Nova Nippon
3 Parte dois
“..Acha que ela pode estar
numa dessas fotos?”
Do livro O chamado do Cuco
Por Robert Galbraith
2
A agitação na rua, o barulho dos carros já não incomodavam tanto assim o detetive Nicolas Celau. Ele estava parado em pé na varanda de seu apartamento, a varanda não era muito grande se estendia apenas a largura da porta que dava para fora. Com o cigarro na boca, uma xícara de café na mão ele observava a movimentação da grande cidade Nova Nippon. Já era noite por volta de umas dez horas, tinha se passado já dois dias desde a morte da garota encontrada no beco.
Nicolas morava em um apartamento não muito grande, tinha se mudado para ali não fazia muito tempo, apenas um ano após o divorcio. Casado durante sete anos que depois de intrigas, discussões e queixas sobre o tempo dedicado mais para o trabalho do que para família, sua esposa pediu separação, ele não fez muita questão de contrariar a decisão dela, sabia que realmente seu trabalho atrapalhava no bom relacionamento familiar, ainda mais com dois filhos pequenos um pai ausente não era o que ela esperava. A vida de Nicolas praticamente já era bem perturbada desde a sua infância, problemas com os pais fizeram com que ele assim que se mudou para o Brasil mudasse por completo o seu nome.
Sua rotina agora se estendia apenas a cuidar dos casos que a policia sempre mandava para ele, mesmo que depois de dois longos anos sem algo muito grande acontecer na cidade, agora tinha algo em mãos para finalmente se envolver e parar de pensar, se aceitar a separação foi mesmo uma boa idéia.
Com seus 39 anos de idade Nicolas depois do tempo casado, com a comodidade de um lar e comida sempre a mesa, um leve descuido que praticamente todos os homens fazem, deram a Nicolas uma barriguinha de presente, por isso ele agora se dedicava todas as manhas em fazer abdominais e flexões, para ver se recuperava a boa forma que um dia teve. Vestindo uma regata e uma bermuda ele volta para dentro põem a sua xícara sobre a mesa, tirando sua SB (smart bracelet) colocando também sobre a mesa, se estendeu um holograma como que uma tela de computador a qual poderia ser ajustado da forma que o usuário desejasse, tanto na horizontal como vertical, para melhor uso. Sentando em sua cadeira ele começa a digitar coisas no teclado virtual, abria imagens a sua frente às manuseava a seu bel prazer. As imagens eram cenas do local do crime e também da garota morta, naqueles arquivos continham todas as informações da jovem. “garota encontrada morta em beco próximo a boate ESTRELA” “Jovem de 15 anos assassinada. Quem poderá ser o feitor de tal atrocidade? A polícia já tem algum nome?” “A Escola Preparatória Estadual Nova Nippon sofre a perda de uma de suas alunas.” Essas entre outras eram os nomes das notícias que vários sites e jornais colocaram. O grande desafio que foi deixado nas mãos de Nicolas era descobrir quem poderia ter feito algo assim. Ele observava as fotos olhava o laudo que foi enviado para seu e-mail pelo o especialista que olhou a garota. Não havia no corpo sinal de violência, como que ela não foi forçada a ir a tal local, nem tão pouco que tivesse sido espancada antes de morrer, o assassino a levou ate lá e na confiança a garota seguiu porem sem perceber foi atacada, assim estava o pensamento do detetive.
Depois de ver mais algumas vezes as fotos e o relatório do medico legista o detetive Nicolas já havia fumado o seu cigarro e tomado todo o seu café, fechou todas aquelas imagens e foi dormir.
Ao amanhecer o detetive se levanta lava seu rosto, faz seus exercícios matinais, coloca suas roupas e sai para mais um dia de trabalho. Como seu escritório era perto dali ele ia a pé, ele levava em suas mãos seu paletó, estava muito quente, no Rio Grande do sul é assim, se é quente é quente mesmo, se é frio é frio mesmo e o verão castigava ainda assim o detetive asiático, que mesmo morando no Brasil a um bom tempo não estava muito acostumado. Passando em uma cafeteria ao lado do seu escritório ele parou para tomar seu café da manha e aproveitar e ver o jornal, gostava de sempre ficar informado.
