia lhe dito nada. Mas pensando bem, não era motivo para alarmes, se ele não disse era porque não achou importante.
….......
–José Miguel… Sandra e eu, encontramos a Sofia.
–Sim…
Ele apenas respondeu, sem mais delongas.
–Você a viu?
–Vi sim.
–Ela nos parabenizou.
Ela não sabia, mas assim que se encontraram no momento em que viera falar com Greg, ela fez o mesmo com ele.
–Ela te disse alguma coisa?
–Apenas que estava feliz por nós dois. — E era a mais pura verdade, depois Sofia se atentou ao caso com muito profissionalismo, como era de costume. Ninguém podia negar sua competência.
Sofia não a incomodava mais, Valentina estava segura em todos os sentidos, mas nem sempre fora assim.
Ela resolveu afastar o pensamento assim que entraram em casa.
–Parece que meu nariz está congestionado.- Ela deu uma longa fungada, estranhando um pouco.
A caminho do quarto, notou que ele estava sangrando.
–Oh meu Deus!
José Miguel se virou para ela e a viu tombando a cabeça para trás, se assustando tanto quanto ela com sua blusa manchada de sangue.
Lembrava-se de ter lido alguma coisa a respeito e tentou não demonstrar nervosismo a guiando até o banheiro e fazendo com que se sentasse na cadeira, ainda com a cabeça para trás.
–Vou pegar gelo, não se mexa!
Como há mais sangue fluindo nas membranas, revestimento do nariz e vias aéreas, podem ocorrer de congestões a sangramentos. Era bem mais comum que se poderia saber, e o tratamento era bem simples, além da ajuda de vitamina C que o Doutor já havia lhe prescrito.
Pouco tempo depois, o problema foi estabilizado e ela pareceu bem mais tranquila.
–Tudo bem?
–Sim… acho que sim, Mi vida. Obrigada.
–Se não tivesse me informado… acho que estaria desesperado nesse momento.
Ela sorriu, acariciando seu rosto corado com suavidade. Era bom tê–lo por perto.
….......
–Flores?
Valentina havia sido chamada na recepção e se assustou quando viu um enorme buquet nas mãos do entregador.
José Miguel até que poderia ter aquela atitude, mas não na fábrica! Será que estava tão enganada assim?
Ela recebeu com carinho e sacou o cartão, quase tendo um ataque do coração.
“O tempo passou, mas não a lembrança de seus lindos lábios. Alonso.”
Havia um telefone logo abaixo.
–Meu Deus!
–O que é isso, Valentina?!
Ela se virou em direção à voz grave e deu um sorriso amarelo.
–Flores!
–E quem as enviou?
–Achei que tivesse sido você!
–Mas… não foi... não faria isso, não aqui!
Ela ia voltando para a recepção para deixar o buquet com sua secretária, mas ele a interceptou.
–Não me respondeu quem fez isso!
Ela lhe entregou o cartão um tanto nervosa, ele parecia uma fera!
–Alonso?
Sandra virou o corredor e desavisada sorriu com alegria.
–Você ganhou flores, Valentina! Ah José Miguel… está me saindo melhor que esperava!
Ela quis pedir a Sandra para que calasse a boca, mas ele se adiantou.
–Não se anime, não fui eu!
–Oh ! — A expressão de surpresa de Sandra era impagável.
–Mi cielo… — Ele parecia zangado, mas também ela notou que se esforçava para se controlar. Afinal ela não tinha a menor culpa, nem se lembrava mais daquele idiota.
–Mi cielo… — Ela repetiu sem saber exatamente o que dizer. -Ele é um imbecil!
Sandra estava paralisada enquanto via-o passar feito um furacão por ela quase esmagando o cartão.
–Que abusado! Acho que ele nem sonha que você… hei… você tem visto ele?
–Ficou maluca? Que pergunta mais descabida!
–O que deu nele para fazer isso?
–Não sei e não me interessa nenhum pouco saber.
–Valentina… — Jude, sua secretária, que havia presenciado toda aquela cena também, estava tão assustada quanto elas, e com receio, tapou o bocal o fone, anunciando.
–Ele… está ao telefone!
Ela não respondeu, jogou as flores em cima do balcão e foi em direção à sala de seu marido.
Valentina o encontrou com os dedos tamborilando em cima da mesa, olhando para os números anotados por ele.
–Eu… posso entrar?
–Claro.
–Eu… não sei o que dizer… o vi apenas aquele dia…
–Eu sei, Bonita…
–Está zangado?
–Não com você…
Que idiota tinha a petulância de mexer com sua mulher, agora ele sabia de verdade o que o ciúme fazia. Estava se controlando para não ligar naquele numero e lhe dizer umas verdades. Ficou tão tentado que chegou até a pegar o telefone, mas desistiu. Precisava esfriar a cabeça. Jamais imaginou que teria reações tão conflitantes daquela maneira. Era um homem de paz, sensato e ela era fiel a ele, jamais duvidaria disso.
–Desculpe… eu quase perdi a cabeça…
Ele se levantou e segurou em sua mão gelada, os olhos assustados o golpearam com força.
–Não se preocupe, foi apenas… uma reação… involuntária… acho que… fui irracional… e..
–Está tudo bem, Mi cielo… vamos esquecer isso, está bem?
–Sim Bonita… você tem razão.
–Vamos para casa?
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