Nova União: O Despertar
1 Capitulo Um - Erica
Notas iniciais
O dia estava cinza, como era de costume nesta época do ano. Os poucos raios de sol que conseguiam encontrar seu caminho através das nuvens não eram o suficiente pra me aquecer, ao sentar no gramado da Praça da Vitória, e me lembrar do dia em que fora levada até a sede da Nova União pela primeira vez.
— Erica, querida, se apresse, temos que leva-la à sede da Nova União.
— Sim, mamãe, já estou indo. A senhora sabe onde está o Gingle? – não conseguia encontrar meu urso de pelúcia favorito, e eu não iria a lugar algum sem ele.
— Aqui, filha. Encontrei – Gritou a senhora Alicia, e segundos depois, o entregou à filha.
— Obrigada, mamãe. – respondi abraçando Gingle – Estou pronta!
Seguimos nosso caminho através da porta de vidro e metal da cozinha, em direção à minha primeira sessão na Máquina. Eu, com meus 8 anos, irradiava medo e preocupação por saber que todo meu futuro iria depender daqueles quinze minutos dentro da Máquina. Alguns minutos se passaram e então foi possível avistar ao longe, os muros brancos e os imensos portões de ferro. Havia uma pequena aglomeração ao lado do portão principal, onde pais esperavam ansiosamente que seus filhos fossem submetidos ao processo de Registro do Ser. Eu e mamãe aguardamos em silêncio enquanto cada uma das crianças em nossa frente entrava e saía do grande palácio. Algumas dessas crianças deixavam o local com um grande sorriso no rosto, enquanto outras delas exibiam um olhar distante e apreensivo. Chegou então a minha vez.
— Mamãe, eu estou com medo. – minha preocupação era visível através de meus olhos tão escuros como a noite.
— Eri, são apenas alguns minutos dentro da Máquina, você não tem pelo que temer. – mesmo se esforçando ao máximo, mamãe não conseguia esconder totalmente o tremor da voz.
— Mas mamãe, o que acontece se eu não passar no Registro?
— Filha, você já aprendeu sobre os na escola?
— Sim, mamãe, é onde as pessoas ruins vão quando crescem. – respondi com um tom histérico na voz. O medo de que esse fosse o meu futuro estava exposto.
— Não, Eri, não são as pessoas ruins que vão pra lá. São as pessoas que a Máquina não encontra compatibilidade. – Alicia tentou explicar de uma maneira em que Erica não se assustasse. – Garotos e garotas que, aos dezoito anos, passam pela Seleção e emitem a luz vermelha.
— O que é a luz vermelha? – perguntei.
— A luz verde significa que a Máquina encontrou alguém compatível com você. A luz roxa quer dizer que há mais de uma pessoa compatível com você – Mamãe suspirou e fechou os olhos – e por fim, a luz vermelha indica que não há ninguém compatível com você em toda a Nova União.
Naquela época eu não sabia que encontrar uma compatibilidade seria tão importante. Eu não sabia que dividir uma refeição com minha família nos próximos dias e anos, iria depender de encontrar alguém com as melhores características pra mim. Um forte raio de sol atingiu meu rosto e eu pude ter um vislumbre de meus pais e meu irmão acenando para avisar que já estava quase chegando a minha vez. Acenei em resposta e eles voltaram a conversar entre si. Meu irmão ria enquanto nosso pai contava piadas e nossa mãe acariciava os seus cabelos castanho-claros. James havia passado pelo Registro do Ser há alguns anos, e ele não sentiu medo em momento algum. Deliciava-se ao se gabar de como era corajoso e como a Máquina não era párea para ele e sua inteligência. Meu irmão era a pessoa que mais me fazia sorrir em toda Nova União. Ele sempre soube quando algo me tirava o sono, e sempre tinha algo na ponta da língua pra me arrancar um sorriso. Mas com os outros, ele era reservado e tímido. Falava apenas quando era obrigado ou quando era realmente necessário. Talvez essa característica dele o levasse a ter problemas com a Seleção.
Continuei observando a minha família. Pequena, porém muito unida. Meus pais foram unidos através da Maquina e eles estavam confiantes de que eu e James encontraríamos nossos pares. A ideia de que dali a alguns minutos eu estaria destinada a me casar com alguém que eu nunca conheci me assustava e fazia com que minhas mãos encharcassem e minhas bochechas esquentassem. Minha preocupação estava escancarada na minha face, pois assim que James chegou mais perto, o sorriso de sempre sumiu e um olhar pensativo apareceu.
— Eri, por que está com essa cara? – James perguntou, levando sua mão até minha bochecha.
— Não é nada, pequeno. Não se preocupe. – respondi tentando disfarçar.
— Quantos anos eu tenho, Eri?
— Você sabe que tem doze anos. Por que essa pergunta boba? – ele estava me deixando confusa.
— Por isso mesmo. Eu tenho doze anos, Eri. – ele deu uma risada curta e continuou – Eu não sou mais uma criança boba que acredita quando você me diz que não há nada de errado. Vamos, me conta.
— Não sei se o problema é a ideia de ter que me casar em alguns meses – suspirei e segurei suas mãos – ou de ter que casar com alguém que não conheço.
James me olhava pensativo, e durante os próximos cinco minutos ele apenas continuou calado me observando através daqueles olhos acinzentados. Após um longo período em silencio, ele abaixou a cabeça, apoiou uma de suas mãos no joelho e a outra usou para erguer a minha cabeça. O que se seguiu foi algo extraordinário.
— Eri, algumas vezes nós temos que abrir mão de coisas que acreditamos serem as mais importantes, pra que as coisas realmente importantes possam chegar. Conversamos tantas vezes sobre casar por ter sentimentos pela pessoa, que acabamos acreditando que é o amor que prevalece. Mas olha os nossos pais, eles se casaram mesmo sem conhecer e amar um ao outro. Você acha que eles estão juntos apenas porque são obrigados? Eles criaram esse sentimento ao longo do tempo, e você também vai criar esse sentimento com a pessoa que você combinar. Assim como eu e a pessoa que eu estiver destinado a ficar junto. Acredite em mim.
— Ás vezes eu acho que você é o irmão mais velho, sabia? – brinquei.
— É porque eu sou muito mais inteligente que você.
— Acho melhor você correr, pirralho. – Levantei do gramado e fui correndo atrás do meu irmão, ele gritava socorro e ria da situação ao fugir de mim.
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