Nicolas fica curioso com uma foto que colocaram no jornal, era a foto da turma de escola da garota, que sincronizando o SB ele faz o download da imagem.
“.. A jovem Karin Miyazawa, 15 anos, o brilho de sua juventude foi tirado no ultimo domingo..” dizia o repórter na TV. Ao lado enquanto ele falava passa imagens da garota com os pais, amigos e colegas de escola.
Comendo uma rosquinha e bebendo uma taça de café com leite, o detetive Nicolas via a noticia da TV e ouvia os murmúrios de alguns cidadãos apavorados com a noticia da pobre garota, vendo as imagens e a noticia podia se dizer que a garota tinha uma vida simples e normal. Depois de mais uma mordida na rosquinha ele ouve a voz de sua assistente, ela era uma japonesa tbm, cabelos curtos pintados de vermelho, bem bonita para uma mulher de 30 anos, poderia chamar mais atenção se não usasse roupas tão simples como uma calça jeans, camisa social por fora das calças e um blazer preto e como ela era magrinha suas pequenas curvas não apareciam com aquela roupa que parecia maior que seu tamanho ideal. No pescoço estava pendurado numa corrente de metal o seu SB.
– Bom dia – diz ela sentando-se ao lado dele – por favor, um pastel de frango – falou ela para o atendente.
– Bom dia Ayori – falou Nicolas com a boca estufada de rosquinha.
– Então alguma coisa nova no caso da garota? – perguntou Ayori fazendo um gesto com a cabeça para a televisão, que estava passando noticias sobre a garota morta.
– Agora só o que falam é sobre a garota, mas nada que já não sabemos. – mordeu mais um pedaço da rosquinha – estou pensando em dar uma passada na escola da garota. – deu mais umas mastigadas e engoliu, limpou a boca e continuou. – Já falamos com os pais dela, amigos, parentes próximos, vizinhos, até mesmo o garoto que encontrou ela e nada indica quem é o assassino.
O rapaz que estava cuidando do bar aproxima-se e coloca o prato com o pastel próximo a Ayori.
– Faz também um suco de laranja sim. – o moço apenas assentiu com a cabeça e saiu, ela voltando-se para Nicolas e continuou. – Mas na escola? Quer fazer o que lá?
– Quero ver como é a rotina dos alunos, seu comportamento, talvez alguém tenha notado algo de estranho nela ou conheça alguém que ficou próximo a ela que nos não sabemos. Qualquer coisa que nós encontrarmos pode ser que mude o rumo dessa investigação.
Já era por volta das 9h da manha eles estavam agora entrando no prédio onde ficava o escritório de Nicolas, que ficava no 5º andar, era um edifício alto e muito moderno para ter acesso ao prédio todos que entravam tinham que usar suas SB. As SB continham todas as informações do usuário, desde nome, RG, conta bancária, propriedades, em fim tudo, não era usado mais cartão ou papel, tudo se fazia usando as SB, todo cidadão tinha um ou não poderiam nem se quer fazer compras. Os SB das autoridades como policia, médicos, em fim todos correspondiam a profissão que o usuário fazia, no caso de Nicolas ele tinha acesso a programas especiais de investigação entre outras regalias que um detetive poderia ter, poderia ate comprar um programa diferente e instalar, porém teria que ter licença para isso ou nem era permitido o acesso a tais informações, realmente tudo bem controlado.
Saindo do elevador e agora passando pela porta indo para sua sala Ayori o acompanhava, enquanto ele colocava seu paletó pendurado atrás da sua cadeira. O escritório dele era bem grande pra apenas 3 pessoas trabalharem ali, ele, Ayori e sua secretária Honami Ryoko. Aquela dela era bem mobiliada, móveis de primeira linha, caros, um visual da atualidade que eles viviam. Quando Nicolas chegou ao Brasil ele não podia nem se quer comprar um carro, mas graças as suas habilidades como detetive ele conseguiu arrecadar um bom dinheiro, comprou casa, carros, barcos e no fim deixou tudo para a esposa e o filho. Ayori estava escrevendo uma mensagem para o diretor da escola preparatória, para marcar uma visita conforme Nicolas pediu.
