Nova geração, nova turma
7 Uma família nasce?
Notas iniciais
Deletar. Deletar. Deletar. Deletar.
Maria Cebolinha, agora uma jovem de dezenove anos, apertava incessantemente esse específico botão de seu celular. Ela não queria ler aquelas mensagens, nenhuma das 224, porque eram todas dele.
Suspirou ao finalmente ver o histórico vaziu. Será que era tão difícil para ele entender que ela não queria papo? Que a burrada que ele fez já bastou para a deixar numa enrascada?! Só de pensar nisso, seus olhos começaram a arder. Mas ela não choraria ali. Aliás, o que ela estava fazendo ali? A tarde na praça do limoeiro estava tão fresca e agradável, tão diferente de seu humor.
Olhou para a sacola em sua outra mão. Ah, sim, sua mãe tinha pedido que fosse na padaria e a praça era caminho. Dona Cebola já deveria estar no ponto de telefonar para saber onde ela estava. Bom, não daria essa chance para a mãe. Se desencostou da árvore em que estava e guardou o celular, antes de voltar a caminhar.
Mas os problemas ainda lhe rondavam a mente. Pensou no que sua mãe diria quando soubesse. E seu pai então? Meu Deus, Cebolinha teria um chilique!
– Moça, cuidado! — Aquele grito infantil a tirou de seus devaneios.
– O que? Heim? — Maria parou, meio olhando desorientada para os lados. E parou no momento certo, pois um garotinho passou por ela num skate á toda velocidade. Até pensou em repreendê-lo, mas quando viu o garoto bater desgovernado contra uma árvora, sua raiva se transformou em preocupação. — Minha nossa, você está bem?
Maria correu preocupada até o menino. Ajudou-o a se sentar enquanto verificava se havia ralado alguma coisa.
– Não se preocupa, moça, eu tô bem. — Respondeu o garotinho, com um sorrisinho infantil. — Eu tava de capacete, ombreiras e joelheiras. — Apontou orgulhoso para cada equipamento que usava.
"Bom, ao menos ele brinca com segurança." — Pensou Maria, se derretendo pelo menino. Ele era tão fofo!
– João!! — Uma voz gritou de repente.
U m homem de aparentes vinte e três anos vinha correndo na direção deles. Maria logo reconheceu aqueles cabelos entre loiros e castanhos. Ele parou à frente do menino, ofegante pela corrida.
– Eu já te falei... — Tomou um ar. — Quantas vezes para não sair... — Mais um. — Da minha vista?
– Desculpa, instrutor Edu. — João pediu cabisbaixo. — Mas eu achei que já conseguiria andar sozinho dessa vez.
– E como das outras vezes, deve ter atropelado um monte de gente.
– Até que não! Foi só essa moça. — João sorriu, como se aquilo fosse algo bom, apontando para Maria.
O homem virou-se para Maria, parecendo pronto para desculpar-se pelo garoto. Mas quando a reconheceu, acabou dando um sorriso arteiro.
– Olha só, se não é a Maria Cebolinha.
– Eu quem deveria dizer isso. — Maria falou, se levantando e dando o mesmo sorriso para ele. — Você desapareceu, Dudu. — Seu sorriso almentou. Sabia que estava provocando-o dizendo seu apelido de infância, mas ele tinha feito o mesmo.
– Pfff... Dudu. — João riu baixinho.
– João! — Dudu repreendeu, fazendo o garoto se encolher. — Volte já para a pista. Eu vou em dois minutos.
O pequeno apenas assentiu, pegou seu skate e fez o caminho de volta para a pista de esportes radicais. Quando ele sumiu de vista, Maria perguntou:
– De onde o conhece?
– Do grupo de skeitistas mirins. — Respondeu Dudu. — Sou instrutor, dou aulas para ele e outras crianças.
Aquilo não surpreendeu muito a garota. Ela sabia que Dudu, apenas de bagunceiro e língua-afiada, era uma das melhores pessoas que já conhecera. Tão bondoso e prestativo... além de carinhoso com as pessoas que gosta. E corajoso também. Por que é que tinha terminado com ele mesmo??
Ah, sim. Porque bem quando tiveram sua primeira crise, Gabriel apareceu, esmagando qualquer chance de ela e Dudu se entenderem. Hoje Maria se sentia uma tola. Teve medo de se machucar com um, e acabou se machucando com o outro.
– Mas então. — A voz do garoto (agora homem) lhe tirou dos devaneios. Ele coçava a nuca, desajeitado, num gesto que ela sempre achou fofo. — Como vai a vida com o Senhor Perfeitinho?
Maria sabia que aquele era o jeito enciumado de Dudu de perguntar como ela estava, mas mesmo assim aquela pergunta lhe doeu. Lembrar de Gabriel, lembrava-a de seu grande problema. Seus olhos arderam novamente, mais forte que antes.
– Nós terminamos. — Graças aos céus, sua voz soou firme. Como quem mencionava algo corriqueiro.
– Terminaram? — Seria impossível negar o brilho de felicidade nos olhos de Dudu. Mas esse só durou até ver que ela segurava as lágrimas. — Você gostava dele tanto assim?
– Não! — Foi sincera. — E mesmo que gostasse, já faz mais de duas semanas. Homem nenhum me abalaria tanto. — Falou com ar de superioridade.
– Tá, tá. — Dudu riu. Sentira falta dessas frases feministas dela. — Mas então... — Voltou a ficar sério, fitando-a nos olhos. — Por que está quase chorando?
– E quem disse... — Maria tentou mentir. Mas ao encarar aqueles olhos, um peso caiu sobre seus ombros. Não aguentava mais carregar aquele fardo sozinha! Precisava de alguém, e quem melhor do que ele, seu ex que queria voltar a ser namorado? Não esperou mais um segundo, ela simplesmente se atirou nos braços de Dudu e desabou em lágrimas. — Porque eu estou grávida! Porque aquele idiota me abandonou GRÁVIDA!!
E por longos minutos, ela chorou, sentindo o homem lhe acariciar os cabelos, sem dizer nada.
– Vamos até a padaria do Quim, converçar melhor. — Ele sujeriu. Maria o olhou confusa
– Mas e as...
– Esquece as crianças, tem outros instrutores. Você é quem precisa de mim agora. -Ele pôs a mão em seu vente e sorriu. — Você e esse meninão.
Maria sorriu, intimamente agradescida. Dudu era mesmo maravilhoso para ela.
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