– Já enviei, acho que logo ele responde – Disse Ayori.
– Ótimo. — mais uma vez Nicolas usando seu SB abre o holograma sobre sua mesa.
– E o que tem de especial nessa foto que você me mandou? – Perguntou ela.
– É a foto da turma dela – Respondeu Nicolas sentando em sua cadeira e anotando algumas coisas usando o teclado virtual.
– Sim isso eu sei, já vi ela no noticiário o que de mais?
– Nada de mais apenas fiquei interessado que tipo de jovens são os colegas dela.
– Não me diga que você acha que pode ser um deles. – Ayori ficou um pouco espantada com esse interesse de Nicolas na escola da garota e nos seus colegas.
– Não estou dizendo nada, apenas tenho um palpite que talvez possamos achar alguma resposta falando com algum deles – Nicolas parou de escrever e olhou para Ayory. – Por exemplo, algum ex-namorado...
– A mãe da garota disse que ela não tinha namorado – interrompeu Ayori.
– E desde quando os filhos falam tudo aos pais? – continuou Nicolas – vai que poderia ser um namorado não aprovado pela família ou que ela sabia que a família não aprovaria. – Nicolas se levanta vai ate a janela tira um cigarro, acende e começa a fumar – talvez descobrir alguma amiga ciumenta. Nos fomos atrás de todas as opções que tínhamos. Analisamos a família dela, os amigos mais próximos, os vizinhos, primos, enfim.. – deu mais uma tragada e soltou a fumaça janela a fora – Sabe o que descobri com isso?
– Não.
– Que nenhum dos seus considerados amigos ou conhecidos, nenhum estudava na mesma escola que ela.
– E isso quer dizer o que? Que eles não tinham tanta sorte quanto ela? – Ironizou Ayori.
– Não, mas que ela não tinha amigos na escola e pra uma garota de 15 anos não ter nenhum amigo na escola, tem coisa errada – parou um pouco para dar mais outra tragada – e é isso que quero descobrir, como ela não tinha nenhum amigo na escola, o que eles poderiam ter contra ela a ponto de não querer ser amigo dela.
– Ou simplesmente ela não queria ter amigos – disse Ayori sentando na cadeira que ficava de frente para a mesa de Nicolas.
– Talvez, mas se era isso, por que ela não queria ter amigos?
Como o som de um alarme, apitando, a conversa deles foi interrompida com o sinal de que chegou a resposta da mensagem que Ayori havia mandado para o Diretor da Escola.
– O diretor disse que na sexta-feira nós podemos passar lá para uma visita na escola. – disse Ayori segurando em sua mão seu SB que estava preso a corrente pendurada no pescoço.
– Hora?
– Ele acha melhor perto do meio dia, pois os alunos vão estar liberados das aulas e da para ver melhor as salas e todo o resto.
– Ótimo na sexta estaremos lá, aproveite e ligue para o prefeito, marque uma reunião com ele, preciso passa uma informação que vai ajudar ele com a sua separação.
– Virou espião do prefeito agora? – Ayori deu uma leve risadinha enquanto digitava o numero para fazer a ligação.
– Pagando bem.. – Nicolas deu um sorriso com o canto da boca, não se importava com o jeito irônico da parceira, pra ele isso fazia sua mente esvaziar.
Já tinha se passa muito tempo desde que Nicolas havia pegado um caso tão interessante quanto esse da garota assassinada, ate então ele ficava investigando casos de traição, infidelidade no matrimonio, em firmas e seus sócios, nada que ele realmente gostava de fazer, ele estava querendo era se ver livre do caso do prefeito para assim então se dedicar somente ao caso emocionante que estava em suas mãos.
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